A PARTIR DE UMA PERSPECTIVA ECOFEMINISTA E DA ECONOMIA DO CUIDADO
3.5 A sustentabilidade da vida, o cuidado com a natureza e a co-responsabilidade
São comuns discursos que vão de encontro com os ideais propostos pela chamada economia do cuidado com a natureza, ou ainda “economia do conhecimento da natureza” (ABRAMOVAY, 2018), entre as coletoras. D. Valdivina (Figura 22), por exemplo, descreveu em sua fala a maneira com que essa lógica perpassa todo o processo de coleta e processamento das sementes: “Eu tento fazer como eles ensinam na oficina [treinamentos promovidos pela Rede de Sementes do Xingu] e cuidar direitinho. Eu não chego lá numa área, na árvore, e penso
que quero dinheiro pra depois arrancar a semente de lá. Não, eu vou lá dizer pra uma mãe que vou levar os filhinhos dela pra cuidar em outro lugar que tá precisando. Porque eu acho que o que move muito é o amor e o respeito pela natureza, por tudo”. A partir desse olhar amoroso, D. Valdivina também acredita que as áreas onde ela coleta são mais preservadas e dá outro exemplo de cuidados que têm com as matrizes: “Quando eu percebo que elas estão meio ‘sentidas’ eu levo água e cuido delas e elas agradecem. Cuido também dessa mirindiba linda perto do rio. Eu chamo ela de centenária”. D. Valdivina foi destacada pelas coletoras e coletores de Nova Xavantina como a que realiza o trabalho de maior qualidade quando a questão é a limpeza e qualidade das sementes.
A economia feminista e o ecofeminismo, ao contribuírem para pensarmos soluções relacionadas à crise da sociobiodiversidade, questionam o reducionismo e tendências biocidas das teorias econômicas ortodoxas que desconsideram a manutenção do planeta (SHIVA, 2003, MARIMON; TAIT, 2019). Existe uma tendência crescente de ambas as vertentes em colocarem a sustentabilidade da vida como pilar central para garantir as condições de vida das futuras gerações. O trabalho das mulheres da Rede de Sementes do Xingu corrobora com as contribuições feministas e também comprova a falsa ideia de ruptura entre as atividades produtivas e reprodutivas.
Ao mesmo tempo em que o trabalho de coleta agrega renda e detém influência nas decisões econômicas do lar, também carrega um valor subjetivo de cuidado da natureza. As mulheres coletoras de sementes da ARSX atuam abrindo caminhos para a sustentabilidade e a igualdade de gênero em suas práticas concretas, principalmente quando tomam a frente das decisões do trabalho e quando provam que são capazes de realizar um trabalho tão bem feito, ou até melhor, quanto qualquer homem (o que, mesmo assim, não excluiria a responsabilidade deles de realizarem uma parte importante do trabalho), além de demonstrarem uma sincera e profunda preocupação pela natureza, e as questões ambientais/climáticas, como visto nos tópicos anteriores.
Figura 22. D. Valdivina ao lado de uma de suas matrizes de sementes. Foto: Autora.
Também tem sido observado por alguns estudos realizados no âmbito da Rede que onde as mulheres atuam como protagonistas na produção, a renda tende a ser revertida para a família (ISA, 2017), o que demonstra um senso maior de coletividade e de cuidados com o próximo, fator que não é tão observado no sexo oposto. Mesmo assim, durante as conversas, também percebermos que os homens coletores reconhecem a importância das mulheres, não apenas no trabalho de coleta (muitas vezes eles destacam as mulheres como sendo as “mais produtivas”, que realizam trabalhos de “melhor qualidade”, etc.), mas também na manutenção do lar a partir da geração de renda. É claro que, se ampliarmos o escopo de análise para os homens em geral, sabemos que tal percepção não é compartilhada por todos. Se nós tivéssemos focado em outro ângulo da pesquisa e entrevistado uma maior quantidade de homens, nossa hipótese é de que, certamente haveria opiniões até mais próximas da lógica capitalista-patriarcal, que não enxergariam a relevância e o peso dos trabalhos de mulheres. Dada a limitação de tempo, tal hipótese não pôde ser comprovada.
Nossa pesquisa também observou que a oportunidade de exercer atividades fora do espaço doméstico e em prol de uma causa socioambiental, tem colaborado para o aumento da autoestima dessas mulheres, que sentem que estão realizando um trabalho não apenas em benefício próprio, mas para o bem comum. As atividades de cuidados, tanto com os territórios e a “terra comum”, são colocadas como questões centrais, como centro político-econômico, e de responsabilidade de todas e todos, a partir de uma alteração de paradigmas e com a inserção dos mais diversos atores (FARIA, MORENO, 2012; HERRERO, 2014). É importante frisar
que não temos objetivo de mostrar que as mulheres se tornem as “salvadoras do planeta”, pois entendemos que tanto homens quanto mulheres precisam se perceber como “fazedores da cultura” e integrantes de uma natureza ameaçada e que precisa da união e cuidados de ambos para que seja salva, ou que ao menos os problemas sejam minimizados (PULEO, 2011). A visão construtivista afirma que a relação profunda das mulheres com a natureza não está relacionada com características biológicas intrínsecas ao sexo feminino, mas com uma construção social a partir dos papéis de gênero, da divisão social e sexual do trabalho, da distribuição do poder e da propriedade (HERRERO, 2014). E é exatamente dessa visão que nós compartilhamos aqui nesta pesquisa ao exemplificar discursos de mulheres coletoras.
A partir das discussões anteriores e de maneira ampla, consideraremos o conceito de sustentabilidade da vida (humana e não-humana) como um conjunto de processos produtivos e reprodutivos e modos de organização social articulados por princípios éticos e políticos de relações harmônicas não exploratórias, entre natureza e humanidade, bem como entre mulheres e homens, e distintos grupos sociais (MARIMON; TAIT, 2019). As mulheres entrevistadas, por exemplo, mostraram em suas práticas uma preocupação direta com essa sustentabilidade e a importância das mulheres com seus saberes e sensibilidade frente à natureza.