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O debate em torno da oferta e demandas no CDI

4 ENTRE O TERRENO MOVEDIÇO DOS ESPAÇOS INFORMAIS E A

4.1 A INCLUSÃO DIGITAL NO UNIVERSO DA GESTÃO SOCIAL

4.1.2 O cenário político das parcerias realizadas

4.1.2.1 O debate em torno da oferta e demandas no CDI

No caso do CDI, as atividades propostas estimularam o debate interno e a angústia de alguns por não saber como desenvolvê-las, e também, promoveram o despertar da organização local para as condições tecnológicas insatisfatórias que a organização oferece ao espaço em forma de parceria. O ponto fulcral do debate, a sustentabilidade dos espaços, levantou várias possibilidades e diferenças entre os locais e o CDI que motivaram algumas mudanças na estruturação das parcerias. Aqui, faremos um recorte do processo vivido, tomando como exemplo a parceria CDI e o Centro Comunitário de Nossa Senhora Aparecida, zona leste da cidade de São Paulo.

Em 2006, estando bem mais próximo das organizações parceiras, após ter montado uma equipe de acompanhamento local, o CDI percebeu que a sua proposta não estava sendo aplicada a contento pelas organizações e resolveu investir em várias ações pedagógicas voltadas para produção local e uso de outras tecnologias, como o áudio-visual, o rádio etc. Uma dessas ações foi a proposta “VídeoAção”, que se concretizou em 2007. Com a proposta, o CDI tinha como objetivo iniciar um trabalho mais dirigido para a formação dos educadores e gestores locais, voltado para visibilidade interna e externa155 de sua proposta política

155 O CDI publicou e divulgou um edital aberto para grupos e organizações se inscreverem,

independente de suas parcerias locais. A intenção era ter visibilidade na cidade, através de sua proposta político-pedagógica.

148 pedagógica, utilizando o vídeo como ferramenta. A proposta era que o grupo inscrito produzisse um vídeo a ser usado como veículo para a discussão e solução de um problema local. Nele deveria estar contido o problema que lhe deu origem e a sua solução.

A partir da construção dos vídeos, várias situações ocorreram, revelando a fragilidade da estrutura das organizações, muitas vezes, deixando a parceria balançada156.

No Centro Comunitário de Nossa Senhora Aparecida, os jovens que participaram do projeto se envolveram nas discussões internas a favor do trabalho com o audiovisual e uso de outras ferramentas da web, contra o grupo que defendia a permanência dos cursos de informática e cidadania. As atividades necessárias para compor o vídeo revelaram que o trabalho da organização só acontecia no interior do prédio do Centro, e retomava a discussão da proposta em que o Centro se originou de realizações do portão para fora da organização. O retorno à rua, também trouxe à tona o antigo atrito entre o grupo “do Nossa Senhora” e o grupo de D. Neusa, vizinhos e oriundos do movimento de moradia local junto à igreja. Por causa da situação, o grupo que não teve como editar o vídeo no Centro e não conseguiu outra parceria local; precisou se deslocar para o outro lado da zona leste para concluí-lo. Com o debate interno, a questão da juventude como protagonista emergiu, tornando um ex-educando educador da atividade de audiovisual. As atividades de inclusão digital tomaram dois rumos: foi dada continuidade ao formato de curso de informática e cidadania sob a responsabilidade do antigo educador e foram criadas as oficinas de inclusão com o novo educador à frente. O CDI, por sua vez, precisou rever a sua responsabilidade com relação a estrutura tecnológica e a sustentabilidade local.

O processo foi bem dramático para o corpo técnico do CDI. À medida que as discussões foram acontecendo com as organizações parceiras, os conflitos internos aumentavam consideravelmente: Como defender a auto-sustentabilidade? Como garantir que computadores recondicionados fossem a opção para a inclusão digital? Como tornar a organização uma parceira real na realização da prática de inclusão digital? Foram perguntas chaves que já vinham sendo aprofundadas com a

156 Como vimos acima, quando nos referimos ao problema do controle dos grupos de tráfico de

149 efetivação das ações de acompanhamento locais e eram retomadas a cada proposta que o CDI apresentava às organizações parceiras.

Segundo Suelen, técnica responsável pelo acompanhamento de 10 espaços na época:

Chegou um momento em que ficamos muito angustiados, porque estávamos bem no meio, entre o CDI, que nos pagava, a organização cobrada para fazer o trabalho e o que era para nós inclusão digital. Depois de muita discussão para convencer a organização de fazer uma experiência com aquela forma de trabalhar, não obtínhamos respostas concretas do setor de tecnologia. Muitas experiências e argumentos das organizações nos provocavam a pensar: sobre a identidade do CDI, sobre o que era inclusão digital para o CDI, sobre o papel do CDI e das organizações nos locais. Afinal, era papel do CDI participar ou se meter nos fóruns locais? Era papel do CDI ser tutor das organizações para que agissem localmente? Já as EICs questionavam as condições que o CDI oferecia para o trabalho proposto. Pagava educador? E o coordenador que tinha que articular o poder local, mobilizar a comunidade, como fazer para garantir esse compromisso?

O debate ascendeu o surgimento de dois grupos internos no CDI: técnicos X gestão. O grupo dos técnicos tomava o partido das organizações locais, defendendo suas reivindicações; o outro se protegia com receio de desgaste público institucional. Esse embate, algumas vezes se estendeu às discussões na rede CDI, como vimos no capitulo anterior, e revelou as diversidades políticas e ideológicas internas, formando vários grupos internos, revelando, no seio da ONG, a sua diversidade.

No quesito sustentabilidade, o CDI não mudou o discurso formal, mas o regional São Paulo foi acrescentando à sua rede de financiadores as demandas locais, à medida que os espaços propunham projetos que tinham por estratégias ações locais com o uso das tecnologias digitais. Com relação às tecnologias ofertadas, o CDI mudou sua política de recebimento de doações, chamando a atenção dos doadores para a necessidade de equipamentos melhores. Com os embates, a gestão CDI foi obrigada a tornar público, no edital da parceria, as configurações mínimas das máquinas que oferecia para implantação dos espaços, além de tornar mais claros os critérios para implantação.

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