A PARTIR DE UMA PERSPECTIVA ECOFEMINISTA E DA ECONOMIA DO CUIDADO
3.1 A natureza em perigo: percepções sobre desmatamento e mudanças climáticas
Durante as aulas de Ecologia, a coletora Milene (graduanda em Ciência Biológicas) aprendeu que está cada vez mais difícil para o planeta conseguir escapar de um colapso ecológico. A jovem argumenta que todo ecossistema tem uma capacidade de suporte e, até certo ponto, sustenta os organismos que dele dependem. “O problema é que essa capacidade já se excedeu faz tempo e pra reverter isso tem que ter primeiro uma mudança do próprio ser humano, pra daí querer mudar a natureza. Porque talvez a natureza nem consiga mais se regenerar sozinha. Tá tudo muito difícil para ela: falta chuva, os animais e as plantas estão morrendo e o solo está todo degradado”. Além das aulas na universidade, Milene participa de um grupo de jovens da ARSX, formado por 14 membros de aldeias, assentamentos e cidades, com idades entre 14 e 28 anos. Eles se reúnem em encontros e oficinas promovidos pela Rede, onde compartilham experiências e histórias. O resultado rendeu um livro intitulado “O que será de nossas sementes? Pesquisa intercultural sobre as mudanças climáticas no Xingu-Araguaia” (URZEDO et al., 2017a), em que os jovens relatam sobre os impactos do desmatamento, da falta de chuvas e do calor intenso, principalmente nas espécies de árvores coletadas e seus polinizadores. Com essa experiência, a coletora reafirmou o que já tinha conhecimento: “Vi que é muito importante, mais do que eu já sentia, preservar o meio ambiente”.
Oremê Ikpeng, elo institucional da Rede e um dos coordenadores das coletoras Yarang, é mais um desses jovens integrantes do grupo, além de ser um dos autores do livro. Segundo Oremê, a natureza nos envia diversos sinais e é preciso saber interpretá-los. “Por exemplo, se uma coletora olha pro céu e vê uma espécie de pássaro que só voa naquela época, então é sinal de que o rio tá baixando. Se aparece uma borboleta no caminho, também é sinal de que o rio tá baixo. E quando vê um monte de gafanhotos voando, é porque vai começar a época das chuvas”. Na realidade xinguana da qual ele faz parte, no entanto, os sinais antes percebidos com bastante clareza, atualmente têm se tornado imprevisíveis para os povos do TIX. “Nós sentimos e vemos mais essa mudança e quem é agricultor indígena também. Mês de setembro é época de plantio, mas agora a chuva tá chegando só no fim de outubro, novembro, e os plantios vão queimando com o sol forte”. Oremê também explica que, com a falta de chuvas, as plantas têm encontrado mecanismos de adaptação para se autorregularem e produzirem menos frutos, garantindo a própria sobrevivência. “As plantas também começam a se adaptar: pra se salvar, elas têm que sacrificar os filhos que a fruta queria ter...”. A produção de sementes coletadas pela Rede também tem sofrido com os eventos extremos de seca. De acordo com Oremê, a mamoninha, ou Mengkwa, na língua ikpeng (Mabea fistulifera Mart. - Euphorbiaceae) e a mutamba, ou Yapïta em ikpeng (Guazuma ulmifolia Lam. - Malavaceae), são as espécies ofertadas pela Rede que dependem muito de água e que, consequentemente, sofrem mais com os impactos climáticos e ambientais. “A mutamba, que todo ano produz fruto, faz dois anos seguidos que não está mais produzindo...”.
A percepção sobre as mudanças climáticas foi observada não apenas entre jovens da Rede, mas também entre algumas coletoras indígenas mais velhas entrevistadas, como na avaliação da indígena ikpeng Ayaneko Txikão11, de 46 anos, residente da aldeia Arayó e membro do Movimento das Mulheres Yarang (MMY). Segundo ela, as altas temperaturas que têm ocorrido nos últimos anos são um problema para a coleta. “Quando o sol muda, o clima também muda pra semente, e o sol fica muito quente. Porque antes de amadurecer, a semente cai morta...”. Ayaneko lembra que várias espécies de árvores estão morrendo com maior frequência. “Faz tempo que isso acontece. Cai tudo: folha, galho, fruta; quebra tudo, porque não tem água pra ela...”. Entre 2015-2016, durante o fenômeno climático El Niño, um dos mais fortes desde o início dos registros, o regime escasso de chuvas também afetou a produção de 11 Txikão (ou Chicão/Tchicão) é o nome designado aos Ikpeng por um outro grupo "hostil", com os quais entraram
em contato há décadas (SOCIOAMBIENTAL, 2014), mas alguns indígenas mais velhos, como é o caso de Ayaneko, possuem em seu Registro Geral (RG) de identidade o nome "Txikão", e preferem ser chamados dessa forma. Já o termo Ikpeng é uma autodenominação desse grupo e possui diversas versões sobre sua origem, sendo que a versão que escutamos foi a de que ikpeng é a palavra para se referir a uma vespa "brava".
alimentos em sua aldeia. “Agora já tem mandioca, banana, mas na época quase não tinha comida. Tinha que pegar o galão de 200L de água, levar até a roça pra regar a mandioca”.
Há aproximadamente 400 km de distância do TIX, no assentamento Banco da Terra, Dona Valdivina também sente os impactos e teme que as consequências das mudanças no clima possam afetar de forma explícita a vida na Terra. Residente há mais de oito anos naquele assentamento, a coletora, que também é produtora de leite e mel, percebeu que os períodos de seca têm sido mais prolongados e intensos. “Sempre dava enchente aqui perto. Era tanta água que tinha que cuidar. Quando eu via que ia encher, tirava todo o gado e as abelhinhas e levava pra um lugar seco. Mas o rio não tá mais assim, já deu de passar três anos sem encher. Igual agora [mês de março], era pro rio estar cheio e não tá. E se falta chuva, é sinal que alguma coisa deu errado”. Duas matrizes de coleta de D. Valdivina já morreram e ela acredita que a seca é o principal fator. “Algumas plantas no quintal têm muita dificuldade na época da seca. Mesmo cuidando, a gente vê que tá muito difícil, porque elas queimam demais com o sol...”. A coletora também tem percebido que a produção de flores e frutos de espécies cujas sementes são coletadas para a Rede tem sido menor nos últimos anos. “O caju tá diminuindo bastante, o angelim também. Quando chove menos, a florada fica pouca, diminui bastante. Eles secam antes de ficar bom, porque sentem o sol queimando”.
Segundo Dona Rosineide Caetano, de Nova Xavantina, as queimadas também podem ser tanto decorrentes das mudanças no clima, quanto da falta de consciência das pessoas. “O pessoal queima e desmata pra pasto. Ano retrasado deu uma tristeza, porque a alguns quilômetros daqui queimou tudo o que tinha numa reserva; deu vontade até de chorar. A gente que fica aqui quase morre de tossir, mas e o habitat dos bichos, como é que fica? Dentro da cidade o pessoal também põe muito fogo nas folhas pra limpar o quintal”. As queimadas normalmente são intensificadas em determinadas épocas do ano, principalmente durante os períodos de seca prolongada, entre os meses de agosto a outubro. A maior parte dos incêndios na Amazônia ocorre ao longo da região do chamado “arco do desmatamento” - onde atua a RSX -, que segue a zona de transição ecológica entre os biomas Amazônia e Cerrado, sendo que o Cerrado, por ser um tipo de savana e naturalmente mais seco do que a floresta, passou a se adaptar melhor aos incêndios, cada vez mais frequentes (DE NEGREIROS et al., 1996).
A redução do desmatamento no território brasileiro entre os anos de 2004 a 2012, somada à presença de extensos territórios indígenas, reservas extrativistas e a ampliação de áreas protegidas, contribuíram imensamente para a mitigação das mudanças climáticas; mas, após essa data, o crescimento populacional na região e a falta de fiscalização e de políticas
públicas adequadas para proteger os ecossistemas preservados, fizeram com que o desmatamento aumentasse novamente, como lembra Abramovay (2018):
A esmagadora maioria do desmatamento é hoje praticada na ilegalidade e se apoia em métodos que desrespeitam as normas básicas de convivência numa sociedade democrática. Desde 2012, o Estado do Mato Grosso desmata mais de 1.000 quilômetros quadrados por ano. Como mostra o acompanhamento do Instituto Centro de Vida, a partir de informações da Secretaria do Meio Ambiente do Estado, apenas 10% do desmatamento foi realizado de maneira legal entre janeiro e setembro de 2017. O resultado é um pouco melhor que o de 2016, quando não mais que 5% do desmatamento era apoiado em autorizações oficiais, segundo manda a legislação. O IMAZON estima que, de todo o desmatamento na Amazônia, não chega a 20% o total do que foi legalmente autorizado. (ABRAMOVAY, p. 20, 2018).
O problema é que, na maioria das vezes, o desmatamento está fortemente ligado às queimadas, como apontado por Garcia (2019), ao mencionar que as observações de cientistas que atuam na região teriam registrado que as chamas seguem o rastro do desmatamento e que, quanto maior a derrubada das florestas, maiores os focos de calor detectados pelos satélites. Mais recentemente, a repercussão internacional dos incêndios sem precedentes que assolam a maior floresta tropical do planeta, incluindo a região de transição Amazônia-Cerrado, trouxe à tona manifestações populares e reuniões geopolíticas nacionais e internacionais para discutir a urgência em combater o problema, que é principalmente provocado pela ação humana: a prática é realizada principalmente por grileiros, produtores rurais e/ou posseiros, que ateiam fogo em áreas de floresta abrindo espaço para plantio e pasto (ROMAN, 2019).
Observamos, durante as conversas, um padrão de respostas em comum quanto às perguntas relacionadas à percepção sobre o desmatamento (se continuava ou estava diminuindo) e às mudanças climáticas. A maior parte das entrevistadas afirmou, por exemplo, que o clima atual mudou em comparação aos anos anteriores, sendo que as respostas geralmente pendiam para o fato de que o calor e a seca estão mais intensos e frequentes. Quanto ao desmatamento, apenas uma das coletoras, residente da zona urbana, se mostrou mais otimista e manteve uma opinião de que o fenômeno está “um pouco mais controlado” nos últimos tempos. Outro coletor homem, e companheiro de uma delas, também afirmou que não acreditava que as temperaturas estavam mais elevadas nos últimos anos. Já o principal fator apontado pelas entrevistadas sobre a permanência (e até aumento) do desmatamento foi a “falta de conscientização” das pessoas sobre a importância de preservação da natureza.