3 RESULTADOS E DISCUSSÃO: REPRESENTAÇÕES DA
3.1 ASSERTIVIDADE DE ESCOLHA
3.1.1 Escolhas devido à característica do curso
Segundo a colocação de alguns participantes, a escolha do curso se deu devido a um conjunto de fatores que eles consideram fundamentais. Um aspecto importante citado por todos diz respeito ao fato de que, na Pedagogia, os profissionais não só trabalham com pessoas, mas também ajudam a formá-las. A Pedagogia é capaz de oferecer e trabalhar uma visão ampla de Educação que supera, em muito, os aspectos da sala de aula; um lugar totalmente composto por diversidades, onde o professor precisa pensar estrategicamente, analisar fatores diversos, estabelecendo as melhores estratégias para atingir os objetivos de aprendizagem propostos. Nesse sentido, os aspectos que devem ser levados em consideração para uma educação contextualizada com a sociedade contemporânea são as necessidades e possibilidades dos alunos; os recursos do professor; a infraestrutura da instituição de ensino; o conteúdo a ser desenvolvido; o objetivo de aprendizagem e a cultura educacional.
Trata-se, portanto de um curso capaz de ajudar as pessoas a crescerem, trazendo a ideia de „crescer, crescimento‟, no próprio resgate da cidadania, conceito que vem no contexto de dimensões éticas muito importantes, pois envolve o desenvolvimento de pessoas com diferentes características, que podem ser indivíduos com objetivos de proclamar uma sociedade mais justa, com ideia de contribuir, ajudar e contemplar as pessoas em diferentes dimensões. O seu
fundamento baseia-se em ultrapassar barreiras, inclusive sociais, algo de grande importância, pois leva à noção de efetivamente contemplar a ideia de uma sociedade inclusiva. Essas reflexões acabam sendo importantes na constituição da identidade da profissão. Os participantes, especialmente aqueles que lidam com crianças pequenas, tendem a associar a Pedagogia a termos emocionalmente fortes como „paixão‟, e „amor‟. Como diz uma das participantes, trata-se de algo „lindo‟.
Envolve também a ideia de um aprendizado que é mútuo, compartilhado. A professora que forma crianças também aprende com elas. Talvez isso implique uma emoção que se estabelece a partir da oportunidade de reviver a própria infância. Conviver com crianças, explorar e redescobrir o mundo com elas torna-se uma atividade muito compensadora e benéfica. Trata-se de ser testemunha e participante do seu desenvolvimento em cada momento, uma descoberta e redescoberta de vários momentos significantes da aprendizagem do aluno, como um momento mágico. Como disse uma participante abaixo: ouvir „Tia, eu consegui!‟ acaba sendo um dos momentos mais importantes da profissão. A seguir, apresenta- se as falas, transcritas sem alterações:
Maria - Porque ele dá uma visão bem ampla pra gente, de como a gente
pode atuar diretamente na educação, né? Não só visando sala de aula, mas na educação como um todo, né? Na formação das pessoas, é para que a gente possa ajudas as pessoas a crescer, criticamente, né? E também como ser humano.
Escolhi pedagogia porque eu acredito que a pedagogia, ela me dá uma abertura pra trabalhar naquilo que quero, que é a questão da gestão, né? Trabalhar com pessoas, trabalhar com grupo, então isso pra mim me levou mais a trabalhar com a pedagogia. (informação verbal).
Mércia - É uma coisa que eu me identifico porque eu já trabalhei doze anos
como professora de balé pra crianças, então eu sempre achei assim, trabalhar com crianças a coisa mais linda que existia, eu tinha uma ideia de como seria o curso de pedagogia, né? Eu tinha uma noção do que era, mas hoje eu me encontrei. Eu achava lindo quando eu imagino o pessoal falando Daiana pedagoga, eu acho essa coisa tão chique, aí eu fiquei, meu Deus, que lindo, foi vocação mesmo. (informação verbal).
Manuela - Gente tá lidando com crianças pra, aprendendo com elas,
descobrir pra eles descobrirem o gostinho do aprender a ler, a saber resolver uma atividade é muito gratificante pra você. Tem situações lá na sala em que eu comecei a chorar, meu Deus, é muito bom, é muito interessante a gente ver o desenvolvimento da criança na sala de aula, eles, poxa, eu consegui, eu consegui tia, eu consegui! Isso é muito é, importante, né? Pra gente, para a profissão do professor. (informação verbal).
Mirtes - Ensinando particular na minha casa, aí é que eu fui me
identificando, né? Porque minha mãe dizia: tu precisa ter um curso superior, tu precisa ter um curso superior. Aí eu: meu Deus, que curso superior eu vou fazer? Aí ensinando particular pra duas crianças da vizinha, aí eu: não, vai ser pedagogia. Aí quando eu comecei a fazer, eu só tive realizações, eu
tô muito feliz, eu gosto muito do que eu faço. Senti a vocação. (informação verbal).
Michele - Minha avó é professora, nenhum dos filhos dela escolheu esse
curso e ela dizia que nenhum neto escolheu também pedagogia mais eu vou fazer pedagogia pela minha avó, vou terminar o curso e tal, mais comecei a gostar, mas, o curso que eu gosto mesmo é direito e quando eu terminar pedagogia eu vou fazer direito. (informação verbal).
A partir das falas acima, pode-se inferir que escolhas conscientes e bem informadas se traduzem em vínculos mais profundos para com a profissão. Esses vínculos são aprofundados de acordo com a construção da identidade profissional que se dá nas experiências vivenciadas antes da entrada no curso e as que são vividas durante o curso de Pedagogia.
Hoje, é essencial dar-se conta da diversidade na escola, especialmente em decorrência da escola inclusiva, que vem se fortalecendo principalmente pela necessidade da escola ter que se ajustar às necessidades dos alunos deficientes, hoje uma realidade. De acordo com Mantoan (1997), a deficiência não faz parte do nosso universo, a adaptação à nova realidade é sempre dolorosa e muitas vezes irrealizável. Contudo, se levarmos em conta que 10% da nossa população são de pessoas deficientes, diz respeito a todas as pessoas e não só a um número restrito. Podemos observar, na fala abaixo, o conhecimento em relação aos alunos deficientes.
Márcia - Eu me identifico com o curso de pedagogia. Depois que eu entrei,
eu me apaixonei ainda mais por saber também que além de lidar com crianças, você pode lidar com diversos tipos de pessoas, por exemplo, educação de jovens e adultos, pessoas especiais, pode trabalhar em empresas, então é um curso que ele faz as pessoas olhar as outras pessoas com outro olhar, entendeu? Acreditar na possibilidade que a pessoa tem de vencer etapas, de ultrapassar barreira e etc. (informação verbal).
Entretanto, muitas vezes as escolhas se dão por outros motivos, trazendo uma atuação desvinculada da maestria da educação. Acontece, principalmente, pela impossibilidade do discente em conseguir inserir-se no curso que realmente deseja e a segunda ou terceira opção é dada pela negação dos sonhos ou devida a etapas conflitantes na trajetória escolar. Isso se pode perceber nos depoimentos abaixo:
Mércia - Eu gosto muito de história, eu tentei vestibular da UEMA pra
história, só que aí eu não pude fazer o curso, aí eu tentei fazer o Enem no ano seguinte, aí a opção pro Enem foi pedagogia. (informação verbal).
Mirela - Na verdade eu não queria fazer pedagogia, eu queria fazer era
psicopedagogia, apesar de não saber na época o que seria, eu imaginei que teria muito a ver com a psicologia, e acabei fazendo pedagogia, mas, eu acabei gostando do curso de pedagogia e hoje eu já não me vejo em psicologia. (informação verbal).
Marta - Botei três opções de curso, no caso: botei administração, contábeis
e pedagogia, de nunca nem ter escolhido nem pedagogia, e acabou que o que deu, a minha nota foi esse. (informação verbal).
De acordo com as falas acima, podemos ver que as escolhas acontecem de forma positiva ou negativa. Entender a natureza dessas escolhas é importante para a construção da identidade profissional. Entende-se como escolha positiva aquela que acontece em consequência de um vínculo profundo da pessoa com a área profissional escolhida, em outras palavras, alguém que escolhe o curso de Pedagogia a partir da firme convicção de tornar-se professor pelo fato da profissão ser atrativa, fazendo uma escolha estruturada em termos do seu desejo mais profundo e subjetivo.
Tornar-se um profissional satisfeito, feliz, transformando saberes científicos em saberes escolares de forma plena, causa sensação de já se ter nascido com esse propósito. Pode-se então inferir que há uma identidade profissional que começa a se estabelecer antes mesmo do início da vivência acadêmica. Por outro lado, pode-se pensar que a escolha negativa é feita a partir de contextos ou limitações impostas externamente à pessoa; condições vivenciadas, cheias de frustações, que levam a escolhas por necessidade e, não, por vocação. Esse tipo de escolha pode levar ao desinteresse, à recusa, à uma visão negativa da profissão e à evasão do curso. Muitas vezes a pessoa permanece no curso, mas e depois de formado não corresponde aos requisitos de uma prática eficaz, levando o desgosto e recalques para a sala de aula, constituindo, assim, uma identidade negativa.
Conforme se pode observar através das entrevistas, ocorrem também situações em que, inicialmente, alguém entra no curso a partir de limitações externas e escolha negativa, mas à medida que avança no curso, conhece-o melhor, cria vínculos, entusiasma-se e tem oportunidade de vivenciá-lo de uma forma mais profunda, transformando uma experiência negativa em positiva, tal como acontece também em outras profissões.
Ressalta-se que tudo isso contribui para o desenvolvimento e afirmação da identidade profissional. A identidade não é um dado adquirido, não é uma propriedade, não é um produto. A identidade corresponde a um processo onde se
constrói maneiras de ser e de estar na profissão, através de lutas e conflitos, é a comunhão de experiências negativas e positivas, numa perspectiva de superação, de resiliência, que pode transformar as experiências negativas em verdadeiras superações. Por isso, é mais adequado falar em processo identitário, destacando uma corrente formada por dois polos; um que caracteriza a maneira como cada um se sente; e outro, como cada um se diz professor.
A construção de identidades passa sempre por um processo complexo no qual cada um se apropria do sentido da sua história pessoal e profissional (DIAMOND, 1991). É um processo que necessita de tempo para refazer identidades, para acomodar inovações e assimilar mudanças (NÓVOA, 1992). A identidade profissional se constrói a partir da significação social da profissão, da revisão constante dos significados sociais da profissão, da revisão das tradições, do replanejamento de ações e da transformação de atitude.
Acrescenta-se ainda que a identidade profissional se constrói também através do significado que cada professor, enquanto ator ou autor, confere à atividade docente no seu cotidiano, a partir de seus valores, de seu modo de situar- se no mundo, de sua história de vida, de suas representações, de seus saberes, de suas angústias e anseios, do sentido que tem em sua vida ser professor (PIMENTA, 2002a).
Portanto, a identidade do professor é construída ao longo de sua vivência, de sua experiência, de sua trajetória como profissional do magistério. No entanto, é no processo de sua formação que são consolidadas as opções e intenções da profissão, de qual profissional se quer ser. Assim, a identidade vai sendo construída com experiências e histórias pessoais, no coletivo e na sociedade (PIMENTA; LIMA, 2004).
Em qualquer profissão, o conhecimento contempla um conjunto de saberes para o exercício profissional, desenvolvendo as funções de cada um. Na formação inicial e continuada o conhecimento se constrói e é aprimorado na prática diária. A forma com que o indivíduo se relaciona com o outro e o conhecimento de mundo são situações formativas. Assim considera-se que o conhecimento profissional do professor traduz-se por um conjunto de saberes teóricos e experienciais que se expressam em um saber agir, conforme a situação e o contexto em que se encontra o indivíduo (FREIRE, 1996).
De fato, não é somente o acúmulo de conhecimentos construídos em tempo de formação acadêmica que constitui a identidade profissional, mas se faz presente em toda a história de sua vida, contemplando, em seu bojo, uma carga de experiência familiar, social, cultural, religiosa, econômica e a própria iniciação na carreira docente, em seus primeiros anos de atividades, com seus anseios, conflitos e dificuldades enfrentados na sala de aula. A concepção de Identidade, segundo Silva (2003), envolve a noção da fixação dessa identidade como um processo resultante de atos de criação lingüística. Assim, a identidade é uma criação social e cultural instável, isto é, está em constante transformação. Para Silva (2003) a identidade vem cercada pela instabilidade e pela constante construção, num processo de produção, que caracteriza seu estado contraditório, fragmentado, inconsciente e principalmente inacabado.