2.1 BASE DA PIRÂMIDE
2.1.3 A Perspectiva da Base da Pirâmide (BoP)
C. K. Prahalad, Stuart Hart, Mark Milstein, Allen Hammond e Kenneth G. Lieberthal foram alguns dos pesquisadores da área de ciências sociais aplicadas e, mais especificamente, do campo da administração estratégica, que se dispuseram a investigar novas formas de combate à pobreza que proporcionassem geração de novas oportunidades de negócios para as empresas à medida que estas atuassem junto às camadas populacionais mais pobres do mundo para criação de valor socioeconômico, de capacidade de consumo e de satisfação das necessidades, mesmo que elementares. Portanto, as empresas poderiam auxiliar na redução da pobreza mundial e ainda aproveitar as oportunidades de negócios ainda não exploradas na base da pirâmide, aumentando sua participação de mercado e seus lucros (PRAHALAD; HART, 2002). Essa nova vertente dos estudos em ciências sociais aplicadas foi chamada de Base da Pirâmide (BoP).
De acordo com Kolk, Rivera-Santos e Rufin (2014), em uma revisão sobre essa temática, Prahalad e Lieberthal (1998) foram responsáveis pela primeira grande abordagem à questão da estratégia de atuação das empresas em mercados emergentes que, até então, eram pouco explorados. A primeira grande tentativa de suprimento desses novos mercados ocorreu na década de 1980 e de forma imperialista, isto é, foi tomada a decisão estratégica de que esses mercados ainda em desenvolvimento receberiam os mesmos produtos que eram direcionados aos
mercados tradicionais e desenvolvidos. Com essa estratégia imperialista, “as
multinacionais têm alcançado um sucesso limitado”, ou seja, não conseguiram
alcançar o potencial dos mercados emergentes. Para que as multinacionais fossem
capazes de alcançar mercados emergentes, seriam necessários o “abandono de
estratégias imperialistas” e o emprego de estratégias e produtos adequados aos novos mercados (PRAHALAD; LIEBERTHAL, 1998, p. 70, tradução nossa).
Embora aspectos iniciais do conceito da Base da Pirâmide tenham sido apresentados por Prahalad e Lieberthal (1998), seus fundamentos e estratégias
foram introduzidos de uma maneira mais elaborada por Prahalad e Hart (2002) em
seu artigo seminal “The fortune at the Bottom of the Pyramid”. A então Base da
Pirâmide, proposta por Prahalad e Hart (2002), foi caracterizada como sendo composta por aproximadamente 4 (quatro) bilhões de pessoas que tinham em comum a incapacidade de satisfazer suas próprias necessidades básicas.
Na época da construção do trabalho de Prahalad e Hart (2002), o mercado mundial era composto por quatro classes hierarquicamente expostas: no topo da pirâmide estavam aproximadamente 100 milhões de pessoas advindas das populações ricas dos países desenvolvidos e elites de países em desenvolvimento que tinham renda anual superior a US$ 20.000; na parte intermediária da pirâmide, estariam as classes 2 e 3 compostas pelas pessoas menos abastadas dos países desenvolvidos e as classes médias dos países em desenvolvimento, somando até 1,75 bilhão de pessoas com rendas entre US$ 1.500 e US$ 20.000; já a base da pirâmide (classe 4) seria formada pelas pessoas mais pobres do mundo, sendo constituída de aproximadamente 4 bilhões de pessoas com renda anual inferior a US$ 1.500 (PRAHALAD; HART, 2002). A configuração da pirâmide econômica está representada na FIGURA 2:
Renda per capital
anual Classes População (em milhões) Mais de US$ 20.000 1 75-100 Entre US$ 1.500 e US$ 20.000 2 e 3 1.500 – 1750 Menos de US$ 1.500 4 4.000
FIGURA 2 – A PIRÂMIDE ECONÔMICA MUNDIAL
FONTE: Prahalad e Hart (2002).
Cabe observar que o valor de referência para a pobreza apresentado por Prahalad e Hart (2002) é superior ao adotado pela ONU e pelo Banco Mundial.
Segundo esses dois últimos órgãos, a linha de pobreza é formada por indivíduos com renda diária inferior a US$ 2, o equivalente a US$ 720 anuais. Já na visão de Prahalad e Hart (2002), dentro da Base da Pirâmide, a renda limite para ser classificado dentro da linha de pobreza é US$ 1.500. Essa diferença entre os valores de referência, se dá pelo baixo nível de consumo encontrado entre aqueles com renda anual de US$ 720, por isso, esse valor foi aumentado para US$ 1.500, abrangendo o número de 4 bilhões de pessoas classificadas como integrantes da base da pirâmide econômica. Nesse trabalho serão adotados os parâmetros e informações oficiais sobre a pobreza, ou seja, aqueles divulgados pela ONU e Banco Mundial. Porém, as explicações sobre a proposta da Base da Pirâmide serão consideradas, pois a diferença de parâmetros adotado pelos autores desta perspectiva teórica são aplicáveis às pessoas mais pobres do mundo de maneira geral.
Conforme Prahalad e Hart (2002), a classe quatro é a que apresenta um número maior de necessidades ainda não satisfeitas. Em parte, isso se deve pelo fato de que elas não podem pagar o preço cobrado pelos produtos que, segundo os autores, ocorre pelo foco excessivo que as empresas, principalmente as multinacionais, dão à primeira, à segunda e à terceira classe da pirâmide econômica mundial, deixando de suprir as necessidades da base da pirâmide. No entanto, caso as organizações começassem a oferecer bens e serviços aos mais pobres, elas poderiam contribuir para “melhoria de suas vidas através da produção e distribuição de bens e serviços adaptados às suas culturas, habitats e necessidades,
ambientalmente sustentáveis e economicamente viáveis”. Ao agir dessa forma, as
organizações estariam incluindo os marginalizados no atual modelo econômico e poderiam também aumentar sua participação no mercado e seus lucros. Essa perspectiva poderia constituir uma nova oportunidade de negócios para as organizações empresariais. (PRAHALAD; HART, 2002, p. 3, tradução nossa).
No entanto, para que as empresas conseguissem atuar e lucrar na base da pirâmide, elas teriam que inovar radicalmente seus modelos de negócios e adequá-los às necessidades do novo mercado. Na visão de Prahalad (2010, p. 52) “a BoP, como um mercado, oferece uma nova oportunidade de crescimento para o setor privado e um fórum para inovações. Soluções velhas e desgastadas não podem criar mercados na BoP”.
Para o atendimento deste mercado, seriam necessárias estratégias de atuação inovadoras que respeitassem as quatro dimensões principais: os produtos e serviços deveriam ter uma melhor relação entre preço e desempenho; melhor qualidade acoplada aos produtos para que eles conseguissem enfrentar condições extremas como as grandes variações de temperaturas, poeira, problemas de transporte; adequados à sustentabilidade na medida em que as organizações conseguissem diminuir o uso de recursos, utilizar energia renovável e reciclar os resíduos; e maior rentabilidade através do elevado volume de vendas à população da base da pirâmide (PRAHALAD; HART, 2002).
Porém, para que haja sucesso na atuação das empresas na base da pirâmide, além das estratégias apresentadas anteriormente, é necessária uma infraestrutura baseada em quatro principais aspectos, sendo: criar poder de compra (por meio do acesso ao crédito e à geração de renda), moldar aspirações (pela educação do consumidor, seguindo também os preceitos do desenvolvimento sustentável), adaptar soluções locais (ao desenvolver produtos direcionados e dotados de inovação) e melhorar o acesso (por meio de novos sistemas de distribuição e comunicação) (PRAHALAD; HART, 2002).
Portanto, de acordo com Prahalad e Hammond (2002), ao estimular o comércio e o desenvolvimento na base da pirâmide, as multinacionais teriam a chance de ajudar a melhorar a vida de bilhões de pessoas que passariam a alcançar os benefícios do modelo econômico vigente e ainda poderiam desfrutar de lucros provindos de mercados ainda pouco explorados. Conforme destacado por Prahalad:
Se pararmos de pensar nos pobres como vitimas ou como um fardo e começarmos a reconhecê-los como empreendedores incansáveis e criativos e consumidores conscientes de valor, um mundo totalmente novo de oportunidades se abrirá. (PRAHALAD, 2010, p. 47)
No entanto, para que o desenvolvimento das comunidades seja alcançado são necessários esforços conjuntos entre as empresas privadas, as agências de desenvolvimento e ajuda humanitária, as organizações da sociedade civil e os próprios consumidores e empreendedores BoP. As relações entre esses agentes são evidenciadas na FIGURA 3.
Prahalad (2010) faz três afirmações sobre a BoP: a) os pobres tem condições para se tornarem um novo e imenso mercado; b) a maneira de atender adequadamente os mercados carentes do mundo é por meio da inovação em
produtos, serviços, processos e em modelos de negócios; c) para que a pobreza realmente seja aliviada no mundo, são necessário, além das empresas, o envolvimento de governos locais e nacionais.
FIGURA 3 – DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL Fonte: Prahalad (2010, p. 48)
Ao final dos argumentos relacionados à perspectiva BoP, Prahalad (2010) elenca um grupo de empresas que possuem atuações junto às pessoas mais pobres do mundo. Dentre essas empresas tratadas pelo autor estão: Casas Bahia, Cemex, e Hindustan Unilever, apresentadas no QUADRO 1.
Percebe-se que nos quatro casos analisados, conforme QUADRO 1, há relação profunda com a população da base da pirâmide. Conforme analisado por Prahalad (2010) as Casas Bahia facilitam o acesso de seus clientes ao crediário e, com isso, possibilitam a compra de móveis e eletrodomésticos pela população carente. A mexicana Cemex trabalha de forma semelhante ao financiar 80% da compra de seus clientes. Porém, são oferecidos outras comodidades aos seus clientes como a entrega fracionada, já que muitos deles podem não ter espaço para o armazenamento dos materiais adquiridos. Outra característica importante que a Cemex oferece aos seus clientes é o treinamento para a utilização do material pelo próprio comprador.
As atuações da Unilever na Índia, tanto no caso dos sabonetes quanto no caso do sal iodado, estão relacionadas com a percepção da necessidade das populações carentes e, em seguida, são oferecidos produtos e serviços adequados à população e seus preços são fixados em patamares menores que os produtos
Desenvolvimento econômico e transformação social
Empresa privada
Organizações da sociedade civil e governo local
Agências de desenvolvimento e ajuda
Consumidores da BoP Empreendedores da BoP
vendidos tradicionalmente pelas empresas. Estas estratégias permitiram à Unilever o acesso aos mercados da base da pirâmide, por meio da oferta de produtos adaptados às necessidades da população e com preços menores ao praticados no mercado tradicional.
Empresa Produto País de atuação
(inicial) Resumo do estudo de caso
Casas Bahia Varejo Brasil
Comércio varejista brasileiro que
desenvolveu uma estratégia inovadora através de carnês que permitem o pagamento de pequenas prestações pelos produtos. Para a análise de crédito é considerada também a renda informal.
Cemex Materiais para
construção México
Comercializa produtos para construção de casas, cobrando da população carente 20% na conclusão da obra e os 80% restantes são financiados sem a necessidade da comprovação de renda.
Garantem também preço fixo,
armazenagem, entrega fracionada e treinamento para que os próprios clientes possam construir suas casas.
Hindustan Unilever Sabonete Índia
Com o objetivo de auxiliar na resolução do problema da diarreia na Índia, por meio de uma parceria com o poder público, a Unilever desenvolveu um sabonete com maior eficiência e com um preço abaixo do então praticado para facilitar o acesso da população da base da pirâmide a este produto.
Hindustan Unilever Sal Iodado Índia
Devido ao problema da insuficiência de iodo nas populações pobres da Índia, foi criado um tipo de sal com acréscimo de iodo e com preço menor para que as populações mais carentes do país pudessem adquirir o produto.
QUADRO 1 – CASOS BOP APRESENTADOS EM PRAHALAD (2010) FONTE: O autor (2015), com base em Prahalad (2010)
Porém, poucos anos depois dos primeiros trabalhos sobre a perspectiva BoP, algumas críticas foram feitas sobre algumas de suas argumentações, assunto este abordado na próxima seção deste capítulo.