CAPÍTULO V – ANÁLISE DE DADOS
5.1 EXPECTATIVAS DO PROFESSOR INICIANTE: SENTIMENTOS, APOIO
Durante a pesquisa foi possível constatar a importância do início da docência para o desenvolvimento e constituição da carreira de professor. Guarany (2013) destaca que esse é um momento de descoberta, mas também de frustrações, medos e angústias diante de competências e responsabilidades que não são fáceis de superar e que para a maioria dos entrevistados se apresentam pela primeira vez, pois não atuaram anteriormente como docente na escola básica.
Importante lembrar que apenas um dos professores teve experiência anterior no ensino médio por dois anos.
A professora Mariana atua há dois anos e meio numa instituição de ensino superior privada na cidade de São Paulo. Quando perguntada sobre como se tornou professora do ensino superior, ela reportou-se à fase de término do Mestrado, que coincidiu com seu início na docência:
Eu terminei o mestrado no dia 02 de fevereiro de 2016, a defesa foi no dia 02 de fevereiro, uma terça-feira, e no dia 05 de fevereiro de 2016, sexta-feira à noite, eu já estava em sala de aula, minha primeira turminha. Confesso que estava morrendo de medo, mas a cada semestre é uma nova conquista. (Profa. Mariana)
No depoimento da professora pode-se perceber como as emoções estão fortemente presentes no primeiro dia em sala de aula. A sensação de medo e insegurança parece um sentimento comum, como já indicado por Imbernón (2004).
Os sentimentos que invadem os iniciantes nesse começo da carreira e, em especial,
na primeira aula sugerem a necessidade de um equilíbrio, pois o iniciante se depara com uma sala de aula e com um grupo de alunos que precisam ser cuidados.
Ao expressar que a cada semestre uma nova conquista se efetiva, a professora revela como o processo de constituição profissional se dá no decorrer do tempo e no decorrer da própria prática. O fato de reconhecer que a profissão exige a compreensão das diferenças de cada turma e mudanças por parte do professor para se adequar a elas expressa uma preocupação com o outro, o aluno: “Acho que até o final da minha vida estarei me tornando professora, a gente vai se moldando, uma turma é diferente da outra [...].” (Profa. Mariana)
Também apontando aspectos emocionais recorrentes nessa fase, Murillo (2004) lembra que é no momento da prática que os modelos e as rotinas que estavam interiorizados acabam sendo atualizados:
[...] os primeiros anos dos professores na Educação Superior acabam sendo permeados por um período de muita ansiedade, decepções e fracassos [...] pois, ao longo de sua vida, foram interiorizando modelos e rotinas de ensino que se atualizam quando enfrentam situações de urgência onde tem que assumir o papel de professor, sem que ninguém/nada o tenha preparado para tal.
(MURILLO, 2004, p.4)
Uma situação mencionada pela professora Mariana como sua maior dificuldade se refere à sua aceitação pelos alunos em razão da pouca idade. Em seu relato contou que seus alunos expressaram claramente que não queriam ter aula com ela: “‘Não quero ter aula com você... Você não tem cara de professora.’” (Profa.
Mariana) Esse fato foi marcante e considerado por ela como muito negativo.
Contudo, durante seu percurso inicial, foi aos poucos lidando com isso e conquistando os alunos pela aproximação, pelo envolvimento e pela qualidade das aulas.
Para a professora, a qualidade do trabalho está na “atualização sempre”. A atualização a que se refere se aproxima da atenção constante em relação aos alunos e ao conteúdo. Destaca que nunca entra em sala de aula sem fazer uma revisão no conteúdo e nas informações adquiridas, seja por meio de livros ou da internet. “Estou sempre me atualizando e sempre com muito carinho para com os alunos. Eu durmo e acordo pensando no aluno, não tem jeito, a gente se apega mesmo.” (Profa. Mariana)
A entrevistada demonstrou como a percepção acerca do outro se faz necessária no ato de ensinar, em consonância com a lição de Wallon (apud ALMEIDA, 2012, p.42): “O cuidar perpassa toda a nossa vida e em todas as esferas que atuamos, afinal somos seres geneticamente sociais.” Constituímo-nos pessoas ao cuidar do outro, conforme destaca Almeida (2012). A profissão de professor nos mostra isso todos os dias, mas, quando se considera a rotina em sala de aula, percebe-se que, na maioria das vezes, tal ação não se configura dessa forma, parecendo que educar e ensinar se distanciam do cuidar. A professora tem clareza de que também os alunos universitários precisam ser cuidados, e o ato de cuidar abarca o de ensinar.
Como enfatiza Almeida (2012, p.52), “devemos estar atentos ao fato de que o clima da classe é gerado pelas inter-relações”. Essas inter-relações na sala de aula parecem ser a preocupação da Profa. Mariana, e ela as relaciona à aprendizagem dos alunos. Para ela, a efetiva aprendizagem acontece se o professor se permite conhecer a si mesmo e conhecer os alunos e a classe com que está trabalhando. Com isso, a angústia tende a diminuir, conforme seu relato:
No início das minhas aulas eu gosto de fazer uma dinâmica de apresentação, no primeiro dia de aula pergunto o que eles gostam e o que não gostam de fazer na vida. E essa dinâmica contribui para depois ir construindo a “Ciência Biológica”. Eu falo que é pra eles, mas na verdade é para mim mesma e, é claro, acabo conhecendo-os melhor. (Profa. Mariana)
Nos depoimentos coletados, nota-se como esses professores formadores acreditam na importância de uma boa formação profissional para atender à demanda da sala de aula, mas ao mesmo tempo colocam uma situação que precisa ser considerada e tratada com cuidado: a escola, além de ser local que possibilita o desenvolvimento do conhecimento, é também espaço de conscientização e de possibilidade de construção de um pensamento crítico. Definição que se aproxima dos estudos de Paulo Freire (1970), que apresenta a educação como uma prática da liberdade, baseada em uma ação dialógica entre os diferentes espaços de vivência e de aprendizagem.
Assim, podemos considerar que a formação do professor nos cursos de Licenciatura deveria propiciar uma perspectiva crítica, reflexiva e ética, tornando-o
mais preparado para os desafios da sociedade, capaz de ideias inovadoras e ações estratégicas.
Sobressai-se o comentário feito por Mariana em relação às mudanças que o trabalho no ensino superior trouxeram à sua vida profissional e pessoal, sobretudo no que diz respeito ao cuidado com o aluno e sua aprendizagem:
O trabalho no ensino superior trouxe muitas mudanças na minha vida profissional e principalmente pessoal. Eu tenho parado mais para ouvir, aprendi a ouvir mais e, além disso, parei para enxergar o lado do outro. Eu tenho percebido que o professor é muito mais do que professor [...] às vezes a gente faz o papel de psicólogo, mesmo não tendo essa formação. No meu caso não tenho essa formação, mas o aluno às vezes precisa de um “oi”, um beijo, um abraço. Eu tenho percebido como isso tem mudado a forma como o aluno aprende, ele aprende mais. (Profa. Mariana)
O apoio nessa fase inicial da carreira docente é apontado por Mariana como um fator importante para vencer o medo. A entrevistada valoriza o apoio de professores mais experientes da universidade em reuniões com docentes da área, além do apoio por meio da formação continuada: “Acredito nos programas interativos, com formação contínua aos seus professores, onde haja sempre espaço para o desenvolvimento e a valorização docente.” (Profa. Mariana)
A variedade de sentimentos que os professores iniciantes experimentam nos primeiros anos da carreira traz muitos conflitos. Ao mesmo tempo, nessa fase fazem muitas descobertas sobre seus próprios saberes que de fato são necessários à sua prática. Marcelo García (2010, p.05) acrescenta que os professores iniciantes “[...]
geralmente enfrentam sozinhos a tarefa de ensinar. Somente os alunos são testemunhas da atuação profissional dos docentes”.
Os aspectos emocionais identificados no início da carreira de Mariana também foram mencionados por Fabíola, professora atuante numa universidade pública. Ela contou sobre seu sentimento de insegurança no primeiro dia de aula.
Segundo ela, esse momento foi de grande ansiedade e preocupação, em decorrência de tudo o que era exigido para desenvolver o conteúdo das disciplinas e para dar conta da formação dos alunos. Como Mariana, Fabíola também foi vencendo a insegurança ao conhecer melhor a realidade: “Por fim, correu tudo bem e aos poucos fui adquirindo mais conhecimentos e segurança no trabalho.” (Profa.
Fabíola)
Importante também considerar a relevância do estágio na fase da formação inicial, conforme apontado pela professora Fabíola:
No início de carreira no ensino superior, uma vez que não tinha nenhuma experiência no ensino médio, foi bastante difícil, o que ajudou foi eu ter uma experiência de poucos meses fazendo estágio em uma universidade. Percebi, com o estágio, que a sala de aula era um espaço que realmente me agradava e que era com isso que eu queria trabalhar ao longo dos anos. (Profa. Fabíola)
O depoimento de Fabíola revela a importância das disciplinas práticas da formação inicial que inserem os estudantes no contexto profissional. Porém, não só o estágio tem o papel de prepará-los para a docência. Segundo Gonçalves (2016), essa é uma atribuição de todo o curso que forma professores, seja de Licenciatura ou de Pedagogia.
[...] contribuir para a construção de um conhecimento amplo e diverso acerca dos fundamentos da docência, além de implementar ações práticas que levem os estudantes a conhecer a realidade das escolas e a atender a diversidade das formas de ensinar e aprender.
(GONÇALVES, 2016, p.147)
Tardif (2003) destaca que os cinco primeiros anos de atuação em sala de aula são considerados a fase profissional inicial, e lembra que a aprendizagem da docência se dá num processo solitário em que se aprende fazendo: “[...]
mergulhados na prática tendo que aprender fazendo, os professores devem provar a si próprios e aos outros que são capazes de ensinar.” (p.51)
O trabalho na sala de aula do ensino superior, para o professor Mário, que iniciou a docência numa universidade privada da cidade de São Paulo, trouxe muitas mudanças, justificadas por ele em razão da convivência com os jovens e, como consequência, a exigência de tornar-se atualizado e paciente:
[...] primeiro porque trabalhar com jovens nos dá um novo olhar para as questões educacionais. Eles têm um ritmo bastante dinâmico, e isso faz com que estejamos sempre atualizados e abertos a mudanças. Procuro estar sempre atualizado e aprendi a ter muita paciência. (Prof. Mário)
Alguns autores se dedicam a estudar esse período inicial da carreira do professor. Tardif e Raymond (2000) assinalam duas fases no processo de iniciação
à docência: a fase de exploração, compreendida do primeiro até o terceiro ano; e a fase de estabilização e consolidação, do terceiro ao quinto ano. Entende-se que a primeira fase, a abordada nesta pesquisa, é o momento de experimentação, em que o professor inicia seu trabalho por meio de tentativas, acertos e erros, além de socializar-se com um grupo profissional a que jamais pertenceu.
Tardif e Raymond (2000) ressaltam que a fase de exploração é crucial, pois, a depender do perfil e do processo de adaptação de cada professor, poderá haver questionamentos e até desistência da profissão. Já na fase seguinte, a experiência na profissão por mais de três anos é indicativa de uma etapa de estabilização e consolidação. E professores que contabilizam experiência na profissão de três a sete anos, segundo os autores, já possuem certa consciência de quem são e adquirem mais confiança em si mesmos. De forma geral, também já dominam alguns aspectos pedagógicos e dispõem de melhor equilíbrio emocional e profissional.
Porém, não só o tempo cronológico é capaz de garantir a estabilização da carreira a um professor iniciante, mas também os acontecimentos que marcam sua trajetória docente e sua experiência em sala de aula, já que muitos são os desafios que surgem nesse contexto. Um dado que chama a atenção na trajetória da professora Fabíola se refere às mudanças ocorridas já no período da inserção no ensino superior em sua vida pessoal, mas especialmente na profissional: além do prazer de ensinar, a docência trouxe a ela o desejo de dar continuidade aos estudos, então buscou o doutorado.
O trabalho no ensino superior trouxe mudanças significativas, tanto na minha trajetória profissional quanto pessoal. Em minha trajetória profissional posso dizer que começar a lecionar no ensino superior fez com que eu buscasse cursar um doutorado, pois aquele caminho se comprovava para mim como algo que eu tinha prazer em trabalhar; e no lado pessoal, a alegria em exercer algo que me realiza traz, consequentemente, a alegria da realização profissional e pessoal, e de perceber que nenhuma luta é em vão. (Profa. Fabíola)
O depoimento da professora Fabíola mencionando suas mudanças se aproxima do pensamento de Dubar (apud TARDIF, RAYMOND, 2000, p.209) quando pontua: “Trabalhar não é exclusivamente transformar um objeto ou situação em uma outra coisa, é também transformar a si mesmo em e pelo trabalho.”
As dificuldades encontradas pelo professor Rogério, iniciante em instituição sem fins lucrativos, são focadas em questões específicas do conhecimento da área, bem como questões didáticas:
Confesso que minha iniciação como professor universitário foi bem complicada, pois meu conhecimento de Biologia ainda não estava consolidado, bem como eu tinha pouco conhecimento de montagem e preparo de uma aula expositiva, a qual necessita de domínio de conteúdo. (Prof. Rogério)
Seu depoimento indica consciência das fragilidades comuns nessa fase inicial, fragilidades essas que a experiência em sala de aula ajuda a sanar, a depender das decisões a serem tomadas para isso. Tardif e Raymond (2000) traduzem muito bem essa situação a que o professor entrevistado se refere quando afirmam que “[...] é no início da carreira que a estruturação do saber experiencial é mais forte e importante, estando ligada à experiência de trabalho” (p.229). Afinal, o dia a dia do professor iniciante abarca questões que vão desde o planejamento de aula até o convívio com um grupo de professores diferentes entre si.
Conforme exposto, não há como negar a fragilidade de que se reveste o curso de Licenciatura em Biologia, como verificado na análise do seu currículo. A baixa carga horária de disciplinas voltadas para o ensino afeta a formação não só desse formador, como também dos futuros professores da escola básica que serão seus alunos. Não se pode negar ainda que esse campo vem se afirmando no que se refere ao reconhecimento de sua especificidade por parte dos docentes, e que avanços significativos vêm sendo empreendidos quanto à definição de seu estatuto teórico.
Ademais, cabe considerar que as decisões a respeito do curso e suas especificidades podem ser acompanhadas de conflitos, e as instituições que formam os professores têm responsabilidade sobre isso. Daí a importância de as instituições exercerem seu papel de formadoras, administrando as diferentes necessidades dos professores para o exercício de uma docência de qualidade.
Muitas são as semelhanças dos sentimentos e das dificuldades relatadas em relação a essa fase da carreira docente. Histórias vão se construindo, assim como a identidade profissional, pautadas “na significação social da profissão; na revisão constante dos significados sociais da profissão; na revisão das tradições. Mas
também com base na reafirmação de práticas consagradas culturalmente que permanecem significativas” (PIMENTA, ANASTASIOU, 2005, p.77).
5.2 A PERSPECTIVA DOS PROFESSORES INICIANTES SOBRE OS SABERES,