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A perspectiva entusiasta do poder tecnológico-militar e suas críticas

4. O PODER TECNOLÓGICO-MILITAR NAS REDEFINIÇÕES ESTRATÉGICAS

4.3. Os Modos Americanos de Guerra

4.3.1. A perspectiva entusiasta do poder tecnológico-militar e suas críticas

Os entusiastas contemporâneos da última metade do século XX corresponderam a um conjunto de políticos, militares, analistas, estudiosos, historiadores e teóricos que defendiam o poder tecnológico-militar, desde um conjunto de implicadores de amplas transformações em conflitos e em diversos campos domésticos e sistêmicos, até como símbolo de uma estrita capacidade militar que reverberaria em ganhos políticos. Para esta perspectiva, a capacidade militar poderia ser definida como a força coercitiva de um país ou de um grupo, capaz de trazer resultados em termos de poder de imposição política, a nível nacional ou internacional, e lutar contra qualquer tipo de inimigo como a primeira linha de defesa no Sistema Internacional anárquico317. Ou seja, estaria para além da

ideia de força circunscrita pela capacidade de mobilização de homens e produção militar de equipamentos arcaicos.

Para Carr (1939), além das mudanças territoriais e do desenvolvimento econômico, as guerras motivaram o progresso tecnológico. Para o historiador militar Creveld (1991), as guerras foram inteiramente permeadas ou governadas pelas tecnologias. Suas atividades militares, em tempo de paz ou de guerra, estiveram historicamente relacionadas ou condicionadas ao seu imperativo. As tecnologias militares estão ligadas à natureza, causas e objetivos; ao planejamento, desenvolvimento e participação; e às estratégias, doutrinas, táticas, operações e logísticas envolvidas nos conflitos318: “a tecnologia poderia ser entendida como um sistema abstrato de conhecimento, ações da vida e um método para a resolução dos problemas.”319 Ademais, nenhuma das seguintes atividades está imune ao impacto que a tecnologia teve, tem, e sempre terá, como: as causas que levam a guerra e os objetivos pelos quais são travadas; os ataques com as quais as campanhas são abertas; as vitórias pelas quais elas (às vezes) terminam; o relacionamento entre operações e inteligência e organização e suprimento; o planejamento, a preparação, a execução e a avaliação; os objetivos e os métodos, e as capacidades e as missões; o comando e a liderança, a estratégia e a tática. Até mesmo os quadros

317 TELLIS, 2000. 318 CREVELD, 1991.

conceituais empregados por nossos cérebros, quando se pensa sobre a guerra e a sua condição.320

Para Hacker e Vining (2006), as inovações tecnológicas desde sempre responderam a propósitos militares, de irrefutável vantagem tecnológica. Elas refletiram orientações e pretensões políticas, comerciais, processos iterativos e sistêmicos, bem como, vantagens estratégica, tática e operacional, com a capacidade de dissuadir e intimidar as tensões, as ameaças e até mesmo as guerras. Para Sempere (2006), a tecnologia militar é uma necessidade para os países, pois determinam o peso militar no cenário internacional. Para Navari (2008), o poder tecnológico-militar tornou os Estados sensíveis e vulneráveis às ameaças coercitivas. Para Cohen (2010), o poder trazido pelas tecnologias militares provocou um processo contínuo de inovações. Como foi o caso das implicações da ferrovia, do telégrafo e do rifle no século XIX, na logística de mobilização das tropas, na eficiência das comunicações, e na letalidade da infantaria, respectivamente. Assim como, os exércitos de massa equipados com os materiais da incipiente indústria pesada transformaram a guerra.

Por acreditarem nesses argumentos e influenciados por eles, os entusiastas acreditaram que a capacidade militar orientada pelas tecnologias avançadas garantiria a proteção e a defesa dos seus interesses, na medida em que permitiriam não só o ataque, como também a defesa. Portanto, a lógica que os influenciam seria a de que a necessidade da efetividade das armas deveria corroborar para a formulação de políticas nacionais, com o objetivo de definir o seu desempenho orçamentário em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) – ou financiamento e renda no caso de grupos armados – adequado à manutenção da infraestrutura, como as instalações de bases e plataformas, instituições de pesquisa com massivos investimentos na ciência e tecnologia e na base industrial de defesa dinâmica, competitiva e expansionista. Além da lógica de delinear os principais tipos de forças – dotadas de um número suficiente de tropas treinadas, materiais e equipamentos em termos de superioridade, em quantidade e qualidade, e status de liderança – contra as ameaças externas.

Nesse sentido, Cohen (2010) ressaltou que os gaps das tecnologias militares e as assimetrias internacionais na capacidade do poder tecnológico-militar

iniciaram durante a Segunda Guerra Mundial, com o uso massivo dos tanques e bombardeiros pesados. Ademais, foram sendo consolidados a partir do surgimento e melhorias dos sistemas altamente sofisticados durante a Guerra Fria. Para Joxe (1995), este último momento presenciou a projeção, o desenvolvimento, a produção e a difusão das tecnologias de precisão, com o objetivo claro de destruir os sistemas de informação do inimigo, presentes no emergente setor de serviços na economia mundial, como os serviços bancários, financeiros, elétricos, de telecomunicações, abastecimento e controle de tráfego aéreo.321

A partir das últimas décadas da Guerra Fria, um conjunto de tecnologias militares foram emergindo, como as precision guided munitions (PGM), laser guided bombs (LGB), unmaned aerial vehicles (UAV ou drones), stealth (furtivos), global positioning system (GPS), entre outras, e demonstrando as suas inevitáveis inserções ou absorções322 pelas futuras guerras. Tecnicamente, os mísseis cruzeiro e balístico e as novas armas seriam capazes de detectar, seguir, atingir e destruir com ataque de precisão e neutralizar os alvos pré-estabelecidos em qualquer tipo de teatro de operações, mesmo em condições geográficas e climáticas adversas, desde o centro de comunicação, comando e controle.323 Estrategicamente, o amadurecimento dessas tecnologias militares atenderia aos requisitos básicos para a realização dos tipos de operações e intervenções militares com o menor contato físico e do menor número de baixas, através da capacidade cirúrgica. Não só em relação ao ataque, como também, para o bloqueio aos centros político, econômico e cultural, essenciais para a reverberação dos ganhos políticos pretendidos.324

Desde a Guerra do Vietnã325, apesar das perdas americanas, esta perspectiva foi ganhando mais adeptos por acreditarem que as smart bombs e os sistemas de informações, comando e controle, suportados pelos computadores e as redes de comunicação, com destaque para a internet, satélites e GPS, seriam

321 SEMPERE, 2006.

322 Esses termos foram utilizados, criticamente, de maneira diferente, dependendo do peso político,

econômico e militar que o detentor dessas tecnologias assume nas relações internacionais. Se são as próprias potências militares ou são os “clientes de Washington”, russos ou chineses, como Indonésia, Chile, Guatemala, El Salvador, Nicarágua, Congo, Angola, Líbano, Palestina e Iraque, que receberam as armas avançadas. Para Atwood (2010), a semelhança entre eles seria a permissão tácita aos milhares de mortos.

323 SEMPERE, 2006.

324 JOXE, 1995. MAHNKEN, 2008. 325 JOXE, 1995. MAHNKEN, 2008.

indispensáveis, seja na terra, no mar ou no ar. 326 Os aviões de vigilância e de reconhecimento, guiados pelos radares, sensores, satélites e outros sistemas de defesa terrestre, marítima e aérea, com imagem de alta resolução e transmissão de informações reais, de curto, médio e longo alcance327 fizeram parte do portfólio. A tecnologia furtiva capacitaria as aeronaves não tripuladas a operar, pairar e penetrar nos teatros permeados de artilharia superfície-ar antiaeronaves. Os sensores teriam a capacidade técnica de identificar as ameaças NBQ’s. Os sistemas de informação teriam a de analisar as previsões ambientais e meteorológicas. As bombas inteligentes, a de penetrar em condições adversas sem renunciar o seu poder de destruição letal.328

Em contrapartida, Buzan e Hansen (2005) acreditam que as tecnologias militares cumprem apenas um papel coadjuvante nos processos de declaração e condução das guerras. Defendem que dada a existência de um conjunto de outras forças, para além do imperativo tecnológico, o seu papel não é sempre decisivo. São basicamente cinco “forças motrizes” que influenciam as dinâmicas do conflito, a saber, a política de poder nas dinâmicas internacionais e internas, o grau de institucionalização, a doutrina acadêmica, os fenômenos ou eventos-chave e o próprio imperativo tecnológico. Além disso, as conduções das guerras dependem de vários tipos de agentes humanos, de caráter público ou privado, e civil ou militar, partícipes direta ou indiretamente dos processos decisórios. Envolve também a relação Estado-Sociedade, as condições econômicas, as instituições de ciência, tecnologia e educação e a cultura social e militar para a inovação, além das experiências históricas, as organizações, as doutrinas e o treinamento.

Destarte, segundo Baylis, Wirtz e Gray (2010), os armamentos tecnologicamente superiores, quantitativa e qualitativamente, não determinam necessariamente a condução e a finalização dos conflitos. Com um posicionamento mais crítico do que o levantado anteriormente, Van Creveld (1991) também defende que a tecnologia militar condicionou inevitavelmente a condução das guerras, porém reconheceu que não determinam a vitória político-militar. Numa linha crítica similar, Sempere (2006) ressaltou que mesmo dotados de equipamentos militares de última geração, diversos fatores, desde a aversão da opinião pública, passando pelo teor

326 JOXE, 1995. MAHNKEN, 2008. 327 JOXE, 1995. MAHNKEN, 2008. 328 JOXE, 1995. MAHNKEN, 2008.

da sua cultura militar estratégica e apolítico, até a incapacidade de lidar com o pós- conflito, poderiam levar a perda político-militar – como foi o caso dos norte- americanos na Guerra do Vietnã.

De forma semelhante, a superioridade do poder tecnológico não foi decisiva nas batalhas da Alemanha contra a Iugoslávia na Segunda Guerra Mundial e na ocupação da União Soviética no Afeganistão na última década da Guerra Fria. Os processos decisórios não são unicamente influenciados pelos fatores tecnológico-militares. Fatores como as condições políticas, econômicas, sociais, geográficas, climáticas, infraestruturais, estratégicas, doutrinárias, táticas, operacionais e logísticas, também fazem parte da mesa do jogo.329