2.5.2 “Issue-framing” como modelo de coexistência entre normas internacionais: as reflexões de Martti Koskenniem
2.6. Fórmulas alternativas
2.6.2 A OMC e os conflitos entre normas comerciais e ambientais
À diferença do tratamento do tema no âmbito minilateral, ilustrado no item precedente pelo exame das cláusulas de conflitos entre normas ambientais e comerciais previstas nos acordos de livre comércio (alc´s) celebrados pelos EUA,199 no âmbito da OMC não há previsão de uma regra de conflito estrito senso para dirimir eventuais controvérsias envolvendo compromissos comerciais e ambientais. Essa ausência até o presente momento explica-se em parte pelo receio, sobretudo dos países em desenvolvimento, de que o tema ambiental possa vir a ser instrumentalizado no âmbito da Organização para encobrir práticas protecionistas dos países desenvolvidos. Contudo, diante da proliferação de MEAs contendo obrigações comerciais específicas, o tema do conflito entre esses acordos e a normativa multilateral ganharia maior visibilidade200 na agenda da OMC, passando desde 1994 a integrar seu programa de trabalho. Para sua execução, foi criado o Comitê de Comércio e Meio Ambiente, que não logrou realizar maiores avanços no tratamento do tema até o presente momento.201202203
4. The Parties also recognize the importance of public participation and consultations, as provided by domestic law, on matters concerning the conservation and sustainable use of biological diversity. The Parties may make information publicly available about programs and activities, including cooperative programs, it undertakes related to the conservation and sustainable use of biological diversity.
5. To this end, the Parties will enhance their cooperative efforts on these matters, including through the ECA.”
199
Conforme se pôde constatar no item precedente, alguns dos alc´s celebrados pelos EUA estabelecem a precedência de determinados MEAs sobre as disciplinas comerciais daqueles acordos.
200
Segundo Daniel C. Esty, essa crescente visibilidade do tema ambiental no plano internacional também se explica por uma nova conjuntura econômica, política e social, marcada pela cescente conscientização, sobretudo nos países mais afluentes, sobre a importância do meio ambiente para a qualidade de vida de seus cidadãos. Essa nova conjuntura caracteriza-se ainda pela natureza transfronteiriça de determinados danos ambientais, que requerem maior disciplinamento no plano internacional. Ver Daniel C. Esty. El Reto Ambiental de la
Durante a Conferência Ministerial de Doha, realizada em 2001, seria aprovado mandato para iniciar negociações sobre a inter-relação entre as normas da OMC e os MEAs, especialmente aqueles que prevêem obrigações comerciais específicas (STOs). Além desse tópico, essas negociações teriam como foco a definição de procedimentos para o intercâmbio de informações entre os Secretariados dos MEAs que incluem STOs e os Comitês pertinentes da OMC.
Dentre os principais documentos de trabalho produzidos pelo Comitê, cabe destacar a seguinte matriz de obrigações comerciais específicas (STO) previstas em alguns MEAs vigentes: (1) aquelas que se revestem de caráter mandatório; (2) outras de cumprimento facultativo; (3) compromissos adotados voluntariamente pelas Partes autorizando a adoção de medidas comerciais com fins ambientais, desde que em conformidade com o Direito Internacional.
Uma das principais críticas ao trabalho do CTE sobre STOs seria seu foco limitado, na medida em que não abrangeria o exame de dispositivos de um MEA que embora não
eletrônico:www.wto.org.
202
Os poucos avanços alcançados pelo CTE levariam a sucessivas renovações de seu mandato, cujos termos iniciais eram os seguintes:
a) elaborar recomendações sobre a necessidade de introduzir eventuais emendas aos acordos da OMC, com vistas a garantir o objetivo do desenvolvimento sustentável;
b) definir a inter-relação entre as regras do sistema multilateral de comércio e as medidas comerciais contidas nos acordos ambientais multilaterais, bem como entre os respectivos sistemas de solução de controvérsias;
c) avaliar o impacto comercial da adoção de taxas e regulamentos ambientais, bem como de requisitos de embalagem e etiquetagem;
d) examinar o grau de transparência das medidas comerciais adotadas com objetivos ambientais;
e) avaliar o impacto das medidas ambientais adotadas pelos países desenvolvidos sobre as condições de acesso a seu mercado pelos países em desenvolvimento e de menor desenvolvimento;
g) examinar o tema da exportação de mercadorias, cuja venda está proibida no país de origem, em particular de detritos perigosos;
h) examinar a relação entre as políticas ambientais relacionadas com o comércio e as medidas ambientais que tenham efeitos comerciais significativos e as disposições do sistema multilateral de comércio.
203
Paralelamente à sua inclusão na agenda do CTE e posteriormente como um dos itens do mandato negociador emanado da reunião ministerial de Doha, os conflitos entre comércio e meio ambiente têm permeado a OMC, através do Órgão de Solução de Controvérsias. O tratamento do tema no âmbito do OSC tem como divisor de águas o caso atum –golfinhos contra os Estados Unidos. A decisão do painel nesse caso dispondo que os EUA teriam violado suas obrigações multilaterais ao proibir a importação de atum pescado com redes que levavam à captura de golfinhos geraria a ira da comunidade ambiental, que interpretou essa decisão como um privilegiamento pela OMC das obrigações comerciais em detrimento de preocupações legítimas de determinados Membros com a preservação do meio ambiente. Segundo Daniel Esty, esse caso tornou-se uma bandeira para criticar a OMC, cujas normas e modus operandi impediriam os Membros de adotar políticas públicas legítimas voltadas à proteção do meio ambiente, sem o risco de serem questionados por uma instância supranacional. Ver Esty, op.cit. (2001), p. 58.
envolvam uma STO, podem ter um impacto comercial restritivo.204 A exclusão dessas hipóteses não ofereceria às Partes Signatárias de um acordo ambiental maiores garantias sobre se teriam liberdade de adotar uma medida voltada para a proteção do meio ambiente, sem o risco de serem questionadas sobre sua compatibilidade com a normativa multilateral de comércio.
Sem prejuízo desse tipo de consideração, cabe assinalar que até o momento o CTE não logrou avançar na discussão sobre se uma medida adotada de forma consistente com uma obrigação comercial específica em um MEA se beneficiaria da presunção de conformidade com as normas multilaterais de comércio ou se seria examinada, à luz dos critérios estabelecidos no caput do artigo XX para justificar sua adoção.205
Outra questão relevante relacionada ao tema que não consta, contudo, do mandato do CTE, diz respeito ao impacto comercial das medidas adotadas ao amparo de um acordo ambiental, em relação àqueles países que não são suas Partes Signatárias. Essa questão foi levantada durante o painel da OMC relativo à moratória das CE na aprovação de novos produtos biotecnológicos, que em sua defesa argumentou que suas medidas encontrariam amparo no Protocolo de Cartagena. Para o painel, o fato de os co-demandantes não serem Partes nesse instrumento não justificaria sua aplicação para resolver a mencionada disputa. O Protocolo tampouco cumpriria, a seu ver, uma função informativa, no sentido de esclarecer eventualmente algum dos termos utilizados nos acordos abrangidos. Apesar de rechaçar a aplicação do Protocolo, o painel em suas considerações finais manifestaria seu entendimento de que a interpretação de um tratado à luz de outras normas de Direito Internacional aumenta ou pelo menos contribui para ampliar a consistência das normas de Direito Internacional aplicáveis às relações entre as Partes, obviando potenciais conflitos entre as mesmas.
Por ora, na ausência de uma norma dispondo sobre o assunto, a legalidade das medidas ambientais adotadas ao amparo de um MEA em relação a países que não são suas Partes Signatárias seria examinada, em princípio, à luz dos critérios estabelecidos no artigo
204
Dentre esses dispositivos, poderiam estar aqueles que exigem, por exemplo, a reciclagem de produtos ou a utilização de determinados tipo de embalagem.
XX do GATT-94, que autoriza a adoção de medidas voltadas à proteção do meio ambiente, desde que não constituam uma restrição comercial encoberta. Tendo em vista a importância desse dispositivo como instrumento de defesa no âmbito da OMC das medidas ambientais adotadas pelos Membros, será examinado no item subsequente seu papel no processo de acomodação ente MEAs e a normativa multilateral de comércio.
2.6.2.1.
Artigo XX do GATT-94
Para alguns autores, como Daniel Esty, Steve Charnovitz,206 Kevin Gray , o artigo XX do GATT-94 representa uma fórmula satisfatória de acomodação entre as obrigações comerciais dos Membros da OMC e sua prerrogativa de adotar medidas voltadas à proteção do meio ambiente amparados em sua legislação doméstica ou então em algum acordo ambiental multilateral. Esse artigo seria, assim, suficiente na visão desses autores para assegurar a compatibilidade dos MEAs existentes com os acordos da OMC, tornando desnecessárias as discussões ora em curso sobre o tema no Comitê de Comércio e Meio Ambiente (CTE) da Organização.
A eficácia dessa fórmula de acomodação foi testada no âmbito da OMC nos seguintes casos: proibição norte-americana de importar certos camarões207; imposição de estándares para a gasolina reformulada importada208 e proibição de venda de produtos contendo amianto.209 Em linhas gerais, a interpretação dada pelo Órgão de Solução de Controvérsias nesses casos foi no sentido de que os acordos da OMC deveriam ser interpretados, tendo presente as preocupações da comunidade internacional em relação à proteção e conservação do meio ambiente, plasmadas em acordos multilaterais ambientais que contam com um número amplo de Membros.
206
Ver Steve Charnovitz, Trade and Environment in the WTO (Journal of International Economic Law, Vol. 10, September 2007. Disponível no seguinte endereço eletrônico: http://ssrn.com/abstract=1007028).
207
Ver relatório do Órgão de Apelação no caso United States- Import Prohibition of Certain Shrimp and Shrimp Products (WT/DS58/AB/R, doc. 98-3899, de 12/10/1998).
208
Ver United States –Standards for Reformulated and Conventional Gasoline – Request for Consultations under article XXII.1 of GATT-94, by Brazil (WT/DS4/1, doc 95-0915, de 12/04/1995).
209
Ver relatório do Órgão de Apelação no caso European Communities –Measures Affecting Asbestos and Asbestos Containing Products ( WT/DS 135/AB/R, AB -2000 –11, de 12/03/2001).
Para os críticos da fórmula contemplada no artigo XX, a interpretação dos dispositivos de um MEA no âmbito da OMC cria uma situação inusitada de ter um instância internacional sem qualquer expertise ambiental dispondo não só sobre o alcance, mas também sobre a necessidade de medidas adotadas legitimamente ao amparo desse tipo de acordo. Esse tipo de consideração põe evidência algumas das limitações das “exceções ambientais gerais” para acomodar satisfatoriamente os compromissos da OMC com aqueles previstos em MEAs. Essas limitações não decorrem unicamente de questionamentos à competência da OMC para julgar temas que, embora tenham implicações comerciais, não integram o seu universo normativo. Também estão associados ao fato de as decisões proferidas pelo OSC não criarem precedentes de observância obrigatória, seja para os Membros da Organização, seja para as Partes Signatárias de MEAs, cujas disposições foram consideradas eventualmente inaplicáveis pelo OSC.