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Lock-in: a falha nas reformas institucionais e a probabilidade de irreversibilidade da

3 JUSTIÇA DE TRANSIÇÃO: CONCEITO, HISTÓRICO E PRESSUPOSTOS

5.5 A militarização da democracia no Brasil: relações civis-militares no jogo político . 106

5.6.3 Lock-in: a falha nas reformas institucionais e a probabilidade de irreversibilidade da

Outro conceito a teoria da path dependence é o lock-in. O termo advém da ideia de que quando determinada estrutura é atingida influenciada pelas escolhas realizadas, aumentam-se os custos para alterá-la, de modo que, o processo se torna trancado, aprisionado naquela dinâmica optada (PEREIRA, 2019).

Para Bernardi (2012), a situação de lock-in é uma situação de irreversibilidade de uma estrutura. Entende-se que múltiplos resultados finais são possíveis a depender da escolha e do desencadear particular dos acontecimentos. O início dessa sequência de eventos em favor de uma das alternativas postas tem seus efeitos ampliados principalmente a partir do processo de autorreforço. É por esses motivos que a teoria afirma que o processo é dependente da trajetória, haja vista ser incapaz de anular os efeitos persistentes de condições que prevaleceram no início da história do processo.

O ciclo vicioso se mantém “[...] a não ser que a intervenção de alguma força externa ou de um choque altere sua configuração ou transforme as relações estruturais subjacentes aos atores” (BERNARDI, 2012, p. 142). Assim, mesmo que a alternativa escolhida inicialmente evidencie-se menos eficiente em detrimento de outras, a probabilidade de mudança é improvável visto que a escolha inicial encontrou alicerces enraizando-a durante o tempo e a transição para outras realidades se apresentam como custosas demais.

O trâmite do processo condiciona-se à escolha inicial tornando-o dependente de sua trajetória. Tal dependência é entendida como uma tendência inercial considerando que há a reprodução de determinadas políticas ou instituições durante um lapso temporal considerável após a seleção da alternativa (PEREIRA, 2019).

Segundo Pereira (2019), ao observar o estado de lock-in na experiência brasileira, este se configurou quando o Brasil ficou aprisionado em uma justiça de transição não punitiva e não confrontacional no que se refere às Forças Armadas. Em sua análise identifica um exemplo recente que ressalta a situação de lock-in, ou seja, os aprisionamentos às escolhas iniciam durante o processo de transição política. Trata-se do lobby bem sucedido por parte dos militares para garantir que a instauração de uma Comissão Nacional da Verdade no Brasil causasse o mínimo de impacto possível na imagem das Forças Armadas, estratégia semelhante a adotada no passada e que, de certo modo, foi atendida mesmo no regime democrático (PEREIRA, 2019).

Ainda exemplificando a CNV como situação de lock-in do processo transicional brasileiro a autora observou que durante a instituição da Comissão houve articulações militares caso em que o comandante do Exército Enzo Martins Peri e o da Aeronáutica Juniti Saito ameaçaram pedir demissão, declarando ao então Ministro da Defesa Nelson Jobim, que o Plano Nacional de Direitos Humanos 3 era agressivo e revanchista contra as Forças Armadas. À época, o próprio Ministro concordou com os militares e até ameaçou a deixar o governo (PEREIRA, 2019).

Nota-se que nessa época, mesmo após a promulgação da Constituição Federal, que em tese deveria ter posto limites na autonomia e prerrogativas das Forças Armadas, as exigências militares influenciavam as questões políticas do país. Como leciona Pereira (2019) havia preocupação por parte dos castrenses de que houvesse alteração na Lei da Anistia que determinou a impunidade dos ditadores. Desse modo, diante de uma forte pressão política, o governo recuou e fez significativas alterações no Projeto de Lei 7.376/2010 que criava a CNV:

Dentre as principais alterações promovidas pelo Decreto, esteve a supressão do termo “repressão ditatorial” em referência à ditadura militar no Brasil (1964-1985).

Ainda no Plano Nacional de Direitos Humanos constava dentre as atribuições da Comissão Nacional da Verdade a de “colaborar com todas as instâncias do poder Público para a apuração de violações aos direitos humanos, observadas as disposições da Lei Nº 6.683, de 28 de agosto de 1979” (Lei da Anistia). Após a alteração, o texto prevê o exame e não mais a apuração de violações aos direitos humanos. O período analisado pela comissão também foi alterado: em vez de englobar apenas o regime militar (1964-1985), o grupo tratou dos acontecimentos ocorridos entre 1946 e 1988 (PEREIRA, 2019, pp. 18-19).

Ao observar a resistência e influência dos militares em pautas políticas a partir dessas alterações mencionada, além de trabalhar para garantir a continuidade de suas prerrogativas, verifica-se que cada vez mais se pretendia manipular os conceitos que se tinha em relação ao regime militar. Pode-se dizer que a justiça transicional brasileira foi falha e que as Forças Armadas preocupavam-se mais com o direito e à memória e verdade do que os ditos defensores da democracia. A memória e a verdade defendida pelos militares tinham e ainda têm como intuito relativizar os acontecimentos do passado ditatorial. Não foi à toa que desde o golpe de Estado de 1964 os castrenses se preocuparam em manter um discurso de legitimidade para distorcer o sentido das práticas autoritárias perpetradas, justificando a necessidade de se combater um inimigo interno (PEREIRA, 2010). Tais justificações continuaram durante todo o regime, na distensão política, no período de transição, bem como no atual regime democrático.

Sendo assim, ao analisar o processo de justiça de transição no Brasil a partir dos conceitos trabalhados dentro da teoria da path dependence restou evidenciado que as decisões tomadas no momento crítico dessa experiência, ou seja, o momento da abertura política que culminou na redemocratização, ensejou legados que continuam existindo até os dias atuais.

Nessa perspectiva, um processo que se iniciou e foi conduzido pelos próprios militares que exerciam um poder de exceção sobre a nação dificilmente apresentaria um resultado diferente que não fosse a continuidade de preceitos do autoritarismo no regime democrático. Essa tendência inicial da redemocratização brasileira, fortificada pelos autorreforços empreendidos pelos militares após a abertura política, se fortaleceu no meio institucional e perpetuam as influências do autoritarismo na cena política, questões que assombram e ameaçam o regime democrático.

6 O PROCESSO CONSTITUINTE DE 1988 À LUZ DA JUSTIÇA DE TRANSIÇÃO:

INCONGRUÊNCIAS, REFORMAS E NOVAS PERSPECTIVAS

“A força simbólica é então a força que manipula símbolos, manipula significações, que impõe valores e sistemas de representação. A força simbólica de uma constituição é a de promover uma nova era.”

(Stéphane Monclaire)