3.3 Multimodalidade: Contexto Histórico
3.3.1 A Multimodalidade e a Imagem
Ao tecerem considerações sobre as bases da multimodalidade, Kress e van Leeuwen (2006) asseveram que as estruturas visuais estão aptas a prover significados assim como o fazem as estruturas linguísticas, o que lhes garante função precípua no contexto de interação social. O conceito de modalidade é igualmente essencial em informes de comunicação visual, que representa pessoas, lugares e objetos como se fosse imaginação, fantasia, caricatura.
Os autores, ora referenciados, defendem que a imagem se situa no universo multimodal, ou seja, assume as características de tudo o que pode ser comunicado por meio de mais de um recurso semiótico. Conquista papel de destaque não só em textos escritos, mas também na mídia eletrônica e digital, em instituições públicas e privadas, na publicidade e propaganda (PP), em materiais informacionais, revistas, jornais, CD-ROMs e assim quase infinitamente. A maioria dos resultados obtidos resulta em complexa interação entre texto escrito, imagem, som e outros elementos. Logo, a multimodalidade pressupõe que representação e comunicação recorram à multiplicidade de modos, os quais, decerto, contribuem para atribuir significado(s).
E é esta a tônica das pesquisas empreendidas por Kress e van Leeuwen (2001, [1996] 2006); Norris (2004, 2011), Lemke (1998) e Ventola et al. (2004) que assumem que toda interação é multimodal. E, ainda, estudam a aplicação da teoria da multimodalidade em vários ramos do saber, reforçando a ideia de que ela está contida em todos os textos, porquanto estes são sempre multimodais e multissemióticos. É o reconhecimento da relação cada vez mais integrada entre imagem e palavra e da função retórica que os recursos empregados na construção dos gêneros podem exercer. De fato, trata-se de observação que apenas dá força às afirmações anteriores, segundo as quais, novas mídias e TICs ampliam o escopo da
multimodalidade na educação mediante o uso da internet e de CD-ROMs, propiciando aos alunos letramento visual que o auxiliam na compreensão e no uso comunicativo da língua inglesa.
Ainda sobre o uso combinado de textos, imagens, sons e outros elementos visando à criação de sentidos, Unsworth (2001, 2006) argumenta que o texto escrito sempre foi multimodal e, segundo as circunstâncias, este multmodalidade se estende da representação padronizada e formal até a organização multimodal.
Por fim, à medida que assistimos à inserção gradativa e célere da imagem na contemporaneidade, não podemos relegar o alerta de Kress e van Leeuwen (2006). Embora conscientes da relevância da produção de textos multimodais, eles chamam a atenção para o descompasso que há entre sua utilização e a respectiva normatização. A linguagem visual, em termos genéricos, não é ainda de, modo geral, regulamentada pela academia.
Percebemos, porém, que o contexto deverá favorecer à comunidade pedagógica alterações em suas crenças e atitudes no manuseio dessa nova ordem em que a multimodalidade se insere. Mesmo que a multimodalidade se apresente de forma contundente e necessária nas várias áreas do conhecimento, a prática pedagógica ainda precisa de uma orientação firme, para que se possa abordar a imagem no contexto educacional de sala de aula, podendo ampliar as possibilidades de uso de recursos semióticos como aliados ao letramento visual. Pesquisas de Kress e van Leeuwen (2006), Jewitt (2009), Stein (2008), para citar algumas, corroboram esse fato apontando o efeito de novidade que uma transformação desse porte traz, e o manuseio racional que o mundo multimodal oferece a todos indistintamente e, por conseguinte, os novos olhares que essas novas representações trazem para o ensino aprendizagem e, consequentemente, as implicações para a comunicação multimodal.
Jewitt (2009) também diz que entender a virada multimodal, como um jeito histórico de produzir imagens, constitui algo especial, significativo e produtivo para o ensino. É necessário compreender a ligação da multimodalidade com os trabalhos iniciais da antropologia, da sociologia e com algumas áreas da linguística que, em outros momentos, também reconhecem a necessidade de entender língua em relação aos modos de comunicação não linguísticos como gesto, postura e imagem.
Assim, ao tomarmos as instâncias da posição social, cultural, histórica e observarmos os padrões de narrativa e uso dos modos e práticas, através das diferentes tecnologias, devemos levar em consideração não só o papel da multimodalidade, como também a força das novas tecnologias, cujo papel central mostra como os modos estão disponíveis, configurados e
acessados. Os textos que circulam nessa nova esfera da comunicação são também multimodais, e é necessário entender a multimodalidade como novos meios de produzir significados dentro de uma dada cultura multimodal.
Além disso, Jewitt (2009, p. 14) faz alusão a alguns pressupostos teóricos que dão sustentação à multimodalidade e que estão interligados: a linguagem é parte de um conjunto multimodal, o que leva a crer que, na multimodalidade, a comunicação e a representação se inserem numa multiplicidade de modos. Isto se reflete na afirmação de Jewitt (2009, p. 14), quando assevera que “os significados são criados, distribuídos, recebidos, interpretados e recriados na interpretação através dos vários modos representacionais comunicativos”.
E ainda cada modo do conjunto multimodal é realizado pelo trabalho comunicativo, a multimodalidade assume que, assim como a língua, todos os modos são moldados nos usos social, cultural e histórico para realizar funções sociais. Os sentidos são orquestrados pelas pessoas por meio da seleção e da configuração dos modos, dizendo de outra forma, a interação entre os modos é significativa para a criação de significado; e os sentidos dos signos se formam a partir de recursos semióticos multimodais. Isto implica que eles são moldados por normas e regras que operam no momento da criação do signo, influenciados pela motivação e interesse do seu produtor em contexto social específico.
Portanto, o criador do signo, segundo Jewitt (2009), seleciona, adapta e recria os significados através do processo de leitura e interpretação do signo, disponíveis para ele nos vários recursos representacional e comunicacional. Jewitt (2008, 2009) orienta que a multimodalidade deve ser observada e posteriormente aplicada à leitura multimodal das imagens em movimento do CD-ROM didático.