O conceito da path dependence surgiu na área da Economia a partir das obras de Brian Arthur e Paul David, nas quais os autores relatavam um mecanismo de retornos crescentes e feedbacks positivos que estariam relacionados à lógica do funcionamento desse mecanismo (BERNARDI, 2012). Na Ciência Política a conceituação da dependência trajetória foi introduzida por Pierson e seria o conjunto de processos dinâmicos que gerariam determinados resultados a partir de um seguimento particular adotado. Desse modo, o conceito pode ser utilizado como ferramenta analítica auxiliando o estudo de sequências e desenvolvimento temporais de eventos e processos sociais (PEREIRA, 2019).
Para Pierson, esses processos de feedbacks positivos teriam quatro características principais, quais sejam:
1) imprevisibilidade: dado que os eventos iniciais produzem grandes efeitos e são aleatórios, muitos resultados são possíveis e não se pode predizer a priori qual deles será selecionado;
2) inflexibilidade: quanto mais o processo avança, mais difícil é transitar da trajetória selecionada para outras alternativas;
3) não-ergodicidade: o efeito de eventos contingentes no início da sequência não é anulado, mas sim amplificado, com o passar do tempo; e
4) ineficiência potencial da trajetória: no longo prazo o resultado final pode gerar menos benefícios do que uma das alternativas antes plausíveis no início da sequência (PIERSON, 2004 apud BERNARDI, 2012, pp. 151-152).
Ao considerar que os fenômenos históricos e entender que o legado do passado condiciona o futuro, os institucionalistas históricos defendem que os indivíduos agem dentro de arranjos institucionais cuja estrutura e funcionamento só podem ser entendidos parcialmente se a análise não estiver integrada a uma perspectiva histórica. Para Pierson, as observações sobre a vida política devem ser realizadas a partir de lapsos temporais mais
longos, situando as variáveis e os momentos particulares analisados numa sequência de eventos e processos que se estende ao longo do tempo (BERNARDI, 2012).
Portanto, em termos práticos e gerais, paraPierson a análise da dependência trajetória num contexto institucional foca em processos nos quais após momentos de formação inicial, uma opção de instituição ou política é escolhida (critical junctures) e o avanço nessa mesma trajetória enseja consequência que aumentam a atratividade desse percurso na próxima rodada, ocasionando um ciclo de autorreforço em que os custos de transição para outras alternativas aumentam com o passar do tempo e tornam uma mudança radical ou reversão de curso cada vez menos provável (PIERSON, 2004 apud BERNARDI, 2012).
De fato, as premissas da path dependence se aproximam dos objetivos deste trabalho uma vez que parte-se do pressuposto de que as decisões tomadas no momento crítico de transição política após a ditadura militar no Brasil ocasionaram posicionamentos que reafirmaram o pacto políticos entre elites civis e militares, tornando as dimensões da Justiça de Transição insuficientes.
Sobre o significado da ferramenta analítica utilizada, Pierson e Skocpol lecionam:
“[...] los mejores académicos institucionalistas históricos refieren a la dinámica de los procesos de retroalimentación positiva en un sistema político –lo que los economistas llaman procesos de „rendimientos crecientes‟2” (PIERSON; SKOCPOL, 2008, p. 13).
Trata-se, portanto, de um mecanismo de análise que contribui na elucidação das trajetórias institucionais considerando principalmente o desenvolvimento de padrões e mudanças nessas instituições.
Uma vez utilizada a path dependence na presente pesquisa, a análise institucional é entendida a partir do pressuposto de que existem processos que são dependentes da trajetória percorrida. As escolhas tomadas nas chamadas conjunturas críticas ensejam mecanismos de feedbacks que reforçam a recorrência e reprodução futura do padrão optado inicialmente. Os processos dependentes das trajetórias podem ser altamente influenciados pelo fluxo adotado nas etapas iniciais de um momento crítico (PIERSON; SKOCPOL, 2008).
Nos períodos iniciais das conjunturas críticas, as decisões particulares tomadas pelos atores do processo, são improváveis de serem revertidas no curso do trajeto. As alternativas plausíveis que não foram acatadas previamente podem ser irrecuperáveis. Deste modo, analisar a forma como se dá os eventos e processos, bem como suas relações de dependência
2 “A path dependence pode ser um termo complicado, sem um significado preciso, mas os melhores estudiosos do institucionalismo histórico referem-se à dinâmica dos processos de retroalimentação positiva em um sistema político – o que os economistas chamam de processos de „retornos crescentes‟” (tradução livre).
com os momentos críticos, são cruciais na análise institucional (PIERSON; SKOCPOL, 2008). Sobre isso, Pierson e Skocpol lecionam:
Los procesos dependientes de la trayectoria estrictamente definidos involucran una lógica clara: los resultados en una „coyuntura crítica‟ desatan mecanismos de retroalimentación que refuerzan la recurrencia de un patrón particular en el futuro.
Los procesos dependientes de la trayectoria tienen características muy interesantes.
Pueden ser altamente influidos por perturbaciones relativamente pequeñas en etapas iniciales. Una vez que los actores se han aventurado en un camino particular, sin embargo, es probable que les sea difícil revertir ese curso. Las alternativas políticas que una vez fueron plausibles pueden ser irrecuperables. De este modo, los eventos o procesos que tienen lugar y las coyunturas críticas que los suceden emergen como cruciales3 (PIERSON; SKOCPOL, 2008, p. 13).
As contribuições da path dependence empregadas nesta dissertação teve como intuito um olhar crítico sobre a participação dos militares, sobretudo às Forças Armadas, tanto com relação à participação desta instituição na instauração da ditadura militar brasileira, quanto nos papéis incorporados no cenário jurídico e político com a partir da redemocratização.
Assim, para compreender a relação entre justiça de transição e redemocratização foram usados os principais conceitos da path dependence4, quais sejam: critical junctures5, autorreforço e lock-in6 (PEREIRA, 2019) que serão utilizados no decorrer do trabalho.
3 “Os processos dependentes da trajetória estritamente definidos envolvem uma lógica clara: os resultados em
uma „conjuntura crítica‟ desencadeiam mecanismos de retroalimentação que reforçam a recorrência de um determinado padrão no futuro. Os processos dependentes da trajetória têm características muito interessantes.
Eles podem ser altamente influenciados por perturbações relativamente pequenas em etapas iniciais. Uma vez que os atores se aventuram por um determinado caminho, no entanto, é provável que achem difícil reverter esse curso. As alternativas políticas que uma vez foram plausíveis podem ser irrecuperáveis. Desse modo, os eventos ou processos que ocorrem e as conjunturas críticas que os sucedem surgem como cruciais” (tradução livre).
4 “Dependência trajetória” (tradução livre).
5 “Conjunturas críticas” (tradução livre).
6 “Trancamento” (tradução livre).
3 JUSTIÇA DE TRANSIÇÃO: CONCEITO, HISTÓRICO E PRESSUPOSTOS