2. AS BASES: CONTEXTUALIZAÇÃO E PROBLEMATIZAÇÃO
2.2. Revolucionar ou Transformar?
2.2.2. A Tecnologia e a Doutrina
As discussões sobre a efetividade dos pesos tecnológicos e doutrinais nas transformações militares foram emblemáticas na primeira década do Pós-Guerra Fria, especialmente nos momentos de alternância da MTR para a RMA e do velho para o novo modo de guerra. Um dos principais questionamentos foi: se as transformações militares dos anos 1990 foram influenciadas mais por fatores tecnológicos ou doutrinais. De um lado, a Guerra do Golfo mostrou os resultados tecnológicos esperados, motivados pela Revolução Técnico-Militar; por outro, a Revolução nos Assuntos Militares considerou que a doutrina e a organização são fatores indispensáveis nas implicações práticas das transformações militares, como é o caso da própria capacidade real e o da sua eficiência concreta.
Há basicamente duas maneiras de se enxergar o processo de inovação doutrinal: “de fora para dentro” ou “de dentro para fora”. No primeiro caso, o processo seria estabelecido externamente ao próprio setor militar. Neste sentido, os civis seriam os responsáveis por implementar uma grande estratégia que teria a finalidade de impor as medidas e as orientações aos militares. Dessa forma, nos Estados Unidos, a doutrina seria imposta do Presidente ao Secretário da Defesa, por meio da Estratégia Nacional de Segurança. E, no segundo caso, o processo seria estabelecido internamente ao setor militar. Na Defesa, os militares seriam os responsáveis por elaborarem as orientações que as Forças Armadas deveriam seguir. Dessa forma, nos Estados Unidos, o Secretário de Defesa ou o Chefe do Estado-Maior Conjunto teriam a atribuição de implementá-la, por meio da Estratégia
75 BOOT, 2002. 76 BOOT, 2005. 77 GRAY, 2008.
Nacional de Defesa, da Estratégia Nacional Militar ou por documentos correlatos e subordinados a esses.
Desde a Segunda Guerra Mundial, a doutrina recebe um tratamento diferenciado pelos militares, principalmente, por a considerarem o fator determinante da vitória no campo de batalha. Ela mostrou que o resultado entre a Alemanha e a França, por exemplo, não foi determinado pela capacidade em si, em termos de quantidade e qualidade das armas. O modo de empregar a capacidade, o seu “guia de uso” ou a sua “bula” é decisivo para o cálculo final. 79 Nas palavras de John Alic, doutrinas são:
Prescrições de conduta codificadas pelos militares, baseadas em experiências e lições. São manuais, como princípios e práticas, escritos pelas organizações militares. Os princípios criam coesão na hora da guerra, especialmente na preparação de matar e ser morto.
80
Alic continua: “a doutrina, às vezes, pode se tornar parte de um sistema de crenças que sufoca o pensamento novo e inibe a inovação”.81 Este é o ponto fundamental nessa rivalidade histórica, diretamente ligada ao objeto desta pesquisa e ao peso que ele exerce na vida política americana: como é o caso de grupos que foram se formando dentro e fora do Pentágono em defesa “de mais investimento nas tecnologias militares”. Para as bases do poder tecnológico-militar, a doutrina não seria tão interessante se não absorvesse ou fosse feita sob encomenda. Embora, na realidade, ela tenha sido importante, inclusive para entender a influência que exerceu na continuidade das transformações militares dos anos 2000.
No Pós-Guerra Fria, a doutrina que mais refletiu as orientações determinantes das novas capacidades foi a Doutrina da Guerra Centrada em Rede (NCW, sigla em inglês), influenciada pelas doutrinas relacionadas ao poder aéreo, como a Air Land Battle e a interoperabilidade (Jointness, em inglês). A primeira orientou a adoção de forças aéreas por todos os serviços e a segunda defendia a adoção de forças menos pesadas, mais informatizadas e mais expedicionárias. A Doutrina da Guerra Centrada em Rede foi proposta pela Marinha, por meio do vice- Almirante Cebrowski, com o propósito de inserir as TIC’s nas transformações
79 DOMBROWSKI; GHOLZ, 2006. 80 ALIC, 2007, p. 16. Tradução nossa. 81 ALIC, 2007, p. 16. Tradução nossa.
militares dos Estados Unidos. Nas palavras de Dombrowski e Gholz (2006, p.9), o seu objetivo seria o de:
Aparelhar o poder dos núcleos geograficamente dispersos (como os computadores pessoais ou navios) ao ligá-los conjuntamente em redes (como a World Wide Web), que permite uma transmissão rápida de volumes pesados de dados digitalizados (como os dados multimídia).82
De acordo com alguns documentos governamentais, como os relatórios do Defense Science Board (DSB, sigla em inglês), a doutrina NCW foi baseada nas ideias de eficiência e de facilidade, propostas pela computação e informática, e por alguns elementos ligados ao setor, como os hardwares, softwares, eletrônicos e semicondutores. Cebrowski justificou que a inserção das TICs ajudaria:
Os serviços militares a superarem a maioria dos seus problemas: a necessidade de manter a estrutura das forças – as plataformas de última geração seria mais barata e, então, mais numerosa – para reduzir as baixas de ambos os soldados americanos e não- combatentes civis – com armas que poderiam ser ativadas em maiores distâncias e com mais precisão – e operar com menos oficiais e pessoal, a automação reduziria a demanda por soldados e marinheiros...83 [Pois],... trabalhar em rede tem o potencial de
aumentar exponencialmente as capacidades dos núcleos individuais ou grupos de núcleos e de facilitar a eficiência do uso dos recursos.84
Para Alic , a doutrina está diretamente ligada à Grande Estratégia e não pode ser contraditória. Neste sentido, na primeira década do pós-Guerra Fria, a Grande Estratégia dos Estados Unidos recomendou a implementação das forças tecnológico-militares no campo da Defesa. Apesar da relação de interdependência entre doutrina e tecnologia nas revoluções militares, a primeira foi redefinida em atendimento às necessidades da segunda no período em tela. Na prática, os encarregados pela engenhosidade das tecnologias e pela confecção dos protótipos, do setor público ou do setor privado, demandaram dos militares as inovações doutrinais para que se legitimasse o processo de pesquisa e desenvolvimento da tecnologia militar em andamento. Este processo estaria respaldado pelos programas de incentivos, nas universidades e nos laboratórios industriais, e seria orientado pelo Departamento de Defesa. Isto é, nos anos 1990, a doutrina foi predominantemente
82 DOMBROWSKI; GHOLZ, 2006, p. 9. Tradução nossa. 83 DOMBROWSKI; GHOLZ, 2006, p. 6. Tradução nossa. 84 DOMBROWSKI; GHOLZ, 2006, p. 9. Tradução nossa.
instrumentalizada como o elo necessário para a convergência das bases do poder tecnológico-militar. A doutrina poderia ser vista como a “prática necessária, utilizada no processo de convencimento dos líderes políticos”. Seria a prátca apropriada para a destinação de verba pública. Assim como, ajudaria as “estratégias de mercado da indústria a gerenciar as mudanças tecnológicas” das transformações militares.85
Para Brigity II, as doutrinas foram variáveis dependentes das tecnologias e das inovações, principalmente a partir das munições de precisão guiada. Nas suas palavras, “o sucesso tático desses tipos de armas e a flexibilidade estratégica, que elas acabaram dando aos decisores da política, contribuíram para o desenvolvimento de outras munições de precisão e doutrinas associadas aos seus usos.”86 Neste sentido, “as empresas de defesa poderam, formal ou informalmente, aconselhar os responsáveis pela doutrina militar sobre os constrangimentos tecnológico, econômico e industrial para a inovação doutrinal”.87 Assim como foi o caso das transformações militares alemãs no entreguerras. Praticamente, foi a indústria de defesa alemã, subsidiada pelo governo nazista, que influenciou a utilização do ataque ágil e agressivo da Blitzkrieg88.
De um lado, a doutrina se adapta às mudanças tecnológicas, uma vez que essas últimas alteram mais rapidamente do que as primeiras. Por outro, a interação doutrina e tecnologia implicou a compra dos novos sistemas de armas. Como foi o caso das doutrinas utilizadas na Guerra do Golfo. Elas exigiram os M1 Abrams e os sistemas computadorizados.89 Neste sentido, as doutrinas podem ser orientadas para o desenvolvimento das tecnologias disruptivas ou para as incrementais.
No primeiro caso, as doutrinas geralmente exigem tecnologias radicalmente novas. Essa exigência, às vezes, se torna um problema para o próprio andamento político das transformações militares, especialmente, em termos institucionais e econômicos. Isto porque, as doutrinas podem demandar um equipamento militar que ainda não existe. 90 De um lado, os políticos têm o controle
85 DOMBROWSKI; GHOLZ, 2006, p. 12. Tradução nossa. 86 BRIGITY II, 2007, p.5. Tradução nossa.
87 DOMBROWSKI; GHOLZ, 2006, p. 25. Tradução nossa.
88 Historicamente, a ideia da Blitzkrieg já existia como preceito na guerra franco-prussiana de 1871.
Na Primeira Guerra Mundial ela se materializa. Mas, apenas no entreguerras que as tecnologias disponíveis, como as relacionadas a mobilidade e ao poder de fogo massivo, a tornam viável.
89 ALIC, 2007.
do orçamento, por outro, nem sempre a base industrial tem a capacidade de produzir o que os militares idealizam.91 No caso dos Estados Unidos, no período em tela, um possível poder determinante da doutrina poderia ultrapassar a própria lógica, em termos de necessidades e interesses, que permeia o Complexo Militar- Industrial-Acadêmico.92
No segundo caso, a doutrina orientada para as tecnologias incrementais seria mais compatível com a realidade do processo de aquisição, do lobby, e do investimento em P&D. Assim como, em conformidade com as forças políticas e econômicas doméstica e internacional.93 De um lado, a doutrina pode representar uma crença exagerada, uma ideologia; por outro, pode se tornar mecanismos de pressão e garantias de investimentos: os Estados Unidos pareceram estar mais preparados para os gastos em novas armas.”94
No final das contas, as doutrinas americanas dos anos 1990 tiveram uma instrumentalidade retórica, assim como as expressões “revolução” ou “transformação.” 95O processo de formação do poder científico e tecnológico, a consolidação do complexo militar-industrial-acadêmico, o fortalecimento do sistema de pesquisa e desenvolvimento, o peso da base industrial de defesa e a crescente força dos entusiastas evidenciaram a necessidade da construção de doutrinas a partir das tecnologias anteriormente projetadas ou amadurecidas.
A percepção preponderante, com base nas verificações trabalhadas nesta pesquisa, foi a de que as doutrinas e os conceitos operacionais foram forjados pelos militares. A finalidade óbvia foi a de tentar “vender melhor o produto”. Nos Estados Unidos dos anos 1980 e 1990, as doutrinas foram criadas para gerar um modelo de conduta que permitisse uma melhor aplicação, com eficiência, do produto vendido. Nesse sentido, houve a necessidade de criar doutrinas que estabelecessem as diretrizes para a escolha e o uso da tecnologia, mais apropriada para o campo das operações.
As doutrinas orientadas pelas tecnologias da informação, comunicação, microssensores, semicondutores e etc., ou simplesmente, pelo sistema de sistemas
91 DOMBROSKI, GHOLZ, 2006. 92 ALIC, 2007.
93 DOMBROSKI, GHOLZ, 2006. 94 ALIC, 2007, p. 27. Tradução nossa.
“C4ISR: command, control, communication, computer, inteleligence, reconnaissance and surveillance”, privilegiaram o uso do poder aéreo, da interoperabilidade e dos ataques de precisão cirúrgica. De acordo com essa “bula”, o resultado seria um número menor de baixa. Politicamente, os processos de aquisição seriam mais flexíveis. Socialmente, esse modo seria mais aceito pela opinião pública. Neste sentido, a Revolution in Military Affairs significou, de um lado, mais do mesmo, pois as inovações propostas para as doutrinas e para a forma de organização foram cimentadas nos artefatos tecnológicos, provenientes dos interesses das bases.