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O Indivíduo, a Sociedade e o Devir

No documento A Aurora do Pensamento (páginas 38-46)

Sabe-se que: Tudo ocorre mediante uma ação, tudo é I.

actio, tudo é um fluxo perpétuo de acontecimentos e mudan-ças, panta rhei disse Heráclito, e ele estava certo, a Forma do todo permanece inalterada em seu existir, mas sua Matéria está em constante mudança, e cada uma das contingências do todo, do Cosmos muda conforme correm os fluxos e reflu-xos do rio. As coisas mudam e acontecem. Claro, pois se não mudassem e não acontecessem não “aconteceria” o existir do todo, a existência ocorreu mediante uma ação a priori, uma Vontade intrínseca ao tudo, a essência da essência. Uma ação primeira.

Chamem os religiosos e também os ateus de o que qui-serem, sabe-se que a ação é a essência e o acontecer de todas as coisas e todo o Ser somente é mediante uma ação, seja dele como causa ou nele como efeito, e no homem(esse é foco do meu pensamento aqui) não é diferente, ele atua, tem ações, e executa suas ações mediante uma Vontade, um desejo, uma pulsão. E essa pulsão é a pulsão do prazer, o homem é hedo-nista por excelência, faz e deseja aquilo o que lhe regozija, cla-ro, pois ninguém quer aquilo o que lhe faz mal. Como mostra Mário Ferreira dos Santos e também Ouspensky: em seu es-tado natural, o homem deseja aquilo o que lhe faz bem(lhe dá prazer) e rejeita aquilo o que lhe faz mal(não lhe dá prazer ou lhe dá desprazer). Porém o homem não atua individualmente, não atua em função somente da sua própria existência e de seu próprio prazer, por natureza, o homem se vê em socieda-de, pois o homem tende à sociedade. E em sociedade ele está dividido entre as paixões e os deveres, como aponta Kant. Ele

está dividido entre o seu prazer individual e a ordem dos pra-zeres do todo de sua sociedade. O homem é o Ser do Prazer, mas o homem também é, e atua na sociedade, ele influencia a sociedade e também é influenciado por ela. Ele constrói a sociedade e também é construído por ela, como nos mostra Hegel. O homem é um construto social e também um cons-trutor social, fruto e semente da sociedade, e essa dinâmica do Ser-em-sociedade só pode ser considerada em sociedade.

O homem só pode ser dito como homem se estiver em socie-dade, pois é a sociedade que constrói o conceito de homem, de Ser e de qualquer outra coisa; as coisas São, porque são em sociedade, e toda ideia veio de um Ser-Social.

O homem só É em sociedade. Portanto: Ser é Ser-em--sociedade.

II.

Foi através da leitura de Schopenhauer e posterior-mente através das leituras de outros filósofos como Nietszche e Spinoza que eu pude perceber que a plena liberdade, o livre--arbítrio a priori não existe; nossas escolhas, ações, vontades e Vontades são limitadas à algo que nos é extrínseco; em Cioran temos que as ideias e portanto, as ações são indiferentes em sí, no livre e aleatório agir das ações não há intencionalidade e portanto as ações por sí mesmas não carregam significados intrínsecos, mas significados extrínsecos, relativos à subjeti-vidade do sujeito da ação. Mais tarde a leitura ou o conhecer de outros filósofos reforçou minhas ideias, Heiddeger, Lacan, Freud... desde que comecei essa viagem à filosofia já criei e destruí muitas ideias, mas esta que agora escrevo permanece inalterada em sua essência, apenas desenvolvendo-se confor-me eu desenvolvo a minha cultura filosófica.

Desde cedo eu soube que o homem não atua sob plena liberdade, mas decerto é que: atua. E se não atua mediante a sí mesmo, isso é, se não atua mediante a própria liberdade, a

própria Vontade e às próprias pulsões então atua mediante a algo que lhe é externo. E esse externo não pode ser metafí-sico transcendente pois implicaria na existência de um Ente extremamente pessoal, que brinca de ventriloquismo com suas criaturas. portanto esse “Externo” deveria ser metafísi-co e imanente ou metafísico aparente; e ao pensar sobre o que pode ser esse Externo mediador de ações descobre que ele atua bivariantemente como metafísico imanente e também/

ás vezes como um metafísico aparente.

Na tensão entre paixão e dever, entre o próprio prazer e o prazer do todo há no homem a síntese entre o seu que-rer pessoal e o seu dever social, um queque-rer social. Um prazer guiado pelo ser-em-sociedade(isso é, estar em sociedade), um agir que não vem propriamente do indivíduo mas da socieda-de onsocieda-de ele se encontra. Um querer que lhe parece próprio a sí mesmo, mas lhe é Externo. E como as ações atuam mediante uma Vontade, uma pulsão do prazer, e o homem deve equili-brar-se entre o seu individualismo e a sua atuação em socieda-de, temos que a maioria, senão, todas as ações do homem são guiadas pelo seu Eu-social, pela sua ação de ser em sociedade.

O homem não é livre em sí e por sí, pois é um Ser-em-socie-dade, um indivíduo em Todo com os demais indivíduo desses Todo.

Suas ações não lhe são próprias, ocorrem mediante algo que lhe é externo, e esse Externo é a sociedade.

O agir de suas ações não se encontra no homem, mas além dele. Há no homem um ADE, um Além-do-Eu. uma in-fluência, ou muitas influências que estão no homem não por sí mesmo, mas influências que estão no homem porque estão na sociedade, e a sociedade é o grande influenciador do homem, o Grande Outro, o pai que diz o que é positivo ou negativo, o que deve ou não ser feito.

O ADE, ou os ADEs não são somente nossas muletas sociais, mas tudo aquilo o que fazemos, pensamos e somos que não vem propriamente de nós. O ADE é a grande mão do que nos é Externo sobre nós.

III.

Ao fazer uma Genealogia de nossas ações, das mais simples às mais complexas das nossas ações podemos perce-ber o Além-do-eu, claro, pois o ADE, este Grande-Outro-So-cial é influenciador e muitas vezes criador, das tendências de nossas ações; por trás de toda ação há um querer, um desejo, uma vontade e uma Vontade, e muitas vezes o grande deter-minador de nossas vontades é o ADE.

Temos também o ADE como um tendenciador de nos-sas ações, aquilo por qual tendemos a realizar determinada ação e não qualquer outra senão aquela.

Perceba; ao ler um livro, leio por uma liberdade de ação pela qual posso ler? Se tenho essa liberdade de ação por que então eu escolhi a ação de ler ao invés da realização de qual-quer outra ação? Se eu tenho, supostamente, um livre agir por trás de todas as minhas ações o que me faz Escolher; o que me faz preferir certas ações e preterir à outras?

Schopenhauer vai dizer; “Sou livre para fazer o que quero, mas não sou livre para querer o que quero”, isso é, não tenho controle sobre o querer por trás de minhas ações, no momento em que vou ler o livro estou a querer ler o livro, e na-quele momento não conseguiria me forçar a querer fazer uma outra coisa na mesma intensidade em que quero ler o livro.

Não temos controle sobre o nosso querer. Eu não pos-so, por exemplo, me forçar a gostar de um gênero musical que eu não gosto, como o Pop no meu exemplo. Se isso fosse pos-sível a vida seria mais simples, se o homem tivesse um

con-trole sobre o seu querer poderia ficar em paz na mais cruel das adversidades era somente querer ficar feliz. Mas o homem não controla o querer, o gostar, ou o desejar e no entanto ele quer, gosta e deseja e se a Escolha não vem propriamente dele, isso é, se ele é Sujeito Passivo da pulsão de sua ação, se ele é o tendenciado a fazer a ação, quem seria o tendenciador? Quem seria o Sujeito Ativo da pulsão da ação? Algo que lhe é externo, que está além de de sí porque está além de suas ações, o Além--do-eu.

No ato de ler o livro, de onde vem o querer específico de ler o livro? Posso ter lido porque a sociedade vê o ato da leitura com bons olhos, e eu como ser em sociedade quero os bons olhos que tem a sociedade para com quem lê, logo estou invisivelmente e imperceptivelmente condicionado à socieda-de, de tal forma que no ato de ler, leio por que Sou em socie-dade. Posso também, ter lido porque gosto de ler, mas de onde vem o tal gostar? Por que prefiro ler no momento do que fazer qualquer outra ação? o gostar é uma construção do indivíduo, que no decorrer de sua vida atuou de tal forma que tende á gostar de ler, o gostar é uma construção da sociedade no in-divíduo, o gostar é um construto social, portanto, um ADE. E estou condicionado ao gostar que a sociedade construiu em mim(ou ao gostar que contruí em mim com a sociedade) e se estou condicionado, estou sendo influênciado e tendenciado à uma condição, uma muleta limitadora de querer e limitadora da ação, eis o ADE!

Portanto nas ações, quaisquer que sejam, não há um livre agir, um livre querer, mas sim um querer que é condicio-nado à algo que é externo ao indivíduo, um querer construído e manipulado, um querer com uma raíz para além do indiví-duo, um Além-do-eu.

IV.

Nós somos condicionados ao ADE, jogados no fluxo do Devir, onde nenhum dos nossos quereres são um querer em sí, mas um querer que nos é externo, portanto, nossas ações não estão a nosso critério, nossas ações não estão relaciona-das e subordinarelaciona-das a nós, mas ao nosso Externo e nós somos somente a ferramenta de objetificação das ações daquilo o que nos é Externo.

Com isso, soa-se um eco de determinismo no concei-to de ADE, onde se nossas ações não estão a rigor em nossas mãos, mas naquilo o que nos é Externo então, veja só, tudo já foi pré-determinado! Digo, se o homem não tem controle sobre o que pode ou não fazer algo o tem! E esse algo é Deus!

Claro que não, peguemos a Navalha de Occam e corte-mos fora esse conceito, essa postulação infame. O homem na necessidade de controlar suas ações e tudo o que está ao seu redor, na plenitude de seu ego resume o fluxo do agir; o Devir resume-se ou ao homem ou a seu Deus, ou quem sabe, armi-nianamente falando, ao homem e a seu Deus.

Não existe determinismo absoluto assim como não existe um livre-arbítrio absoluto. Pensemos no Devir como uma folha em branco, a nossa folha em branco. A vida e a con-tingência de suas ações, isso é, a totalidade de suas ações esta-riam, em nossa folha em branco, pré-pensadas? Isso é, todo o roteiro da vida do indivíduo foi pré-concebido? O autor da fo-lha em branco tem toda a história em sua cabeça? Ou então...

o Autor simplesmente está lançando palavras à sua livre von-tade e assim escrevendo a história em sua folha em branco?

Não, a vida não acontece mediante Vontades pré-con-cebidas e tão pouco mediante Vontades em sí mesmas, isso é, o Devir não ocorre mediante ações pré-determinadas e tão

pouco mediante ações indeterminadas, o Devir da vida está em determinação.

O Devir está a todo o momento se determinando, isso é, ações acontecem mediante uma série de fatores determinantes, pré-vios à ela, sendo assim a ação um fator também determinan-te de uma ação posdeterminan-terior. Não é como se o futuro já existisse e esperasse ansiosamente para acontecer, como se na linha imaginário do Devir cronotópico estivesse esboçada, esperan-do somente que a concreção esperan-dos fatos chegasse a um determi-nado e específico momento. Não, os momentos não existem até que aconteçam. Portanto, o futuro não existe, ao menos, o futuro não existe até que cheguemos nele. Tudo o que há é um presente concreto, um passado virtual e um futuro ima-ginário. As ações no presente concrecionam-se mediante os ADEs do indivíduo, e os construtos da sociedade nele e dele na sociedade, sendo que a sociedade é prévia ao indivíduo e não momentânea com ele, assim, toda ação ocorre mediante algo que lhe antecede, sendo uma ação no agora a procedência de uma ação anterior e prévia. Temos que o presente é o futuro virtual de um passado virtual.

Portanto o acontecer de todas as coisas no Devir cro-notópico está subordinado às suas anteceções, visto que nada acontece sem que haja a antecedência da ação, e essa ante-cedência é determinada pelos construtos sociais(a sociedade e sua cultura, ética-moral, os ADEs intrínsecos todo o fator influenciador e transformador do indivíduo).

Digo enfim que essa parte do texto resume-se na máxi-ma “O Devir está em determinação”, pois, o livre-arbítrio e o determinismo são duas cosmovisões as quais rejeito filosofi-camente.

Na vida do indivíduo à agentes externos a ele que o influenciam e o transformam, os construtos sociais, isso é, a dialética ou o dualismo, ou como eu gosto de chamar a Dinâ-mica Indivíduo-Sociedade pois, a sociedade é por sí um agen-te transformador do indivíduo, que direta ou indiretamenagen-te o transforma, mas o indivíduo por ser em sociedade transforma também a sociedade da qual faz parte. Ou seja, a sociedade constrói o indivíduo e o indivíduo constrói a sociedade.

Pode-se observar que na rejeição do livre-arbítrio há o determinismo, e na rejeição do determinismo há o livre arbí-trio. E na rejeição de ambos,como foi o caso defendido aqui há a indeterminação ou o in-determinismo(do Latim “in deter-minandum” ou “em determinação”).

No documento A Aurora do Pensamento (páginas 38-46)