1 REVISÃO DE LITERATURA
1.3 A PARCERIA ESCOLA E FAMÍLIA: DESAFIOS E PERSPECTIVAS
Outrora a família era a união de pessoas aparentadas que viviam, em geral, na mesma casa, particularmente o pai, a mãe e os filhos. Entretanto, com as transformações históricas e sociais, pode-se perceber que, atualmente, em muitos casos e em muitos lares, essa família já não se encontra assim organizada em um único núcleo, mas em diferentes núcleos. Diante da complexidade do nosso dia a dia, percebe-se que estão surgindo novas configurações familiares que fazem parte da nossa realidade e que devem ser vistas, observadas, consideradas e respeitadas pelos professores, para que possam dar andamento ao acompanhamento escolar, considerando sempre o todo. O importante não é o que se quer, mas a realidade de cada aluno, a família de cada aluno, hoje com bastante singularidade.
Segundo Gomes (apud SZYMANSKI, 2002, p. 26), “a família é descrita da seguinte forma: um grupo de pessoas, vivendo numa estrutura hierarquizada, que convive com a proposta de uma ligação afetiva duradoura”. Independente da estrutura familiar, sempre vai existir alguém de referência como o líder do lar, e a este cabe a responsabilidade de instruir e acompanhar o desenvolvimento da criança que está sob seus cuidados.
Desse modo, torna-se indiscutível afirmar que atualmente a família passa por momento contínuo de mudança. A esfera familiar compõe uma condição de grande variedade de formas de organização, com crenças, valores e práticas desenvolvidas na busca de soluções para as vicissitudes que a vida vai trazendo (SZYMANSKI, 2002).
Ao se desconsiderar as diferenças, impõe-se às famílias uma única forma de relacionamento entre pais e filhos, o que é inviável, pois cada família tem suas crenças, valores e educação que as distingue uma das outras. Isso equivale dizer que existe uma grande heterogeneidade dentro das famílias. Nem todos têm a mesma religião, a mesma cultura, a mesma vivência.
De modo semelhante, o conceito de criança também vem se transformando ao longo da história, pois a concepção sobre a criança e a infância se modificou. Antes a criança era vista como angelical, inocente, indefesa etc. Hoje, porém, ela se tornou uma adulto em miniatura. Entretanto, Santos (2010) destaca uma nova concepção sobre criança no panorama educacional: a criança como ser
social. A família como instituição básica na sociedade exerce um papel social primordial na vida da criança, pois é o primeiro ambiente onde ela tem contato com o outro e inicia o seu desenvolvimento social. É na família que a criança aprende valores morais, regras de conduta e constrói seu caráter. Independente do tipo de família que se constitui, deve oferecer à criança um ambiente que possibilite o desenvolvimento pleno de sua estrutura física, cognitiva, emocional, afetiva e de sua relação social, que fará a diferença na vida do futuro adulto.
Segundo Szymanski (2002, p. 22), “a criança ao nascer na família já encontra um mundo organizado segundo parâmetros construídos pela sociedade como um todo e assimilados pela própria família”. Desta forma, a criança aprende aprender a interagir, construindo e transformando sua identidade ao longo da vida.
Ressalta-se que é essencial que escola e família tenham um entrosamento para que possam saciar as necessidades que compõem o desenvolvimento da criança. Escola e família têm os mesmos objetivos: fazer a criança se desenvolver em todos os aspectos e ter sucesso na aprendizagem. Porém, “o segredo de uma boa relação é saber ouvir, respeitar as culturas e trabalhar junto”, afirma Szymanski (2002, p. 25). A pluralidade cultural, isto é, a diversidade de etnias, crenças, costumes, valores, que caracterizam a população brasileira marca também as instituições escolares. Assim a escola reflete toda a heterogeneidade da sociedade brasileira.
O trabalho com a diversidade e o convívio com a diferença possibilitam a ampliação de horizontes tanto para o professor quanto para a criança, isto porque permite a conscientização de que a realidade de cada um é apenas parte de um universo maior que oferece múltiplas escolhas. Assumir um trabalho de acolhimento às diferentes expressões e manifestações das crianças e suas famílias significa valorizar e respeitar a diversidade, não implicando adesão incondicional aos valores do outro. Cada família e suas crianças são portadores de um vasto repertório que se constitui em material rico e farto para o exercício do diálogo e da aprendizagem com a diferença, evitando atitudes preconceituosas e discriminatórias. Essas capacidades são necessárias para o desenvolvimento de uma postura ética nas relações humanas.
Nesse sentido, as escolas, por intermédio de seus professores, devem desenvolver a capacidade de ouvir, observar e aprender com as famílias. Um ambiente propício para o desenvolvimento da criança se dá quando as diferenças
são respeitadas e, com isso, pode-se construir uma relação madura e benéfica entre família e escola. Ao assumir essa atitude na relação com a família, a escola estará de acordo com o que Freire (1996, p. 35) chama de “natureza ética da prática especificamente humana”.
Portanto, a necessidade de promover a articulação entre escola e família é fundamental, até porque a escola não é um segmento ou instituição isolada do contexto global. Deve estar presente no processo de organização social, de modo que as ações a serem desenvolvidas estejam voltadas para as necessidades comunitárias, reconhecendo que a educação não se dá apenas na escola ou só na família. Uma e outra não são lugares estáticos cristalizados, havendo todo um processo interno e não linear que ocorre no interior de cada uma delas. Compromisso coletivo é uma expressão chave desse processo.
A escola deve explicitar sua proposta educacional, mostrando que as mudanças que pretende e que devem ser assumidas por todo o coletivo escolar são para que as crianças aprendam mais e melhor e para que sejam felizes. A família deve ser orientada no sentido de perceber que também tem fundamental papel para distorcer o sentido da educação escolar. Ao caminhar, no sentido de promover a participação dos pais, a escola aproxima-se de ser local privilegiado da inovação e experimentação político-pedagógico: lócus de cidadania.
Favorecendo espaço para conflitos, superação de intolerância às diferenças, reflexões crítico-propositivas, a escola forja sua autonomia e incorpora sua face cidadã. Segundo Durning (apud SZYMSNSKI, 2002, p. 17): “Educação familiar tem, também, o sentido de uma prática social que se refere ao conjunto de intervenções sociais utilizadas para preparar, apoiar, ajudar, eventualmente suplementar os pais na sua tarefa educativa em relação aos filhos”.
A comunicação entre os ambientes é considerada pelos sujeitos como sendo fundamental para o desenvolvimento das crianças. De acordo com Bronfenbrenner (2002, p. 167): “o potencial desenvolvimento da participação em múltiplos ambientes varia diretamente com a facilidade e a extensão da comunicação de duas vias entre esses ambientes”. Assim, é crucial que família e escola mantenham-se em constante contato. Das possíveis formas de comunicação indicadas pelos sujeitos, as reuniões escolares são destacadas como momento primordial de relação entre os pais e a escola, apesar de relatarem os possíveis
encontros nas entradas e saídas dos alunos. As reuniões consolidam-se, portanto, como o principal canal de informação institucionalizada (HOMEM, 2000).
Bronfenbrenner (2002) define a participação presencial da família na escola e vice-versa, como vínculos suplementares, ou seja, pessoas que convivem em ambientes diferentes (microssistemas), mas são impelidas a se relacionar devido a um indivíduo que transita entre os dois contextos, no caso a criança. As reuniões são formas de tais vínculos se estreitarem, o que é considerado pelo autor como benéfico para o desenvolvimento infantil.
O diálogo deve ser instituído entre a família e a escola. E esse vínculo dialógico surge da necessidade de confrontar os valores incorporados pelos dois espaços em questão. Os valores em que a família acredita devem estar em sintonia com aqueles incorporados na filosofia da escola. Essa necessidade de interação é fortalecida pela compreensão de que a criança constrói seus valores morais nas relações sociais e, se estas são equilibradas, grandes são as chances de ela – a criança – internalizar sentimentos e atitudes positivas. Afinal, a criança aprende o que vivencia e experimenta.
Segundo Ariès (apud SZYMANSKI, 2002, p. 21):
Como instituição social, a família sempre esteve inserida na rede de inter- relações com outras instituições, em especial, com a escola. No momento histórico (Séc. XVII) em que a unidade escolar assumiu a educação formal, surge a preocupação com o acompanhamento mais próximo dos pais junto a seus filhos.
Com essa finalidade, foram elaborados tratados de educação para os pais com a finalidade de orientá-los quanto a seus deveres e responsabilidades.
O papel da família é fundamental, pois é sua atribuição a decisão do que os seus filhos precisam aprender, quais as instituições que devem frequentar, o que é necessário saberem para tomarem as decisões que os beneficiem no futuro. Conforme Romanelli (2000, p. 120) coloca,
[...] o capital cultural transmitido pela escola constitui elementos significativos no processo de reprodução social da família que tem, na escolarização dos seus filhos, um recurso importante para promover relativa mobilidade social dele e, indiretamente, da própria unidade doméstica.
A família deve escolher a escola adequada para suas crianças, para que essa instituição possa corresponder às suas expectativas e, ao mesmo tempo, seja do agrado da criança. Essa escolha é um empreendimento cujo sucesso depende, em grande parte, da perspicácia e habilidade dos pais ao avaliar diferentes propostas.
O que se pretende na escola é favorecer o desenvolvimento do indivíduo: socializá-lo metodicamente; ajudá-lo a adquirir conhecimentos e valores, a desenvolver sua inteligência e a convertê-lo em adulto autônomo para atuar, convenientemente, numa sociedade que clama por uma educação baseada na resolução de problemas. Conforme MORIN (2004, p. 25), “Os indivíduos conhecem, pensam e agem segundo os paradigmas inscritos culturalmente neles” Sendo a escola o lugar apropriado para a aquisição e a construção de conhecimentos sistematizados, fica clara a sua responsabilidade em adotar uma postura cultural de garantir acesso ao conhecimento, ou seja, ser uma escola cultural. Ela deve ser o lugar onde os valores morais são passados, refletidos, e não meramente impostos ou fruto de hábitos, até porque, nesse contexto de caos social, nada se impõe.
Segundo Schaffer (apud BASSEDAS, 1999), em relação aos professores, aos pais e às mães, eles aprendem a conhecer novas dimensões de seu filho; não há dúvidas de que a escola representa uma ampliação importantíssima do meio com o qual a criança interage: adultos diferentes, outros companheiros, espaços físicos e objetos distintos, novas pautas de relação etc.
Destaca-se como atribuição do professor, favorecer o comparecimento e participação dos pais em reuniões e o envolvimento em associações de pais e em todas as atividades que a escola proporciona. De acordo com Perrenoud (2001), seja qual for sua pedagogia, um professor precisa fazer com que os pais de seus alunos compreendam e adiram a ela, pelo menos globalmente. Cabe ainda aos educadores perceber que cada criança leva para a escola uma bagagem cultural oriunda do convívio familiar, que é repleta de referências afetivas, que se refletem diretamente no seu desempenho em sala de aula, que de qualquer forma essa bagagem torna-se uma das características observadas nos espaços escolares.
É conveniente destacar que na atualidade a escola não pode viver sem a família e vice-versa; o trabalho deve ser em conjunto, objetivando o desenvolvimento do bem estar e da aprendizagem do educando. O Parágrafo Único do Capítulo IV, do Estatuto da Criança e do Adolescente, Artigo 53, diz que “é direito dos pais ou responsáveis ter ciência do processo pedagógico, bem como participar da definição das propostas educacionais” (BRASIL, 1990, p. 11), ou seja, está prescrito no documento o quanto é importante a inserção da família no contexto escolar. Família e escola são pontos de apoio ao ser humano, quanto melhor e maior for a parceria entre as duas, melhores serão os resultados na formação do educando.
Embora seja necessária uma clarificação das atribuições específicas da família e da escola, cada uma tem sua função, garantindo uma autonomia, porém é fundamental que essas duas instituições mantenham-se em constante processo de interação. Assim, uma vez que a intervenção da familiar é a variável mais influente no comportamento dos alunos, as escolas precisam não só se comunicar com elas, mas também estabelecer vínculos de parceria para que juntas possam reforçar atitudes facilitadoras para o alcance de sucesso na aprendizagem. Conforme afirma Ariès (apud SZYMANSKI, 2002) como instituição social, a família sempre esteve inserida na rede de inter-relações com outras instituições, em especial, com a escola. Não resta dúvida que essas relações se comprometem mutuamente, de forma a se complementarem.
Portanto, é essencial que tanto o contexto familiar quanto o escolar tenham uma aproximação, objetivando tentar exercer conjuntamente seus papéis específicos. No entanto, ambos não podem perder de vista, a importância da família, que a família ocupa um lugar para toda a vida, enquanto a escola é limitada no tempo: “a escola se constitui num pólo de referência e ampliação de uma identificação com a família para uma identificação mais geral com o grupo social externo, ou seja, na construção da identidade do ser social” (VALADÃO; SANTOS, 1997, p. 8).
Sendo assim, construir um ambiente escolar pautado no respeito e no diálogo favorece a construção da aprendizagem, processo para o qual esses dois sistemas, o familiar e o escolar, devem estar ligados. De acordo com Libâneo (2004, p. 85): “A pedagogia familiar não deve estar desarticulada da pedagogia escolar”.
Assim, a participação dos pais na vida escolar dos filhos representa um papel muito importante em relação ao seu bom desempenho em sala de aula. Também o diálogo entre a família e a escola favorece a construção do conhecimento, não sendo possível deixar de lado o fato de que os professores são extremamente importantes no processo ensino-aprendizagem. Envolver a família na educação escolar dos filhos pode significar, para os educadores, que eles tenham que conhecer melhor os pais dos alunos e realizar um trabalho conjunto com eles para criar, entre outros fatores, o desenvolvimento e a aprendizagem das crianças.
É necessário que a família seja recebida pela escola sem preconceitos, buscando orientá-la em suas falhas e aplaudir os seus acertos. Segundo o Programa Nacional de Educação – PNE de 2001, a articulação com a família visa,
mais do que qualquer outra coisa, ao mútuo conhecimento de processos de educação, valores, expectativas, de tal maneira que a educação familiar e escolar se completem e se enriqueçam produzindo aprendizagens coerentes mais amplas e profundas (BRASIL, 2001).