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As Military Transformations e as “transformações das transformações”

5. A BASE IDEOLÓGICO-MILITAR: O “NEW AMERICAN WAY OF WAR”

5.3. As Military Transformations e as “transformações das transformações”

Como parte da Guerra ao Terror, a Guerra do Afeganistão de 2001 consolidou o novo modo de guerra americano. Desde os anos 1980, o processo de transformações militares e as suas implicações no american way of war vieram sendo coordenados pelo Departamento de Defesa. Nos anos 2000, como Secretário de Defesa de George W. Bush, Donald Rumsfeld alteraria publicamente o termo

404 SHIMKO, 2015, p.21. Tradução nossa. 405 SHIMKO, 2015, p. 26. Tradução nossa. 406 SHIMKO, 2015, p. 29. Tradução nossa.

RMA para o de Transformações Militares (Military Transformations - MT) – apesar dessa expressão ter surgido oficialmente no QDR de 1997. Em defesa do secretário, Boot (2003) ressaltou que o sentido do termo transformação, ou transformacional, seria legítimo, ao considerar que os avanços tecnológicos da Era da Informação aplicados a Defesa trouxeram uma vantagem qualitativa.

Para a definição do Conselho de Ciência da Defesa, do Departamento da Defesa, warfighting transformations seria um processo de mudanças fundamentais na habilidade de uma nação conduzir as operações militares, da mesma forma que uma empresa conduz seus negócios em busca de uma mudança.407 Destarte, a MT foi pensada como um processo contínuo, cujos objetivos foram desenhados para a prevenção408, estabilização e reconstrução. Neste sentido, as operações de estabilização significariam, nas palavras de Sloan (2008), “as atividades civis e militares conduzidas através do espectro da paz e do conflito para estabelecer ou manter a ordem nos Estados e nas regiões.”409

A Guerra do Golfo mostrou que mais inovações aos assuntos militares foram possíveis. Neste sentido, Sloan (2008) argumentou que as novas maneiras de pensar e as novas maneiras de lutar estariam representadas, em 2001, pela mobilidade rápida, integrada e devastadora. A “transformação da transformação” inovou ao trazer para o campo de operações as Forças de Operações Especiais (Special Operations Forces), a capacidade em medidas de contrainsurgência, a guerra irregular, o acesso ao espaço e a defesa doméstica. No caso das contrainsurgências, os Estados Unidos as definiram como “medidas políticas, econômicas, militares, paramilitares, psicológicas e civis tomadas por um governo para derrotar uma insurgência...”; e, insurgência como o “movimento organizado construído através do uso da subversão e do conflito armado com o objetivo de derrubar um governo.”410

As recomendações do Pentágono foram as de proteger as bases críticas de operações, utilizar os sistemas de informação e espaciais, realizar operações de informação por meio da interoperabilidade, restringir as áreas americanas e impedir a construção de santuários inimigos por ataques de precisão.411 Nas palavras do

407 TOMES, 2007. 408 TOMES, 2007.

409 SLOAN, 2008, p.32. Tradução nossa. 410 SLOAN, 2008, p. 30. Tradução nossa. 411 MAHNKEN; FITZSIMOND, 2003.

próprio secretário Rumsfeld, “nenhum presidente americano não deveria ter que escolher entre proteger o cidadão dentro do próprio país e os interesses e suas forças ao redor do mundo.”412 Rumsfeld (2002) ressaltou que a o Afeganistão representou uma “apoteose” de maneiras diferentes de se fazer guerra.

Através de uma lente entusiasta, identificou uma hibridização de guerras pré-modernas, modernas e pós-modernos, desde o uso da cavalaria ao ataque de precisão, por parte dos americanos e dos afegãos. Segundo Rumsfeld (2002), o presidente o convidou para a pasta e o solicitou uma nova estratégia. A crítica de Bush foi a de que a Defesa americana estaria organizada mais para as ameaças da Guerra Fria, do que para os desafios do novo século. Por isso, consagrou a mudança de RMA para MT, como um guarda-chuva, e demandou uma força armada, mais leve, ágil, informatizada, precisa, letal e mais eficiente413.

O “novo” na expressão “new american way of war” seria a combinação dos elementos antigos e recentes, com o valor agregado das armas tecnologicamente superiores, como também, o do modelo de conduta da RMA. Ademais, ressaltou que foi uma ideia derivada do modo alemão de conduta utilizado na Segunda Guerra Mundial: uma mistura de tecnologias velhas e novas, à época, que tornaram o poder militar alemão forte e destrutivo. Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos construíram um arsenal nuclear, aviões supersônicos com motores avançados, submarinos movidos a energia nuclear e mísseis de alcance intercontinental. Até então, o poder militar americano estaria caracterizado pela projeção de longa distância, ataque de precisão, espaço, inteligência e guerra submarina. Portanto, as transformações do Departamento de Defesa visaram a proteção da segurança doméstica – o famigerado homeland – e além-mar; manter o poder nos campos distantes; mostrar o total de alcance americano; proteger as redes de informações; integrar as Forças Armadas pela tecnologia da informação; e proteger suas capacidades espaciais.

Priorizadas por George W. Bush e respaldadas pela comoção pública aos ataques às torres gêmeas, as transformações militares dos anos 2000 ilustraram, especialmente os avanços do uso das Forças de Operações Especiais.414 As SOF’s, nas palavras de Sloan (2008), incluíram “um conjunto de soldados do Exército, da

412 RUMSFELD, 2002, p.28. Tradução nossa. 413 TOMES, 2007.

Marinha e da Força Aérea, especialmente treinados para missões sensíveis, tipicamente de natureza secreta, e frequentemente envolvendo resgates ou ataques sobre alvos de alto valor para o inimigo.”415 Para Jorge (2009), Bush e Rumsfeld levantaram uma bandeira entusiasta, defendendo que as Forças de Operações Especiais significariam um novo modo de guerra americano, legitimado pelo “sucesso” no Afeganistão.

No entanto, houve uma série de falhas ao considerá-las o novo modo, pois as SOF’s se encaixariam conceitualmente numa espécie de inovação e não poderiam ser considerados dessa forma. Ou seja, duas ênfases foram dadas às transformações militares dos anos 2000. De um lado, o foco esteve na aplicação das tecnologias militares desenvolvidas nas duas últimas décadas da Guerra Fria. Por outro, o foco esteve na aplicação das Forças de Operações Especiais. Partindo do pressuposto de que as SOF’s puderam ser consideradas como uma resposta às políticas contínuas de austeridade, assim como, apoiadas por uma ala da base ideológico-militar, quais seriam os interesses envolvidos para que a outra ala dessa base do Pentágono, a BID e a base tecnológica concordassem com a garantia de sustentabilidade?

Na prática, a Operation Enduring Freedom, 2001, a Operation Iraqi Freedom, 2003, e a Global War on Terrorism, em geral, tiveram como pilares básicos os bombardeiros nucleares tradicionais, como os ICBMs e os SBMs, De forma complementar: o ataque convencional, a defesa de míssil, a inteligência avançada, o planejamento, e o comando e controle.416 Donald Rumsfeld (2002) não renunciou as forças mais leves, mais letais, com mais precisão, remotas e espaciais.417Dessa forma, a Guerra do Iraque pareceu mostrar o último suspiro das forças da ala tradicionalista e a superação da mentalidade tradicional do DOD. Isto porque, a retórica foi a de que “os militares fizeram um progresso, impressionante, ao fazer o american way of war eficiente e mais humano.”418

As principais armas desse novo contexto nas vidas política e militar dos americanos419 foram os tanques com os Abrams e Bradley Fighting, os mísseis cruzeiros Tomahawk, as bombas guiadas por satélites, os caças stealth, F117, F15,

415 SLOAN, 2008, p.28. Tradução nossa. 416 TOMES, 2007.

417 JORGE, 2009.

418 BOOT, 2003, p. 58. Tradução nossa. 419 BOOT, 2003; MAHNKEN, 2008.

F16, o sistema de sistemas C4ISR, os veículos aéreos não tripulados Predators e Globalhawk, os mísseis antitanque Hellfire, os aviões de reconhecimento U-2, o sistema de radar JSTARS e AWACS, GPS, as munições de precisão guiada JDAMS, e as tecnologias dos tradicionalistas, como os telefones, wireless, folhetos, rádio, fax e email.

Bush e Rumsfeld argumentaram que ter a defesa contra os ataques de míssil balístico incentivaria o desenvolvimento das armas de destruição em massa e os ataques cibernéticos, NRBQ, míssil balístico, míssil cruzeiro e competições espaciais, por parte dos inimigos.420 Ou seja, enquanto os Estados Unidos detiverem grandes capacidades, os inimigos estariam procurando pelas vulnerabilidades americanas, principalmente nas redes de informação, por exemplo.

Em 2001, os terroristas usaram aviões comerciais como mísseis. O Secretário, porta-voz oficial das transformações militares no Pentágono, negligenciou algumas incapacidades do poder tecnológico-militar americano e foi impactado pelo modo de guerra terrorista – mais uma justificativa para a continuação da “revolução” no segundo mandato do presidente Bush421. Boot (2005) defendeu que para combater o terrorist way of war seria necessário mais pessoal na ativa. De 1990 a 2005, as Forças Armadas desempregaram 600.000 do pessoal da ativa, o substituindo pelos gastos com os caças F-22, defesa de míssil e submarinos nucleares.

Para todos os efeitos, as deficiências das transformações dos anos 1990 e 2000 não foram resolvidas com o poder tecnológico e nem com os gastos públicos em sistemas de armas avançadas, empregadas no Iraque (1991), na Somália (1992), no Haiti (1994), na Bósnia (1995), no Kosovo (1999), no Afeganistão (2001) e no Iraque (2003), entre outros cenários. Para Boot (2014), foram utilizados o poder de fogo pesado e massivo, assim como, houve má preparação. A guerra centrada na rede, com o apoio das munições de precisão guiada, não foi suficiente. A aquisição de conhecimento sobre técnicas de contra insurgências foi necessária no Afeganistão e Iraque.

420 RUMSFELD, 2002. 421 BOOT, 2005.

6. A BASE CIENTÍFICO-TECNOLÓGICA: O “SCIENTIFIC &