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Descrever as opções metodológicas de uma investigação configura uma tarefa muito complexa. Como resumir em poucas páginas todas as idas e vindas do pesquisador? Como apreender todas as dúvidas e reflexões sobre a temática acerca do objeto de estudo? Como descrever a contribuição dos diversos autores e vários sujeitos pesquisados? Para compor essa descrição, é necessário reconhecer que faremos recortes dos principais aspectos que marcaram a feitura deste trabalho e estar ciente que as opções metodológicas acontecem a partir de nossas preferências didáticas, políticas e ideológicas (VEYNE, 1998; KHOURY, 1989). Além disso, precisamos reconhecer que cada sujeito pesquisado evidencia uma visão de mundo e de sociedade que os caracteriza. Como ressalta Haguette,

Por trás delas situa-se, em última instância, sua visão de mundo, ou sua ideologia, que fornecerá o substrato da sua crença na forma como a sociedade se mantém, na inevitabilidade desta manutenção ou na possibilidade e necessidade de uma transformação. (1992: 18).

Desse modo, optamos por um estudo qualitativo e essa escolha ocorreu a partir da visão da não-neutralidade da ciência e do reconhecimento de que a sociedade é constituída de microprocessos (HAGUETTE, 1992: 18) e que é uma estrutura que se movimenta mediante a

força da ação social individual e grupal. (HAGUETTE, 1992: 18). O sentido desta investigação sucede a partir de sua contribuição para maior reflexão sobre a realidade em que se insere a formação para o uso das TIC’s na Educação, concorrendo para colaborar com uma re-significação das ações nessa área. Bogdan & Biklen ressaltam que, para um investigador qualitativo divorciar o acto, a palavra ou o gesto do seu contexto é perder de vista o seu significado (1994: 48). Assim elaboramos este ensaio, numa perspectiva sistêmica, em que cada elemento influencia e infere os demais. Tanto os cenários globais influenciam na constituição dos formadores na área, assim como esses atores influem a partir de seu palco local, na realização nos roteiros da área pesquisada.

Para Bogdan & Biklen (1994: 47), o estudo qualitativo possui cinco características fundamentais: os dados são coletados no contato direto do pesquisador com o ambiente natural; a investigação é descritiva, buscando pistas para a apreensão da realidade; a importância pelo processo, do que simplesmente pelos resultados ou produtos; a análise se dá de forma indutiva; e a importância nos significados, ou seja, no modo como as pessoas dão sentido às suas vidas. Em sintonia, Ruiz Olabuénaga, apud Nunes, elenca quatro características principais: a flexibilidade, a provisoriedade, a totalidade e a proximidade (2001: 401). Assim, um estudo qualitativo é elaborado entre idas e vindas do pesquisador, em que cada processo se efetiva num movimento de constante retroalimentação, na qual, a partir de cada etapa da pesquisa, elementos são agregados e outros são substituídos. A pesquisa qualitativa tem como foco não apenas descobrir a realidade mas, também, apontar elementos que contribuam para a transformação do real; e foi a partir dessa perspectiva que se deu a opção pelo aspecto qualitativo deste trabalho, entendendo que as análises realizadas no decorrer da pesquisa possam contribuir para uma formação mais significativa e menos dicotomizada.

Um dos instrumentos que auxiliou na apreensão dessas idas e vindas da pesquisa foi o diário de bordo digital15, que possibilitou registrar nossas impressões, observações e opções didático-metodológicas no decorrer da investigação, além de registrar os encontros de orientação e os pontos de vistas de pessoas diversas que auxiliam na elaboração deste relatório de pesquisa.

Com foco nesses elementos que caracterizam a investigação qualitativa, escolhemos desenvolver um estudo historiográfico sobre a inserção da Informática na Educação em Fortaleza, estudo que se apresenta com uma natureza descritivo-interpretativa. A escolha dessa metodologia ocorreu por acreditarmos que, por meio de seus instrumentos conseguiríamos apreender os elementos que contribuíssem para analisar a formação de professores para o uso das TIC’s na Educação, despertando para uma análise reflexiva. Assim, este estudo historiográfico foi centrado na investigação dos discursos dos atores formadores das universidades de Fortaleza, a fim de investigar quem foram esses na década de 1990, quais saberes possuíam para atuar nesse campo, que iniciativas compõem essa história em Fortaleza e, por fim, identificar os indícios dos espaços de saber/poder nessa área. Vale destacar, como ressalta Paul Veyne (1998), a importância de compreender a história como trama, entre os acontecimentos e os sujeitos. Para ele, o historiador, por mais que esteja atento, não consegue apreender a totalidade dos fatos e sim capta alguns elementos que compõem a história, a partir de seus referenciais, de sua óptica e do recorte ao qual se pretendeu focalizar.

Iniciamos o programa com o intuito de focalizar nossas investigações sobre o desenvolvimento de competências para o uso das TIC’s na Educação. A partir das contribuições sugeridas pela banca da seleção do curso, no entanto, nosso interesse voltou-se

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Diferente dos diários de bordo comumente utilizados nas pesquisas, optamos por um gravador digital que registrou todas as entrevistas, conversas informais sobre o assunto, impressões e os passos da orientação e da investigação.

para identificar os elementos que estão por detrás das cortinas dessa formação, ou seja, nossa investigação passou a ter como foco principal identificar quem foram os formadores da Informática na Educação nas universidades sediadas em Fortaleza na década de 1990.

Buscamos inicialmente identificar os formadores das três universidades do Estado com sede na Cidade na década de 1990: UFC16, UECE17 e UNIFOR18. Esta escolha foi posteriormente redefinida pela coleta de dados, visto que a Universidade Federal do Ceará teve atuação peculiar nesse período. Assim focalizamos nossos esforços em investigar os atores formadores que estavam ligados prioritariamente a essa instituição naquele momento. Desse modo, optamos por fazer um recorte da história, elegendo a década de 1990, por ser o período em que houve as primeiras iniciativas de formação desencadeados pela política estadual nesse campo, além de ser a fase em que a maioria dos atores se inseriu na área e que alguns dos formadores conquistaram sua formação e consolidaram vivências nesse campo. A Universidade Federal do Ceará apresentou um destaque na implantação/participação das primeiras iniciativas na área, como: o Curso Mirim de Informática , a implantação dos CIEd’s, o Projeto Estadual de Informatização das Escolas Públicas (Tempo de Avançar), o Projeto de Educação a Distância em Ciência e Tecnologia (PROJEAD/EDUCADI) e os Cursos de Especialização em Informática Educativa.

A partir desses elementos, ou seja, da escolha do tipo de pesquisa, da metodologia, do objeto de estudo e do período a ser estudado, fizemos as nossas aproximações com a temática. Alguns dos aspectos a serem estudados já eram de nossa familiaridade, como as questões ligadas à Informática na Educação, pois, como já mencionado, debruçávamos esforços sobre essa temática da tecnologia educacional desde o

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Universidade Federal do Ceará.

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Universidade Estadual do Ceará.

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início da década de 1990. Outros temas, no entanto, como a questão dos saberes e da relação de saber/poder, foram iniciados a partir das disciplinas do Mestrado. Fizemos inicialmente uma pesquisa exploratória, que incluiu desde uma revisão da literatura sobre as questões a serem abordados, por meio do Periódico CAPES, mediante o sistema Scielo, na busca de revistas e artigos ligados às temáticas. Infelizmente por questões de ordem prática, limitamo- nos às leituras em português e espanhol. Paralelamente, iniciamos a leitura de monografias, dissertações e teses desenvolvidas no Brasil e principalmente nas três universidades de Fortaleza (UFC, UECE e UNIFOR). Identificamos o fato de que, no caso dos trabalhos locais, não havia nenhum deles que fizesse, um mapeamento das ações desenvolvidas na área em Fortaleza com uma descrição mais detalhada de seus objetivos e experiências. No máximo, encontramos a identificação de algumas ações e dos períodos em que foram realizados, aspecto que nos motivou ainda mais à realização da cartografia proposta.

A partir dos primeiros levantamentos bibliográficos, buscamos compreender a inserção da Informática na Educação no Brasil, desde a incorporação da tecnologia como assunto de segurança nacional, passando pela inserção das tecnologias na Educação via telensino, chegando às primeiras iniciativas nas universidades do País e nos programas nacionais de Informática na Educação. Identificamos nessas leituras como sucedeu à inserção das universidades nesse campo, e, por conseqüência, identificamos vários de seus protagonistas no Brasil, as principais diretrizes (de uso e de formação) e as experiências de alguns atores nesses programas nacionais. Em seguida, procuramos compreender os principais elementos que compõem as abordagens de uso das tecnologias na Educação, identificando em que discursos se sustentam e que relações esses discursos estabelecem com os paradigmas das ciências e com os referenciais de formação adotadas em cada época. Nosso intuito era compreender se esses elementos reforçam ou não os espaços de saber/poder e identificar a partir de que concepções se estabelecem os discursos para o uso das tecnologias.

Posteriormente, já na pesquisa de campo, pudemos identificar as principais iniciativas locais na área e a participação dos atores nesses projetos.

Ainda na pesquisa exploratória, tencionamos identificar os discursos sobre os saberes dos professores. Verificamos autores como Shulman, Gauthier, Therrien, Zeichner e Tardif, optando pela óptica e conceituação deste último para este trabalho. Vimos que existe diferenciação entre os conceitos de “conhecimento e saber”, motivo por que faremos uma exemplificação deste fato. Como será abordado posteriormente, usaremos porém, os dois termos sem nos ater a essa diferenciação. Escolhemos à visão de Tardif por entendermos que suas conceituações sobre os saberes se adequam melhor aos outros autores utilizados nesse trabalho.

Outro aspecto também investigado na pesquisa exploratória referiu-se à abordagem de Foucault sobre a arqueologia do saber. Esse autor empreende vasta discussão sobre os elementos que reforçam a relação entre saber/poder e que avigoram a constituição dos espaços de poder, os quais são sustentados numa visão não linear da constituição do conhecimento e que estabelecem os mecanismos que dão suporte à elaboração das verdades nas diversas áreas por meio de sistemas de restrições de discursos e do estabelecimento dos rituais que os sustentam. Faremos a seguir uma descrição da constituição da amostra e da escolha dos instrumentos.