A politização do conhecimento
2.2. O diálogo disciplinar e suas possibilidades
Quando se lê a respeito da arqueologia histórica, sua definição, abrangência e limites, é muito comum encontrá-la caracterizada como interdisciplinar. De fato, a arqueologia como um todo é considerada uma área onde a atitude interdisciplinar é imprescindível. Entretanto, dificilmente a afirmação vem acompanhada de uma elaboração mais profunda do que significa sê-lo e de suas implicâncias ao exercício da profissão. Talvez, a nomenclatura arqueologia histórica confira a quem redige um texto a impressão de um entendimento implícito por parte de seu leitor, ou, pelo menos, a aceitação tranquila de que se está abordando uma área de indiscutível interdisciplinaridade. Porém, é preciso ter cuidado e expor ao leitor as vicissitudes do diálogo disciplinar.
A princípio, a relação se dá entre arqueologia e história, mas há autores que incluem outras áreas como agentes de igual importância na arqueologia histórica atual. Deagan (1988) afirma que foram os estudos acerca do fenômeno do mundo moderno, objetivando grandes sínteses, que primeiro embaçaram as linhas disciplinares nos anos 1960 e contribuíram para a formação da arqueologia histórica. No caso específico de pesquisas sobre conglomerados urbanos, conforme Branchelli (2007), a articulação entre história, antropologia, geografia, arqueologia e arquitetura se mostrou frutífera aos que buscaram superar fronteiras acadêmicas. Estes exemplos esclarecem que a condição dialógica ultrapassa a nomenclatura da disciplina e está muito mais presente na prática em si, nas soluções buscadas para as problemáticas, do que em qualquer predefinição terminológica.
Como uma disciplina que se origina no contexto norte-americano, no qual a relação entre arqueologia e antropologia é sempre argumentada, há muitos autores que atribuem à arqueologia histórica uma intimidade especial com aspectos antropológicos. É o caso de Little (2007: 22), que destaca uma tendência recente em dialogar com autores da antropologia aplicada para ir além da pesquisa e contemplar “as necessidades dos muitos participantes e públicos que dela fazem uso e a valorizam”33, e de Beaudry (1996), que percebe um empréstimo, desde a gênese da disciplina, de teorias simbólicas e aspectos comunicativos da
33 No original, “the needs of the many participants and publics who use and value it”.
cultura. Aliás, mais recentemente, Beaudry (2009) ponderou que alocar a arqueologia histórica ao lado da antropologia ou da história reflete considerações acerca do tratamento do material investigado, marcando a diferença entre estar próximo da metodologia da arqueologia pré-colonial ou dos procedimentos analíticos textuais. Tais posicionamentos, a autora argumenta, são sintomáticos da hierarquização das evidências e não contribuem muito à reflexão. Em sua opinião,
Um consenso vem sendo construído de que a arqueologia histórica é um campo totalmente sinergético, interdisciplinar (ou talvez, melhor ainda, transdisciplinar), que emprega linhas de evidência múltiplas, convergentes, e que acentua o contexto em todas as suas formas – cultural, histórico, ambiental e arqueológico (BEAUDRY, 2009: 23)34.
Ainda assim, é necessário esclarecer o que é essa interdisciplinaridade – e transdisciplinaridade – enquanto conceito epistemológico. De acordo com Sommerman (2006), o Iluminismo reforçou a separação dos saberes em objetos de conhecimento, fragmentação que atuou de forma crescente até meados do século XX, quando a complexificação e a sofisticação dos saberes hiperespecializados exigiu a prática de diálogos para dar maior sentido às análises. Neste contexto, o autor identifica a emergência de ferramentas para romper as barreiras que tornaram o conhecimento estanque, como a multidisciplinaridade – a soma quantitativa das abordagens – e a pluridisciplinaridade – a justaposição de disciplinas próximas para troca de informações. Em ambas, Sommerman avalia que não há grande interação, apenas um acúmulo de conhecimentos posto em prática por um ou mais profissionais. Seria na interdisciplinaridade e na transdisciplinaridade que o diálogo, de fato, aconteceria. O autor cita a definição da primeira nas palavras de Antoni Zabala, como “a interação de duas ou mais disciplinas (...) [que] podem implicar transferências de leis de uma disciplina a outra, originando, em alguns casos um novo corpo disciplinar” (ZABALA apud SOMMERMAN, 2006: 29-30). Já sobre a transdisciplinaridade, acredita que esta
Não só se abre para o diálogo entre as diferentes disciplinas e para a intersubjetividade, mas também para o diálogo com o que está além das disciplinas, os conhecimentos não disciplinares dos atores sociais (...), das outras culturas, das artes, das tradições, respeitando plenamente estes outros saberes (SOMMERMAN, 2006: 52-53).
34 No original, “a consensus has been building that historical archaeology is a fully interdisciplinary (or perhaps even better, transdisciplinary), synergistic field that employs multiple, converging lines of evidence and that stresses context in all its guises – cultural, historical, environmental, and archaeological”.
Assim, Sommerman acredita que, enquanto a interdisciplinaridade procura ultrapassar o fracasso de um projeto de fragmentação excessiva do saber por meio do diálogo com o que está entre as disciplinas, a transdisciplinaridade, mais recente, procura também o que está além das disciplinas, e além do meio acadêmico.
Neste trabalho, opto por considerar a arqueologia histórica como uma disciplina35, inspirada em Beaudry (1996), que afirma que esta não deveria depender das áreas consolidadas da história ou da arqueologia pré-colonial para definir seus interesses e validar seus objetivos. Escolho não elencá-la como uma subdisciplina da arqueologia por entender que, apesar de ter-se configurado a partir desta, sua reflexão sobre a vida material de sociedades do período dito ‘histórico’ alcançou um refinamento próprio, muito devedor das múltiplas relações interdisciplinares que se desenvolveram em seu interior. Da mesma forma, não a considero uma área subjugada à história, como a história da cultura material36, pois as metodologias de análise dos vestígios obtidos em contextos arqueológicos37 reverberam uma sensibilidade mais atenta aos aspectos materiais da experiência humana do que a historiografia tem se mostrado capaz. Reconheço que há muitas disciplinas que conformam a arqueologia histórica, mas relembro que o recorte desta tese visa, em específico, a relação entre arqueologia e história.
Muito embora a dinâmica interdisciplinar seja um aspecto crucial, vários autores destacam a arqueologia histórica como um conjunto próprio de métodos e teorias capaz de advogar por sua independência. Além dos já citados, Wylie (1993), cujos trabalhos tangenciam muito reflexões da filosofia da ciência, ressalta o papel que a disciplina tem em oferecer revisões críticas, devido a sua perspectiva ampla no quesito documental. A autora afirma que
Numerosos historiadores vêm reconhecendo o poder do registro arqueológico não apenas para aumentar (...), mas para estender e desafiar substancialmente as narrativas documentais do passado, sustentando-se como um teste para hipóteses de base histórica num sentido interessante e poderoso (WYLIE, 1993: 8)38.
Tal reconhecimento diante do alcance e das possibilidades da arqueologia histórica representa, a propósito, o ganho de identidade própria da disciplina perante as áreas que lhe
35 Conceituada como o “conjunto específico de conhecimentos que tem suas características próprias no plano do ensino, da formação, dos mecanismos, dos métodos e das matérias” (PINEAU apud SOMMERMAN, 2006: 25).
36 Para um aprofundamento nesta linha historiográfica, sugiro a leitura de Pesez (1990).
37 Aqui, estou me valendo de uma noção bastante ampla de contexto arqueológico. Este ponto será debatido com maior profundidade no capítulo 4 desta tese.
38 No original, “a number of historians have long recognized the power of the archaeological record not just to augment (…) but to substantially extend and challenge documentary accounts of the past, to stand as a test of historically-based hypotheses in an interesting and powerful sense”.
deram origem. Em publicação posterior, Wylie (2002) avaliou que, no esforço por tentar criar uma autodefinição limitadora de suas fronteiras, os arqueólogos históricos acabaram por reforçar a necessidade e o valor da interdisciplinaridade. O ponto onde isto mais fica claro é na utilização de fontes materiais e textuais para construir análises do passado, além dos suportes imagéticos e dos casos em que é possível lidar com depoimentos orais.
Dessa forma, encerro o tópico sobre o diálogo disciplinar com considerações acerca do uso de fontes tão diversas, um aspecto definidor que, por vezes, serviu de argumento a detratores. Isto porque muito se questionou, e ainda se questiona, se haveria necessidade de empreender um custoso projeto de escavação se as mesmas respostas poderiam ser obtidas por meio de documentos escritos. Contra isso, Little (2007) assevera que as informações obtidas por meio de textos e evidências arqueológicas não são equivalentes, mesmo quando os diferentes registros são produzidos por um único grupo de pessoas. Além disso, não bastaria apenas combiná-las em situação de complementaridade, a autora sugere ir além do desejo de contestar verdades e desmentir mitos, para realizar um exercício de reformulação de perguntas e interpretações.
Durante muito tempo, houve uma tendência em tratar textos como representantes transparentes do passado, tornando a cultura material uma ferramenta ilustrativa de verdades documentais. Porém, discutiu-se a necessidade de problematização dos registros do passado e das verdades construídas, como abordei no primeiro capítulo, o que gerou uma conscientização entre arqueólogos históricos, segundo Johnson (1999), de que o trabalho inclui explorar as tensões – sejam estas documentais ou relativas à formação profissional do estudioso. O autor acredita que
Um dos temas-chave que compõe a arqueologia histórica é que caminhamos por um espaço particularmente perigoso do passado humano, com frequência um espaço entre ‘narrativas mestras’ muito poderosas da identidade cultural e social, e narrativas muito menores, mais estranhas, potencialmente subversivas do material arqueológico (JOHNSON, 1999: 34)39.
Neste ponto surgem, uma vez mais, as ‘pequenas coisas esquecidas’ de Deetz que, não por acaso, alinhavam este capítulo. Apesar da mencionada crítica feita por Loren e Beaudry, de que o autor não trata de coisas que seriam, de fato, pequenas em sua dimensão, tomo a liberdade de me apropriar de sua expressão para, contemplando os demais autores discutidos,
39 No original, “one of the key themes that does hold historical archaeology together is that we walk in a uniquely dangerous space of the human past, a space between often very powerful ‘master narratives’ of cultural and social identities and much smaller, stranger, potentially subversive narratives of archaeological material”.
expandi-la ao que foi desconsiderado, excluído, desvalorizado – apequenado, enfim – em nome de um passado único e grandioso – em dimensão física e política.
Assim, inclusos nas pequenezas, posiciono questionamentos apagados pelas arqueologias que se pretendem históricas, mas que não vislumbram o amálgama complexo de conhecimentos necessários à disciplina. Se há aqueles que relegam o debate sobre o diálogo entre texto e cultura material a um ponto pacífico, pouco problemático, há outros que vêem na reflexão acerca das fontes selecionadas um raciocínio que compõe o fazer da arqueologia histórica. Como Wilkie (2006: 14), que denomina arqueólogos documentais aqueles que percebem seu ‘arquivo’ como uma composição de “registros escritos, tradições orais e cultura material – tanto de origem arqueológica quanto museal”40. No entanto, a autora reserva tal classificação aos arqueólogos históricos dedicados ao estudo de passados mais recentes, especificidade à qual passo agora a me dedicar.