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A Pseudo-Ecologia

No documento A Aurora do Pensamento (páginas 127-132)

Antes pseudo-ecologia fosse simplesmente uma falsa ecologia. Infelizmente ela é muito mais que isso, a pseudo-e-cologia é o discurso liberal-capitalista engendrado até mesmo em quem discorda do mesmo. É uma espécie de inação disfar-çada da mais sincera ação, é uma “não-fazer” com roupagem de “fazer”. Em poucas palavras a pseudo-ecologia é aquilo o que as pessoas fazem em prol da sustentabilidade do Eu no modelo capitalista em nome da ecologia, no entanto esse “fa-zer” está mergulhado nas ambições e tendências capitalistas da sociedade, e o que para o indivíduo parece muito com “ser o certo a se fazer” é na verdade um não fazer nada, isso porque toda a pseudo-ecologia é aquela ecologia que não dá nenhum fruto e que por mais que convença o indivíduo de que ele está fazendo algo esse algo em nada muda a situação da iminência da crise ecológica.

Em menos palavras ainda, se fosse descrever a pseu-do-ecologia, eu a descreveria como toda a ação que fazem as pessoas que dizem “estou fazendo a minha parte”.

O discurso liberal-capitalista proveu ao indivíduo umas pequenas tarefas e incunbências para que a “culpa” que ele tem pelo seu consumismo diminuísse. Essas tarefas são sim-ples e alcançáveis, e estão lá para fazer o indivíduo se sentir bem consigo mesmo por esforçar-se em nome da ecologia. No entanto, sendo tarefas que surgiram do discurso liberal-capi-talista são tarefas que, em seu âmago, estão lá para ajudar o liberal-capitalismo e seu extrativismo e exploração, e não

ta-refas que vão, de fato, salvar a natureza e o meio-ambiente.

Não só isso, o liberal-capitalismo — esse predador extrema-mente adaptável — consegue se aproveitar da pseudo-ecologia e lucrar em cima desta(Lembrem-se: em seu âmago a pseudo--ecologia mais ajuda ao capitalismo do que à natureza).

Um dos exemplos que posso dar de pseudo-ecologia, pegando emprestado do ensaio “Ecologia Sem Natureza” de Zizek, são as “casas sustentáveis”. Elas surgiram quando o dis-curso ecologista acerca do aquecimento global estava em seu ápice, o liberal-capitalismo aglutinou esse discurso ao próprio capitalismo e criou um produto que atendesse à demanda eco-logista. Casas mais compactas e mais caras do que o mercado imobiliário geralmente oferece, mas com a grande vantagem de “ajudar o meio-ambiente”, perceba que aqui a ecologia é na verdade o marketing capitalista disfarçado, o capitalismo se aproveita da demanda ecologista e vende para o público pro-dutos com a roupagem de “ecológicos” para chamar atenção e lucrar em cima disso. No fundo, sabemos, o que o capitalismo quer é acumular capital, e não salvar o meio-ambiente, além de te fazerem comprar um produto, o capitalismo, para que o discurso capitalista e a acumulação de capital não sejam ame-açados, ainda faz você se afastar de discursos ecologistas, isso pois, perceba, você está numa casa sustentável, então você já fez a sua parte.

Outro grande exemplo que posso dar de pseudo-eco-logia, ou de capitalismo disfarçado de ecologia são algumas propagandas que conseguimos ver em grandes marcas de ali-mentos. Por exemplo, coisas como “Na compra desse produto a empresa tal estará fazendo uma doação para uma ONG tal”.

Mais uma vez o capitalismo se aproveita da culpa do indivíduo pela crise ecológica e vende a ele a sua redenção e o indivíduo fica extremamente feliz nessa situação de conforto: “pra quê protestar em campanhas ecologistas se eu posso simplesmen-te comprar um café no Starbucks e contribuir com ONGs que

vão ajudar com a crise da fome na África?!”. Embora talvez não percebam, é assim que as pessoas pensam quando com-pram esses produtos, mas esses produtos, perceba, em nada mudam a situação atual da crise ecológica e a doação que as empresas supostamente fazem são uma parcela extremamen-te mínima e irrisória perto da tamanha produção de capital que eles têm através de seu discurso de “consumismo ecolo-gista”.

Consumismo e ecologismo são conceitos contraditó-rios por excelência e não podem se manter no mesmo plano.

Onde há capitalismo não pode haver ecologismo, isso pois, até onde se conhece, o capitalismo se resume à: extrair, pro-duzir, vender e acumular. No entanto a avassaladora maio-ria das pessoas que se dizem ecológicas ou ecologistas são pessoas que atendem ao discurso do “capitalismo ecológico”

e fazem essas pequenas tarefas que a consciência coletiva e o liberal-capitalismo as incumbem. Um indivíduo que está visivelmente mergulhado em um ambiente capitalista, inde-pendente das medidas que tome, não é e não consegue ser um indivíduo totalmente ecológico, isso pois, enquanto está fazendo as pequenas tarefas(os pseudo-ecologismos) que a consciência coletiva do liberal-capitalismo o manda fazer, as grandes empresas e corporações estão extraindo, explorando, lesionando e pervertendo a natureza, para cada litro de água que você possivelmente economize, o agronegócio para aten-der à sua demanda de consumo gasta milhões e milhões de litros de água, por exemplo. E a sua economia de água, por mais nobre que o discurso sustentável na sua imaginação pos-sa parecer, não vai diminuir ou amenizar a grande exploração das grandes empresas.

Um ecologismo que não questiona o status quo do liberal--capitalismo que vivenciamos não é um ecologismo pleno, mas sim um ecologismo que é conivente ao capitalismo exploratório, por mais que os praticantes desse ecologismo não percebam.

Seguindo os exemplos, um caso mais recente de pseu-do-ecologismo que posso citar foi a incansável campanha con-tra os canudos de plástico. E por que? — vocês me perguntam

— a consciência coletiva voltou todo o seu discurso ecologista durante certo tempo para a questão dos canudos de plástico e da poluição dos rios e mares, da morte das tartarugas e etc, a atitude de não usar canudos de plástico foi pseudo-ecológica, perceba, por alguns aspectos. O primeiro deles é que essa ação não é uma ação que necessariamente questiona o discurso ca-pitalista, e enquanto as pessoas faziam o enorme esforço de não usar mais canudos as grandes empresas empenhavam a produção de plástico e a extração de petróleo em outras ati-vidades, de modo que a diminuição da demanda pelos canu-dos em pouco ou nada afetou verdadeiramente a iminência da crise ecológica causada pelo corporativismo. Perceba também que essa medida foi uma medida de “curto prazo” pode-se di-zer, isso porque uns anos depois o empenho sustentabilista evaporou no ar, e as pessoas hoje em dia pouco ou nada se im-portam com o uso de canudos. Outras coisas que algumas pes-soas não percebem é que com essa tendência ecológica muitas empresas conseguiram se aproveitar disso, umas passaram a vender canudos de ferro ou de aço para que o cliente da de-manda ecologista pudesse também sentir o prazer de “estar fazendo a sua parte”, diminui-se assim a produção de plástico e aumenta a exploração do ferro e do aço, que também têm impactos ecológicos negativos. Outras empresas sob a roupa-gem ecológica fizeram dessa demanda um marketing e passa-ram a entregar souvenirs para que seus clientes também fizes-sem “a sua parte”, certas empresas de roupas, por exemplo, entregavam canudos de aço como brindes de seus showrooms vendendo uma auto-imagem de empresa ecologista.

Acredito que não existe contradição maior do que “em-presa ecologista”. Se a em“em-presa explora recursos e pessoas ela definitivamente não é ecológica. Ressalto aqui que não estou dizendo que não existem pessoas ecológicas ou empresas

eco-lógicas, não. Estou apenas tentando atentar ao fato de que a ecologia verdadeira e eficaz é muito mais rara de se ver do que parece, e a maioria das ações ditas como sustentáveis ou eco-lógicas que vemos por aí são ações alimentadas pelo liberal--capitalismo e que, em seu âmago, não são medidas ecológicas verdadeiramente eficazes.

Vale também certa menção às faces que o pseudo-eco-logismo sustenta em seu discurso. Um indivíduo se destaca na campanha da luta pela ecologia e a consciência coletiva o ova-ciona e o eleva a um ídolo da causa, e enquanto todos se viram a elogiar ou criticar essa nova face do ecologismo nenhuma ação verdadeiramente eficaz é feita por essa ou qualquer pes-soa que a ovaciona, para inibir a crise ecológica iminente.

A pseudo-ecologia, perceba, é multi-facetada e seu dis-curso capitalista disfarçado de ecologia influência uma parce-la significativa da popuparce-lação. Não é possível haver um ecolo-gismo sincero numa sociedade capitalista, no cenário atual o discurso da sustentabilidade nada mais é do que uma fantasia liberal-capitalista. Uma ecologia verdadeira, se daria em gran-de parte pela luta e pelo empenho total à causa ecológica e também se daria por meio do desligamento do indivíduo com o capitalismo. O objetivo desse ensaio não é necessariamente dizer o que é a ecologia e quais são as personalidades e as ações verdadeiramente ecológicas, mas sim atentar à hegemonia do discurso capitalista sobre a demanda ecológica e demonstrar que a sociedade, embora pense, está muito longe de uma eco-logia plena. Se a sua ecoeco-logia se baseia num “estou fazendo a minha parte” provavelmente suas ações são pseudo-ecológi-cas e dirão respeito somente a você isso, porque em pouco ou nada influenciarão na crise ecológica iminente, se você pen-sa “estou fazendo minha parte” então pense por conseguinte:

“mas isso é o suficiente?”.

No documento A Aurora do Pensamento (páginas 127-132)