DAS COLETORAS
2.2 As trajetórias de trabalho das coletoras no âmbito urbano
A coletora Sra. Vera Alves da Silva, 47 anos, moradora da zona urbana de Nova Xavantina - cidade de 20 mil habitantes localizada na região leste do de Mato Grosso - foi criada na roça quando jovem. Apesar de morar há anos na cidade, o contato com o ambiente rural foi também um dos fatores que a atraiu para o trabalho na rede. “Eu andava muito com o meu pai e sempre perguntava pra ele o nome das árvores e pra que que servia cada uma, e ele passava o conhecimento dele pra mim. Então eu peguei amor pela natureza desde o princípio”. D. Vera descobriu a Rede em 2013, por meio de um amigo, que na época era um dos elos da Rede, e havia pedido ajuda para limpar algumas sementes. A coletora gostou tanto do trabalho que, logo em seguida, pediu para fazer parte do grupo. “E como agora eu tô na rede, o amor parece que dobra, e a gente tem mais cuidado com as plantas”.
A filha de D. Vera, Milene Alves de Oliveira (Fig. 12), é uma das coletoras mais jovens da Rede, com apenas 19 anos. Estudante do curso de Ciências Biológicas da UNEMAT (Universidade do Estado de Mato Grosso), campus de Nova Xavantina, ela embarcou no projeto junto com a mãe, ainda aos 14 anos, e já um ano depois tornou-se responsável pela
Casa de Sementes9, onde permaneceu na função até 2018. Em 2014, Milene foi convidada para
participar de um curso sobre a qualidade de sementes na UFSCAR (Universidade Federal de São Carlos), em Sorocaba (SP), e outro de mesmo tema na ESALQ-USP (Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”), em Piracicaba (SP). “A experiência marcante foi o carinho das pessoas que eu nem conhecia, mas que acolheram a gente. Eu nunca tinha saído longe de casa sem a minha mãe e foi a primeira vez que eu viajei de avião e que eu conheci uma cidade universitária, que é bem grande, quase uma cidade. Não deu pra acreditar que eu estava lá. Foi muito bom”.
Figura 12. Milene é responsável pela Casa de Sementes, onde detém a função de verificar os pedidos, realizar a
pesagem das sementes e verificar se estão todas conforme os critérios pré-estabelecidos. Foto: Autora.
Segundo Milene, a decisão de ingressar no curso de Ciências Biológicas estava diretamente ligada ao trabalho com a Rede. “Em 2016, para ajudar no meu desenvolvimento na Rede e na universidade, eu entrei no Laboratório de Ecologia Vegetal [LABEV/UNEMAT]. Antes eu sabia os nomes populares das espécies, mas não sabia os científicos. Eu fui lá pra aprender e fiz o meu primeiro projeto de pesquisa com uma espécie que era problemática [baixo percentual de germinação nos plantios a campo], então foi um marco na minha trajetória, desvendar esse mistério. A gente viu porque que ela não nascia: a semente estava sendo 9 Ambiente climatizado onde são armazenadas as sementes (já beneficiadas) entregues pelas coletoras e coletores
da ARSX. A Casa de Sementes conta com o auxílio de um coletor que fica responsável pela pesagem das sementes e cuidados no armazenamento antes do envio para a sede da RSX em Canarana, que cuida da comercialização e envio das sementes aos compradores.
coletada antes da hora”. A empolgação de Milene com o resultado de sua primeira pesquisa científica foi enorme, pois ela observou claramente que a ciência pode ser também uma ferramenta útil para ajudar as pessoas a solucionarem problemas. Depois disso, além de apresentar seus resultados em eventos científicos (e.g., IX Semana Científica da UNEMAT de Nova Xavantina) ela também fez questão de apresentar os resultados às coletoras, usando sempre uma linguagem acessível e ilustrações, de modo a garantir que a ciência por ela produzida chegasse aos interessados finais. A comercialização da espécie por ela estudada (Cecropia pachystachya Trécul - Urticaceae), popularmente conhecida como embaúba, havia sido cancelada na Rede devido ao insucesso na germinação durante os plantios. Após a resolução do problema e a descoberta da Milene de que as sementes estavam sendo coletadas prematuramente, as coletoras passaram a fazer a coleta na época certa; a semente retornou à lista de espécies para coleta e comercialização e isso contribuiu diretamente para ampliar a renda das coletoras. Milene se sente orgulhosa por ter contribuído com algo que beneficiou a todas as coletoras e coletores, inclusive a ela.
A coletora Roberizan Marques Pereira Tusset, 47 anos, de Nova Xavantina, envolveu- se com o trabalho por influência do marido, Vilmar, que contou a ela sobre a novidade. “A gente tem um sítio no [assentamento] Banco da Terra. Meu marido estava lá e foi numa reunião com o pessoal da Rede e eles convidaram algumas pessoas pra ser coletor”. A familiaridade que ela já tinha com a questão rural e ambiental foi fundamental para que o interesse pudesse se concretizar na ação. “Decidi participar porque como ele é meu marido, a gente faz as coisas junto, né? E como gosto muito de árvore, meio ambiente, essas coisas, eu disse ‘opa, vou junto’”. Roberizan é graduada em Ciências Biológicas pela UNEMAT e é especialista em Ecologia do Cerrado e Gestão Pública. “Isso me ajudou bastante, porque era uma coisa que eu já gostava. Aí como dá dinheiro também, ajudou as duas coisas”.
Enquanto o processo de coleta das mulheres urbanas ocorre, em sua maioria, dentro do território das cidades onde habitam, as mulheres rurais já têm, normalmente, maior contato com árvores e sementes provenientes de reservas ambientais, ou mesmo de seus próprios lotes e propriedades. Mesmo assim, as coletoras urbanas, apesar de apresentarem um contato com a terra menos intensivo e frequente em comparação com as coletoras rurais, apresentaram discursos que evidenciam uma conexão com questões rurais, agrícolas ou ambientais, muitas vezes transmitidas pelos avós ou pais. Nesse caso, a transmissão de saberes entre gerações serviu de base e incentivo para o ingresso na Rede (ver capítulo 5 e considerações finais).