2.5.2 “Issue-framing” como modelo de coexistência entre normas internacionais: as reflexões de Martti Koskenniem
CAPÍTULO 3 ANÁLISE DO CASO BIOTECH
3.6 Aplicabilidade do Acordo GATT-1994 à disputa
A aplicabilidade do Acordo GATT-1994 à disputa seria examinada pelo painel, tendo presente, por um lado, as alegações dos co-demandantes de que as salvaguardas nacionais representariam uma violação aos artigos III.4 e XI e, por outro, a defesa das CE de que seu comportamento estaria justificado por uma das exceções previstas no artigo XX desse instrumento.
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Para o painel, a cláusula “salvo o disposto no parágrafo 7 do artigo 5” exime os Membros da obrigação imposta pelo parágrafo 2 do artigo 2 de só adotar medidas SPS, com base em evidências científicas suficientes.
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Para o Canadá, a incompatibilidade das salvaguardas nacionais com o artigo 2.2 decorre do fato de não cumprirem com as seguintes exigências previstas nesse dispositivo: 1) necessidade para proteger a vida e a saúde das pessoas e dos animais ou para preservar os vegetais; 2) fundamentação com base em princípios científicos sólidos; e 3) manutenção com base em suficientes evidências científicas, salvo o disposto no parágrafo 7 do artigo 5.
3.6.1 Artigo III.4
O painel examinaria inicialmente as alegações formuladas por Canadá e Argentina com relação à incompatibilidade das medidas comunitárias com o parágrafo 4 do artigo III do GATT-94. Esse dispositivo estabelece, em linhas gerais, que os produtos do território de qualquer Parte contratante importados para o território de outra Parte Contratante não deverão receber um tratamento menos favorável que o concedido a produtos similares de origem nacional, no que se refere a qualquer lei, regulamento ou prescrição que afete a venda, a oferta para a venda, a compra, o transporte, a distribuição e o uso destes produtos no mercado interno.421
Para o Canadá, as salvaguardas aplicadas por determinados Membros422 das CE seriam incompatíveis com esse dispositivo, uma vez que teriam afetado a distribuição e comercialização de produtos biotecnológicos importados em favor de produtos similares não biotecnológicos produzidos por esses Membros.
Invocando suas conclusões de que as salvaguardas impugnadas seriam incompatíveis com o artigo 5.1 e consequentemente com o artigo 2.2 do Acordo SPS, o painel afirmaria que por razões de economia processual, se eximiria de examinar a compatibilidade dessas medidas com o artigo III.4. Com relação especificamente às alegações argentinas sobre a aplicabilidade desse último dispositivo à disputa, o painel afirmaria inicialmente seu entendimento de que um Membro, ao iniciar e ultimar seus procedimentos de aprovação, estaria em princípio autorizado a estabelecer diferenças de tratamento entre produtos similares, o que de per se não implica automaticamente uma discriminação contra produtos importados em favor de similares de origem nacional.423
Seguindo essa linha de raciocínio, afirmaria ainda que o fato das autoridades competentes de um Estado Membro, no cumprimento dos procedimentos regulatórios de seu país, terem alcançado conclusões desfavoráveis em relação à liberação de um produto importado não seria suficiente para demonstrar que esse produto teria recebido um tratamento
421
Ver páginas 1064 e 1065 do relatório do painel. (Documento WT/DS 291, WT/DS 292, WT/DS 293).
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O Canadá mencionaria textualmente a Áustria, França e Itália.
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menos favorável, se existirem fatores ou circunstâncias não relacionadas à sua origem que expliquem esse resultado.
O painel rechaçaria, assim, a alegação dos co-demandantes de tratamento discriminatório por parte das CE na aplicação de seus procedimentos de aprovação a produtos biotecnológicos importados em favor de produtos convencionais similares de origem nacional. Em sua avaliação, o rigor das autoridades regulatórias comunitárias na tramitação de inúmeras solicitações envolvendo produtos biotecnológicos importados não seria devido à sua origem e sim à necessidade de avaliar a inocuidade e os eventuais riscos associados a seu consumo, tendo em vista suas particularidades. Em vista desses argumentos, o painel concluiria que os procedimentos autorizativos das CE424 não teriam sido iniciados ou ultimados de maneira menos favorável aos produtos importados do que em relação aos produtos de origem nacional, não tendo as Partes reclamantes apresentado evidências suficientes para estabelecer uma presunção de que o tratamento supostamente menos favorável se deve à origem estrangeira dos produtos biotecnológicos penalizados com as salvaguardas.425
Seguindo essa linha de argumentação, o painel afirmaria que os Membros estariam autorizados a aplicar procedimentos de autorização mais estritos a produtos biotecnológicos importados, independentemente de sua origem, caso surjam novas evidências científicas indicando que os riscos associados a esses produtos haviam sido subestimados. Essa interpretação, segundo o painel, estaria amparada no próprio artigo 5.1 do SPS, que exige uma análise de risco adequada às circunstâncias, que podem alterar-se em função do surgimento de novas evidências científicas.426
A partir da constatação de que as Partes reclamantes não teriam demonstrado suficientemente que os produtos importados foram tratados de modo menos favorável que os produtos de origem nacional, no que se refere ao início e conclusão dos procedimentos de
424
Tais procedimentos estão estabelecidos no Regulamento CE N° 258/97 e nas Diretivas CE 90/220 e 2001/18.
425
aprovação vigentes nas CE, o painel se eximiria de pronunciar-se sobre a questão da similaridade entre esses produtos.427
3.6.2 Artigo XI
O painel também examinaria a compatibilidade das salvaguardas nacionais aplicadas por um dos Estados Membros, no caso a Grécia, à luz do parágrafo 1 do artigo XI do GATT- 94. Esse dispositivo estabelece, em linhas gerais, que nenhuma parte contratante imporá ou manterá –além de direitos aduaneiros, impostos ou outros encargos – proibições ou restrições à importação de um produto do território de outra Parte Contratante ou à exportação ou à venda para a exportação de um produto destinado ao território de outra parte contratante, seja mediante contingenciamentos, licenças de importação ou de exportação ou por meio de outras medidas.
Por razões de economia processual, o painel invocaria suas conclusões quanto à incompatibilidade das salvaguardas nacionais com o artigo 5.1 e consequentemente com o artigo 2.2 do Acordo SPS, para eximir-se de examinar a alegação das Partes reclamantes de que essas medidas constituiriam uma violação ao artigo XI do GATT-94.428
427
A ênfase no aspecto da similaridade como condição para deflagrar a aplicação do artigo III.4 seria um dos elementos centrais da defesa comunitária com relação às alegações de violação do princípio do Tratamento Nacional. Segundo as CE, tal violação só poderia ocorrer se as Partes reclamantes tivessem demonstrado que os produtos importados receberam tratamento menos favorável do que produtos nacionais similares. Tal comprovação, contudo, não poderia ser feita, segundo as CE, uma vez que suas autoridades regulatórias não teriam tomado mais tempo para autorizar a importação de OGMs do que para autorizar seu cultivo ou processamento doméstico por produtores locais. As CE defenderiam ainda o argumento de que na comparação entre dois produtos para fins de aferir sua similaridade, o painel não deveria basear-se em categorias tão amplas ou termos tão genéricos como a respectiva contra-parte não biotecnológica produzida domesticamente e sim buscar identificar semelhanças entre dois produtos com relação aos seguintes aspectos: propriedades físicas, natureza, qualidade, uso final e preferências do consumidor.
428
3.6.3 Artigo XX
Conforme indicado em item precedente, a questão da aplicabilidade do artigo XX à disputa seria levantada pelas CE, como defesa que o painel eventualmente deveria ter presente, caso viesse a considerar suas medidas incompatíveis com os artigos III.4 e XI.1 do GATT-94 ou com as obrigações estabelecidas no SPS e no TBT. Nessa hipótese, as CE advogariam que o painel deveria examinar primeiramente se suas medidas estariam amparadas por uma das exceções contempladas nas alíneas b), d) ou g) do artigo XX. Deveriam examinar, ainda, à luz do caput desse artigo se as medidas comunitárias constituiriam uma discriminação arbitrária ou injustificável entre países onde prevalecem as mesmas condições ou uma restrição encoberta ao comércio internacional.
Os co-demandantes, por sua vez, rechaçariam os argumentos das CE quanto à aplicabilidade das exceções gerais do artigo XX para eximir-se do cumprimento de seus compromissos no âmbito tanto do GATT-94, quanto dos Acordos SPS e TBT, por entender que as Comunidades não teriam logrado demonstrar que suas medidas seriam efetivamente necessárias para proteger a saúde e a vida humana e dos animais ou para preservar os vegetais. As CE tampouco teriam apresentado evidências de que as medidas adotadas não constituiriam um meio de discriminação arbitrária ou injustificável entre países onde prevalecem as mesmas condições.429
Amparando-se em sua constatação de que as Partes reclamantes não teriam logrado provar que as CE teriam violado o artigo III.4, o painel alegaria novamente alegaria razões de economia processual para eximir-se de fazer qualquer pronunciamento acerca da aplicabilidade do artigo XX à disputa.