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2. A Lei do BRAC de 1988: Antecedentes e Explicações para a sua Aprovação

2.1. Iniciativas do Congresso para Influenciar o Fechamento e o Realinhamento de Bases

2.1.2. A Pressão do Congresso se Intensifica (1970-1976)

Os sucessores de McNamara continuaram a eliminar bases sem o consentimento do Legislativo. Entretanto, no início da década de 1970, configurou-se uma alteração no equilíbrio de poder entre o Legislativo e o Executivo, a qual se refletiu sobre o processo decisório do BRAC. A guerra do Vietnã e os escândalos de Watergate marcaram o fim do período que ficou conhecido como “presidência imperial” (SCHLESINGER, Jr., 1973). Rudalevige (2005, p. 113- 114, tradução da autora) descreve as relações entre o Capitólio e a Casa Branca durante tal período da seguinte forma:

(..) O Congresso delegou uma vasta gama de poderes ao Presidente para resolver várias questões.

Assim, os quarenta anos de “emergência” (…) significaram que os presidentes acumularam cerca

de quinhentos poderes discricionários em suas mãos como autoridade de prontidão. Esses poderes foram ativados em 1933, 1950, 1970 (para lidar com uma greve dos correios) e 1971 (para lidar com a crise no balanço de pagamento), mas nunca foram rescindidos. Ao examinar a questão, uma

comissão do Senado descobriu que “essa vasta gama de poderes, tomados em conjunto, confere

autoridade suficiente para governar o país sem respeitar procedimentos constitucionais. Seguramente, os presidentes podiam confiscar posses, limitar viagens ou comunicações, declarar lei marcial e nacionalizar várias indústrias; eles podiam suspender publicações das suas próprias

ordens no Registro Federal (…) ou determinar a prisão de grupos suspeitos”.xxxviii

A deferência congressual em relação ao Executivo se manifestava, também, no âmbito da política de defesa. Referindo-se ao deputado Carl Vinson, D-GA, que presidiu a Comissão das Forças Armadas da Câmara por mais de trinta anos, e aos seus sucessores, L. Mendel Rivers, D-SC, e Felix E. Hébert, D-LA, Blechman (1990, p. 32, tradução da autora) afirma que:

Nenhum dos três estava disposto a questionar, de perto, o Departamento de Defesa, exceto para saber por que instalações novas não poderiam ser localizadas nos seus distritos de origem. Rivers era notório por fazer isso; observadores brincavam dizendo que Charleston iria cair no mar em decorrência do peso do concreto sendo canalizado para as bases militares ali.xxxix

Ao longo das décadas de 1970 e 1980, o Legislativo minou a estrutura sobre a qual a presidência imperial havia se erigido (BLECHMAN, 1990; RUDALEVIDGE, 2005; SUNDQUIST, 1981). Diversas leis aprovadas no período restringiram a autoridade do Executivo para manter sigilo sobre determinadas questões e para iniciar e conduzir guerras e atividades de inteligência. Outras questões de política externa, como a exportação de armas, também foram alvos do Legislativo. O Congresso revitalizou a sua influência sobre a política orçamentária, limitando a capacidade do presidente de dispor de fundos públicos para a implementação de políticas sem o consentimento congressual, e sobre a estratégia militar, a partir da influência sobre a aquisição de armamentos. O Legislativo também começou a desenvolver recursos analíticos próprios, tornando-se, gradualmente, menos dependente do Executivo (BLECHMAN, 1990). Nesse contexto, “o Congresso teria uma propensão menor de aceitar o conhecimento especializado do Pentágono” (BECKER, 2005, p. 19, tradução da autora).xl

Entre 1970 e 1973, o DoD anunciou a redução de 1.805 atividades e instalações militares ao redor do mundo, incluindo 392 fechamentos. Estimou-se que tais ações resultariam na geração de economias da ordem de US$3.7 bilhões anuais (FLETCHER, 2006). O Legislativo reagiu por meio da convocação de audiências, nas quais alguns membros defenderam mudanças estatutárias. De acordo com Twight (1990, p. 243, tradução da autora):

O registro impresso das audiências presididas pelo Senador Symington sobre fechamento de bases apenas em Massachusetts e na Califórnia foi feito em três volumes. Alguns senadores muito poderosos foram perturbados e a hostilidade geral aos fechamentos e à maneira como a questão foi conduzida foi extrema. A intensidade da resistência congressual se refletiu sobre a proposta do

Senador Claiborne Pell, de Rhode Island, de criar uma “Comissão de Fechamento de Instalações Militares” para rever as justificativas para as propostas de fechamento do DOD, um projeto de lei

que teria evitado que o DOD agisse por 180 dias depois de notificar o Congresso.xli

No primeiro ano do governo do Presidente Richard Nixon, foi anunciada uma lista que afetaria 274 bases. Os estados que mais perderam empregos foram Massachusetts (seis mil, com o fechamento do Estaleiro Naval de Boston) e Rhode Island (20 mil, com o fechamento dos Complexos Navais de Quonset Point e de Newport). Nova York e Pensilvânia também foram afetados, além de Maine, com o fechamento da Loring AFB, e Nova Jersey, com a eliminação do Forte Dix. A grande amplitude geográfica e o impacto econômico das ações geraram forte oposição por parte dos Estados da Nova Inglaterra (HADWIGER, 1993).

Naquele momento, especulou-se sobre a motivação política de alguns fechamentos. Boston teria sido escolhida como alvo pelo fato de Massachusetts ter sido o único estado a votar

contra o Presidente Nixon, em 1972. Em resposta à acusação, o Secretário de Defesa, Elliot Richardson, afirmou que as ações haviam sido planejadas antes das eleições presidenciais e não haviam sido baseadas em questões partidárias. Ainda assim, três anos após a tomada da decisão, alguns congressistas insistiam em que os fechamentos haviam servido punir adversários políticos do presidente. Em sessão congressual em 1976, o Deputado Joe Moakley, D-MA, afirmou:

Eu sugeriria aos meus colegas que a minha própria experiência com o fechamento do Estaleiro

Naval de Boston pode acontecer com qualquer distrito congressual… Boston ainda não se

recuperou do revés gigantesco. Porém, Massachusetts privou a Richard Nixon da honra que nenhum presidente teve desde George Washington – o voto unânime de todos os Estados no colégio eleitoral. Logo, foi tomada a decisão política de que Massachusetts perderia todas as suas bases militares (Apud HADWIGER, 1993, p. 71, tradução da autora).xlii

Os congressistas do nordeste dos Estados Unidos se uniram para propor uma reforma do processo decisório referente às bases. Uma semana antes do anúncio dos fechamentos de 1973, os Senadores Claiborne Pell, D-RI, Edward Brooke, R-MA, e Edward Kennedy, D-MA, apresentaram um projeto de lei que recomendava a formação de uma comissão para deliberar sobre as bases a serem eliminadas ou reduzidas. A comissão analisaria os fechamentos e apresentaria relatórios ao Congresso e ao DoD, os quais deveriam ser notificados dos fechamentos pelo menos 180 dias antes da sua implementação. Uma proposta semelhante foi feita pelos membros da delegação dos estados da Nova Inglaterra, incluindo Thomas P. O’Neill, D-MA, Edward Boland, D-MA, James Burke, D-MA, Silvio Conte, R-MA, Paul Cronin, R-MA, Harold Donohue, D-MA, Father Robert Drinan, D-MA, Ella Grasso, D-CT, Torbert MacDonald, D-MA, John Joseph Moakley, D-MA, Fernand St. Germanin, D-RI, Ronald Sarasin, R-CT, e Gerry Studds, D-MA.