CAPÍTULO V – ANÁLISE DE DADOS
5.2 A PERSPECTIVA DOS PROFESSORES INICIANTES SOBRE OS SABERES,
PROFISSIONAL
Durante a formação inicial começa o processo de desenvolvimento profissional dos docentes, fortalecido na fase de ingresso na carreira. Ele ocorre em sintonia com as experiências do sujeito e por meio de processos formais e informais vivenciados. Trata-se de um momento de grande importância na trajetória do futuro docente, pois ele passará de estudante para professor; portanto é um momento essencial da formação da identidade profissional.
Tardif e Lessard (2007), ao tratarem da questão da formação dos docentes para atuar no ensino superior, sinalizam que, mesmo que os professores tenham trajetória intensa de formação em seu campo de conhecimento, há evidências de falta de preparo e até um desconhecimento científico do que seja o processo de ensino e aprendizagem, pelo qual passam a ser responsáveis a partir do instante em que ingressam na sala de aula, e isso envolve a questão dos saberes para ensinar.
De que ordem seriam esses saberes? Tardif (2003, p.370) esclarece que
[...] os saberes dos professores devem ser um saber plural, formado de diversos saberes, provenientes de instituições de formação, da formação profissional, mas também de uma prática cotidiana, que se aprimora com o tempo, há que ser um saber heterogêneo para que se possa atingir os verdadeiros objetivos de uma aprendizagem significativa, mas há que se ter também muita sensibilidade que vai além da abordagem clássica de um conteúdo a ser explicado aos alunos.
Adquirir essa gama de saberes não é fácil para o professor iniciante, especialmente quando formado em curso com muitas possibilidades de abordagem, como é o caso da Biologia.
O comentário do professor Mário, que atua numa instituição privada na cidade de São Paulo, mostra seu esforço para desenvolver seus saberes e formar seus alunos numa perspectiva mais aberta. Relata que, em sua primeira experiência
no ensino superior, teve uma grande preocupação em formar alunos críticos e investigativos:
O curso de Biologia envolve também questões sociais muito importantes, como controle de natalidade, sustentabilidade, saneamento básico, sexualidade e saúde. É preciso abordar esses assuntos em nossa disciplina, e isso não é fácil no início da docência, nem sei se quando me tornar um professor mais experiente será fácil... São muitas as questões que a Biologia engloba... (Prof. Mário)
O professor Júlio, que também atua em universidade privada, indica que no início da docência teve o mesmo problema que o professor Mário: dificuldade em abordar diversos assuntos. No caso do Curso de Biologia, essa diversidade é muito grande – engloba temas como Ecologia Geral, Gestão Ambiental, Biologia Celular e Genética, Botânica, questões ambientais e sociais, entre outros –, e dar conta dela se tornou um desafio, segundo seu depoimento. A dificuldade estava sobretudo na abordagem do conteúdo e na metodologia da prática docente. O entrevistado atribui o problema à sua formação inicial e ao ensino da docência: “Reconheço que essa dificuldade também é fruto de uma formação inicial que não ensina as novas formas de aprender como ensinar.” (Prof. Júlio)
Ainda na perspectiva de considerar a consciência que esses professores entrevistados vão adquirindo em relação à necessidade de ampliar os saberes para a docência, Júlio expressa que, mesmo com pouca experiência, assumiu compromisso com a qualidade do ensino e buscou aperfeiçoar-se:
Sempre sonhei em ser professor de Biologia, pois acredito que com minha atuação como professor poderia contribuir na formação de um aluno investigador, pesquisador. Mesmo com pouca experiência no ensino médio, deparei com o compromisso de um ensino de qualidade, que foi amadurecendo, e com o tempo fui verificando na minha prática em sala de aula a necessidade de uma formação mais aprofundada. Com isso senti necessidade de fazer o mestrado e depois o doutorado, dando continuidade nos estudos. (Prof. Júlio)
A necessidade de integrar os saberes pedagógicos aos saberes do conteúdo da área parece ser uma preocupação de Júlio. Ele observa no colega que cursou Pedagogia características diferentes em sua forma de atuar:
No curso de Biologia notei um colega que havia feito o curso de Pedagogia e Licenciatura em Biologia e me parecia que sua experiência anterior, tendo feito mais estágios do que eu, contribuía muito na forma de dar suas aulas, achei bacana a forma como ela trabalhava com os alunos. O ensino era focado na prática escolar. E, através de muito estudo, fui trilhando o caminho de como ser professor. Creio que todos os professores deveriam cursar Pedagogia. (Prof. Júlio)
Nos depoimentos nota-se como os professores formadores ressaltam a importância de uma boa formação profissional para atender à demanda da sala de aula. Ao mesmo tempo, seus relatos nos incitam a refletir sobre uma situação que precisa ser examinada com cuidado: a escola, além de ser local que possibilita o desenvolvimento do conhecimento, é também espaço de conscientização e de construção de um pensamento crítico. Isso leva a uma aproximação com os estudos de Paulo Freire (1970), que apresenta a educação como uma prática da liberdade, baseada em uma ação dialógica entre os diferentes espaços de vivência e de aprendizagem.
Assim, pode-se considerar que a formação desse professor deveria ser cuidada ainda no curso de Licenciatura. Considerada essa abordagem, sua prática na formação dos futuros professores da escola básica teria mais qualidade, voltando-se para o preparo de profissionais críticos, reflexivos e éticos, conscientes dos desafios da sociedade e capazes de ideias inovadoras e ações estratégicas.
Para Almeida (2012), os saberes da docência abarcam também o cuidado e o conhecimento das demandas do outro, pois “as ações de cuidar na relação pedagógica envolvem sempre o comprometimento, a disponibilidade para conhecer as necessidades do outro naquele momento, naquele contexto determinado” (p.43).
Com o tempo, os docentes vão buscando e vivenciando aprendizagens que passam a compor seu próprio repertório profissional, e assim vão organizando um leque de possibilidades e atividades, das teóricas às práticas, que lhes permite uma melhor atuação na difícil relação do ensinar e aprender.
A professora Mariana revela novamente sua preocupação com o cuidar, pois
“constituímo-nos pessoas pelo cuidar do outro” (Profa. Mariana). E lembra que o papel das instituições em relação à formação contínua dos professores é essencial para que os docentes iniciantes se apropriem dos saberes da docência, que incluem também o cuidado e o conhecimento das demandas do outro.
Penso que devemos ensiná-los sempre da melhor forma, então acredito no papel das instituições de formação de professores numa formação contínua dos mesmos, havendo espaço para o desenvolvimento e a valorização profissional de seus docentes.
(Profa. Mariana)
A necessidade de estimular os alunos a ler é abordada por Mariana e ao mesmo tempo tida como uma dificuldade do seu trabalho:
Sempre falo que, embora seja jovem, no tempo em que estudava não tinha muitos recursos. e hoje eles têm tudo de fácil acesso. Falo sempre da importância dos livros. Eles têm muita preguiça de ler.
Muitos alunos dizem que não gostam de ler. Daí eu estimulo a leitura e a pensar e utilizar novas ferramentas. Sempre digo que eles poderão estudar na melhor escola do mundo, mas se eles não quiserem aprender não vai dar certo. Por isso digo da dificuldade profissional docente. (Profa. Mariana)
Importante destacar, conforme expressam a fala anterior e a seguinte, como nesse início os professores buscam aprender mais. Fica claro que se interessam por novas descobertas, novos saberes, novas formas de ensinar, eles estão abertos a isso. O professor Rogério, que atua em uma instituição sem fins lucrativos, comenta sobre seu interesse em adotar novas metodologias:
Buscar sempre mais conhecimento me motiva, e o ingresso no ensino superior me fez amadurecer muito, procuro por um método mais eficiente de estudo para as novas gerações, quero dizer, para as gerações atuais, ou uma metodologia que faça com que esse aluno se interesse por assuntos tão abstratos quanto a Citologia e a Genética, mas creio que nossa profissão precisaria ser melhor reconhecida pela sociedade. (Prof. Rogério)
Pode-se identificar ressonância do comentário citado na fala do professor Júlio, que acentua o valor do trabalho coletivo:
Acredito na formação inicial, na pós-graduação, nas pesquisas em livros, nas trocas entre os colegas de trabalho, tudo isso me ajuda a desenvolver melhor o meu trabalho, mesmo quando as opiniões entre os colegas que lecionam a mesma disciplina diferem. O trabalho coletivo é fundamental. (Prof. Júlio)
Em um de seus estudos sobre o início da carreira docente, Guarnieri (2005, p.5) esclarece que “[...] o aprendizado da profissão a partir de seu exercício
possibilita configurar como vai sendo constituído o processo de aprender a ensinar”.
Como expressa o professor Rogério:
O profissional da licenciatura, antes de tudo, deve saber passar a sua mensagem da forma mais clara possível. Não necessariamente ser um especialista renomado na área, mas ter a noção básica do uso e aplicação corretos do conhecimento absorvido durante a licenciatura; o profissional formador de professores deve mostrar a importância de cada tema apresentado, para que o seu aluno, futuro professor, possa ser um bom professor, sendo assim reconhecido não só por seus alunos, mas também pela sociedade.
Gatti (2013, p.60) alerta sobre a importância de uma base sólida de conhecimentos da profissão, não restrita apenas à formação inicial, “[...] solidez também que necessita de reconhecimento pelo conjunto da sociedade. A representação de valor da profissão docente também está associada ao reconhecimento do valor social atribuído à sua formação”.
Dando continuidade à análise, a professora Mariana faz a seguinte colocação quando perguntada sobre o que acha importante na docência, ou seja, o que é preciso considerar no momento de ministrar as aulas no curso de licenciatura:
E sobre o trabalho do professor na Licenciatura, falando tecnicamente, eu acho que a “atualização sempre”, isso é muito importante! Nunca entro em sala de aula sem dar uma revisão no conteúdo e sem dar uma olhada em informações que estejam presentes na internet para ver se tem novas informações, pois sempre tem coisas novas. Por exemplo, essa semana eu vou dar aula sobre algas, estou replicando essa aula, vou pesquisar
“FLORAÇÃO DE ALGAS”, então já vi que a BILLINGS está com um problema de floração, então já vou acrescentar essa informação na minha aula. (Profa. Mariana)
A professora busca um aperfeiçoamento constante que lhe permite passar informações atualizadas para os alunos, atendendo à sua demanda de aprendizado.
Nesse sentido, Giovanni (2005, p.47) aponta que, “na relação pedagógica estabelecida em sala de aula, professor e alunos realizam o processo de estudar a realidade que os cerca, compreendendo e elucidando sua própria forma de ser, pensar e agir dentro dela [...]”. A entrevistada demonstra grande preocupação com sua própria formação e atualização, não se prendendo apenas a informações prontas vindas do livro didático.
Desse modo, nota-se que a concepção de aprender a ensinar não se restringe apenas à formação inicial. Segundo Marcelo García (2010), para ensinar bem é importante ter ciência de alguns tipos de conhecimentos: conhecimento de contexto, dos alunos, de si mesmo e de como se ensina. O autor ainda faz uma crítica aos aprendizados propiciados pelas instituições responsáveis pela formação inicial:
Os estudantes em formação costumam perceber que tanto os conhecimentos como as normas de atuação transmitidos na instituição de formação pouco têm a ver com os conhecimentos e as práticas profissionais. Tendem, finalmente, a descartar, por considerá-las menos importantes, a necessidade de incorporar certos conhecimentos que fundamentam o trabalho prático. (p.14)
A professora Mariana demonstra inquietação com essas questões a que o autor se refere quando fala de sua preocupação em atualizar os alunos.
Incentivo muitos os meus alunos a fazerem a Licenciatura, não só o Bacharelado [...] Embora eu não tenha experiência na escola básica como professora, digo que é uma profissão gratificante. Daí sempre incentivo a fazer licenciatura. Amo de paixão dar aula. Até tenho um aluno que estava fazendo bacharelado, mas gostava de dar aulas.
Orientei a fazer licenciatura. Hoje dá aula até no YouTube. “Eu segui o seu conselho”, diz ele. A última aula prática do ano é a nossa, é a aula de Botânica, onde estudamos as flores. Outro dia bateram na porta e perguntaram “Quando vai ter a aula dos lírios? Foi a melhor aula da minha vida!”. Nessa aula trago lírios e observamos sua formação. No final fazemos uma visita técnica. (Profa. Mariana)
Assim, a formação do professor deve ser considerada como possibilidade de reflexão teórico-prática, como troca de experiências entre os pares, como articulação com projetos de trabalho, como estímulo crítico ao enfrentamento dos problemas da profissão, como processo de inovação institucional. O docente necessita de saberes que extrapolem o conhecimento dos conteúdos que irá ministrar, é preciso considerar que é necessária uma atitude reflexiva, pois a dinâmica da sala de aula, bem como a heterogeneidade dos alunos exigem do professor uma formação específica.
Por mais que o professor seja portador e transmissor de muitos saberes, além de incorporar saberes exteriores, ele também compartilha outros que são seus, construindo um saber específico que se fundamenta e se legitima no fazer cotidiano da profissão. Um saber profissional que se implanta como um saber cultural,
“herdado em sua trajetória de vida e de sua pertença a uma cultura particular, que eles partilham em maior ou menor grau com os alunos” (TARDIF, 2003, p.297).
O professor Juliano aborda também a formação em ensino à distância (EAD), afirmando que exige disciplina do profissional. Mostrar os problemas da realidade e as ferramentas disponíveis para solucioná-los é a postura que valoriza nos professores.
A tendência é mostrar os problemas e as ferramentas para os alunos para que eles busquem a solução. O professor tem que apresentar questões sobre a realidade, apresentar problemas, sou entusiasta do aluno pesquisador. (Prof. Juliano)
Ele entende que a universidade deve se preocupar com o mercado de trabalho para esses jovens:
Quero dizer que formar o aluno é prepará-lo para a inserção no mercado de trabalho, então o ensino superior tem que ter esse olhar, e a universidade deve se preocupar com isso. (Prof. Juliano)
Questão mencionada também pela professora Mariana, que utiliza o trabalho em grupo nas aulas visando preparar os alunos para essa vivência na sociedade:
Eu trabalho oficinas em grupo, pois a gente vive em sociedade e o mundo lá fora é dinâmico, temos que trabalhar em grupos. Eu falo para os alunos “O mercado de trabalho é assim, tudo funciona em grupos. A gente vive em sociedade, precisamos saber trabalhar em grupos”. (Profa. Mariana)
A professora Fabíola diz que, em sua trajetória profissional, lecionar no ensino superior a incentivou a cursar o doutorado, e a sensação de que aquele era o caminho certo se comprovava com o prazer em adquirir mais conhecimentos. Além disso, a entrevistada comenta:
Busco ressaltar ainda que devemos estar atentos às questões que envolvem o professor, e que para ser um bom professor é necessário que se estude muito, assim como em outras profissões, ao contrário da ideia de que basta vocação e amor pela profissão. (Profa.
Fabíola)
A professora acrescenta: “Exercer uma profissão em que nos realizamos traz não só a alegria da realização profissional, mas também a pessoal e a alegria de perceber que nenhuma luta é em vão.”
Entretanto, quanto à qualidade do ensino, o professor Mário coloca a situação problemática do docente da rede pública, que não é valorizado, e diz: “Até porque se o professor fizer um belo trabalho, ganha o mesmo que aquele que deixa a desejar e acha que tudo tem que ser provido pelo estado.” Ele não concorda com isso e vê a necessidade do envolvimento e compromisso de todos, pois todos são responsáveis pela educação no país: professores, pais, Estado, enfim, todos.
Por sua vez, o professor Rogério lembra que políticas públicas recentes fizeram com que a maioria dos seus alunos matriculados na Licenciatura em Biologia não tivessem nem sequer uma base teórica bem fundamentada, cenário fruto de programas educacionais que enfraqueceram o ensino básico, oferecendo uma formação deficitária. O professor fala da falta de qualificação também dos docentes:
Mesmo no meu caso, sou mestre e não me vejo qualificado, dominando disciplinas como Citologia e Genética Humana. Assim, procuro me esforçar ao máximo, buscando novas abordagens. Por isso incentivo meus alunos a serem profissionais comprometidos, pois a realidade do nosso país requer profissionais envolvidos para contribuir na melhoria da qualidade de vida das pessoas. A formação básica do professor será o alicerce para ele trabalhar com quaisquer áreas da Biologia, integrando-as de forma harmônica. (Prof. Rogério)
Ponto importante a ser considerado em relação ao professor iniciante diz respeito à forma como é recebido nas instituições. A inserção profissional é vivida juntamente com seus pares, e o professor iniciante tanto pode ser apoiado como desestimulado frente à apropriação e adaptação de suas práticas como docente.
Darling-Hammond et al. (apud COSTA, FONTOURA, 2015), embora considerando a educação básica, sinalizam que:
Em outras profissões, os iniciantes vão continuar aprofundando seus conhecimentos e habilidades, geralmente orientados por profissionais mais experientes, com mais conhecimento, enquanto que, no magistério, há uma expectativa de que os novos professores sobrevivam ou abandonem com pouco apoio e atenção. (p.164)
Por fim, cabe mencionar que o desenvolvimento profissional do professor é um processo multifacetado, em que se verifica a influencia de fatores como a formação, a retribuição, a hierarquia, o clima de trabalho, a cultura organizacional, a interação entre os pares, entre os alunos, a interação com a comunidade, entre outros. Esse complexo conjunto de fatores interligados vai determinar ou impedir o progresso profissional do professor. (IMBERNÓN, 2004)
5.3 O PONTO DE VISTA DOS PROFESSORES INICIANTES QUANTO ÀS