C APITALISMO EM F ÚRIA
1. A nova (des)ordem
O objetivo central da produção e investimento capitalista aponta, necessariamente, para o crescimento, com a permanente perseguição à maximização dos lucros e acumulação de capital. Quase nada ou pouco importam as consequências políticas, sociais e ambientais decorrentes deste movimento, cujas leis envolvem a concentração e a centralização. Aos capitalistas interessa produzir sempre mais mercadorias, e que estas sejam consumidas em escala também cada vez maior e o mais rápido possível. Produzem para reproduzir. Isto quer dizer que não produzem para si e tampouco para o bem estar coletivo. Só vale a pena produzir algo para o consumo se a venda deste algo resultar no lucro esperado. Este algo, nas palavras de um representante do capital, conforme cita Harvey (2000, p. 317), pode ser qualquer coisa, de pregos, máquinas, casas, carros, tecidos, aviões, sexo, comida, ciência, música, viagens, drogas etc. “Se houvesse um mercado de armas nucleares portáteis produzidas em massa, nós também as venderíamos”, é o que diz.
Como se nota, parece não haver escrúpulos nem limites para este movimento. Todavia, os preceitos sob os quais funciona o capitalismo não são harmônicos. Ao contrário do que se possa pensar, são bastante conflitantes. Isto não só em função da luta concorrencial travada entre os diferentes agentes econômicos que se colocam em disputa no mercado, mas, sobretudo, pela permanente tensão produzida pela dominação e exploração que funda a relação de classe entre capital e trabalho. Ocorre que, para obter melhores condições de competitividade, buscando baratear o preço de suas mercadorias, obviamente que sem perda de lucratividade, o capitalista é sempre obrigado a incrementar organizacional e tecnologicamente sua empresa, diminuindo o total de capital empregado com a força de trabalho. Como explica Marx (1971b), uma dentre as maiores contradições do capitalismo localiza-se justamente aí, pois ao mesmo tempo em que o capitalista individual necessita que suas mercadorias sejam realizadoras de lucro e sejam competitivas no mercado, o que se consegue pelo acréscimo de capital morto em detrimento do
capital vivo investido na sua produção, ocasionando tanto a exclusão de
trabalhadores excedentes como a expulsão do mercado de capitalistas concorrentes, o sistema, no seu conjunto, tende a reproduzir a força de trabalho como mercadoria, uma vez que, regra geral, é precisamente no tempo de sobretrabalho ou mais-valia53 que reside a “fórmula mágica” para
a obtenção do tão ambicionado lucro.
Compreendida esta contradição, fica entendido o porque das crises que vêm à tona explicitando a instabilidade do modo de produção capitalista. Sob as mais variadas formas e portadoras de conteúdos diversos, as dinâmicas de crise enfrentadas pelo capital são permanentes e
53 Tempo de sobretrabalho que corresponde ao excedente do tempo necessário à recomposição, sob
a forma de salário, da força de trabalho empregada no processo de produção que se converte em lucro.
cíclicas, ocorrendo historicamente quando um dado modelo de acumulação e uma dada estrutura hegemônica não mais se revelam capazes de frear a tendência à queda das taxas de lucro inerente ao sistema, exigindo sua recomposição sobre uma nova base social. Nesta direção, o próprio regime fordista se materializou por uma série de estratégias que buscavam restabelecer a unidade entre as relações de produção, os aparelhos de hegemonia e as novas exigências de acumulação colocadas pela crise de 1914/1930. Entretanto, a implementação deste modelo já trazia em si o germe para a posterior crise de 1970/1990 (GENTILI, 1995). Consequentemente, novas condições tiveram de ser criadas para que o processo de acumulação pudesse se perpetuar.
O fordismo pode ser identificado por um conjunto de inovações técnicas combinadas a mudanças de gestão que se articulavam visando à produção em larga escala e o consumo em massa, o que se somava a uma forma de organização do trabalho baseada tecnologicamente num sistema de máquinas de caráter rígido e um modo de regulação social com a produção de normas, valores e instituições cuja atuação objetivava o controle tanto dos conflitos intercapitalistas como das tensões entre capital e trabalho. Conforme assinala Frigotto (1999), seu desenvolvimento efetivo tem impulso na crise de 1930, mas é somente no pós-2aguerra,
quando as teses keynesianas abrem caminho para a intervenção estatal na economia e quando, no plano da superestrutura, toma corpo a idéia do
Welfare State – ou seja, do Estado de Bem-Estar Social –, que tal modelo
veio a se consolidar como um verdadeiro modo social e cultural de vida.A periodização 1950/1973, correspondendo aquela que Hobsbawm (1995) chamou por Era do Ouro do desenvolvimento capitalista, caracteriza-se como um momento de espetacular crescimento da economia mundial e incrível expansão do comércio internacional. Assinala um ciclo de entre-
crises que permite um “grande salto adiante” na reestruturação e reforma do capitalismo, realizando, também, uma rápida e profunda revolução nos assuntos sociais que a história tem registro.
Apresentando-se, por um lado, como alternativa ao “capitalismo selvagem” e, por outro, ao socialismo real, o Estado do Bem-Estar dá novo fôlego ao fordismo, colocando em prática uma série de políticas que procuravam garantir a estabilidade do sistema. Isto se viabiliza pela construção de um inusitado pacto social em que o fundo público, através do financiamento da reprodução da força de trabalho, atingindo toda a população por meio dos gastos sociais, produziu um enorme leque de bens e serviços. Assim, por se tratarem de riquezas que não se constituíam propriamente em capital, mas que favoreciam-no indiretamente, subsidiando o chamado “bem-estar” da força de trabalho, a imensa gama destes bens e serviços públicos passa a ser vista como antimercadorias
sociais (FRIGOTTO, 1999). Para além da previdência, do seguro-
desemprego, da proteção legal ao trabalhador etc., não por caridade, mas como uma “assistência” necessária, implementam-se, naquele momento, os chamados direitos sociais de cidadania, dentre os quais o direito ao lazer.
O esgotamento do modelo fordista e a consequente exaustão do Estado intervencionista começam a se fazer sentir então logo no início da década de 1970. Os aspectos mais evidentes desta nova crise, conforme aponta Antunes (1999), explicitam-se pelos seguintes aspectos: a queda da taxa de lucro causada pelo crescimento da massa salarial; a intensificação das lutas sociais objetivando o controle social da produção; a retração do consumo diante da saturação dos mercados; a crescente autonomia do sistema financeiro frente ao capital produtivo; a intensificação da concorrência intercapitalista; a concentração de capitais acelerada pelo processo de fusões; e a crise fiscal que obriga a diminuição dos gastos
públicos. Nesta direção, as privatizações, a desregulamentação e a flexibilização, dentre tantos outros ingredientes desta nova situação, precipitam a volta às leis “naturais” de mercado. Uma série de experiências introduzidas tanto na organização industrial como na vida social e política em várias regiões do mundo dão forma aos primeiros indícios do aparecimento de um novo regime de acumulação. Contrapondo-se à rigidez do fordismo, apoiada na flexibilidade dos processos produtivos, do mercado, dos produtos e do consumo, a hoje denominada acumulação
flexível marca uma nova fase do modo de produção capitalista.
A passagem para um regime de acumulação e regulação social novo, representando profundas transformações na vida social e política, coincidem, portanto, com uma grande “revolução” da base técnica do processo produtivo. A reengenharia do just in time54 traz consigo as células
de produção, as equipes de trabalho, a eliminação de postos, o trabalhador polivalente, o aumento da produtividade, a qualidade total, a terceirização, a empresa enxuta etc. “Trata-se de um processo de organização cuja finalidade essencial, real, é a intensificação das condições de exploração da força de trabalho” (ANTUNES, 1999, p. 53). Não coincidentemente, estas mudanças na base técnica do processo produtivo trazem severas implicações para o mundo do trabalho de um modo geral, dentre as quais, de acordo com aquilo que assinala Pochmann (1999), podemos enumerar: o declínio da participação das ocupações na indústria e a expansão do setor de serviços; a expansão do emprego com múltiplas especializações; a exigência de habilidades cada vez mais variadas como requisito para a empregabilidade; a criação de obstáculos para o desenvolvimento da solidariedade e identidade entre os trabalhadores; a crescente
54 Constituindo-se como um dos princípios basilares da acumulação flexível, o just in time
materializa-se por uma nova forma de administração industrial que visa o melhor aproveitamento possível do tempo de produção. Para saber mais, ver Antunes (1999).
instabilidade provocada pelo desemprego; a individualização do salário com sua vinculação à produtividade; a desregulamentação das leis trabalhistas; a descentralização das negociações; e o refluxo do movimento sindical.
A reestruturação e reorganização do capitalismo face à crise, buscando, a qualquer custo, assegurar os processos de maximização e acumulação, representam todo um reordenamento do mundo de trabalho em escala planetária. Deduz-se, deste quadro, que a sociedade do capital parece cada vez menos precisar do trabalho estável, realizador e bem remunerado, o que significa, na outra ponta, necessitar cada vez mais das variadas formas de trabalho precarizado, seja ele autônomo, parcial, subcontratado, domiciliar, terceirizado, informal, temporário etc. (ANTUNES, 1999). Outra coisa que muda é o próprio conteúdo do trabalho, pois este deixa, quase que em absoluto, de se materializar como um meio de realização e satisfação das necessidades pessoais e coletivas, passando a mera forma de obtenção, quando muito, da subsistência individual.
Com efeito, este novo e diferente cenário caracteriza-se ainda pelo acirramento das desigualdades no interior de uma sociedade cada vez mais dual, onde setores crescentes da população são colocados à margem dos processos econômicos, políticos e culturais de sua época. Nunca se produziu tanta exclusão com tamanha “naturalidade”. De um lado os vencedores e noutro os vencidos, os ricos e os pobres, os ganhadores e os perdedores, os insiders e os outsiders, os integrados e os marginalizados, os consumidores e os devedores etc. O que deveria causar espanto, ou pelo menos estranheza, parece não incomodar. Numa sociedade refém do mercado, cada vez mais dividida, individualista e competitiva, o que vale é
o princípio do mérito55. Impingido pela ideologia laisser faire, da livre
concorrência, tal princípio acaba por legitimar a negativa do Estado ante a garantia dos direitos sociais, uma vez que sua defesa e existência potencializam a acomodação, inibindo o esforço e a conquista individual. “Semelhante esquema questiona a noção mesma de cidadania (ou melhor, dá-lhe novo significado). Daí que, em seus discursos, neoconservadores e neoliberais tenham maior predileção pelas referências aos consumidores que aos cidadãos” (GENTILI, 1995, p. 234-235). Esta sociedade partida parece, portanto, uma sociedade sem cidadãos, pois o consumo foi estandardizado, a exclusão naturalizada e o outro tornado coisa.
Desta breve apreciação em que foram evidenciados alguns dos componentes que emprestam formato ao processo de mudanças e rupturas em andamento deve ficar claro para nós que as dinâmicas de crise do capitalismo sempre implicam desdobramentos que se fazem sentir não apenas sobre a vida econômica, mas, também, sobre o desenho das forças políticas, sobre a legislação e as relações jurídicas, sobre a produção e manifestação de diferentes culturas, sobre a natureza e sobre todos os domínios da existência humana. Exemplo disto é que já no contexto da crise dos anos 1914/1930, as modificações introduzidas pelo fordismo reclamavam uma nova organização social, pois a racionalização advinda daquele modelo trazia consigo a exigência de um novo tipo de trabalhador e, por conseguinte, de um novo homem, pois as consequências da aplicação de “novos métodos de trabalho estão indissoluvelmente ligados a um determinado modo de viver, de pensar e de sentir a vida; não é possível obter êxito num campo sem obter resultados tangíveis no outro”
55 Ao se valerem do princípio do mérito, os neoliberais argumentam que os antigos modelos de
organização premiavam os ineficientes. Já hoje, como alerta L. Vuolo, citado por Gentili (1995, p. 234), “os novos, ao aumentar a dependência de cada um do valor de troca no mercado de sua capacidade individual, farão com que as retribuições sejam de acordo com sua maior ou menor eficiência como participante do sistema no trabalho social”.
(GRAMSCI, 1976, p. 396). Estamos falando, portanto, de uma investida que exprime o realinhamento entre uma dada estrutura sócio-econômica e uma determinada superestrutura político-ideológica, cobrando, para aquele momento, grande habilidade por parte dos grupos dirigentes do sistema hegemônico em questão.
Certamente, o conjunto das transformações que ocorrem hoje, aqui já enunciadas, como a reestruturação produtiva, o caráter estruturalmente dualizado da sociedade e o fim do Estado de Bem-Estar Social, materializando-se através de uma série de intervenções que se dão tanto no plano material como simbólico, representam as estratégias levadas a cabo pelos grupos dominantes56 como resposta à crise
instaurada a partir do início da década de 1970. Estes fatores pré- configuram o retrato de um novo modo de regulação, qual seja: o pós-
fordismo. A rigor, a construção desta nova ordem não significa outra coisa
senão a instituição de uma “nova desordem”. Trata-se de um modelo em que setores de grande riqueza contrastam com uma imensa massa de miseráveis, atacados em seus direitos mais essenciais. Isto, por não gerarem lucro, hodiernamente, a medida de todas as coisas, inclusive as pessoas. Vale então destacar, parafraseando Mészáros (2002), que uma reestruturação na economia corresponde, em outros termos, a uma reestruturação na sociedade, de cima a baixo. Em que pese toda a perversidade deste processo, atualmente, é o que estamos testemunhando.
Cabe dizer que muitas perguntas ainda pairam sobre esta breve exposição. Em se tratando de uma apresentação bastante panorâmica, cujos objetivos se concentraram tão somente na tentativa de melhor situar
56 Os neoliberais constituem a expressão histórica dominante do grupo que luta pela construção de
uma nova ordem. Entretanto, ao combinarem à visão de um Estado mínimo, guiado pelo livre mercado, à visão de um Estado forte no que diz respeito à vigilância e garantia da estabilidade política e ideológica do sistema, aliando-se aos neoconservadores, acabam por ter potenciados os mecanismos necessários ao cumprimento de seus propósitos (GENTILI, 1995).
nosso interlocutor diante deste debate, optamos por não verticalizar nossa análise. Procuramos apenas explicitar a natureza estrutural do atual momento de crise, pontuando alguns de seus antecedentes e principais desdobramentos a fim de evidenciar a transição pela qual estamos passando. Enfim, se muda a economia, se muda a política e se muda a cultura, muda também o lazer. Doravante, percorrendo cada um destes planos, ao passo que retomaremos alguns dos pontos já levantados, interessa-nos apanhar os nexos que imputam ao lazer sua subsunção à forma mercadoria, o que será feito a partir do exame daqueles fatores que julgamos essenciais à compreensão deste fenômeno, quais sejam:
- o aumento da taxa de exploração do trabalho, dada pelo prolongamento da jornada e a intensificação do trabalho, com a diminuição, fragmentação e flexibilização do tempo livre, na esfera econômica;
- a taxa de utilização decrescente no capitalismo, com a necessidade de aceleração do tempo de giro do capital e aumento da produção de descartáveis, ainda no palco da economia;
- o ataque aos direitos sociais, com a prevalência do princípio do mérito em face do fim do Estado do Bem-Estar e avanço das teses neoliberais, no terreno da política; e
- a relativização do luxo e da necessidade, dada pelo relaxamento do proibicionismo, pelo crescente apelo ao consumo e pela constante redefinição dos chamados estilos de vida, o que se verifica no plano da cultura.