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A museologia no Boletim do Museu Paranaense

No documento LISTA DE ABREVIATURAS (páginas 179-183)

Leituras e propostas

5.2. A museologia no Boletim do Museu Paranaense

O formato adquirido pelo Boletim do Museu Paranaense ao final da década de 1970, com maior número de páginas e aparência mais próxima a de um livro do que a estrutura prévia de folheto parece ter-se adequado à intenção de veicular textos de conteúdo mais reflexivo do que noticioso, produzindo editoriais ou divulgando comunicações apresentadas em eventos nacionais que buscavam sintonia com as discussões sobre museologia da época.

Assim, recorreu-se com frequência ao museológico como adjetivação nos títulos dos textos de três ou quatro páginas, tais como Coleções museológicas, Exposição museológica, Apresentação museológica e Técnicas museológicas. A utilização ampla do termo demarca a percepção de um saber disciplinar próprio da prática profissional em museus, abrangendo os conhecimentos especializados dos setores técnicos como o de história e o de arqueologia, mas com um caráter maior de gestor e uma relação mais íntima com o público, proveniente de suas propostas e objetivos finais.

A museologia presente nesta documentação em particular define o museu como “o repositório de objetos que necessitam ser preservados para a posteridade face a sua importância científica, histórica e estética”, mas adverte contra o perigo de torná-lo “o ‘sótão’

da comunidade, sem finalidades educacionais, mas simplesmente, um depositário de coisas imprestáveis” (n. 23, 1978: 1). Espera-se, portanto, que os profissionais do museu saibam discernir entre o que tem valor expositivo e o que não merece lugar no acervo devido a sua mediocridade, embora não haja uma orientação específica neste sentido em meio à documentação consultada. Sinaliza a conscientização da escolha como parte do processo.

Por outro lado, o potencial educativo é, repetidas vezes, apontado como o fator principal tanto na composição do acervo quanto na montagem das exposições, afinal, trata-se de “importantíssima missão do museu: educar” (n. 24, 1978: 1). O discurso do periódico aborda o serviço educacional como o pagamento da instituição à comunidade que a visita e a provê de coleções para estudar e expor, numa relação de troca que aparece na documentação como justificativa à permanência do MP nas graças da sociedade paranaense. E por

‘sociedade’, fique claro, ao menos em termos discursivos, a equipe gestora do museu pretende relacionar-se com um público mais amplo do que a “elite de eruditos” e os “diletantes” antes favorecidos (n. 24, 1978). Até que ponto o MP de finais da década de 1970 conseguiu alcançar grupos mais diversificados do que no passado é um dado difícil de precisar hoje por meio desta documentação, porém, a associação proposta a uma população mais plural e a uma juventude em formação indica, ao menos, a intenção de alcançá-los.

A função pedagógica não é algo novo ou um aspecto diferencial do MP, se for considerado que qualquer museu possui como intenção articular e transmitir ideias (RAMOS, 2004), mas é interessante notar que, em paralelo às discussões sobre patrimônio e sociomuseologia efervescentes nas décadas de 1960 e 1970, as publicações periódicas do MP procurem trazer um aclaramento de suas atividades e objetivos, alinhando-se aos debates contemporâneos. Esta aproximação fica ainda mais evidenciada na prática em traduzir e sintetizar textos-manuais sobre exposição de instituições como o Public Museum of

Milwaukee (n. 22, 1977) e no interesse em noticiar que “a Organização dos Estados Americanos posiciona-se em defesa do patrimônio arqueológico, histórico e artístico dos países membros”, resumindo a Convenção de São Salvador em suas páginas (n. 18, 1976)135.

Aliás, além da ênfase crescente no fator educativo das coleções e exposições, a

‘função social’ figura com destaque como atributo fundamental de um museu atento às circunstâncias do seu presente. Contudo, é um aspecto mais citado do que explicitado nas páginas do Boletim, sugerindo que há consciência se desenvolvendo a este respeito, mas pouca reflexão acerca de sua real efetivação. Como obstáculo, as reclamações do período são bem conhecidas na literatura recente, com “problemas decorrentes da falta de recursos humanos e materiais” (n. 18, 1976) e a urgência pela “regulamentação da profissão de museólogo” (n. 24, 1978). Ultrapassadas estas barreiras, uma verdadeira ação comunitária poderia ser levada a efeito, mais uma vez, sem maiores explicações.

Argumentei, em outro capítulo, que o Boletim apresenta grande volume de eventos acadêmicos em divulgação ou relatados em retrospecto pelo grupo enviado para participação.

É por meio dos textos e notícias a este respeito que é possível vislumbrar as reflexões tidas como prioritárias para a efetivação tanto do papel educativo quanto à função social dos museus da época. O tema da conservação se repete em muitos dos eventos relatados, como um campo cujas inovações tecnológicas vinham abrir novas possibilidades na instrumentalização simbólica da cultura material museológica. Menos frequente são as reuniões voltadas ao “comportamento do visitante no museu” (n. 12, 1975), indicativo do interesse no estudo da experiência proporcionada pela ida ao museu, importante nas pesquisas de recepção. O VI Congresso Nacional de Museus foi noticiado com um eixo triplo que parece agregar as preocupações do momento – museu e pesquisa; museu e ensino; e museu e turismo (n. 24, 1978). As temáticas dos congressos, jornadas e reuniões divulgados no Boletim não são muito diferentes dos interesses da atualidade, embora hoje se tenha acesso muito maior a estudos de caso que colocaram à prova concepções teóricas e propuseram novas alternativas adequadas às particularidades de cada contexto. Os eventos então noticiados demonstram a intenção de incentivar estas trocas de experiências práticas nos diferentes estados brasileiros, procurando formar grupos de estudos regionais e construir determinada identidade profissional na museologia nacional, promovendo a disseminação de técnicas e ideias.

135 Sobre a convenção, sugiro a leitura de Cury (2000)

Em termos locais, a UFPR teve seu “curso de reciclagem de pessoal em museologia”

noticiado no n. 12, de 1975, evento possibilitado pelo Programa de Ação Cultural (PAC) do Ministério de Educação e Cultura. Ministrado por especialistas do Rio de Janeiro e do Paraná, suas aulas foram desde técnicas de arquivística, de pesquisa histórica e conservação do acervo, até explanações sobre história da arte, nacional e contemporânea, com um módulo específico sobre ‘porcelana, prataria e arte sacra’. O perfil do curso ilustra bem as proposições oficiais das políticas públicas patrimoniais do período, mesclando um perfil elitista traduzido como pertencente a toda a nacionalidade ao impulso individualizante dos saberes especializados de uma minoria intelectual. Auxiliaria não apenas à uniformização de práticas museológicas e museográficas, como também à disseminação dos parâmetros legitimadores de um conjunto material específico.

Por sua vez, no próprio MP, parcerias foram criadas com instituições de ensino dos níveis médio e técnico para formar guias turísticos com ênfase especial na orientação de grupos nas exposições museológicas. Objetivava-se que este profissional, memorizando informações, proporcionasse ao visitante uma “visão panorâmica daquilo que se encontra exposto, além de, conforme o caso estender-se em considerações maiores sobre um objeto de excepcional valor” (n. 20, 1977: 1). É uma proposta contrastante às mais recentes que esperam que monitores de uma exposição fujam da fórmula fechada de fornecimento de dados, nomes e datas e provoquem questionamentos de ordem mais reflexiva no público ao conduzi-los com maior liberdade para participar e intervir. O ‘guia de museu’ pretendido pelo discurso vigente no Boletim, no entanto, seria alguém impulsionado a “iniciar-se na pesquisa, nas técnicas de catalogação, comunicação visual e relações humanas” (n. 20, 1977: 2), embora não fosse sugerido instigar semelhante interesse no público visitante.

Enfim, as exposições noticiadas pelo Boletim chamaram-me a atenção, em especial entre 1975 e 1977. Comentei o cunho amplamente comemorativo das montagens expositivas do MP, atentas aos aniversários de fundação da instituição, de Curitiba, da emancipação política do Paraná e do nascimento de D. Pedro II, figura muito lembrada no circuito e exaltada por sua visita ao museu em 1880. Para além destas datas especiais, os conjuntos materiais mais volumosos do acervo também foram objeto de exposições temáticas, notadamente os artefatos etnográficos associados à cultura material arqueológica, as coleções de armas brancas e de fogo, a numismática e a pinacoteca. Conforme me desloco para a leitura do circuito atual, um eco nas temáticas militaristas e de exaltação ao progresso parece tomar forma. Antes, contudo, ressalto que em nenhum momento os textos veiculados pelo Boletim empregam o termo ‘expografia’ para se referir à montagem das salas de exposição,

ainda que um texto sobre a utilização de etiquetas oriente que se empreguem “frases curtas, discretas e objetivas” (n. 24, 1978: 7-8) em vitrines de disposição simples e clara. Acerca desta prática inserida no saber museológico recente, cabe discorrer com um pouco mais de atenção antes de passar da documentação para o circuito presente.

No documento LISTA DE ABREVIATURAS (páginas 179-183)