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CAPÍTULO I – REFERENCIAL TEÓRICO

1.1 ESTUDOS CORRELATOS

O levantamento de estudos correlatos empreendido neste trabalho esteve inicialmente circunscrito às produções científicas disponíveis na base de dados da Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) com enfoque no

“professor iniciante”. Foram encontradas 300 dissertações e 157 teses, sendo que apenas quatro tratavam diretamente do professor iniciante de Biologia. Foram selecionadas três dissertações e uma tese que abordam a temática e cujos professores focalizados acumulavam menos de cinco anos de docência no ensino superior. Esse levantamento foi de grande importância para a presente pesquisa, pois permitiu perceber que muito ainda precisa ser pesquisado em relação ao

“professor iniciante do curso de Biologia”.

Entre as teses e dissertações selecionadas, empreendeu-se inicialmente a leitura dos resumos, em busca de aproximações relevantes com a pesquisa idealizada, especialmente em relação à abordagem acerca de professores iniciantes do ensino superior e professores iniciantes do curso de Biologia, suas dificuldades e desafios.

A dissertação de mestrado de autoria de Silva (2017), com o título “Desafios de professores de Ciências e Biologia em início de carreira”, da Universidade Federal Rural de Pernambuco - UFRPE, traz resultados de investigação envolvendo professores de Ciências e Biologia em início de carreira, com o objetivo de compreender os desafios desses docentes e as dificuldades enfrentadas, identificando as contribuições e lacunas da formação inicial e as estratégias propostas por esses professores para que os problemas fossem minimizados. A autora recorre aos seguintes instrumentos de pesquisa: questionário, entrevista semiestruturada e promoção de círculo de cultura com os professores. Foi feito também um estudo-piloto, para complementar os estudos acerca do tema.

A pesquisa foi realizada com 14 professores com no máximo cinco anos de experiência, pela Universidade Federal Rural de Pernambuco, egressos do curso de Licenciatura Plena em Ciências Biológicas, e os dados coletados foram submetidos a análise. Os resultados mostram que existem muitos desafios nessa fase da carreira, os quais podem ser decisivos para a continuidade na profissão. Tais

desafios foram agrupados em três grandes dimensões: os pessoais, os estruturais e os sociais. Os professores costumam atribuir os desafios às lacunas da formação inicial, como a dificuldade de relacionar a teoria à prática na escola. Além disso, afirmam que falta apoio da escola para enfrentar os desafios recorrentes nas relações professor-aluno. Desafios específicos da área também foram citados pelos professores, como a dificuldade com o currículo, pouca carga horária, a desvalorização da área, entre outros.

O estudo identificou que as escolas não possuem uma cultura de recepção aos professores recém-formados, e muitas dificuldades surgem dessa falta de acompanhamento. Algumas das estratégias para que as dificuldades sejam minimizadas são relacionadas à disciplina pessoal, sugestões de metodologias de ensino, ao estabelecimento de relações saudáveis com estudantes, pais, funcionários e equipe escolar, ao controle emocional e à identificação com a área. A pesquisa indicou que uma nova cultura de recepção e acompanhamento do professor iniciante precisa ser desenvolvida. O professor iniciante apresenta particularidades que são relevantes e podem ser decisivas para sua permanência na profissão.

A pesquisa de Silva vem ao encontro de muitas das inquietações que motivam este estudo. É interessante observar como desafios semelhantes emergem em regiões tão distintas do nosso país. A autora buscou identificar dificuldades e suas repercussões no cotidiano desses professores, ponto em que a dissertação também revela consonância com a presente investigação.

A segunda dissertação de mestrado analisada tem como título “Conflitos e saberes no início da carreira de professores de Ciências e Biologia”, desenvolvida na Universidade Federal de Sergipe (RIUFS), de autoria de Guarany (2013). A autora mostra em sua pesquisa o quanto o período do início da docência é importante para o desenvolvimento e a constituição da carreira de professor. Aponta que é um momento de descoberta, mas também de frustrações, medos e angústias diante de competências e responsabilidades que não são fáceis de lidar. A pesquisa mostra ainda que é nesse contexto que surgem os primeiros conflitos relacionados à docência, assim como as tentativas de minimizá-los e enfrentá-los.

A investigação busca compreender como professores de Ciências e Biologia enfrentam os conflitos no início do exercício profissional e como esse processo de enfrentamento contribui para a construção da prática docente. Para alcançar os

objetivos, foram realizadas entrevistas com esses professores, pedindo que relatassem sua história profissional e pessoal. Além disso, para a coleta de dados foi organizado um grupo focal, em que coletivamente foram discutidas questões concernentes a esse momento da carreira.

A partir de falas e relatos dos professores, a autora pôde compreender como o professor busca construir sua identidade profissional e consolidar sua prática.

Entre os conflitos identificados estão os gerados pelas relações entre os sujeitos, os relacionados à instrução, ao currículo, às rotinas e diretrizes das instituições a que estão vinculados e os conflitos de papel. A pesquisadora aponta que, para enfrentar esses conflitos, os professores utilizam estratégias que vão desde a negação do conflito e as baseadas em ações pontuais até as que demonstram mudança conceitual sobre o processo educativo.

As fontes utilizadas pela autora são diversas, mas principalmente parte da história de vida, estudantil e experiência prática desse professor. Entre os saberes mobilizados para enfrentar seus principais conflitos se destacam os saberes experienciais adquiridos com e na prática de sua atividade. A partir desse trabalho, a autora examina também a importância dos programas de formação, que para ela parecem pouco contribuir no momento em que o professor inicia sua prática, além de não colaborar na compreensão das angústias vividas no início da sua carreira. A pesquisa procura dar voz a esses que se sentem tão isolados nessa busca pelo desenvolvimento e consolidação profissional.

Essa abordagem traz muitas contribuições para a reflexão sobre as angústias do professor iniciante do curso de Biologia, que não está só. Percebe-se através das pesquisas que esses professores têm sentimentos parecidos e, na maioria das vezes, não os partilham. É preciso estar muito atento, contudo, a esse professor em início de carreira, pois desse começo dependerá sua trajetória acadêmica – a continuidade desta ou não. E, mais importante ainda, é preciso debruçar-se sobre essas questões do professor iniciante com muito cuidado, pois, se decidirem continuar na carreira depois de um início frustrante, que professores serão? E que alunos formarão?

O terceiro trabalho destacado trata-se da dissertação de mestrado de Marques dos Santos (2012), que tem como título “A investigação sobre a própria prática de um professor iniciante sob o olhar da teoria da recontextualização”, da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Tomando como referencial

teórico o conceito de discurso pedagógico de Bernstein, a pesquisa analisa a atuação de professores nos primeiros anos de carreira e ressalta a importância da formação inicial na consolidação de elementos que regulariam a própria prática docente, como a interação professor-aluno mediada pelo diálogo, a elaboração de planos de aulas flexíveis que possam ser modificados de acordo com as necessidades particulares da turma e a observação da interação entre os alunos para se poder interferir na condução da aula.

Tal pesquisa vem ao encontro dos interesses do presente estudo, pois inspira questionamentos muito importantes: como os professores iniciantes do curso de Biologia estão contextualizando ou recontextualizando sua prática docente? Que dificuldades sentem para trabalhar nessa nova perspectiva educacional?

Dando continuidade às buscas, foi encontrada ainda a dissertação intitulada

“Iniciando a docência: a construção do perfil profissional na visão dos futuros professores de Ciências da Universidade Federal de Pelotas”, de autoria de Bastos (2015), da Universidade Federal de Pelotas. A autora teve como objetivo verificar qual perfil de professor de Ciências está sendo constituído no curso de Ciências Biológicas da UFPEL. Conforme essa pesquisa, a formação docente inicial pode ser descrita como uma articulação entre os saberes experienciais, disciplinares, curriculares e profissionais, com base nos ensinamentos de Tardif (2005, apud BASTOS, 2015).

A autora parte da ideia da construção, ao longo da formação inicial, do perfil docente idealizado (subjetivado), definido como ensaios docentes obtidos a partir de conhecimentos, em maior parte teóricos, adquiridos pelos sujeitos até a disciplina Estágio Supervisionado II; e do perfil docente realizado (objetivado), embasado nas primeiras vivências como docente, na regência durante o estágio, em particular no Ensino de Ciências.

Diante de inquietudes com relação às concepções formativas que permeiam a teoria e a prática pedagógicas, a autora levanta a seguinte questão: na visão dos acadêmicos, qual perfil docente está sendo construído ao longo da formação de professores de Ciências da UFPEL? Os sujeitos da pesquisa são acadêmicos do curso de licenciatura em Ciências Biológicas da UFPEL, ingressantes no ano de 2012, sendo que a coleta de dados ocorreu na disciplina Estágio Supervisionado II, ministrada no 7º semestre. A pesquisa seguiu os moldes de uma pesquisa qualitativa, seguida uma análise de conteúdo. A coleta, análise e discussão dos

dados deram-se a respeito das disciplinas específicas, pedagógicas e suas relações, a disciplina Didática do Ensino de Ciências (Prática como Componente Curricular) e a disciplina Estágio Supervisionado II.

Diante disso, os acadêmicos, em sua maioria, consideram que as disciplinas específicas e pedagógicas cumpriram seu papel no processo de formação, porém apontam fragilidades nas relações entre ambas. Quanto à disciplina Didática do Ensino de Ciências, os sujeitos apontam-na como responsável pela articulação das disciplinas específicas e pedagógicas. Quanto ao Estágio Supervisionado, a autora destaca sua importância, pois possibilita vivências com a realidade escolar, o primeiro contato com o “ser professor”, com o aprendizado e, ainda, uma oportunidade de perceber a melhor forma de aplicar os conhecimentos já adquiridos.

A pesquisa verifica ainda que os licenciandos se sentem inseguros quanto à primeira prática, tanto no que diz respeito às relações interpessoais como aos conteúdos, e apresentam frustrações. Consideram a primeira prática como um momento decisivo na profissão e têm ciência da necessidade de atualizar-se.

Ademais, sugerem mudanças nas disciplinas pedagógicas, a inserção de mais práticas no decorrer do curso, a articulação entre as disciplinas específicas e pedagógicas, um maior preparo para o ensino de Ciências, aproximação com as demais disciplinas das ciências da natureza e uma maior proximidade entre escolas e a universidade.

Diante das inferências levantadas, a pesquisadora aponta que o processo de formação até o momento está sendo considerado significativo pelos acadêmicos do curso de Ciências Biológicas da UFPEL, mas apropriações devem ser levadas em conta. Foi importante o estudo da tese, já que a abordagem da autora traz à luz uma consideração relevante para a presente pesquisa. Mesmo não tratando especificamente da formação do docente de ensino superior, a autora ressalta a importância dos estágios para que os licenciandos, ao término do curso, se sintam mais preparados para assumir uma sala de aula; a importância da articulação entre as disciplinas pedagógicas e as específicas; bem como a importância da troca entre os “pares”, pois suas angústias são as mesmas e seus desafios também.

A busca de estudos sobre o tema ocorreu também no banco de dados da Scielo, pois conhecer melhor a produção sobre o professor iniciante dos cursos de licenciatura em Biologia mostrou-se fundamental para a continuidade da pesquisa.

Foram selecionados quatro artigos.

O artigo “Formação de professores em Ciências e Biologia: uma análise das produções recentes”, escrito por Fabrício e Martins (2017), publicado nos Anais do VI Seminário Internacional sobre Profissionalização Docente - SIPD - UNESCO, mostra que os pesquisadores encontraram 46 artigos relacionados à formação inicial produzidos no período de 1996 a 2016. O objetivo da pesquisa foi observar a diversidade de estudos sobre o tema, em busca de promover a qualidade do processo formativo dos professores, melhorias na carreira e a valorização desse profissional, além de um contínuo aprimoramento das práticas docentes, com reflexões críticas de suas ações. O artigo leva a refletir sobre a importância da valorização dos profissionais da educação, bem como de um investimento em suas carreiras para que se sintam mais seguros ao ministrar suas aulas.

O segundo trabalho encontrado foi “Educação pela pesquisa como modo, tempo e espaço de qualificação da formação de professores de ciências”, de Galiazzie Moraes (2002). Publicado na revista Ciência & Educação, o artigo indica que educar pela pesquisa possibilita superar algumas limitações históricas dos cursos de formação de professores. Esse estudo enseja uma reflexão também importante: a necessidade de formar o futuro professor com uma visão de pesquisador, não apenas na disciplina de Biologia, mas em todas as disciplinas do ensino universitário.

O terceiro trabalho; “Desafios de professores iniciantes de Ciências e Biologia”, é uma comunicação oral realizada por Silva e Araújo (2016) e registrada nos Anais do III Congresso Internacional das Licenciaturas - COINTER. Trata da formação inicial de professores de Ciências e Biologia, que, segundo as autoras, apresenta-se repleta de desafios. As novas descobertas, o convívio e as decisões do dia a dia são experiências com que o profissional precisa aprender a lidar. Nesse estudo as autoras compartilham os resultados do trabalho realizado com professores com mais de dez anos de carreira, no qual expõem suas experiências e falam sobre os principais desafios que enfrentaram no início da docência. Eles contam suas vivências iniciais mesmo depois de passado algum tempo, e muitos deles relatam que ainda se consideram professores “em construção”. Embora as autoras não pesquisem propriamente o trabalho do professor iniciante, elas mostram que algumas inseguranças permanecem.

O quarto trabalho, “Formação docente: uma análise da matriz curricular do curso de licenciatura em Ciências Biológicas da Universidade Federal da Paraíba

(UFPB)”, das autoras Simões, Viana e Costa (2003), foi publicado no Caderno de Pesquisa da UFPB - Universidade da Paraíba. O objetivo foi analisar as diferentes matrizes curriculares dos cursos de licenciatura em Ciências Biológicas das três instituições públicas de ensino superior dos estados da Paraíba e Pernambuco, focalizando principalmente a UFPB, tendo como referências as legislações.

Constataram que os cursos efetuam suas respectivas adequações, pois apresentam incoerências, variando as cargas horárias através da compactação de disciplinas, com a redução do tempo de horas-aula ou a eliminação de algumas matérias.

Segundo as autoras, essas confluências e/ou divergências acarretam uma perda significativa na qualidade dos conhecimentos fundamentais para a formação do profissional docente.

Por fim, cabe notar que o artigo não fez parte da coleta na plataforma da Scielo, mas foi escolhido aqui porque colaborou no resultado de um estudo realizado na PUC/SP (“Condições de trabalho de professores iniciantes no ensino superior de instituições privadas: qual o contexto de trabalho e quais apoios são oferecidos aos iniciantes?”) que analisa dados de entrevistas com três professores formadores iniciantes nos cursos de licenciatura que atuam em instituições de ensino superior (IES) privadas – professores esses selecionados pelos critérios: somar até três anos de atuação como docente no ensino superior e ter experiência como professor da educação básica. (Tal pesquisa se tornou marcante e de grande importância tanto para a escolha do tema proposto como para a inserção no universo da pesquisa, ao buscar compreender até que ponto as experiências na educação básica e os saberes constituídos durante esse processo poderiam ser significativos para a atuação do professor no ensino superior. O objetivo foi também conhecer e analisar como as condições de trabalho afetam a prática e a constituição da profissionalidade do professor de IES privadas.

A expansão do ensino superior trouxe como consequência para esse professor formador a necessidade de um “novo olhar”. Através das falas desses três professores entrevistados, foi possível perceber que os professores formadores realizam uma reflexão que permeia suas aulas nos cursos de licenciatura, principalmente no que diz respeito à necessidade de transformação de suas práticas docentes, uma vez que as demandas das escolas envolvem saberes complexos, e tendo em vista que sensibilizar os alunos, futuros professores, a compreender o

contexto histórico, social e cultural em que estão inseridos faz parte da relação ensino-aprendizagem.

Essa pesquisa possibilitou ainda observar o quanto os professores formadores acreditam que a escola é local que enseja o desenvolvimento da consciência e do pensamento crítico, aproximando-se dos estudos de Paulo Freire (1970), que apresenta a educação como uma prática da liberdade, baseada em uma ação dialógica entre os diferentes espaços de vivência e de aprendizagem. Tudo isso motivou a continuidade da pesquisa sobre o tema, pois conhecer mais sobre quem são esses docentes iniciantes, diante da complexidade que é o exercício da docência, tornava-se cada vez mais cativante.

Ainda para enriquecer a busca empreendida, foi examinado o artigo de Hees e André, “Desafios e necessidades formativas de docentes iniciantes da educação superior”, publicado no livro “Formação de formadores e cursos de licenciatura:

contextos, práticas e pesquisas”, organizado por Passos (2018). No referido artigo as autoras buscam analisar a realidade enfrentada pelos docentes da educação superior durante sua inserção, procurando conhecer como se processa o início da docência nesse cenário. O artigo considera essencial investigar essa fase do desenvolvimento profissional, pois se trata de um momento decisivo na carreira dos professores, que muitas vezes acham-se inseguros e confusos. Isso porque, segundo as autoras, sentem necessidade de saberes e conhecimentos que não foram desenvolvidos na formação inicial, e os primeiros anos de docência são marcados por muitos desafios e situações problemáticas que interferem significativamente no desenvolvimento profissional desses educadores.

Para esse estudo mencionado foram realizadas entrevistas semiestruturadas, objetivando captar as visões dos sujeitos sobre suas práticas. O Centro Universitário escolhido para a pesquisa tem 182 professores lecionando na educação superior; desses, apenas 15 estavam lecionando havia menos de cinco anos, e 13 aceitaram participar da pesquisa. Os entrevistados eram professores iniciantes com idade entre 28 e 45 anos. O foco da pesquisa foi saber como é o início da experiência de professores universitários na docência na educação superior. Dois aspectos foram explicitados: o primeiro, as necessidades identificadas; e o segundo, os desafios do início da carreira. O interesse ao conhecer essa pesquisa foi grande, pois mais uma vez a abordagem veio ao encontro de

aspectos que se pretende aprofundar no presente estudo, entre eles quem é o docente iniciante, bem como seus desafios e dificuldades no início de carreira.