1 EXCLUSÃO X INCLUSÃO: O PARADOXO DO ACESSO E SUAS
3.5 POR DENTRO E POR FORA DO CDI: A EXPERIÊNCIA DE DUAS
3.5.2 O projeto do Centro Educacional de Nossa Senhora Aparecida
O Centro Educacional Nossa Senhora Aparecida começou sua trajetória como um agrupamento de moradores, a maioria jovens, junto à igreja católica do bairro. Segundo, Sônia Fonseca, coordenadora geral da instituição, a época era de muita insegurança, pois todos estavam morando em casa de madeirite e não sabiam por quanto tempo iam ficar ali, pois a ameaça do poder público em derrubar os barracos sempre existia.
O Centro iniciou seu trabalho com uma frente de alfabetização popular. Na época, a ala da igreja ligada à teologia da libertação, tinha um trabalho de comunicação forte, como podemos observar no discurso de D. Angélico Sândalo, bispo da região de São Miguel, na apresentação de um impresso da época134:
Nossa querida Região de São Miguel continua sua luta para criar meios populares alternativos de comunicação. Estamos animados de grande vigor e esperança! O Senhor tem feito maravilhas entre nós, nesse campo também! Santo é o seu nome! Aí estão o “ Grita Povo”, os cursos, encontros para formação de comunicadores! A Pastoral de Comunicações Sociais se organiza! (...) É Povo na prática, quebrando a ditadura das comunicações! É Povo se comunicando com o Povo, um compromisso libertador do Povo! É Povo quebrando criticamente a “magia” de que somente gente estudada, rica, sabe falar ao microfone!
Esse trabalho reverberou na zona leste da cidade, criando as rádios populares: sons saídos de grandes bocas de ferro que invadiam as ruas e barracos
134 Caderno Introdutório dos Manuais de Comunicação. ALER-Brasil, IBASE, FASE, SEPAC/EP, São
129 da região de Emerlino e São Miguel Paulista. A proposta era usar a rádio para mobilizar os moradores para a luta pela moradia, estimular a produção de cultura local, divulgar o que acontecia no Centro e alfabetizar jovens e adultos.
A luta pela moradia estacionou quando a ameaça de expulsão acabou, segundo Sônia Fonseca:
Hoje, as pessoas vêm procurar a gente, que se tornou liderança nesse processo, para resolver problemas pessoais, pedir uma vaga para o filho na creche, por exemplo; mas, não se organiza coletivamente para ter melhores condições de moradia. O Centro também está revendo sua prática, pois no momento em que o CDI nos procurou para apresentar e discutir sobre a nova proposta pedagógica, nós nos vimos há 25, 30 anos. Porque o que o CDI propõe fazer com os computadores e a internet era o que fazíamos com a rádio popular naquela época. Hoje, estamos nos perguntando o que aconteceu e queremos levar essa discussão para a comunidade. Segundo a coordenadora, os grupos organizados passaram por um processo de “institucionalização135” que quebrou com os ideais do movimento por moradia, pois
ao necessitar dos recursos da secretaria de educação do município, por exemplo, tivemos que nos comprometer com as metas e plano de trabalho daquela secretaria e isso compromete o resto do trabalho, pois o nosso pessoal empenha toda a sua energia para dar conta daquelas metas. Como fazer diferente, se precisamos nos manter? Quando penso no que aconteceu; nossa! Me sinto tão nostálgica! Será que o que fazemos hoje não é importante para os moradores do Nossa Senhora?
A coordenadora nos informou que, além da dificuldade de manter a organização, a gestão tem um problema sério de pessoal, pois a formação que o Centro fornece aos profissionais serve de base para que eles ingressem em outras instituições que pagam melhor. Segundo ela, só os cursos de pedagogia e magistério não ensinam a fazer o trabalho no Centro. Por outro lado, o profissional qualificado, com experiência, exige uma remuneração incompatível com os recursos da organização. Incluir um profissional iniciante em formações oferecidas em parcerias é muito mais fácil que pagar um melhor salário a quem já sabe; o problema é que esse profissional sai, assim que aparece uma nova oportunidade.
135 Essa questão já foi muito debatida pelo movimento social e pesquisadores sociais na década de
80-90. Mas, como referência, para nosso trabalho, utilizamos a pesquisa de Doimo (1995) que trata o fenômeno como um paradoxo sócio-político marcado pela convivência entre os “avessos à própria institucionalidade” e os que lutam pelos direitos à cidadania, dando origem a uma “sociabilidade cambiante entre o estatismo e as reivindicações de mercado” (op. cit. p. 223).
130 O Centro, atualmente, mantém dois prédios funcionando, um com um trabalho voltado para formação de jovens e outro com uma creche. Tem parceria com a prefeitura municipal, através da secretaria de educação e da assistência social, com o SESC, a Fundação Abrinq, Visão Mundial e CDI. Sua localização é bem próxima ao Centro comunitário das mulheres do MST, mas segundo Sônia, os grupos, os quais as gestoras representam não se entendem muito bem.
Sobre a parceria com o CDI, Sônia nos colocou:
Teve um momento que não conseguíamos entender a proposta pedagógica porque nos parecia que a informática e a cidadania eram separadas, após algumas discussões realizadas pelo CDI com toda a equipe, compreendemos que tudo acontecia ao mesmo tempo. O CDI se aproximou e nos conheceu melhor e, nesse encontro, percebemos uma grande afinidade. Foi aí que lembramos que o nosso trabalho lá atrás tinha tudo a ver com o que o CDI estava propondo. Mas, como resgatar isso? Com a pergunta, surgiram várias outras: O nosso educador está preparado para isso? Como arranjar um perfil adequado? Com que recurso? No início das discussões, foi difícil. Quase decidimos pelo rompimento da parceria, mas agora estamos amadurecendo o processo.
A questão dos educadores era um sério problema para a instituição, pois o educador mais antigo, Anísio, era professor de informática e cidadania desde que a parceria se realizou. O foco do trabalho do espaço de inclusão digital era de cursos básicos de informática, hardware e a “cidadania”, intercalados com as informações técnicas. Segundo o educador, “o momento da cidadania é quando a turma cria, pensa sobre os valores a sua volta”.
No Centro, havia duas salas com computadores, uma com três máquinas servia como acesso livre, e havia sido implantada com recursos do GESAC, a outra era resultante da parceria com o CDI. Com a determinação do educador em continuar com os mesmos cursos à sua maneira e com a dúvida da gestão em romper com essa rotina, a coordenação local optou pela alternativa de usar a sala de acesso para outras atividades de inclusão digital. Como responsável por essas atividades, Robson, um jovem de 22 anos assumiu a frente.
Robson nos contou:
Cheguei como adolescente do núcleo, há quatro anos. Passei pelos cursos, todos que tem por aqui; aí surgiu a vaga de educador complementar. Eu dava aula para todas as turmas. Fiquei assim durante um ano e meio, até que no começo desse ano, eu me estressei e disse que ia sair daqui. Aí aproveitei para fazer alguns cursos como o de filmagem, edição, de câmera no Kino Forum, aí surgiu a proposta de tomar conta da inclusão digital. Até
131 então, ninguém sabia como trabalhar com isso, como incluir o jovem que ele não consegue ter um estilo de vida muito ativo, ele é meio parado, meio mole, parece que a vida se esqueceu dele. Como fazer para ele ir em frente? Com a proposta do vídeo, vídeoação, veio a ideia de fazer filmes, curtas... É o que estamos fazendo agora. Desde julho que estou à frente dessa proposta com eles.
Na época da entrevista, o educador tocava oficinas de áudio-visual com uma turma, como uma experiência piloto de inclusão digital na instituição, resultante de uma negociação com o CDI. Os 10 jovens com idades entre 16 e 20 anos, a maioria estudante do ensino médio, pareciam bem empolgados com a ideia de fazer um vídeo. Em nossa visita, observamos que a sala estava repleta de sinais do roteiro, mas o educador ainda não sabia como iam fazer a edição, pois as máquinas não comportavam o trabalho. Segundo ele, a instituição estava negociando com o CDI uma renovação das máquinas.
Sobre o envolvimento dos jovens na atividade, o educador nos colocou: Como é o primeiro grupo, é mais que um teste. Em um primeiro momento, eles resistiram à ideia do filme por medo. Então, eu disse: “vamos fazer, a gente consegue”. Mais tarde já com parte do trabalho feito eu retomei a conversa para mostrá-los que era possível. Quando você acredita em você mesmo, você consegue as coisas. A maioria dos jovens que mora aqui se sente inútil, por causa de seu modo de vida. Ou ele vai se matar para fazer alguma coisa ou vai caminhar para as drogas, então se você mostrar para ele outra realidade. Pode ser uma nova perspectiva de vida. Então, fazer um filme, é mostrar para o mundo como jovem, outro olhar do mundo, uma nova leitura de mundo. Por isso acho muito importante para o jovem porque ele se auto descobre e também descobre onde ele mora. Fazer filme é uma coisa muito rica e ajuda bastante, sem falar que trabalha a fala, a escrita, a interação com o outro que é uma coisa muito importante.
No ano em que se deu a entrevista (2007), alguns jovens do Centro haviam participado com um vídeo, do Projeto “VideoAção”, proposto pelo CDI às organizações parceiras ou não. Como o grupo inscrito não tinha como editar no Centro, juntou-se a outro grupo de São Mateus e conseguiram parceria com uma escola estadual da zona leste para concluir os vídeos. A experiência estimulou a equipe do Centro a investir na proposta do audiovisual.
Percebemos, com o contato, com a instituição que todo o ambiente interno é marcado pela informalidade das relações entre usuários, técnicos, educadores contratados, voluntários e responsáveis pelos serviços gerais. Isso foi comprovado, por exemplo, pela liberdade dos jovens em pegar as chaves do prédio e sair e entrar, sem que sejam abordados por qualquer funcionário. O prédio é simples: a entrada lembra uma grande garagem, com um portão de ferro largo e um espaço
132 aberto para convivência, de um lado o refeitório e de outro um grande galpão com paredes grafitadas do lado de fora e um palco dentro, utilizado para oficinas de dança e teatro; de frente para o portão da rua, um prédio com térreo e um piso acima onde funcionam escritório e salas de aulas com oficinas e cursos profissionalizantes.
Para Sônia, o sonho da inclusão digital se realizaria com um espaço aberto para a comunidade, com recursos tecnológicos de ponta. Com computadores e telas “que obedeciam aos toques dos dedos das crianças”. Isso ainda não aconteceu, mas no ano de 2008, segundo a técnica do CDI que acompanha o trabalho no espaço, o CDI conseguiu uma parceria com o instituto Ibrati para fortalecer o trabalho com a inclusão digital local. No relatório anual de atividades da instituição entregue ao CDI e, que tivemos acesso, observamos que os recursos foram utilizados para dar continuidade ao projeto de audiovisual, somando-se à atividade a produção de fanzine, rádio web e fotografia amadora. No Blog “Será o Benedito??” estão registradas algumas dessas produções e o histórico do movimento para a construção de uma casa de cultura no bairro, suscitada pelo trabalho com o grupo.
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4 ENTRE O TERRENO MOVEDIÇO DOS ESPAÇOS INFORMAIS E A