2.5 A interioridade da linguagem e a Linguística Sistêmico-Funcional
2.5.2 A oração como troca e a metafunção interpessoal
A metafunção interpessoal da linguagem trata das relações entre os participantes de um evento comunicativo em termos de constituição de identidades e de identificações. Essa metafunção configura a interação dos participantes em um evento comunicativo e faz referência à variável contextual „Relações‟. Como bem colocam Resende e Ramalho (2006), essa metafunção tem relação com a construção de significado do ponto de vista de sua função no processo de interação social, da língua como „ação‟. Nesse âmbito, a linguagem além de manifestar a experiência dos falantes, de instituições da sociedade (metafunção ideacional), também representa falantes, suas intenções e relações. Para Bárbara e Macedo,
É através da metafunção interpessoal que se manifesta a interação entre os participantes da situação e deles com a sociedade, como interagem, o grau de distância/proximidade ou de poder/solidariedade existente entre eles, a responsabilidade que assumem quanto à mensagem que transmitem, se o fazem de maneira assertiva/categórica, ou não (BARBARA; MACEDO, 2009, p. 100).
Desse modo, em termos da linguagem como interação/troca entre participantes de um evento comunicativo, a metafunção interpessoal aponta negociações das relações, opiniões e atitudes, produzindo significados em textos. Para isso, a oração é vista como „troca‟, já que a gramática disponibiliza recursos para a interação entre as pessoas através da língua, constituindo relações sociais, papeis sociais, identidades e significados (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2004). Os usos da linguagem são instrumentos para que interlocutores alcancem objetivos „não-linguísticos‟. Observe-se, em termos de significados da linguagem, que o significado identificacional (estudado na subseção 2.6.3), nos moldes da ADC (FAIRCLOUGH, 2003), relaciona-se a essa metafunção.
Na gramática sistêmico-funcional, a metafunção interpessoal representa a interação e os papeis assumidos pelos participantes mediante, o Sistema de Modo e a Modalidade.18
Quadro 2.5 – A metafunção interpessoal e sua realização léxico-gramatical
Metafunção Interpessoal Significado Status correspondente na oração Realização léxico- gramatical Realiza relações sociais
Oração como troca Modo, Modalidade, Atitude/Avaliatividade Baseado em Halliday & Matthiesen (2004).
O Sistema de MODO é o principal recurso para a investigação entre as trocas comunicativas entre os interlocutores, aceitando e atribuindo papeis, como “dar e solicitar bens e serviços ou informações” (através das orações declarativas, interrogativas em perguntas); e solicitar algo ou dar ordem (através das orações imperativas) (SILVA, 2010). Esse recurso léxico-gramatical expressa os movimentos interativos em um evento comunicativo. Na troca de informação, a própria linguagem é trocada; e, na troca de bens e serviços, a linguagem é usada para influenciar comportamento ou atitudes.
Em termos de análise, há possibilidade de informações sobre a modalidade (usualidade, obrigação, probabilidade), a polaridade (positiva ou negativa), o modo/tempo (passado, presente e futuro) e os complementos e adjuntos. A análise das trocas linguísticas indica o tipo de proposição, de atitudes e de julgamentos que constituem o ato simbólico interpessoal (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2004). No Sistema de MODO, a oração se organiza em dois componentes básicos: Modo e Resíduo. O componente Modo constitui-se em outros dois elementos e que contribuem de maneiras diferentes na oração: sujeito e finito (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2004). Ambos sinalizam o que está acontecendo no discurso: troca de informações ou bens e serviços - declaração, questão, ordem ou pedido. O sujeito é um elemento conhecido nas orações, tipicamente um „grupo nominal‟. Já o finito é constituinte do „grupo verbal‟ que carrega o tempo e/ou a opinião do falante e inclui polaridade positiva ou negativa (THOMPSON, 2004). As funções do finito são o tempo, a modalidade e a polaridade. Em português, o finito geralmente é constituído com a desinência modo-temporal. Enquanto o componente Resíduo do Sistema de MODO é o restante da oração sem o Modo (sujeito + finito). E esse componente é constituído pelos elementos
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Observe-se que o Sistema de Avaliatividade também representa a metafunção interpessoal, haja vista que a escolha da avaliação reflete e reforça os valores ideológicos da sociedade (MARTIN; WHITE 2005), mas não será utilizado neste trabalho.
predicador, complemento e adjunto(s) (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2004). A maioria das orações possui o predicador, realizado por um grupo verbal. Já o complemento possui característica de sujeito (mas não o é) e é realizado por um grupo nominal ou um grupo adjetivo.
Além dessas realizações léxico-gramaticais, há de se destacar a Polaridade. Segundo Halliday (1989), a polaridade é configurada geralmente por um elemento finito (grupo verbal) e em orações afirmativas ou negativas. A ocorrência da polaridade dá-se em polos extremos das orações, havendo somente referência ao „polo positivo‟ e ao „polo negativo‟. Destaque-se também a ocorrência de „graus intermediários‟ entre o polo positivo e o polo negativo para situar a interação humana: a Modalidade. Como recurso interpessoal, a modalidade expressa a „posição‟ (julgamento, opinião, ponto de vista) dos/as interlocutores/as em graus variados. Quando a modalidade trata de „proposições‟ (informações), é conhecida como modalização; e quando trata de „propostas‟ (bens e serviços), é conhecida como modulação.
A modalização (ou modalidade epistêmica) ocorre quando há troca de informações ou conhecimentos. Nessa categoria, as informações podem ser expressas em termos de „probabilidade‟ ou „usualidade‟. São diversos os recursos léxico-gramaticais que expressam os significados epistêmicos, como adjuntos modais (talvez, possivelmente), adjuntos adverbiais (com certeza, às vezes), expressões (é costume, é possível) e verbos modais (deve, pode) (HALLIDAY; MATTHIESSEN, 2004). Já a modulação (ou modalidade deôntica) ocorre em propostas de ofertas ou de comandos. Na oferta, os graus referem-se à „inclinação‟ (inclinado, determinado, disposto). No comando, os graus remetem à „obrigação‟ (necessário, permitido, obrigatório). Quanto aos os recursos léxico-gramaticais que expressam os significados deônticos, são os adjuntos modais (alegremente, necessariamente), os verbos modais (deveria, deve) e certas expressões (está inclinado, é esperado, é necessário).
Os papeis dos/as interlocutores/as são determinados por condições particulares (sociais, econômicas, políticas, profissionais), como ilustra a figura abaixo.
Figura 2.7 – Diagrama da relação de Polaridade, Modalidade e Modo
Traduzido de Halliday e Matthiessen (2004).
De acordo com Halliday e Hasan (1989), a análise das trocas linguísticas indica o tipo de proposição, de atitudes e de julgamentos constituintes do ato simbólico interpessoal. No que concerne a cada metafunção, o foco de análise difere, como resume a Figura 2.8.
Figura 2.8 – As metafunções e os sistemas léxico-gramaticais
O foco de análise das metafunções são diferentes, uma vez que o sistema de realização léxico-gramatical de cada uma é específico: sistema de transitividade (ideacional), sistema de modo e modalidade (interpessoal) e estrutura temática (textual). Além disso, Halliday & Matthiessen (2004) apontam que a chave para a interpretação funcional da estrutura gramatical remete à multifucionalidade. Simultaneamente, cada componente refere-se a três aspectos e estão sistematicamente relacionados, visto que um mesmo item gramatical os representa.
Como os textos, na ADC, são efeitos de estruturas linguísticas atreladas a ordens de discurso, estruturas sociais e práticas sociais, a seção a seguir propõe alguns apontamentos sobre a investigação linguístico-discursiva no que se refere à perspectiva de gênero discursivo como prática social.