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De acordo com os discursos veiculados durante as reuniões do Alto Juruá, as principais funções desempenhadas pelo AIS em suas comunidades são: encaminhamento e acompanhamento de pacientes aos serviços de saúde; monitoramento do crescimento e desenvolvimento das crianças; acompanhamento das gestantes e dos demais “pacientes” que estão recebendo tratamento biomédico; fornecimento de primeiros socorros; apoio às atividades desenvolvidas pela EMSI nas comunidades; levantamento de dados referentes à saúde dos membros da comunidade; realização de visitas domiciliares e de palestras tratando       

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“Alguns grupos Pano afirmam nunca terem tido este tipo de xamãs ou pajés – como os yawanawa (PEREZ, 1999: 110), Yaminawa (TOWNSLEY, 1988; CALAVIA, 1995), Sharanahua (SISKIND, 1973A) e Cashibo (Frank, 1994; PEREZ, 1999: 114) – enquanto outros afirmam possuí-los como o romeya entre os Marubo (MELATTI, 1985) e o Muraya entre os Shipibo (ILLIUS, 1992), ou dizem que o conheciam no passado, como o romeya entre os Katukina (COFFACI, 2000) e o mukaya dos Kaxinawa” (LAGROU, 2007: 375- 377). 

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“O dauya, ‘aquele como remédio’, mata e cura através do uso das plantas, e o mukaya, ‘aquele com amargo’, cura e também pode matar com a ajuda dos yuxin (espíritos) através da substância amarga muka que traz dentro do corpo e que é a materialização do poder xamânico” (LAGROU, 2007: 367).

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“As reais pessoas que conheci se situam todas em algum lugar entre os dois (mukaya e dauya), mulheres e homens conhecem bastante bem as plantas medicinais e venenosas além dos yuxin [espíritos], sua onipresença fertilizante ou letal, e os modos de lidar com eles” (LAGROU, 2007: 370). 

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“Quando uma criança chora muito de noite, entende-se que um yuxin está tentando levar sua alma, neste caso folhas são queimadas para afastar os yuxin; quando uma pessoa é pega pelos yuxin, será com plantas medicinais espremidas nos olhos que ela será trazida de volta à vida normal; e se os yuxin da caça vêm, não para roubar a alma, mas para transformar o corpo da vítima em um deles, será novamente com plantas que os humanos os combaterão” (LAGROU, 2007: 399).

sobre temas específicos relacionados à saúde (OLHAR ETNOGRÁFICO, 2006b). Mas, no que concerne à atenção prestada à gestação e ao parto, o trabalho dos AIS se complexifica, inclusive, no que se refere à relação mantida com os demais cuidadores indígenas da saúde.

Um agente de saúde Katukina conta que, quando as mulheres estão grávidas, ele pergunta se elas estão se sentindo bem, se têm dor, corrimento, sangramento ou se estão com fraqueza. Se alguns desses sintomas forem identificados, o AIS ministra o “remédio da farmácia” que estiver à sua disposição. Se isso não resolver o problema, então, ele encaminha a mulher aos serviços de saúde e a acompanha durante as consultas, relatando ao profissional – médico ou enfermeira – o que ela está sentindo. No retorno da consulta, é ele quem “faz o tratamento” da gestante ao ministrar os medicamentos prescritos pelo médico. Com isso, ele conclui que, ao fazer o “pré-natal” da grávida, está acompanhando as gestantes da mesma forma que o branco. Esse ponto de vista, o de que o papel do AIS é o de acompanhar as grávidas “igual ao branco”, foi compartilhado por grande parte dos agentes de saúde que participaram das reuniões no Alto Juruá.

Entretanto a maioria dos participantes desses eventos esclareceu que o AIS não atua no momento do parto propriamente dito, devido ao fato de as parturientes se sentirem envergonhadas em frente de outros homens.146 “O AIS lá da nossa aldeia não ajuda a fazer o parto. Ele ajuda no caso de injeção, de medir a pressão, medicamento que esteja precisando. É isso! Não é ajudar a parteira a fazer o parto. Entendeu? Porque a mulher não ia se sentir bem!” (PARTEIRA JAMINAWA-ARARA).

Os Katukina corroboram o ponto de vista dessa parteira, esclarecendo que ao AIS cabe atuar somente após o parto, fornecendo os medicamentos necessários, já que ele é conhecedor dos “remédios de farmácia”.

O agente de saúde mesmo, que trabalha com ‘remédio de farmácia’, só ajuda depois da mulher ganhar neném. Aí agente de saúde toma de conta, dá algum remédio, alguma pílula, alguma coisa. Agora, enquanto ela não ganhar neném, o trabalho é da parteira e do pajé. O pajé sabe trabalhar! Sabe como é! Ou então fica normal, ou então não. Ou então o menino vai nascer pela perna, ou pela mão e neném vai ficar de jeito. Por esse motivo, só parteira e pajé que trabalham. O agente de saúde toma de conta depois da mulher ganhar neném, com o remédio da farmácia mesmo. (PAJÉ KATUKINA)

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Os participantes das reuniões foram unânimes em afirmar a dificuldades dos AIS homens em tratar com os problemas íntimos de saúde vivenciados pelas mulheres de suas comunidades, inclusive pelo fato de estas relações geralmente estarem situadas no contexto comunitário do parentesco.  

Contudo, mesmo sendo, aos olhos das suas comunidades, uma atribuição dos AIS administrar os “remédios de farmácia” aos pacientes, nem sempre os medicamentos básicos estão disponíveis.

A nossa preocupação é essa: falta medicamento básico. Isso é o que nós tamo precisando aqui pra trabalhar. Por que esses agentes de saúde antigo, precisam de medicamento básico, esse medicamento antiinflamatório. Eles precisam, porque já sabem aplicar no paciente. [...] A Funasa deixa pro agente de saúde só aqueles soro velho, aquele paracetamol. Só dois comprimido entrega pro agente de saúde trabalhar. Isso aí nós não trabalha nem uma semana, nem duas semanas. Acaba tudo! (sic) (AIS KATUKINA).

Esta situação encerra um paradoxo constitutivo da posição de entremeio – entre a comunidade indígena e os serviços de saúde não indígenas – ocupada pelo AIS. Se ele é quem detém o conhecimento acerca dos medicamentos, entendimento vigente entre aqueles que participaram dessas reuniões, por que a Funasa não disponibiliza os remédios necessários para ele tratar os seus “pacientes” nas aldeias? Essas reivindicações são importantes por evidenciarem o quanto o AIS, ao ser apropriado e indigenizado pelos povos indígenas do Alto Juruá, emerge nos múltiplos contextos comunitários em que atua como um especialista em “remédios da farmácia”.

Então a questão do medicamento é certa. Eu dou razão pra equipe também, porque nem todos nós entendemos de medicamento. O ponto que eu acho errado, é que tem AIS que entende e eles não dão. Porque jamais eu como agente, vou dar um medicamento pra um paciente se não estou entendendo pra que serve aquilo. Jamais mesmo! Então, eles têm essa desconfiança: dizem que só pode ser dado pelo enfermeiro ou pelo auxiliar; que o agente está lá só pra anotar quantos dias de febre, pra contar o que foi que aconteceu enquanto eles não vieram. Mas se a pessoa já passou mal e enterram, eles vêm só ouvir a mensagem, a novidade do que foi que aconteceu. E o medicamento lá no município!147 [...] Hoje em dia tô ensinando o meu irmão sobre os medicamentos, a dosagem, pra que servem os horários. Então tudo isso eu ensino, pra o dia que eu sair ou que quiser pegar outro trabalho, eu tenho uma pessoa preparada que tem quase o mesmo conhecimento. Aí a pessoa não fica atrapalhada (AIS KAXINAWA).

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