DAS COLETORAS
2.1 As trajetórias de trabalho das coletoras no âmbito rural
Em Bom Jesus do Araguaia-MT, um município de aproximadamente 5.300 habitantes (IBGE, 2010b), no assentamento Macife, um Projeto de Assentamento (PA) Federal criado sob a responsabilidade do INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), Sra. Odete S. Barbosa, hoje uma das coletoras mais idosas e mais antigas da Rede, com 77 anos, foi uma das responsáveis por articular o primeiro grupo de coletores do local. Sentada em uma cadeira de fios na varanda de sua casa e com vista para um morro, Dona Odete, como é conhecida, nos contou que foi em 2010 que descobriu, por meio de um funcionário do ISA (Instituto Socioambiental), o projeto de restauração de áreas degradadas que usava sementes de espécies nativas para os plantios. “Ficaram sabendo que eu estava com um viveiro e com vontade de plantar nas APPs [Áreas de Proteção Permanente]. Chegaram aqui e apresentaram o projeto. Me deram um treinamento de um dia, sobre os critérios do coletor, o que tinha que fazer com o sabugo, o jeito de secar a semente...”. Após aquela etapa, D. Odete ficou encarregada de conversar com outras famílias do assentamento para apresentar o projeto e, posteriormente, formar um núcleo coletor. “Foi muita gente na reunião; no fim eu consegui um grupo bom. Entrou inclusive quem nem queria no começo e agora já entrega bastante semente”. A coletora Eliane Righi (Figura 10), 35 anos, reside em Bordolândia, um assentamento que conta com aproximadamente 300 famílias, localizado no município de Serra Nova Dourada. Oficializada em 2009, Bordolândia é caracterizado como um Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS), um tipo de projeto estabelecido para que seja possível realizar atividades focadas na sustentabilidade ambiental para populações tradicionais, como ribeirinhos e comunidades extrativistas (EMPAER, 2015). A história da Rede na vida de Eliane tem relação com o processo de ocupação do assentamento que estava com um projeto de recuperação de APPs. Naquela época, uma das diretoras da RSX era membro da Comissão
Pastoral da Terra (CPT) e convidou os assentados para uma reunião. “Ainda tava construindo a nossa casa aqui e meu marido falou, ‘Você vai fazer o que lá? Perder tempo? Não. Tem que fazer almoço pro pedreiro’; e eu respondi, ‘Não quero nem saber, me leva lá e na hora que acabar eu ligo pra você me buscar’. Eu fui na reunião e conseguimos formar 12 [pessoas]. Ela [a diretora da RSX] preparou o projeto, mandou e ele foi aprovado, mas tinha que ir pra Brasília pra apresentar. E naquele tempo eu não conseguia nem conversar direito, tinha muita vergonha mesmo, mas eu falei, ‘Uai, ninguém quer ir? Então eu vou’. Cheguei lá e consegui”. Foram dois anos de projeto com 18 famílias, mas dessas 18, apenas 10 continuaram. Desse modo, surgiu a ideia de Eliane em prosseguir com os trabalhos que tivessem foco na recuperação de áreas degradadas. Depois que descobriu a Rede, ela nunca mais se desvinculou da atividade. Eliane também é elo8 do grupo de coletores de Bordolândia desde o início e considera o trabalho desafiante. “É muita responsabilidade, porque tem que estar ali pra receber a semente, checar pra ver se está tudo certo e tirar o seu tempo pra pesar tudo. Claro que também toma tempo do coletor, que tem que coletar e limpar, mas se eu fosse só coletora era mais fácil. Eu entregava e pronto”.
Eliane também tem dois filhos pequenos que ainda estão aprendendo sobre a dinâmica de coleta, mas, mesmo assim, ajudam no trabalho. A mais velha já sabe ler e escrever e o mais novo tem aproximadamente quatro anos. Ambos já aprenderam os nomes das árvores cujas sementes são coletadas por sua mãe. “Outro dia a gente tava pesando, ela [a filha] tava marcando numa folha [o peso] pra gente passar pro caderno. Então um faz a marcação, o outro ensaca a semente, outro pesa, e assim um vai ajudando o outro. Ele mesmo [filho] gosta muito de limpar sementes de abóbora”. Eliane mencionou que o sonho da filha é ter um celular, então aproveita a oportunidade para mostrar o quão difícil e oneroso pode ser adquirir esse bem material e incentiva a participação da filha nas atividades relacionadas às sementes, valorizando o trabalho e o retorno financeiro dos esforços empreendidos.
Concordamos com Eliane ao afirmar que o trabalho de coleta não é uma tarefa simples. Para que a coleta seja realizada de forma eficaz e efetiva, as mulheres do campo precisam entender sobre os diversos processos da natureza, como a época de frutificação e floração de cada espécie de árvore, por exemplo. Além disso, é necessário que estejam atentas sobre o fato de que, durante a seca nessa região, as florestas geralmente produzem mais sementes, mas é também um período onde os trabalhos no campo costumam ficar mais intensos, o que pode 8 O elo tem a função de registrar e divulgar as experiências do núcleo, acompanhar os pedidos e entregas de
sementes, zelar pela qualidade das sementes, manter e garantir o contato coletor-Rede. Fonte: http://www.sementesdoxingu.org.br/site/funcoes-elos/
inviabilizar a coleta (DA COSTA et al., 2014). Por isso, para conseguirem conciliar os trabalhos, tanto domésticos quanto rurais, com a coleta de sementes, elas necessitam de planejamento e organização do tempo. Desse modo, podem garantir a possibilidade de coleta e a entrega das sementes que estão inseridas na lista de potencial com a qualidade desejada.
Figura 10. Coletora Eliane Riggi, do assentamento Bordolândia, no município de Nova Serra Dourada.
A Sra. Valdivina Martins de Oliveira, 50 anos, é moradora do assentamento Banco da Terra, em Nova Xavantina-MT, e iniciou os trabalhos como coletora em 2013. Ela demostrou ter uma conexão antiga e familiar com a terra, algo que a motivou a participar desse trabalho. “Toda vida eu gostei muito, desde criança. Nunca estudei sobre o assunto [formalmente], mas sempre morei e trabalhei em fazenda e gosto muito de plantar. Meus pais também são agricultores, então pra mim trabalhar com sementes é muito natural”. A coletora e elo, Sra. Cleuza Nunes de Paula (Fig. 11), de 56 anos, também é moradora do PA Macife (Figura 6), localizado a 346 km de distância do assentamento de D. Valdivina. Neta de uma mulher Xavante e fluente na língua indígena, D. Cleuza ingressou na Rede em 2010 a convite da amiga D. Odete, do mesmo assentamento. Cleuza concorda que o trabalho com as sementes pode ser comparado com as atividades da roça que realizava com os pais e irmãos. “Eu me interessei porque era uma coisa que eu já fazia desde sempre. Eu já plantava de tudo, cuidava e conhecia as plantas. E quando eu vi aquele trabalho com as sementes, eu aceitei na hora”.
A realidade das mulheres de assentamento entrevistadas está envolta em um histórico de programas de reforma agrária. Apesar de tais programas terem auxiliado na conquista por direitos da terra e na regularização de moradias rurais com base em princípios de solidariedade
e contrários ao modelo hegemônico do agronegócio (CEREGATTI et al., 2015), alguns assentamentos acabaram também intensificando o processo de desmatamento na Amazônia Legal (FARIAS et al., 2018). A Sra. Conceição de Oliveira Fonseca (Figura 11), 76 anos, também do Macife, ao ingressar na RSX, acreditou que seu trabalho, além de auxiliar na geração de renda extra, ajudaria a recuperar as florestas. “Todo mundo tava entrando e a gente se interessou. Falei, ‘Vamos catar sementes, vai ter um dinheiro a mais e é pra reflorestar’. Mas pra mim era mais o interesse de não acabar a floresta, porque quando a gente entrou aqui já tinha que desmatar. Se não desmatava, não ganhava a terra pra plantar”.
A fala de D. Conceição vai de encontro com o que ocorreu no início dos anos 1970, quando o processo de ocupação das terras incentivado pelo INCRA (Instituto nacional de Reforma Agrária) era baseado no imediato desmatamento, de modo a garantir a posse da área, levando à uma política descontrolada de uso e ocupação da terra (WOOD et al., 2003; LOUREIRO; ARAGÃO PINTO, 2005). Tentando corrigir os erros daquela desastrosa ocupação dos tempos antigos, iniciativas como a dos Projetos de Desenvolvimento Sustentável (PDS) e dos Projetos de Assentamentos Florestais (PAF), modalidades de assentamento baseados no extrativismo, na agricultura familiar, no manejo florestal múltiplo e nos sistemas agroflorestais, estavam voltados a reduzir os impactos ambientais e as áreas degradadas nos assentamentos (INCRA, 1999; 2003). A própria RSX surgiu também como uma alternativa aos assentados, como evidencia a fala de D. Conceição.
Figura 11. D. Conceição (à esquerda) e D. Cleuza (à direita), em suas respectivas propriedades. Foto: Autora.
Ao longo das entrevistas, percebemos que, além do próprio retorno financeiro, a proximidade e intimidade delas com os modos de vida historicamente ligados à realidade rural,
como o trabalho de subsistência do “plantar para colher”, pode ser justificado como um dos principais motivos para algumas delas terem se interessado em ingressar na ARSX. Mesmo assim, com base na pesquisa, concluímos que o processo de ingresso na Rede foi algo exatamente “natural”, devido a uma suposta “forte ligação inerente” com a terra. Sugerimos aqui que as divisões históricas de gênero e território, além das condições socioeconômicas e de trabalho podem estar mais relacionadas a uma maior conexão das comunidades rurais, e principalmente das mulheres, com essas questões ambientais (CEREGATTI et al., 2015).
Apesar de algumas práticas rurais ainda serem consideradas insustentáveis - como coletas e queimadas descontroladas -, sempre houve uma preocupação em preservar a biodiversidade local a partir de práticas sustentáveis, como por exemplo, o rodízio de culturas, o uso de práticas de controle biológico e de adubação orgânica (BRANDEMBURG, 2010). Além disso, o referido autor lembra que, “em muitas situações, a agricultura familiar desenvolveu técnicas e acumulou experiências de manejo de recursos naturais em consonância com as leis de reprodução do ambiente natural e que foram ignoradas mais tarde por pesquisadores” (BRANDEMBURG, p. 420, 2010).