De acordo com Fairclough (2003), as propriedades da linguagem são determinadas socialmente, visto que é concebida como uma forma de prática social. Sob esse ponto de vista, os textos estão condicionados e propensos a certas convenções sociais, o que implica uma recusa ao objetivismo linguístico. Enquanto, no objetismo linguístico, o texto é tido como espelho que reflete ou expressa os fenômenos sociais; na ADC, o texto é uma parte do processo de interação social e, portanto, do discurso. A análise textual corresponde a uma parte da análise do discurso (FAIRCLOUGH, 2003). Com isso, os usos de linguagem estão diretamente relacionados a questões de discurso, poder e ideologia.
Sendo assim, a linguagem constitui a realidade através de processo(s) representacional/is acionado(s) por sujeitos discursivos/históricos – atores sociais. Por sua vez, os processos representacionais são construídos a partir de „escolhas‟ (linguístico- discursivas), de certa forma, motivadas ideologicamente. Ressaltem-se, neste ponto, algumas considerações que concernem à perspectiva de representação que interessa à ADC e à
pesquisa ora apresentada.15 Na perspectiva discursiva da ADC, as representações sociais são concebidas como elementos sociais e históricos que se manifestam de forma dialógica nos discursos (FAIRCLOUGH, 2003). Considera-se, sobre isso, a orientação proposta por Bakhtin (1979, p. 66), para quem “cada palavra se apresenta como uma arena em miniatura onde se cruzam e lutam valores sociais e revela-se, no momento de sua expressão, como o produto da interação viva das forças sociais”.
Como as práticas de linguagem se constituem em práticas sociais, na medida em que o(s) sentido(s) das interações humanas é/são negociado(s) a partir de percepções comuns de mundo, as representações, de certa forma, são discursos sociais que se configuram como saberes, crenças e valores. A linguista LYSARDO-DIAS (2005), situando-se em uma perspectiva linguístico-discursiva, sugere que as representações sociais são formas de conhecimento cultural construídas a partir de uma dada vivência do „real‟ e através das quais a realidade cotidiana é apresentada e o mundo (re)significado. A este enfoque propriamente discursivo que se filia esta pesquisa. As representações sociais são concebidas como elementos históricos e sociais, envolvidas dialogicamente nos discursos. Observe-se, aqui, a configuração de uma relação indissociável entre linguagem e contexto histórico e cultural.
Isso posto, os modos de representação do mundo – enquanto funcionamentos discursivos do sistema semiótico da linguagem – possuem motivações ideológicas e, como tal, relacionam questões sobre linguagem, poder e ideologia. Nesses termos, a ideologia se manifesta através dos usos da linguagem e a busca da compreensão das imbricações entre linguagem, ideologia e poder pode propiciar a compreensão do papel do discurso nos processos de mudança social. O investimento ideológico da linguagem, que envolve consenso, possibilita a aceitação das relações de poder e, consequentemente, suas ações como naturais.
De acordo com Fairclough (1995a), a ideologia é uma forma de „manufaturização‟ (produção) de consenso. Se compreendida desse modo, uma questão relevante é compreender o modo como as ideologias (re)estruturam a vida social através de discursos. No entanto, apesar de os textos serem espaços de investimento ideológico, não são única forma de controle social e exercício do poder. Para a ADC, interessa os efeitos ideológicos dos textos já que interferem nas relações sociais, seja para manter o poder seja para contestar o poder.
15O conceito de representações sociais surge na sociologia quando Durkheim (1898) propôs a noção de representações coletivas como categorias de pensamento originadas a partir de fatos sociais e através das quais
determinada sociedade elabora e expressa sua realidade. No entanto, essa concepção inicial não cabe a essa pesquisa.
Van Dijk (1993) observa que o modo como o poder é exercido implica uma base definida pelo acesso a determinados recursos sociais. O poder pode estar normatizado através das leis ou de hábitos sociais em termos de consenso, denominados por Gramsci (1971) de hegemonia. Cabe, pois, aos grupos sociais a resistência, a aceitação, a condenação, o consentimento ou a legitimação “desses poderes hegemônicos”, exercidos até então por um grupos dominantes. Segundo Assunção (2005, p. 10), das maneiras como o poder é exercido através de textos, advém o “interesse da ADC em se voltar para o modo como os grupos detêm e legitimam o poder, através de uma análise sistemática das estruturas e das estratégias textuais e de suas relações com o contexto de cultura”.
Dessas considerações, segue a concepção de discurso como modo de ação e de representação – prática social –, refletindo o social (FAIRCLOUGH, 2003). Isto é, o discurso como prática social forma parte dos fenômenos sociais (que se concretizam em usos da linguagem), influenciando-os e sendo influenciado por eles. Destaque-se que „discurso‟ pode fazer referência ao elemento discursivo de práticas sociais, visto que toda prática social é composta de momentos que se articulam e também pode remeter aos modos de representação da realidade, o momento discursivo de práticas sociais, na configuração de ordens de discurso (FAIRCLOUGH, 2001). Primeiramente, o discurso figura-se em “parte da ação”, já que um dos caminhos da interação se dá através da fala e da escrita. Em segundo, o discurso figura-se em “representações”, como parte de práticas sociais – representações do mundo material, de outras práticas sociais, representações reflexivas da prática em questão (FAIRCLOUGH, 2003). As (ações das) ordens de discurso apontam para a interdiscursividade.16
O entendimento dos efeitos sociais dos discursos depende, assim, de estudos das interações verbais e não verbais de falantes (textos) no curso de eventos sociais, conforme Fairclough aponta:
O discurso contribui para a constituição de todas as dimensões da estrutura social que direta ou indiretamente, o moldam e o restringem: suas próprias normas e convenções, como também relações, identidades e instituições que lhes são subjacentes. O discurso é uma prática, não apenas de representação do mundo, mas de significação do mundo, constituindo o mundo em significado (FAIRCLOUGH, 2001, p. 91).
A relação entre discurso e estrutura social é dialética e, da abrangência do discurso no que concerne às dimensões da estrutura social, a articulação entre discurso, ideologia e poder
16
Para Fairclough (2001, p. 95), “a interdiscursividade é constitutiva dos eventos discursivos”, também entendida como intertextualidade constitutiva. E questões mais detalhadas sobre ela serão tratadas na subseção 2.6.1 desse capítulo.
é basilar para a análise de discurso proposta pela ADC. Como consequência, Fairclough (2001) sinaliza que cada evento discursivo deve ser analisado em suas três dimensões complementares, como bem aponta a figura a seguir, baseada no referido autor (2001):
________________________________________________________ Figura 2.1 – Dimensões complementares do discurso
A Figura 2.1 apresenta a perspectiva tridimensional (FAIRCLOUGH, 2001) para a análise de discursos. A prática textual do evento discursivo está voltada para a descrição de textos, em termos de produção e de interpretação textual, que considera tanto o contexto de situação quanto o contexto de cultura. Já a prática discursiva remete à determinação dos aspectos dos recursos dos membros a que se recorre e como se recorre. O estudo dessa dimensão contribui tanto para a compreensão da reprodução da sociedade (identidades sociais, relações sociais, sistemas de crenças e valores) como para sua transformação. Enquanto que a prática social refere-se à explicação, ao funcionamento e aos efeitos de textos no processo de interação social, em termos de ideologia e de hegemonia, considerando-se os elementos das outras duas dimensões. Observe-se que a prática discursiva, de certa forma, pode ser considerada como uma forma particular da prática social.
Partindo da relação dialética entre essas dimensões do discurso, a preocupação central de Fairclough (2001, p. 99) é estabelecer conexões explanatórias entre os modos de organização e de interpretação textual e a natureza da prática social, considerando a relação com as estruturas e as lutas sociais. A constituição articulada de cada evento discursivo implica no fato de que há propósitos específicos de um grupo para produção ou utilização de
determinado texto. Nesse sentido, para Silva (2012), as práticas discursivas são sempre práticas sociais e o discurso sempre deixa uma marca no texto/língua.
Observe-se ainda que a TSD, em termos de investigações sobre as dimensões discursivas da mudança social, sugere a perspectiva de prática social como constitutiva tanto da concepção de linguagem quanto do quadro analítico estabelecido pela ADC. A partir dessas premissas, há a compreensão de que a relação entre linguagem e (a vida) social é indissociável. O que aponta o Quadro 2.1.
Quadro 2.1 – Linguagem como parte irredutível do social
Níveis do social Níveis da linguagem
Estrutura social Sistema semiótico Práticas sociais (Ordens de) discurso Eventos sociais Textos
Baseado em Fairclough (2003).
O quadro acima representa a linguagem como um „momento‟ da vida social (CHOULIARAKI & FAIRCLOUGH, 1999) e por isso as relações envolvidas são consideradas em „níveis‟. Como aponta Fairclough (2003), a pesquisa social principia da análise da linguagem. Nela, os discursos devem ser desvelados para que mudanças sociais sejam favorecidas. Desse modo, há três níveis da vida social que se correlacionam com os três níveis da linguagem. O sistema semiótico se refere a uma estrutura social e se configura como uma rede de opções linguístico-discursivas no nível mais abstrato. Como um sistema semiótico, a linguagem relaciona estruturas e eventos, configurando práticas sociais. As práticas sociais, por sua vez, são concebidas como formas de controle da seleção de certas possibilidades estruturais e exclusão de outras possibilidades em áreas particulares da vida social no decorrer do tempo (FAIRCLOUGH, 2003), diretamente relacionadas com as ordens de discurso.
Observe-se, segundo Ramalho e Resende (2011, p. 46), a constituição da linguagem por dois sistemas e seus diferentes estratos, como sinaliza a figura abaixo.
Figura 2.2 – Estratos do sistema de ordens do discurso
De acordo com a Figura 2.2, a linguagem é constituída pelo sistema semiótico (formado pelos estratos semântico, léxico-gramatical, fonológico e fonético) bem como pelo sistema de redes de ordens do discurso (com natureza sociodiscursiva). O sistema social da linguagem é configurado em gêneros, discursos e estilos, respectivamente, modos relativamente estáveis de agir, representar e identificar (RAMALHO & RESENDE, 2011), - detalhados na seção 2.6 deste capítulo. Já os eventos sociais, segundo Fairclough (2003), são representados em textos, ou seja, constituem um nível mais concreto. Nesse sentido, a ADC parte do conceito de prática social para traçar uma percepção de linguagem e, por conseguinte, o desenvolvimento de um quadro analítico com o objetivo de desnaturalizar práticas discursivas e práticas sócias, assim como prover reflexões sobre meios de inclusão social a grupos à margem das sociedades. A análise de um fenômeno social se configura, pois, como uma prática discursiva e uma prática social que se concretiza em uma prática textual.
Para a compreensão do funcionamento social da linguagem, a descrição e análise textual não devem ser vistas, porém, como anteriores à análise e à crítica social e nem independente dela. Devem ser vistas como um processo aberto o qual pode ser aperfeiçoado através de diálogo que atravesse disciplinas e teorias, ao invés de um código em termos de uma gramática ou moldura analítica autônoma (FAIRCLOUGH, 2003). A análise de texto é parte constitutiva da análise de discurso, mas a análise de discurso não é só a análise linguística de textos. Partindo dessa premissa, a principal referência da análise de texto da
ADC é a LSF, de acordo com Halliday (1978, 1994) e ampliada em Halliday & Matthiessen (2004), devido à análise linguística de textos pautar em seu caráter social. Fairclough (2003) aponta que, a partir da LSF, contribuições para análise de discurso crítica se desenvolveram apesar de existirem aspectos teóricos e metodológicos entre essas teorias que discordam.
Sob essa perspectiva teórica e metodológica é que o estudo ora apresentado é configurado. A pesquisa está tanto no espaço de certas ordens do discurso que constituem o PDA do PA Santa Tereza I, quanto no espaço de articulação dos discursos de atores sociais envolvidos na elaboração dessa ferramenta institucional. Há interesse na compreensão do funcionamento social da linguagem no PDA, de modo que aspectos teóricos e metodológicos coincidentes da LSF com os da ADC são utilizados nesta pesquisa para a microanálise dos dados de natureza documental e de natureza etnográfica, conforme a seção 2.5 a seguir.