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No decurso de uma investigação, uma das grandes dificuldades do pesquisador é tentar resumir, em poucas páginas, todas as suas idas e vindas, sejam da análise dos dados, sejam da busca da apreensão da realidade. Ao escolhermos a temática, iniciamos quase sem perceber o mergulho na pesquisa e uma garimpagem à procura de pistas que pudesse ser utilizadas na investigação. Desse modo, desde a escolha da temática, passando pela etapa da revisão da literatura e pelo momento da pesquisa de campo e de análise dos dados coletados, iniciamos a vigília que se constitui como elemento constante para a redação do relatório final. Assim, essas etapas não são fragmentadas e compartimentalizadas, em que cada uma só se dá com a finalização da anterior. Ao contrário, esses momentos são realizados de forma amalgamada, numa constante retroalimentação. A investigação sobre a temática e a inserção no campo se misturam com a análise dos dados e vice-versa, servindo como elementos que possam validar ou rejeitar às hipóteses iniciais. Para efeito didático, no entanto, faremos a

descrição de alguns elementos que compuseram a pesquisa de campo e o processo de análise dos dados, para situar o leitor de alguns aspectos que foram considerados para a elaboração do relatório final.

Antes de aplicarmos a entrevista com os sujeitos da pesquisa, fizemos um pré- teste do roteiro da entrevista com a prof. Soraia Gadelha Carolino, no dia 13 de agosto de 2005. Suas considerações foram fundamentais na reformulação da proposta inicial do roteiro, visto que ela também tinha vivenciado essa trajetória da inserção da Informática na Educação em Fortaleza, inclusive tendo participando de alguns dos projetos que serão descritos no decorrer deste trabalho. Após a reformulação da proposta do roteiro inicial, dividimos a entrevista em quatro dimensões principais: 1) Identificação geral; 2) Quanto à formação e trajetória profissional; 3) Vivências, iniciativas e outros atores formadores; 4) Quanto aos saberes pedagógicos

Na primeira dimensão, buscamos dados de identificação do sujeito como nome completo e idade. Quanto à formação e à trajetória profissional, focalizamos os aspectos: inicial e continuada; pedagógica; técnica; específica para atuar na Informática na Educação; necessária para atuar na Informática na Educação; experiência docente; elementos da formação fundamentais para atuar na Informática na Educação na década de 1990 e atualmente. Na terceira dimensão, destacamos as vivências dos formadores na área, focalizando suas iniciativas nesse campo. Buscamos identificar ainda outros atores formadores que pudessem ser incluídos na pesquisa e identificar as principais características dos projetos locais na área. Desse modo, utilizamos alguns indicativos como: motivação inicial; início da trajetória profissional na área (inserção do ator nesse campo); tutores nesse campo; iniciativas e vivências pessoais; indicação de outros atores formadores; projetos locais na década de 1990; estratégias de ensino dos projetos década de 1990; inserção das universidades e cursos de especialização; estratégias de formação dos cursos de

especialização; marco histórico na área; vivências necessárias e outras experiências. Na quarta dimensão, pinçamos alguns elementos correlacionados aos saberes pedagógicos que não foram possíveis de captar nas questões anteriores, como: os saberes que permeiam a história da Informática na Educação; os saberes que os atores possuem para atuar na área; a indicação dos saberes necessários para atuar nesse campo; os aportes teórico/metodológicos dos projetos na década de 1990; os aportes necessários; as concepções do papel do computador/tecnologias na Educação e das funções do professor e do aluno no uso das tecnologias na Educação. Esses indicativos não foram utilizados de forma inflexível nas entrevistas, visto que, para os atores pesquisados, a entrevista se apresentava quase como um relato de suas experiências. Desse modo, nem todos os itens mencionados foram respondidos pelos atores formadores pesquisados. Utilizamos assim os indicativos como referencias gerais para a coleta de dados na busca dos elementos já mencionados, pois entendemos que a estrutura da entrevista deve orientar e não encarcerar a coleta de dados.

Na coleta dos dados, no que se refere aos aspectos relativos à questão da relação de saber/poder, não foram feitas perguntas diretas. Focalizamos nossa coleta e a análise dos dados referenciado-nos por alguns princípios ressaltados por Eni Orlandi sobre a análise dos discursos, como: a relação dos discursos com a ideologia; a relação com a história e as suas condições de produção e de relação de sentidos; e as constituições dos sujeitos.

Como aponta Orlandi (2003), há elementos ideológicos que compõem os discursos e que se materializam na relação língua-discurso-ideologia e que nem sempre são conscientes. Para ela, a língua tem sua ordem própria, mas só é autônoma em parte, em virtude dos aspectos ideológicos que lhe afetam. Afirma que o sujeito não tem o controle sobre o modo como elas o afetam. Isso redunda em dizer que o sujeito discursivo funciona pelo inconsciente e pela ideologia. (ORLANDI, 2003: 19). Ressalta assim, a importância de estarmos atentos às condições de produção dos discursos e suas constituições de sentido. Para

Orlandi, não há realidade sem ideologia. Enquanto prática significante, a ideologia aparece como efeito da relação necessária do sujeito com a língua e com a história para que haja sentido. (2003: 48).

Orlandi garante que o discurso é o lugar em que se pode observar essa relação entre a língua e ideologia, compreendendo-se como a língua produz sentidos por/para os sujeitos. (2003: 17). Para ela, a palavra discurso tem em si a idéia de curso, de percurso, de correr por, de movimento. O discurso é assim palavra em movimento, prática de linguagem: com o estudo do discurso observa-se o homem falando. (2003:15). Desse modo, Orlandi ressalta a importância da relação de sentidos que esses discursos estabelecem com os demais. Para ela, os discursos se organizam no percurso da história dos sujeitos e estabelecem relação de sentidos com outros discursos existentes historicamente, a partir dos outros sujeitos, efetivando-se no que conceitua da forma material dos discursos, que é a forma encarnada na história para produzir sentidos (ORLANDI, 2003:19). Para Orlandi,

Segundo essa noção, não há discurso que não se relacione com outros. Em outras palavras, os sentidos resultam de relações: um discurso aponta outros que o sustentam, assim como para dizeres futuros. Todo discurso é visto como um estado de um processo discursivo mais amplo, contínuo. Não há, desse modo, começo absoluto nem ponto final para o discurso. Um dizer tem relação com outros dizeres realizados, imaginados ou possíveis. (2003: 39).

Foucault (1999) se refere a este tema trazendo à tona a questão dos procedimentos de restrições, que segundo ele estabelecem mecanismos de ordenação, classificação e distribuição das verdades, que são conjugados por sistemas de ritualização da palavra. Para ele, incorporamos, de forma microfísica, tanto os discursos distribuídos e compartilhados

pelos grupos nos quais nos inserimos, como seus mecanismos de ritualização desses discursos.

A partir desse aspecto central da ideologia, Orlandi (2003) destaca como aspecto indispensável para a análise dos discursos, a constituição dos sujeitos. Para ela, é também a ideologia que faz com que haja sujeitos. O efeito ideológico elementar é a constituição do sujeito. Pela interpelação ideológica do indivíduo em sujeito inaugura-se a discursividade. (2003: 48). A autora chama a atenção para a ilusão da transparência da linguagem, pois, para ela, nem a linguagem, nem os sentidos, nem os sujeitos são transparentes: eles têm sua materialidade e se constituem em processos em que a língua, a história e a ideologia concorrem conjuntamente. (2003: 48). Orlandi retoma as reflexões de Foucault, assinalando que,

Devemos ainda lembrar que o sujeito discursivo é pensado como “posição” entre outras. Não é uma forma de subjetividade mas um “lugar” que ocupa para ser sujeito do que diz é a posição que deve e pode ocupar todo indivíduo para ser sujeito do que diz (2003: 48).

Foucault (1999) enfatiza a ordem dos discursos. Para ele ninguém entrará na ordem dos discursos se não satisfizer a certas exigências ou se não for, de início, qualificado para fazê-lo (1999: 36). Essas exigências prevêem a sustentação dos rituais, que definem a qualificação que os sujeitos devem possuir para validar seus discursos, por meio de gestos, comportamentos, titulações e vinculações com determinadas instituições. Desse modo, os professores vinculados às universidades são considerados os formadores e os que estão ligados às escolas são identificados como disseminadores desse saberes. Para Foucault, o conjunto de signos que devem acompanhar o discurso; fixa, enfim, a eficácia suposta ou

imposta das palavras, seu efeito sobre aqueles aos quais se dirigem, os limites de seu valor de coerção (1999: 38).

Nessa perspectiva, a coleta e a análise dos dados foram realizadas levando em conta os pontos apresentados. Nessa fase da pesquisa, fizemos apenas uma entrevista semi- estruturada com cada ator pesquisado, em razão da indisponibilidade de tempo por parte deles. Por diversas vezes, marcamos as entrevistas e estas tiveram que ser remarcadas em decorrência de imprevistos dos sujeitos. Tínhamos a intenção de realizar várias sessões, aspecto que não pôde ser efetivado. A entrevista do prof. Dr. Mauro Pequeno, por exemplo, só pôde ser realizada após a interferência do orientador da pesquisa, que articulou junto aos outros sujeitos sua maior colaboração. Outro aspecto que se faz necessário mencionar diz respeito a gravação de alguns trechos da entrevista. Alguns atores pesquisados, à medida em que iam falando, ao entrarem no mérito das disputas pelo poder na área, pediam para desligarmos o gravador nesse momento, e assim o fizemos. Nessa ocasião, eles apresentavam as divergências entre os diversos atores locais, falavam da ausência da ética em diversas atitudes por parte de alguns e se pronunciavam contra ou a favor de algumas idéias na Informática na Educação. Apesar de não termos a autorização de gravar esses momentos, esses relatos foram fundamentais para algumas análises realizadas no decorrer desta pesquisa, principalmente no que se refere à constituição dos espaços de saber/poder e na identificação de alguns argumentos para a disputa pelo domínio dos espaços de atuação na Informática na Educação. Identificamos a existência da disputa pelo domínio na área entre os diversos atores que pesquisamos, alguns dos quais se pronunciavam ligados ou a um ou a outro sujeito. Essa ligação era suficiente para rotular a validade (ou ausência) de suas credenciais para atuar nesse campo. Os que se credenciavam com formação mais pedagógica para atuar rejeitavam o perfil dos que possuíam formação mais técnica e vice-versa; no entanto, como veremos no transcorrer desta escritura, ambos se amparavam nos mesmos discursos do uso pedagógico

das tecnologias na Educação, rejeitando a visão instrucionista, e ambos os grupos não possuíam formação específica para atuar na Informática na Educação. São aspectos a analisar no transcorrer do trabalho.

Após a coleta de dados, transcrevemos integralmente as entrevistas, retornando-as posteriormente para os atores formadores pesquisados, para que estes pudessem validar ou rejeitar as reproduções. Após a validação das entrevistas, as analisamos para que pudessem ser utilizadas nas dimensões selecionadas. Foi nesse momento que valemos, de forma auxiliar, o uso do software de análise qualitativo de dados, o NUD*IST versão 4.0, haja vista nosso conhecimento incipiente sobre o programa. O software nos auxiliou na seleção dos fragmentos das falas e na reestruturação dos indicativos das categorias. Em sua estrutura, o NUD*IST possibilita a criação de uma codificação aberta que pode ser adicionada ao espaço de nódulos livres (Free-nodes), podendo posteriormente ser reorganizados e redimensionados para a área de códigos indexados (Index tree root). Por termos um conhecimento incipiente sobre a utilização do software, infelizmente não utilizamos a totalidade de seus recursos.

Codificamos nódulos livres, chegando inicialmente a categorizar trinta e três indicativos ou subcategorias, o que posteriormente foi redimensionado e que ao final da utilização do NUD*IST se resumiu aos seguintes aspectos:

1) no que se refere à categoria dos Saberes dos Formadores, focalizamos o tempo e a natureza desses saberes, por meio das seguintes subcategorias -

a) tempo/natureza dos saberes ligados à formação e às vivências dos atores formadores. Utilizamos as seguintes subsecções desta categoria: formação inicial; continuada; específica; pedagógica; necessária; experiência docente; inserção na área; motivação inicial; vivências na área; inserção das universidades;

b) tempo/natureza dos saberes pedagógicos dos atores formadores. Utilizamos nesse item as seguintes seções: arcabouço ideológico sobre a área; aporte teórico-metológico utilizado nos projetos; relação teoria/prática nas estratégias de ensino dos projetos; influência dos tutores.

2) No que se refere à categoria da Relação Saber/Poder na Área, focalizamos as seguintes subcategorias:

a) Modelos de formação.

b) Espaços de saber/poder e disputa pelo domínio na área.

c) Tipos de discursos.

d) Conceitos sobre os saberes necessários.

Esses elementos apontados foram fundamentais para as análises realizadas do decorrer deste experimento. Faremos, a seguir, uma circunscrição da relação entre os modelos de formação constituídos historicamente e as relações de constituição dos espaços de saber/poder e sua reprodução na área da Informática na Educação. Faremos, ainda, uma diferenciação entre os termos “conhecimento” e “saber” adotados por diferentes pesquisadores do assunto, utilizando, para efeito de exemplificação, as abordagens de Shulman e de Tardif.