Ao analisar o efeito das recomendações dos organismos internacionais sobre o Estado-Nação brasileiro, que passa a criar políticas públicas para regulamentar coisas, práticas, pessoas e povos tradicionais, pode-se perceber que ambos compartilham tanto o poder de conceituar, classificar e nomear e, portanto, de instituir realidades, quanto o poder administrativo, exercido por meio das práticas de vigilância que controlam a conduta humana.
O poder de nomear e de fazer existir pela nomeação é “uma das formas elementares do poder político” (BOURDIEU, 2005: 143). De acordo com Bourdieu, na luta pelo
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As organizações internacionais surgem no início no século XX com a criação da Liga das Nações em 1918 (Encontro de Versalhes) e têm uma rápida ascensão a partir da 1ª Guerra Mundial (GIDDENS, 2008). 46
Giddens classifica os Estados em diferentes tipos: clássico; colonizado; pós-colonial. Em modernização, o Brasil se enquadra no tipo colonizado, tanto por ter sido formado por emigrantes quanto pelo fato de o processo colonial ter usado a força contra os povos nativos, exterminando determinados grupos e reduzindo outros a uma pequena fração da população original (2008: 284-286).
monopólio do poder, os agentes tentam impor sua visão do mundo social a partir de determinadas estratégias simbólicas como, por exemplo, a nomeação. “A nomeação [...] pertence à categoria dos atos ou discursos ‘oficiais’, simbolicamente eficientes porque realizados em situação de autoridade, por pessoas autorizadas, por uma função ou um cargo atribuído pelo Estado”.
É o Estado quem detém o monopólio do poder de nomear, classificar e ordenar, instituindo taxonomias oficiais.47 Por isso, o Estado é o lugar de concentração e exercício do poder simbólico, sendo um dos seus atributos “produzir e impor as categorias de pensamento que utilizamos espontaneamente a todas as coisas do mundo e ao próprio Estado” (BOURDIEU, 1996: 114).
Ao enunciar, com autoridade, que um ser, coisa ou pessoa, existe em verdade em sua definição social legítima, isto é, é o que está autorizado a ser, o que tem direito a ser, o ser social que ele tem o direito de reivindicar, de professar, de exercer (por oposição ao exercício ilegal), o Estado exerce um verdadeiro poder criador (BOURDIEU, 1996: 114).
Esse poder criador é exercido por meio de discursos oficiais, tais como os veiculados pelas políticas públicas anteriormente apresentadas. O discurso veiculado pelas políticas públicas impõe os sistemas de classificação de mundo sob a aparência legítima das taxonomias oficiais, criando o mundo em que os agentes sociais agem.
O poder simbólico como poder de constituir o dado pela enunciação, de fazer ver e fazer crer, de confirmar ou de transformar a visão do mundo e, deste modo, a ação sobre o mundo, portanto o mundo. [...] Ele se define numa relação determinada – e por meio desta – entre os que exercem o poder e os que lhe estão sujeitos, quer dizer, isto é, na própria estrutura do campo em que se produz e se reproduz a crença. O que faz o poder das palavras [...], poder de manter a ordem ou de subvertê-la, é a crença na legitimidade das palavras e daquele que as pronuncia, crença cuja produção não é da competência das palavras (BOURDIEU, 2005: 15).
Outra face do poder exercido pelo Estado, que está intimamente associada ao poder simbólico, refere-se ao poder administrativo desempenhado por meio de mecanismos de vigilância que permitem o “monitoramento reflexivo da ação” dos agentes sociais que integram o Estado.
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“Se o Estado pode exercer uma violência simbólica é porque ele se encarna tanto na objetividade, sob a forma de estruturas e de mecanismos específicos, quanto na ‘subjetividade’ ou, se quisermos, nas mentes, sob a forma de estruturas mentais, de esquemas de percepção e de pensamento. Dado que ela é resultado de um processo que a institui, ao mesmo tempo, nas estruturas sociais e nas estruturas mentais adaptadas a essas estruturas, a instituição instituída [...] apresenta-se com toda a aparência do natural” (BOURDIEU, 1996: 97- 98).
Por poder administrativo quero dizer [...] o controle do tempo e o espaço das atividades humanas. O poder administrativo é baseado na regulação e coordenação da conduta humana por meio da manipulação das situações nas quais elas ocorrem. A vigilância, assim como o código de informação, é um elemento essencial de tal poder (GIDDENS, 2008: 72).
A vigilância possui dois aspectos distintos: 1º) a coleta, o armazenamento e o controle da informação, empregados para administrar as populações adstritas ao Estado;48 2º) a supervisão direta das atividades exercidas por alguns agentes por parte de outros que se encontram em posições de autoridade. Os dois aspectos da vigilância estão intimamente relacionados, porque:
O poder administrativo pode somente se estabelecer se o código de informação for, na verdade, aplicado de um modo direto para a supervisão das atividades humanas, de modo a destacá-las, em parte, de seu envolvimento com a tradição e com a vida da comunidade local (GIDDENS, 2008: 73)
A vigilância permite ao Estado monitorar e exercer influência sobre “os mais íntimos aspectos da atividade diária” dos agentes situados em seu território (GIDDENS, 2008, 73). O que possibilita a efetivação deste processo é a atuação de uma variedade crescente de funcionários, realizando tarefas que são de domínio público.49
O poder administrativo penetra agora cada vez mais nas minúcias da vida diária e nas mais íntimas ações pessoais e relações. Em uma época cada vez mais invadida pelos modos eletrônicos de armazenamento, coleta e disseminação de informação, as possibilidades de se acumular informação relevantes à prática do governo são quase infinitas. [...] A vigilância é a condição necessária do poder administrativo de Estados, quaisquer que sejam os fins a que esse poder se dirija (GIDDENS, 2008: 320).
A ciência, em suas diferentes áreas de conhecimento,50 também contribui para o monitoramento reflexivo do sistema social realizado pelo Estado, na medida em que a ela cabe a tarefa de, ao oferecer os métodos e o arcabouço teórico, produzir informações que possam ser utilizadas com fins administrativos. Mas, as ciências não tratam apenas de um
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“Não é apenas a coleção de INFORMAÇÃO, mas o seu armazenamento que importa aqui (modo de registro). [...] Se a escrita está presente em todas as culturas, o principal fenômeno relativo aos Estados modernos é o armazenamento eletrônico – fitas, discos, CDs etc. – que expande consideravelmente a variedade de mecanismos de armazenamento disponíveis. Todos os modos de armazenamento de informação são, simultaneamente, formas de comunicação, rompendo com a comunicação direta, exaustiva na interação humana nas culturas de tradição oral” (GIDDENS, 2008: 39).
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O poder administrativo do Estado está intimamente associado à burocracia. “O poder burocrático, como concebido por Weber, é o poder de especialista e do funcionário especializado” (2008: 320).
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Entre algumas das ciências envolvidas com as políticas públicas brasileiras podemos citar as ciências sociais, as ciências da saúde, a demografia, a geografia, a epidemiologia, a biologia, etc.
“dado universo de objetos e eventos sociais, elas são constitutivas disso” (GIDENS, 2008: 202). Assim, elas incrementam tanto o poder administrativo quanto o poder simbólico do Estado que, ao nomear, cria objetos de políticas públicas.
Como exemplo, pode-se referir tanto às estatísticas oficiais51 utilizadas pelo aparato administrativo para planejar ações e monitorar resultados (GIDDENS, 2008) quanto à Antropologia que, por meio dos seus relatos etnográficos,52 também tem desempenhando um papel fundamental na instrução dos processos de nomeação e classificação dos objetos de políticas públicas e de expansão do poder administrativo sobre determinados segmentos sociais que se mantinham à margem das políticas governamentais, tais como os povos indígenas e demais comunidades tradicionais.
Mas a vigilância exercida por meio do armazenamento e do controle da informação não é uma característica apenas dos Estados-Nação. Os organismos internacionais também possuem modos de regulação reflexiva, canalizando o processo global de controle de informações e monitorando as fontes de informação necessárias aos Estados modernos53. Um dos exemplos deste tipo de empreendimento é o realizado pela Organização Mundial da Saúde:54 “A Organização Mundial de Saúde esboçou regulamentos sanitários internacionais de tipo extensivo e iniciou campanhas contraalgumas das principais doenças” (GIDDENS, 2008: 278).
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As estatísticas oficiais começam a ser realizadas pelos Estados a partir de meados do século XVIII, coletando informações sobre nascimentos, casamentos e mortes; residência, origem étnica e ocupação.
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A escrita, como uma modalidade discursiva, torna-se fundamental para pôr em funcionamento os mecanismos de vigilância estatais, já que ela “pode ser usada de um modo direto para descrever e monitorar as atividades de setores da população potencialmente recalcitrantes” (GIDDENS, 2008: 67). Para uma discussão mais aprofundada sobre a relação entre a escrita e a emergência do Estado-Nação, ver Giddens, 2008.
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Foi durante o Absolutismo (século XVIII) que se desenvolveu a vigilância no âmbito da esfera internacional na busca de fontes de informação sobre a posição e a riqueza de outros Estados.
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“No campo da saúde, tentativas de uma coordenação internacional datam somente do século XIX. A partir de 1851 foram realizadas regularmente as Conferências Sanitárias Internacionais, propondo padrões generalizados de quarentenas e outras medidas sanitárias. As estatísticas sanitárias, entretanto, foram a principal preocupação das autoridades governamentais. O Escritório Internacional de Saúde estabelecido em Paris, em 1908, dedicou-se principalmente à coleta e distribuição de informação estatística, relativa à legislação da saúde pública em diferentes países e padrões de transmissão de doenças. A Liga das Nações estabeleceu seu próprio comitê de saúde: a Organização de Saúde. Dedicou-se inicialmente a tentar documentar e a checar a expansão das moléstias infecciosas, especialmente aquelas que assumiam proporções epidêmicas como consequência da guerra. Mas expandiu firmemente suas atividades, e o número de Estados imediatamente envolvidos nisso também cresceu, desenvolvidos em conjunto com o Escritório Internacional de Saúde, que continuou a existir independente. O monitoramento estatístico dos padrões mundiais de saúde permaneceu como a principal preocupação de ambas as organizações. Com a vinda das Nações Unidas, foi criada a Organização Mundial da Saúde, [...] tornando-se muito mais abrangente no alcance e na escala de suas operações” (GIDDENS, 2008: 278).
No campo da saúde, portanto, o sistema de vigilância estatal instaura um controle sobre o corpo das pessoas, a partir de um esquadrinhamento geral realizado pela saúde pública. Esse esquadrinhamento é levado a efeito por meio da implantação de serviços públicos de saúde que produzem informações detalhadas sobre a sua situação de saúde da população que atende (FOUCAULT, 1992: 97). No Brasil esse procedimento é definido como Vigilância em Saúde (epidemiológica, sanitária e ambiental), que ao produzir e controlar as informações de saúde permite ao Estado exercer seu poder administrativo sobre os corpos e os comportamentos das pessoas por meio do esquadrinhamento médico sustentado sobre o poder biomédico.