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Algumas considerações sobre museologia

No documento LISTA DE ABREVIATURAS (páginas 176-179)

Leituras e propostas

5.1. Algumas considerações sobre museologia

Explorei a temática do museu em diferentes momentos ao longo da tese. Ao enquadrar a documentação analisada no terceiro capítulo, construí um breve histórico do surgimento e disseminação dos museus brasileiros, interessante para compreender a formação do MP.

Igualmente importantes foram as considerações tecidas a respeito do patrimônio e sua instrumentalização, ênfase do segundo capítulo. Com isso, retomei noções teóricas e dados historiográficos para construir um cenário para a análise dos textos.

Entretanto, da mesma forma que destaquei o quadro teórico da história e da arqueologia como linha guia das discussões que propunha, não é possível ignorar que a museologia, enquanto disciplina que assume o museu como objeto de estudo primeiro, possui, por sua vez, um quadro conceitual próprio e crescente. Com a expansão dos cursos universitários em museologia e a criação do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM) nos últimos anos, a oferta de bibliografia especializada em museologia, museografia e expografia avolumou-se. Com isso, profissionais de museus, mesmo formados em outras áreas do conhecimento, como história e antropologia, buscam suporte nestes autores, produzindo textos menos rígidos em termos de barreiras disciplinares. Somente este motivo seria

justificativa suficiente para dedicar espaço aos debates atuais do campo, em uma pesquisa que prioriza a relação entre arqueologia e história – sem perder de vista o papel fundamental desempenhado pela instituição museu no caso em questão. Contudo, a presença inesperada de produção textual significativa acerca da museologia no Boletim do Museu Paranaense, editado ao longo da década de 1970, tornou imprescindível um olhar mais aprofundado no tema a fim de entender sua importância nas escolhas que delinearam o perfil do atual MP.

Conforme Araújo (2012), há uma pluralidade de referências na museologia que vem desde finais do século XIX. Não se tratam, necessariamente, de correntes, mas de tendências que influenciaram mais ou menos as instituições museais do Ocidente, por vezes opostas ou mescladas. O autor cita a vertente funcionalista norte-americana, com um ideal iluminista de universalidade; seu desdobramento em estudos de visitantes preocupados com um público menos passivo; a abordagem crítica e sua denúncia dos processos de dominação; e as teorias da representação que objetivou problematizar os procedimentos de representação museológicos (ARAÚJO, 2012: 37-47). De certa forma, a museologia se desenvolveu numa perspectiva bastante interdisciplinar, integrada a ideias que surgiram nas mais diferentes áreas há muito consolidadas e romperam fronteiras disciplinares.

Entre várias publicações, o trabalho de Cury (2005) apresenta uma boa síntese dos conceitos mais utilizados no linguajar dos estudos sobre museus, muitos dos quais empreguei anteriormente, problematizando-os em diálogo com teorias da comunicação e da administração. Por musealização, a autora compreende “um processo que se inicia com a seleção realizada pelo ‘olhar museológico’ sobre as coisas materiais” (CURY, 2005: 24), uma escolha e uma ação, em suma. Cury atenta também para a diferença entre museografia e expografia, muitas vezes pensadas como sinônimos, afirmando que

Museografia é termo que engloba todas as ações práticas de um museu:

planejamento, arquitetura e acessibilidade, documentação, conservação, exposição e educação. A expografia, como parte da museografia, (...) é a forma da exposição de acordo com os princípios expológicos e abrange os aspectos de planejamento, metodológicos e técnicos para o desenvolvimento da concepção e materialização da forma (CURY, 2005: 27).

Com clareza, a autora esmiúça as etapas museográficas, como a formação e manutenção do acervo, valorizando a prática expográfica como um elemento que viabiliza a comunicação de ideias e problemas ao público externo à instituição. No que diz respeito à exposição que redunda destas ações, Cury é taxativa – elaboradas idealmente por uma equipe multidisciplinar, devem ser concebidas com o intuito de provocar, sejam sentimentos ou atitudes ativas. Essa ideia evoca a noção de museu como lugar de conflito, comentada no

tópico anterior, com uma intenção clara de afetar o interlocutor. Ecoa, também, o lugar de poder ocupado pela equipe que silencia, destaca, oprime e liberta, por meio da organização expositiva.

Esta exigência em causar reação no público, um componente ativo na construção da mensagem da exposição, vem acompanhada da percepção crescente da função do museu na contemporaneidade. Comentei, antes, sobre a situação de crise localizada por inúmeros teóricos em um século XX que viu fronteiras, identidades, tempo e espaço se mesclarem, se confundirem, a ponto de pôr em xeque os saberes instituídos pelo pensamento iluminista.

Entre os museólogos o autoquestionamento provocou suas próprias disputas teórico-metodológicas, com, talvez, a mais profunda exposta pela pergunta de Bittencourt (2002: 287) sobre “qual a função dos museus numa época de incertezas?”. A preocupação do autor, deixada sutilmente em aberto no seu artigo, toma forma diante de uma instituição fundada para expor verdades concretas por meio de uma cultura material irrefutável, buscando sobreviver em tempos efêmeros de identidades fluidas.

A resposta à dúvida de Bittencourt vem, em muitos autores, na atribuição de papel social relevante aos museus134, cuja reinvenção deve estar atenta ao desenvolvimento do turismo e das práticas de mercado, por uma questão simples de sobrevivência. No entanto, são poucos os autores que de fato se debruçam sobre o que significa esta ‘função social’ e, menos ainda, a operacionalizá-la, colocá-la em prática. É uma discussão muito próxima do problema do patrimônio, volto a lembrar, exigindo um repensar de parâmetros que justifiquem gastos e políticas públicas.

Há os casos mais evidentes de alcance junto às comunidades de interesse, como aqueles museus ou conjuntos expositivos pensados para promover grupos em situação de marginalização recente ou recorrente (GAMO, 2008). Porém, em ambientes como o MP, criados no ápice do conhecimento enciclopédico, elitista e eurocêntrico, uma transformação de valores e atitudes conservadoras pode ser dificultada pela persistência de posicionamentos implícitos no cotidiano da instituição, mas bastante explícitos no discurso expositivo. Studart (2004: 46) pontua que “os profissionais de museus expressam seus valores culturais nos projetos que desenvolvem” e, como tais, são passíveis de serem questionados, discutidos e negados pelo público. Mas, até que ponto a instituição viabiliza esta interação?

134 Vânia Dolores de Oliveira (1996) faz uma observação interessante neste sentido ao contrapor a documentação de doadores e receptores de acervo no Museu Histórico Nacional ao longo de sete décadas, percebendo um redirecionamento da noção de ‘local de guarda’ para ‘instituição de memória’ com um alcance mais sensível ao cidadão comum ali representado.

Uma forma de abrir caminho à participação ativa do público seria, a princípio, reconhecer que “o museu não mostra a arte, a ciência ou a sociedade, mas a construção desses componentes através da ‘musealidade’” (POULOT, 2013: 137). Em outras palavras, ao expor, o museu constrói. Constrói saberes, ideias, discursos, imagens, memórias, sentimentos e, de certa forma, verdades tornadas possíveis pelo conjunto exposto. Admitir essa dimensão incômoda que permite lugar à imaginação e forma, mais do que informa, poderia abrir espaço para o público enfim contrapor seus próprios saberes, memórias e sentimentos. Conforme pondera Ramos (2004), a consciência crítica com relação aos objetos do passado expostos pelos museus encontra um empecilho na falta do hábito cotidiano de parar, olhar ao redor e refletir sobre os objetos do presente que nos cercam. Quanto a isso, o autor oferece como resposta a formação de acervos com artefatos contemporâneos nos museus de perfil histórico, construindo conhecimentos mais amplos e problematizadores que instigam a dúvida e a curiosidade em conhecer e compreender outras formas de viver, ao longo do tempo e em outros espaços.

A presença de textos voltados à reflexão museológica no Boletim indica que houve interesse entre a equipe do museu em procurar novas formas de construir o discurso da instituição, além de consolidá-la como parte integrante dos debates então vigentes sobre a atualização de métodos expositivos. Embora meu interesse analítico neste capítulo esteja muito direcionado ao circuito de longa duração atual do MP, retomar a documentação do terceiro capítulo com maior cuidado neste quesito pode auxiliar na visualização de posturas ainda presentes na estrutura expositiva do museu. Como parte importante na trajetória de afirmação do MP posterior ao período de Loureiro Fernandes na instituição, além de configurar uma faceta pouco explorada por outras pesquisas, retomo a seguir os extratos atinentes à museologia integrados no mesmo corpus documental analisado em outro momento.

No documento LISTA DE ABREVIATURAS (páginas 176-179)