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O estado do Tocantins teve sua origem na promulgação da Constituição Federal de 1988 e é o mais novo do Brasil, com 26 anos. Mesmo criado relativamente há pouco tempo, reflete a realidade brasileira de concentração de renda e crescimento populacional dos centros administrativos e comerciais. Além disso, faz-se fronteira agrícola e portal de entrada para a floresta amazônica. E, por ser um local em formação, o índice migratório de pessoas em busca de novas oportunidades para melhorar os meios de vida é elevado.

Com estas características, o índice migratório para o Tocantins se faz em grande escala desde e o início de sua constituição, há 26 anos, através da chegada de pessoas oriundas de regiões urbanas e rurais do Brasil, a população rural do estado se compõe de pessoas que anteriormente residiam em áreas urbanas e de pessoas que residiam em áreas rurais. Em similaridade, ambas procuram um meio de „mudança social‟ no estado mais novo do país.

Ademais, a organização agrária do estado não se encontra em uma economia camponesa e sim na grande exploração rural voltada para o agronegócio. No entanto, apesar de o estado do Tocantins ser o mais novo do Brasil, segundo dados do Sistema de Informações de Projetos de Reforma Agrária (SIPRA), em março de 2013, há 367 decretos desapropriatórios, com 41.978 famílias assentadas. Ocorre, pois, mais de 46.000 famílias na área rural do estado, tentando sobreviver através do trabalho com o uso da terra.11 Sobre isso, faz-se relevante destacar que mais da metade da população rural é beneficiada pela reforma

11 Disponível em: <http://www.incra.gov.br/index.php/reforma-agraria-2/questao-agraria/numeros-da-reforma-

agrária realizada no âmbito do governo federal e, por conseguinte, está atrelada a projetos de assentamentos. Observe-se também que as pessoas com a concessão de uso de um lote em um assentamento não estão necessariamente relacionadas, em termos trabalho, a atividades rurais, à economia camponesa, à agricultura familiar até serem selecionadas para participarem dessa política.12

Em relação à origem dos projetos de assentamentos no cenário brasileiro, a Lei

Especificamente, na região do Tocantins chamada de Jalapão, foram implantados vários projetos de assentamentos nos municípios que compõem seu território.13 Os municípios que englobam o Jalapão são oito e localizam-se no leste do Tocantins: Ponte Alta do Tocantins, Lagoa do Tocantins, Lizarda, Mateiros, Novo Acordo, Rio Sono, Santa Tereza do Tocantins e São Félix do Tocantins. Esse território limita-se com o noroeste do estado da Bahia, com o sul do estado do Piauí e com o sul do estado do Maranhão. De acordo com Carter (2010, p. 74), “os assentamentos da reforma agrária diferem muito em termos de localização geográfica, tamanho, composição familiar, níveis de desenvolvimento econômico, conscientização política e recursos culturais”. Sobre isso, o território do Jalapão - onde se localiza o PA Santa Tereza I, objeto de estudo desta pesquisa - foi incluído no Programa de Desenvolvimento Sustentável de Territórios Rurais (PRONAT), pelo Conselho Estadual de Desenvolvimento Rural Sustentável do Tocantins (CEDRS), em 28 de novembro de 2005, com base nas características socioeconômicas da região: baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH: 0,63); alto índice de pobreza; baixa escolaridade dos habitantes, solos pobres e fracos; alta concentração de renda. Sobre a parte Norte do Brasil, Carter (2010) aponta em muitas áreas a quase inexistente ou imbricada presença do governo de forma patrimonialista com a oligarquia rural. Diante da conjuntura agrária implantada no Brasil, os projetos de assentamentos estão, de alguma forma, atrelados à grande exploração agrária voltada para o mercado, pois não cumprem a valorização humana das pessoas que os compõem.

Nessa perspectiva, os projetos de assentamentos foram instituídos nos termos da legislação brasileira e nos moldes dos atuais, de acordo com a Lei 8.629, de 25 de fevereiro de 1993: “Dispõe sobre a regulamentação dos dispositivos constitucionais relativos à reforma agrária, previstos no Capítulo III, Título VII, da Constituição Federal”. Especificamente, o Artigo 5º. aponta aspectos da aquisição de terras para a criação de assentamentos:

12 Para Prado Júnior (2014), a economia camponesa, típica na Europa, se constitui na base da produção

individual ou familiar e da ocupação parcelária da terra.

13 O nome Jalapão deriva do nome de uma planta típica local, chamada jalapa-do-Brasil (Operculina macrocarpa (Linn) Urb.).

§ 4o No caso de aquisição por compra e venda de imóveis rurais destinados à implantação de projetos integrantes do Programa Nacional de Reforma Agrária, nos termos desta Lei e da Lei no 4.504, de 30 de novembro de 1964, e os decorrentes de acordo judicial, em audiência de conciliação, com o objetivo de fixar a prévia e justa indenização, a ser celebrado com a União, bem como com os entes federados, o pagamento será efetuado de forma escalonada em Títulos da Dívida Agrária - TDA, resgatáveis em parcelas anuais, iguais e sucessivas, a partir do segundo ano de sua emissão (BRASIL, 2013).

O parágrafo 4º., do Artigo 5º., trata do pagamento das propriedades destinadas à criação de projetos de assentamentos. Já o Artigo 11 da mesma lei faz referência à função da terra:

Art. 11. Os parâmetros, índices e indicadores que informam o conceito de produtividade serão ajustados, periodicamente, de modo a levar em conta o progresso científico e tecnológico da agricultura e o desenvolvimento regional, pelos Ministros de Estado do Desenvolvimento Agrário e da Agricultura e do Abastecimento, ouvido o Conselho Nacional de Política Agrícola (BRASIL, 2013).

A função da terra, desde o estabelecido no Estatuto da Terra, de 1964, está atrelada à questão da produtividade. O Artigo 11 também relaciona a função da terra à produtividade, determinada e fiscalizada pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário. Além disso, o Artigo 17 especifica a criação de assentamentos:

Art. 17. O assentamento de trabalhadores rurais deverá ser realizado em terras economicamente úteis, de preferência na região por eles habitada, observado o seguinte:

I - a obtenção de terras rurais destinadas à implantação de projetos de assentamento integrantes do programa de reforma agrária será precedida de estudo sobre a viabilidade econômica e a potencialidade de uso dos recursos naturais (BRASIL, 2013).

O Artigo 17 indica o tipo de propriedade onde os assentamentos devem ser criados além de reafirmar o Artigo 11 no que se refere à produtividade agrícola dos assentamentos. De acordo com esse artigo, os assentamentos devem ser criados em propriedades onde seja possível a produtividade agrícola para fins econômicos. Para tentar garantir essa produtividade, também é instituído o Plano de Desenvolvimento de Assentamento (PDA) no inciso III do mesmo artigo:

III - nos projetos criados será elaborado Plano de Desenvolvimento de Assentamento - PDA, que orientará a fixação de normas técnicas para a sua implantação e os respectivos investimentos;

V - a consolidação dos projetos de assentamento integrantes dos programas de reforma agrária dar-se-á com a concessão de créditos de instalação e a conclusão dos investimentos, bem como com a outorga do instrumento definitivo de titulação (BRASIL, 2013).

O inciso III indica a elaboração de PDAs como ferramenta para o desenvolvimento de PAs em relação a normas para sua implantação assim como a investimentos financeiros. No caso do PA Santa Tereza I, houve a elaboração do PDA para que os lotes fossem concedidos às pessoas selecionadas, como elucida a capa desse documento na imagem abaixo.

Fotografia 1.1 – Capa do PDA do PA Santa Tereza I

A capa do PDA Santa Tereza I aponta a Cooperativa de Profissionais Liberais do Vale Araguaia (COOPVAG), com CNPJ: 02.059.774/0002-02, como a entidade responsável pela elaboração do PDA Santa Tereza I. A COOPVAG prestou assessoria técnica ao INCRA através de uma equipe multidisciplinar, composta por profissionais da área social, ambiental e produtiva, tanto de nível médio como nível superior (engenheiros agrônomos, assistente social, cientista social, engenheiros ambientais e técnicos em agropecuária), a partir de convênio firmado com o INCRA/MDA, em janeiro de 2007, mas com o desenvolvimento de assessoria junto ao INCRA desde junho de 2006 (COOPVAG, 2007).

Art. 19. O título de domínio, a concessão de uso e a CDRU serão conferidos ao homem ou à mulher, ou a ambos, independentemente de estado civil, observada a seguinte ordem preferencial:

I - ao desapropriado, ficando-lhe assegurada a preferência para a parcela na qual se situe a sede do imóvel;

II - aos que trabalham no imóvel desapropriado como posseiros, assalariados, parceiros ou arrendatários;

III – aos ex-proprietários de terra cuja propriedade de área total compreendida entre um e quatro módulos fiscais tenha sido alienada para pagamento de débitos originados de operações de crédito rural ou perdida na condição de garantia de débitos da mesma origem;

IV - aos que trabalham como posseiros, assalariados, parceiros ou arrendatários, em outros imóveis;

V - aos agricultores cujas propriedades não alcancem a dimensão da propriedade familiar;

VI - aos agricultores cujas propriedades sejam, comprovadamente, insuficientes para o sustento próprio e o de sua família.

Parágrafo único. Na ordem de preferência de que trata este artigo, terão prioridade os chefes de família numerosa, cujos membros se proponham a exercer a atividade agrícola na área a ser distribuída.

O Artigo 19 confirma o que foi dito anteriormente neste estudo no que remete à concessão de uso de um lote de um PA. A concessão pode ser efetuada tanto para um homem e quanto para uma mulher, desde que a ordem de preferência estabelecida nos incisos desse artigo seja cumprida. Destaque-se que somente a partir do inciso IV há referência às pessoas com menos recursos financeiros e que não estão relacionadas diretamente à propriedade rural onde será implantado o assentamento. A preferência inicial da seleção não se atrela às pessoas, que trabalham com o uso da terra anteriormente ao assentamento, ou às pessoas, que participam de um acampamento como forma de reivindicar um lote, ou seja, às pessoas à margem da sociedade.

A partir dessa legislação, foi criado o Projeto de Assentamento Santa Tereza I. O PA Santa Tereza I é representado pelo código TO0376000 junto ao INCRA e foi criado no dia 13 de fevereiro de 2006, no local onde foi a fazenda Santa Tereza anteriormente. O PA Santa Tereza I está sob influência dos municípios de Ponte Alta do Tocantins e Santa Tereza do Tocantins, no estado do Tocantins, mas pertence territorialmente ao primeiro município. Por proximidade geográfica, as pessoas desse assentamento necessitam de alguns serviços do município de Santa Tereza, como saúde e comércio. Sendo assim, a área do assentamento está localizada a uma distância de 49,5 km da sede do seu município (Ponte Alta do Tocantins) e a 100 km do município de Palmas, capital do estado. No entanto, o PA Santa Tereza I situa-se a uma distância aproximada de 25 km da sede do município de Santa Tereza do Tocantins, o que faz com que a comunidade inserida no PA dependa em diversos aspectos dela. Esse PA

possui uma área de aproximadamente 2.351 ha. (23 km²) e está localizado entre as coordenadas UTM 192.344 e 198.833 oeste e 8.846.871 e 8.841.022 sul (COOPVAG, 2007, p. 33). Em relação ao número de lotes, foi dividido em 47 lotes e possui 47 famílias assentadas.