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A OMS, ao publicar o documento Estratégias sobre a Medicina Tradicional 2002- 2005, tem como objetivo estimular os Estados nacionais a regular, disciplinar e controlar as medicinas tradicionais, integrando-as aos seus sistemas de saúde oficiais. O discurso aqui veiculado é uma forma de exercício do poder biomédico66 que informa dos organismos internacionais sobre a medicina tradicional (GREENE, 1998). Neste contexto discursivo, a medicina científica (biomedicina) torna-se um instrumento do desenvolvimento econômico dos países pobres, além de se constituir na instância capaz de validar a MT de modo a regulamentá-la e torná-la universal, seja como objeto de políticas nacionais, seja como produto e serviço a ser disponibilizado no mercado mundial.

O interesse médico sobre as medicinas tradicionais se ampliou como uma possibilidade de desenvolvimento dos países pobres durante a década de 70. Com o reconhecimento de que a biomedicina não é o único sistema médico viável e com a pluralidade dos sistemas terapêuticos, instaurou-se a possibilidade de exploração da MT como cuidado alternativo de saúde. A partir desse momento, a ideia de integração ou colaboração entre a MT e a biomedicina passou a ser fomentada.

Se por um lado, a colaboração pode ser entendida como uma maneira de legitimar práticas das medicinas tradicionais e utilizá-las para ampliar a cobertura da atenção primária nos países em desenvolvimento; por outro, sob a ideia de colaboração, existem interesses econômicos do desenvolvimento médico,67 na medida em que elas se apresentam como alternativas terapêuticas de baixo custo.

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Para os fins desta tese, entende-se o poder biomédico como uma das faces do poder simbólico-administrativo exercido pelos Estados-Nação e pelos organismos internacionais. Greene (1998) estabelece uma diferença entre recursos biomédicos - serviços, produtos, biotecnologias; medicina biomédica, enquanto medicina

científica-ocidental sustentada sobre o paradigma biológico; e influência política internacional

biomedicamente orientada (política de saúde, organização e pesquisa) entendida aqui como poder biomédico. Enquanto o acesso à primeira pode ser limitado devido ao seu alto custo (caso dos países sul-americanos), a última continua em expansão (GREENE, 1998, grifo nosso).

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“Em 1978 a WHO declarou a política da ‘Saúde para todos antes do ano 2000’, citando a necessidade para o acesso mundial a um sistema de cuidados em saúde primário (BRYANT, 1980). Implícita nesta política está a asserção de que o macrossistema do cuidado em saúde primário seria fornecido sobre a supervisão da burocracia biomédica. Debaixo dessa política, o avanço do desenvolvimento médico seria organizado, dirigido, regulado e controlado por uma sistematização (internacional e nacional) extensiva dos recursos de cuidado em saúde em países em desenvolvimento com a OMS como superintendente definitivo” (GREENE, 1998).

O conceito de colaboração, do ponto de vista do desenvolvimento, expressa a ressurgência da oposição entre progresso cultural representado pela ciência, pelos Estados desenvolvidos e pela cultura ocidental, em oposição às culturas estáticas, representadas pela tradição, pelas nações subdesenvolvidas e pelas culturas indígenas. Aqui, a MT é compreendida como um conjunto de práticas estáticas e passivas que se perpetuam desde tempos imemoriais e que, portanto, estão arraigadas a crendices populares.

Além de ter como função a identificação das práticas úteis, a ciência médica também deve contribuir para aprimorar os recursos terapêuticos da MT de forma a integrá-los aos sistemas de cuidados primários de saúde, depurando-os de seus aspectos culturais. Esse esforço para cientificizar as medicinas tradicionais está impregnado pela ideia ocidental hegemônica de explorar os potenciais que elas encerram, mesmo quando ele se apresenta sob o rótulo da “colaboração”. Nesse sentido, a cooperação entre a biomedicina e a MT está informada por diferentes interesses que, ao subordinar as medicinas tradicionais à racionalidade científica, encerram a pretensão de universalizá-las.

A relação entre MT e medicina moderna, como aparece nos discursos oficiais, coloca a ciência biomédica numa posição hierárquica superior, estabelecendo-a como o agente que detém o poder da mudança para ativar e aprimorar os recursos terapêuticos passivos e estáticos da MT. Na visão desenvolvimentista, as medicinas tradicionais estão destituídas de agência, cabendo à biomedicina ativá-las. Dessa forma, para cooperar com os sistemas de saúde nacionais, a MT precisa primeiramente ser atualizada e aprimorada, ou seja, transformada (GREENE, 1998).

Ideias de desenvolvimento sobre a integração das etnomedicinas estão imersas em um pântano de construções ocidentais que apagam a agência social dos praticantes das etnomedicinas – a habilidade para realizar mudanças sociais, culturais, enfim médicas –, via a manutenção de sua ideologia que define o estático como a contraparte negativa do progresso. Essa ideologia, por sua vez, valoriza o desenvolvimento como o único representante do progresso em si mesmo. [...] Embora a etnomedicina esteja, em certa medida, legitimada como um recurso médico útil e alternativo, isso é somente na extensão que ela é manipulada pelo governo, pela economia da pesquisa biomédica científica ocidental e pela comunidade política de saúde. A etnomedicina é útil ao desenvolvimento somente na medida em que ela é cientificizada por intermédio de meios biomedicamente validados (GREENE, 1998).

As políticas da tradição têm, sistematicamente, descontextualizado os conhecimentos, as práticas e os praticantes da MT. Dificilmente a visão desenvolvimentista

perceberá as práticas da medicina tradicional como instituições socioculturais. A tentativa, por exemplo, de avaliar as medicinas tradicionais indígenas, que são sistemas médicos xamânicos, nos termos objetivos da medicina baseada em evidências, descontextualiza e fragmenta o xamanismo ao reduzi-lo a uma prática terapêutica e não dar conta dos múltiplos papéis desempenhados pelos xamãs nas sociedades indígenas.

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