1 EXCLUSÃO X INCLUSÃO: O PARADOXO DO ACESSO E SUAS
2.1 O MOVIMENTO DE INCLUSÃO DIGITAL NO BRASIL
2.1.1 A polaridade entre software livre e software proprietário
Um dos maiores defensores do software livre no Brasil, Sérgio Amadeu da Silveira, defende em artigo on line:
O controle dos padrões, das linguagens e dos protocolos de conexão devem ser públicos e o menos oneroso possível para as sociedades pobres ou em desenvolvimento. Incluir digitalmente é um primeiro passo para a apropriação das tecnologias pelas populações socialmente excluídas com a finalidade de romper a reprodução da miséria. O compartilhamento do software e demais produtos da inteligência coletiva é decisivo para a democratização dos benefícios tecnológicos e precisa ser incentivado19.
Para o grupo de especialistas em tecnologia, inserido no movimento de inclusão digital, o uso do software livre é condição sine qua non ao combate da exclusão digital, pois gera autonomia tecnológica e apropriação da produção do conhecimento científico, de forma coletiva. Isso porque, o desenvolvimento livre, disponível na internet, é construído por coletivos digitais que se apropriam da tecnologia à medida que sentem necessidade de dispositivos que deem conta de suas demandas e das que lhes são apresentadas.
Os coletivos, em sua maioria, são compostos por curiosos que se tornaram especialistas e apaixonados pelo ideal de software livre: a construção coletiva. O usuário comum, ao buscar soluções para os seus afazeres técnicos, junto aos coletivos digitais passa a fazer parte deles como estimuladores da produção, tornando viva a pesquisa e a troca coletiva e, à medida que vai intervindo no
processo de produção, vai adquirindo conhecimentos técnicos e,
consequentemente, autonomia. A premissa do software livre não é diferente da lógica de mercado, em que o consumidor usa um produto e reclama, caso tenha
19
Silveira, Sérgio Amadeu da. Inclusão digital, software livre e globalização contra-hegemônica. Artigo on line http://www.softwarelivre.gov.br/softwarelivre/artigos/artigo_02 - acesso em 01.mar.2008.
45 algum defeito, intervindo em sua qualidade. O diferencial é que as demandas são compartilhadas e a busca por soluções é feita de forma coletiva, sem restrições para participação. Além disso, os softwares são gratuitos, podendo ser baixados na internet por qualquer pessoa que tenha um mínimo de conhecimento técnico. A princípio, isso quer dizer que qualquer pessoa, com disposição e curiosidade, pode entrar nos coletivos e contribuir para desenvolver um software e, embora a linguagem tecnicista, na maioria das vezes, exclua o usuário que não está
acostumado com os termos, a popularização de ações como downloads de arquivos
de músicas, filmes etc. tem contribuído para aproximar os jovens ao mundo do software livre. Em outra perspectiva, a aposta para um projeto de país democrático é mantida pelo entusiasmo que o ambiente colaborativo20 dissemina.
Em palestra em um seminário da Universidade de São Paulo, Gilberto Gil, então, Ministro da Cultura, colocou:
É uma questão cultural por excelência, por isso tem a ver com o projeto de país que estamos construindo e com a valorização da diversidade cultural, como a cidadania, como a geração de renda e de emprego através de indústrias criativas e limpas. Se tiver coragem, e esta coragem está sendo demonstrada, o Brasil tem a oportunidade de empreender um grande movimento nacional de mobilização pró-liberdade digital, tornando-se referência mundial na luta pelo software livre21.
Se o uso do software livre está colocado na ordem do dia para os gestores do governo, o mesmo não ocorre com quem está envolvido diretamente com a execução local dos programas. Segundo Paula Takada, responsável por oficinas de comunicação comunitária para os Telecentros, na administração de Marta Suplicy:
Houve uma época em que a coordenadoria se preocupava com a produção de conteúdo local, mas, mesmo naquele momento o software livre era usado sem sabermos por que estávamos usando. Usávamos o open office, o gimp, mas não sentíamos necessidade de participar de um ambiente colaborativo para discutirmos questões técnicas de desenvolvimento tecnológico. Tínhamos um ambiente de trabalho coletivo na rede, o “Conversê”, mas o foco era a troca das produções e de como fazer isso ou aquilo. Tanto fazia usar o Windows ou o Linux. Aliás, quando alguma coisa dava errado o desejo era de largar o Linux. Hoje, com a experiência de fazer vídeo com o Cinelerra22, como opção e não como imposição, percebo
20É um espaço na internet onde o trabalho coletivo é realizado. Como exemplo e referência no Brasil
temos o estúdio livre, a teia, o coletivo digital, o metareciclagem, o overmundo etc.
21 www.idbrasil.gov.br/noticias - acesso em 12.fev.2008.
22
46 melhor o significado polít,ico do uso do código aberto. Mas reconheço que foi preciso passar por ele, usá-lo para depois, diante da demanda de uso perceber a sua importância. Mas isso ocorre com algumas pessoas, apenas. O que me empurrou a usá-lo foi um desafio de trabalho, o fato de eu necessitar buscar soluções para o uso do editor de vídeo23.
Para Paula, usar o software livre e os seus aplicativos não significa apropriar-se dos códigos e desenvolver uma autonomia, a ponto de resolver situações técnicas. O usuário dos Telecentros, em sua grande maioria, não sabe por que usa o Linux e muito provavelmente não compartilha dos mesmos ideais que os coletivos digitais. Segundo Paula, geralmente quem começa a participar desses coletivos são os monitores dos Telecentros, que recebem capacitações mais completas, com conteúdos voltados para o fortalecimento da bandeira do software livre.
Por trás da bandeira do uso do software livre há o caráter de desenvolvimento de tecnologia, que vai além da ampliação do número de colaboradores dos coletivos digitais. Na verdade, por parte dos governistas, como podemos visualizar no discurso do ex Ministro da Cultura Gilberto Gil, há uma expectativa de desenvolvimento de tecnologia própria, sem dependência internacional; portanto, de soberania nacional. Nesse sentido, a estratégia, parece ser popularizar o uso para aumentar a demanda de desenvolvimento nacional, estimulando o crescimento de especialistas desenvolvedores de software com a plataforma livre.
Além disso, não se pode negar, que a construção de ferramentas de comunicação e informação, estimulada pelo desenvolvimento de tecnologias com a plataforma livre tem permitido que usuários comuns e grupos, politicamente constituídos, produzam conteúdos de comunicação para a internet, muitas vezes, mudando os resultados desejados pela mídia oficial. Também, para o grupo que defende a inclusão digital como um direito à comunicação a prática colaborativa, base dos ideais do software livre, é uma fonte de construção crítica à mídia oficial, quando traz à tona questões como o direito autoral, livre produção e distribuição de conteúdos via rede de computadores. Portanto, não podemos desconsiderar que o exercício da colaboração livre na internet é essencial para democratizar a
47 informação e a comunicação. Contudo, cabe pensar como se dá a utilização dos softwares livres e qual o lugar do usuário comum nessa proposta.
De outro lado do debate, há os que não sentem a necessidade de usar o software livre ou não querem entrar na discussão. Vários motivos estão por trás dessa decisão. Alguns têm parceria com fabricantes de software proprietário ou têm orçamento satisfatório para bancar as licenças de software ou, simplesmente, não compactuam com a posição política dos coletivos digitais e por isso buscam alternativas para suas demandas, sem se envolver com o debate. A maioria defende que o pacote Windows é mais adaptável ao mercado e o não uso de seus aplicativos implica em menos oportunidade de trabalho para sua clientela, os “excluídos”.
Nesse debate, é importante observar que, de acordo com a pesquisa TICs em domicílios 2008, 82% da população pesquisada que possui computador em sua casa utiliza o sistema operacional Windows e apenas 2% utiliza o Linux, sistema operacional de plataforma livre.
Mesmo para os setores do Governo que defendem como critério de implantação dos Telecentros o uso do software livre, o “desuso” dele determinou que o GESAC, por exemplo, assumisse em seu portal:
Observa-se que as comunidades usuárias do GESAC são incentivadas a usar o software livre, embora não estejam obrigadas a tanto. Atualmente, grande parte destas comunidades ainda usa software proprietário em seus micros computadores24.
Para alguns coletivos digitais que defendem o uso do software livre, o código aberto gera mais conhecimento porque estimula os usuários, apaixonados por tecnologia, pelo fato de poder intervir no processo de desenvolvimento de suas versões, a buscar soluções, que por sua vez, são registradas como experiências nos portais colaborativos, acessíveis a qualquer outro, mesmo sendo iniciante. Os usuários desses portais também registram suas experiências com a plataforma proprietária, mas a depender do problema, o máximo que o usuário consegue fazer é reclamar o defeito à empresa responsável e esperar a solução. Outros coletivos usam o software livre porque são contra o oligopólio de mercado de software e defendem uma política de desenvolvimento de tecnologia sem dependência
48 estrangeira, fortalecendo a posição de alguns setores do Governo. É o caso de organizações não governamentais como Intervozes, Coletivo Digital, Metareciclagem etc.
De outro lado, os defensores da plataforma proprietária parecem subestimar a capacidade dos usuários de superar as diferenças das interfaces e superestimar os aplicativos Windows para uso no mercado. Mas, embora a discussão dos coletivos, que defende a plataforma livre, permita um avanço maior para uma construção de sociedade democrática e soberana, nos dois casos falta uma ação mais definida e qualificada de como trabalhar essa questão, nos programas de inclusão digital.
Em resumo, os que defendem o software livre a todo custo, utilizam a bandeira da autonomia do usuário, porque estão preocupados, principalmente, com a soberania tecnológica do Brasil e a destruição dos Oligopólios. Contudo, a simples instalação dos softwares livres nas máquinas, sem oferecer capacitações presenciais para o seu uso adequado, não garante a popularização necessária para o estímulo a uma produção em larga escala, a ponto de substituir o software proprietário; os que jogam peso no software proprietário estão preocupados em satisfazer a demanda do mercado25, e pouco ou nada apostam na autonomia dos usuários.
Em nenhum dos casos, seja em programas que defende o software livre, sejam os que defendem o proprietário, encontramos uma qualificação tecnológica satisfatória, a ponto de criar usuários autônomos, como se propõem os programas.