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D OMÍNIOS DO M ERCOLAZER

1. Explosão divertida

O momento de afirmação do que optamos por chamar de

mercolazer como o padrão dominante das experiências de lazer coincide

com o processo de mundialização da cultura, o que ocorre quando um conjunto de manifestações e expressões culturais, embora bastante diverso, passa a operar sobre uma base material, tecnológica e econômica comum, o mercado globalizado. Conforme assinala Ortiz (1994), parques,

shoppings, restaurantes, roupas, festas, computadores, carros, aviões,

brinquedos, sanduíches, esportes, danças, filmes, feiras, músicas e vários outros produtos carregam os traços e evidências desta envolvente dinâmica que apanha e se espalha pelo mundo, invadindo o dia-a-dia, definindo formas de sociabilidade, amoldando subjetividades, modificando hábitos, valores e comportamentos. É esse movimento que traduz aquilo que estamos denominando explosão divertida.

Embora concordando com Leher (2001), para quem a noção de globalização, longe de se apresentar como um marcador temporal que signifique mudanças na estrutura do capitalismo, mas, ao contrário, tem silenciado o debate sobre a natureza da crise econômica que teria motivado a reestruturação produtiva, julgamos que sua utilização pode, sim, auxiliar-nos na tentativa de uma periodização que corresponda ao momento de afirmação do mercolazer, quando produtos peculiares que noutras épocas eram tidos como antivalores ou antimercadorias se submetem à lei geral da produção capitalista. Como diria Marx (2001b), houve um tempo em que se trocava somente o supérfluo, o excedente da produção. Houve também um tempo que não só o supérfluo, mas todos os

produtos ganhavam o caminho do mercado. Chegou então o tempo em que tudo o que antes era considerado inalienável se tornou objeto de troca.

Viagens de férias, passeios de fim de semana, cinema, teatro, danceterias, bares e restaurantes e parques de diversões estão nesse galho florescente da economia. [...] A bilionária indústria do entretenimento, ao contrário de outras atividades econômicas, raramente vende produtos que podem ser pesados e medidos, como um automóvel e um sabonete. Quem compra lazer, geralmente está adquirindo coisas imensuráveis, como bons momentos com a família ou os amigos, paisagens bonitas, sons e imagens, e até status, como poder dizer: fui ao parque tal, no país tal. [...] O crescimento das atividades de lazer no Brasil se deve à combinação de dois fatores. O primeiro é que o entretenimento está em alta no mundo todo. O segundo motivo é a estabilização da economia brasileira. É difícil encontrar um único produto ou serviço cuja venda não tenha disparado depois do Real.144

Em tempos de globalização, de acumulação flexível, de mundialização da cultura, de venalidade universal, quando se conjugam os fatores já identificados – como a superexploração do trabalho, a taxa decrescente do valor de uso das mercadorias, as políticas neoliberais, a diminuição do tempo de giro do capital, a obsolescência planejada, a aceleração dos ritmos e processos cotidianos, a relativização do luxo e da necessidade –, a mercantilização do lazer assume proporções de dominância, com acentuada expansão dos negócios do setor. No Brasil, ainda que percebida e anunciada com entusiasmo como um reflexo da estabilidade econômica, a explosão divertida pode sim ser creditada ao Governo FHC145, porém, muito mais por sua adesão aos programas de

144 Trechos da matéria “Explosão divertida”, publicada pela revista Veja, em 3/4/1996.

145 Cabe lembrar que todo o processo de abertura dos mercados, privatizações, modernização

conservadora e implementação das demais políticas neoliberais no Brasil tem o seu início no Governo Collor, em 1990; é tímida e acidentalmente interrompido no Governo Itamar, em 1993; depois é retomado com toda força no Governo FHC, a partir de 1994.

ajuste – privatização acelerada, financiamento ao capital privado, enxugamento do Estado, desregulação da economia, nova política fiscal e monetária etc. – ditados a partir do FMI e Banco Mundial do que por qualquer outro motivo, uma política que, de acordo com Ianni (1999), promoveu a subsunção real da sociedade nacional à sociedade global.

Todavia, a explosão divertida, bem como o processo de globalização, não podem ser vistos como fenômenos que irrompem a história de modo assim tão inesperado. A rigor, o capitalismo não existe senão como o resultado da formação progressiva de um mercado mundial. Nesta perspectiva, os antecedentes da hoje conhecida globalização remontam a própria consolidação do capitalismo como um período histórico dominado pela relação capitalista de produção.146 Contudo, como

indica Ianni (1995), é entre o fim dos anos 1970 e início dos anos 1990 que o processo de globalização intensifica a internacionalização e integração da produção do capital como um amplo sistema de dominação e subordinação econômica interdependente. Redesenhando a divisão internacional do trabalho, dispersando territorialmente as atividades industriais, impulsionando o setor de serviços, derrubando as barreiras comerciais, articulando mercados e mercadorias, agilizando os circuitos financeiros – tudo isso dinamizado pelas novas tecnologias –, a globalização encontra na livre, acelerada e generalizada circulação de capitais a base material para a sua preponderância.

Neste cenário, conforme adverte Mészáros (2002), o notável crescimento e desenvolvimento das forças produtivas, trazendo consigo a ampliação do círculo de produção, agora globalizado, coloca a necessidade

146 Os antecedentes mais remotos da internacionalização do capital datam do século XIX, contexto

de uma economia mundial hegemonizada pela Inglaterra, quando são realizados, ainda que em reduzida escala, investimentos diretos nos países periféricos, sobretudo na América Latina, normalmente junto às empresas envolvidas com a produção de matéria-prima. Para saber mais sobre a natureza expansionista do mercado, a tendência a transnacionalização das empresas e a dimensão mundial do processo civilizatório inaugurado pelo capital, ver Mello (2000).

de um novo e diferente tipo de consumo, exigindo que o seu círculo também se amplie. Detecta-se tanto o crescimento quantitativo do consumo já existente, como a criação de novas e variadas necessidades. Para isto, combina-se a abertura de novos mercados em diferentes regiões com a propagação de necessidades já existentes, estimulando segmentos como menor poder de compra a consumirem mercadorias que antes eram somente acessíveis à população com maior renda. Há então um processo de generalização e diferenciação do consumo, quando se incentiva o mimetismo, pelos “de baixo”, dos padrões e estilos de vida dos “superiores”, lógica que tem orientado a propagação do mercolazer pelo vasto mercado-mundo em formação.

Vale ainda dizer que esse processo segue uma tendência de desenvolvimento desigual, com incidência e ritmos geograficamente diferenciados, variando conforme as determinações econômicas, políticas e culturais com as quais toma contato em cada país, região ou pedaço. De qualquer modo, não obstante à antinomia centro-periferia, é neste contexto que a produção do mercolazer se generaliza. Todavia, ao localizarmos na dinâmica da globalização o momento de afirmação das relações mercantis como padrão dominante das práticas de lazer, não estamos desconsiderando que a antecipação da manifestação do lazer sob a forma mercadoria possa ser localizada em datação anterior. Seguindo as premissas do desenvolvimento histórico do capital,147 tal antecipação

apresenta-se como condição para a explosão divertida ou boom do

mercolazer, momento a partir do qual a categoria do comércio

decisivamente se apodera deste serviço que antes nela se encontrava incluída apenas esporádica ou parcialmente.

147 Sobre o desenvolvimento histórico do capital, especificamente sobre o debate a respeito das