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A N T O L O G I A D E E N S A I O S F I L O S Ó F I C O S

A Aurora do Pensamento

máximas e considerações que constituem

prolegômenos a uma filosofia posterior.

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A Aurora do Pensamento

Conhecer para que?...6

Crítica à Literatura Contemporânea...12

A Amputação da Patologia Social...18

Tudo o Que é Belo é Abominável...21

Aos Compradores de Imagens...24

Da Consciência Coletiva...28

O Indivíduo...33

O Indivíduo, a Sociedade e o Devir...37

Dos Tipos de Satisfação...46

O Belo e O Satisfatório...56

Considerações Sobre a Moral...61

Considerações Sobre a Estética...70

Considerações Sobre a Beleza...76

Da Tirania da Beleza...82

Considerações Sobre a Arte...93

Novas Considerações Sobre a Arte...100

Considerações Sobre a Ecologia...122

Uma Crítica à Escola...132

Sobre O Estado e A Educação...139

O Nada Existe?...149

Qual o Sentido da Vida?...154

Pensando as Operações por Zero...164

Uma Introdução Posterior...171

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“Também é preciso ferrugem: não basta ser afiado!

Senão sempre dirão: ‘É jovem demasiado!’ ”.

Friedrich Nietzsche.

“Seu ‘conhecer’ é criar, seu criar é legislar, sua vontade de ver- dade é – vontade de poder. Existem hoje tais filósofos? Já existiram tais filósofos? Não têm que existir tais filósofos? …”

Friedrich Nietzsche.

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Conhecer pra quê?

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Conhecer pra quê?

ou “das Ciências Humanas”.

“Pra quê isso?” — Certa vez me perguntaram enquanto I.

eu lia “Filosofia da Miséria” de Proudhon, livro que anterior à pergunta eu tinha dito ser um ensaio sobre economia do sé- culo XIX. E a criatura continuou “Pra quê ler isso? Não vai te servir de nada, eu prefiro John Green, você conhece?” — E eu bufei de raiva.

“Pra quê ler isso?” quantas vezes já não ouvi essa per- gunta! Eles perguntam como se perguntassem “Por que você quer saber dessas coisas?” e esse pensamento que transmitem dá corda para um outro que diz que “Tudo isso o que você lê não vai te servir de nada”. As pessoas não vêem sentido em ler filosofia, economia, psicologia, clássicos ou poesia, nin- guém da sincero valor a isso, uns poucos eu diria. Hoje dá-se importância a todo conhecimento que tem seu valor na sua imediatez, nos estudos da escola por exemplo, dá-se valor aos cálculos. E um adolescente que resolve meia dúzia de cálculos difíceis na visão da nossa sociedade será sempre mais inteli- gente do que aquele que sabe fazer pintura ou que declama poesias muito bem. Dá-se valor à física, à química, por quê?

Porque isso é o que gera emprego, isso é o que produz capital

e na consciência coletiva de nossa sociedade deve-se viver em

função dos impostos que se paga ao estado. Trabalhar e nada

mais! Muito Hegel e pouco Marx. E eles continuam: “Mesmo

com tantas exceções, a matemática é uma ciência indispen-

sável à vida!” é o que dizem. E quantas vezes eu já não escu-

tei que “A filosofia é inútil”? Ah! A filosofia é inútil! Todos os

grandes matemáticas foram também grandes filósofos e hou-

ve certa época da história em que não havia distinção entre o

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que era a matemática e o que era a filosofia, na verdade a ma- temática nasceu da filosofia, afinal, não foi Pitágoras também um filósofo? A filosofia é a mãe da ciência, a alma mater de tudo o que se pensa, foi pensado e será pensado e toda a ideia que se cultiva em nossa consciência coletiva um dia foi a ideia de um filósofo. Nossa sociedade não sabe disso, nem se pre- ocupa em saber, nada perguntam e nem querem perguntar, e todo o questionamento dessa sociedade visceral é, como diria Skylab, “Qual foi o lucro obtido?” — Essa é a filosofia da nossa sociedade, o capital! E tudo o que não pode produzir capital imediatamente não serve de nada. E por eu criticar nossa so- ciedade capitalista me chamam de comunista, logo eu que não consigo guardar 10 reais por mais de uma semana! Amo muito do que o capital produz, mas detesto com todas as forças essa sociedade que vive em função de produzir capital.

“Produzir capital! E que o conhecimento vá para o in- ferno”. É assim que pensam, é assim que foram ensinados para pensar, esse é o pensamento vigente em nossa genética social, é o que herdaram e o que ensinarão para seus filhos, não com essas palavras é claro, mas “produzir” é o que dizem uns pros outros. Não se pergunta “Qual o seu maior sonho”

quando se encontra um colega transeunte, mas sim “Como vão os estudos?” e quando parentes distantes vêm nos visitar não é o “Sua saúde mental anda bem?” que eles perguntam, mas sim “já arranjou um emprego?” e perguntas assim, per- ceba, são inevitáveis numa conversação onde não se têm inti- midade com alguém, e essas conversas entregam a patologia social que é viver nessa sociedade de formigueiro.

No entanto, ainda que me esforce para tal, não são um II.

pensador ou um filósofo, não estou além ou aquém do que

pensa a consciência coletiva, pelo contrário, sou a mais pro-

funda vítima de tudo aquilo o que escutei durante a minha

vida e de tudo aquilo o que me ensinaram, e entre esses meus

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frequentes devaneios certa vez me perguntei: “Pra quê isso?”.

Ora, ora! Não seria muito mais fácil e muito mais palatável deixar tudo isso de lado? — Por que eu me perco tanto em pen- samentos pessimistas e em divagações infames que me levam sempre à dor de cabeça? — Por que dedico qualquer segundo do meu tempo às ciências humanas? À poesia, ao desenho, à filosofia e à psicologia? Que tudo isso vá pro inferno! Que eu me livre dAs Dores do Mundo as quais todas essas leituras vêm cultivando em mim! Afinal, a mediocridade sempre foi uma opção! — Por que faço questão de me perder em tudo isso, pra quê isso?! E logo após essa epifania acéfala eu dei a mim a resposta para as minhas próprias perguntas:

Todo leitor é um louco. Todo leitor é um esperançoso

otimista, um louco a princípio de todas as coisas, um louco! E

a leitura dos bons leitores é das mais inspiradoras. Todo poeta

é um louco. Todo poeta é um esperançoso otimista, um louco

a princípio de todas as coisas, um louco! E a poesia dos bons

poetas é das mais inspiradoras. Todo filósofo é um louco. Todo

psicólogo é um louco, todo músico e todo artista, todo ator e

todo cronista, todo artesão e todo psicanalista: São todos uns

loucos! E por que são assim, tão fora de si? Porque carregam,

no fundo de seu coração uma esperança dantesca. Os que

lêem, lêem porque o mundo não basta. Lêem para fugir de

toda guerra e toda fome, toda dor e toda mágoa, lêem por que

a vida não basta, e não é assim também com quem produz(di-

go no sentido humano)? O filósofo pensa para fugir da mazela

humana, ou para resolvê-la, e em sua filosofia expressa a infi-

nita esperança de que toda essa situação um dia escape, assim

como faz o poeta e o psicólogo, assim como fazem os artistas

e os artesãos. O poeta escreve, o psicólogo cura, o artista pinta

e o artesão cria, e porque insistem em fazer o que fazem? Por

que carregam em seus corações a infinita loucura de querer

que suas atividades lhes protejam do mundo, ou ainda, que

mude ele! E esses tipos são os mais inspiradores. Eles inspi-

ram porque são ousadamente loucos para terem a esperança

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de que o que fazem mude o mundo, ou mude qualquer coisa, são eles os agentes da mudança! O artista inspira o garoto a desenhar, que começa, e se torna um artista que inspira tantos outros, e um dia, quem sabe, a arte mude o mundo! O filó- sofo ou o professor ensinam seus alunos a pensar, e esses se tornam mestres, e ensinam para tantos outros a loucura de querer mudar o mundo. E é assim, palavra por palavra que se muda qualquer coisa, é assim que se dá a mudança, não existe revolução súbita, nada acontece de um dia para o outro, toda grande revolução se antecedeu de pequenas mudanças, pequeninas, que acabaram por mudar tudo. Ora, antes de re- volucionar a física, Newton teve que ler o seu primeiro livro, e página por página ele tecia o ornamento do seu devir.

E é por isso que eu insisto em fazer o que faço, é por isso que me dou às ciências da alma, à filosofia, ao desenho, à poesia e à psicologia, porque carrego em meu seio a espe- rança de mudar o mundo! E senão, de mudar qualquer coi- sa, de mudar minha mágoa, minha tristeza, ou a mágoa e a tristeza de alguém, eu quero um phanta rei absoluto! Tenho a louca esperança de que um dia tudo vai ficar bem! E eu sei que os agentes da esperança não são os ignóbeis, os estáticos, os felizes e contentes, mas sim os que pensam, os que fluem, os inquietos, esses foram os que mudaram o mundo! Tenho a esperança de mudar as pessoas ao meu redor, e sei que muitas vezes já o fiz, tenho a esperança de mudar a mim, de me co- nhecer tão intimamente que poderei me considerar meu me- lhor amigo e meu próprio mentor, eu tenho essa esperança!

Eu sei. Isso é ousado, é absurdo, mas eu não ligo. Eu quero

mudar a condição da minha alma, quero elevar o meu espíri-

to, e se não for algo muito presunçoso, quero elevar o espírito

de tantos outros! É pra isso que servem as minhas leituras, as

minha produções e isso é tudo o que eu quero, a ataraxia, a

beatitude, a consonância da alma, isso é o que importa!

(11)

III.

E se não for fazer o que faço, e se não for ler o que leio, produzir o que produzo, o que fazer da vida então?

Pra quê isso? Pra que serve a filosofia? Ora! Pra que serve qualquer coisa então?

A física e a matemática já levaram o homem à lua, e eu, IV.

um louco, tenho a esperança de que a arte e a filosofia levem o homem a si mesmo! 1

1. A ideia do ensaio veio quando lia “Três Irmãs” de Tchekhov, e num dos

diálogos do livro tive a resposta para algo que me inquietava: “Por que

leio?”, “Por que ouso querer saber?”. Inspirado pelos diálogo de Vachinin

com as três irmãs, e ainda, inspirado em tantas outras coisas que não

cabem na alma, às 4 da manhã fui escrever este ensaio, com a ironia na

cabeça: “Encontrei lendo, a resposta para porquê insisto em ler”. E no

fundo, é por isso que leio e é por isso que tantos lêem, procuramos nos

livros as respostas que não conseguimos dar a nós mesmos.

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Crítica à Literatura

Contemporânea

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Crítica à Literatura Contemporâea:

A imbecilização da Literatura.

“A condição deplorável da literatura atual(...) tem sua raiz no fato de os livros serem escritos para se ganhar di- nheiro. Qualquer um que precisa de dinheiro senta-se à escri- vaninha e escreve um livro, e o público é tolo o bastante para comprá-lo. A consequência secundária disso é a deterioração da língua

1

”.

(Arthur Schopenhauer) Se no século XIX, época em que foi escrito o livro, Scho- penhauer já via o teor cancerígeno que tomava a literatura, imagine como ele se sentiria se vivesse nos tempos de hoje. Na época, grandes romances foram publicados: Crime e Castigo(- Dostoiévski), Madame Bovary(Gustave Flaubert), Guerra e Paz(Liev Tolstói), Frankenstein(Mary Shelley), Drácula(Bram Stoker) são somente alguns dos clássicos que me vêm à cabe- ça quando eu penso neste período da história. Mas é claro, os bons livros não são a regra, e sim a exceção. E se em meio a tantos gigantes da literatura existiam ainda os autoreszinhos, imagine hoje! Onde os indivíduos considerados como “gran- des escritores” e “escritores de sucesso” escrevem livroszinhos sem nenhum teor verdadeiramente literário, com uma escrita ridícula, temática saturada e desintelectualizada! E o pior, o que é realmente preocupante é que existem aqueles que com- pram dessa literatura idiota! idiotas comprando livros de idio- tas... parando para pensar não é tamanha surpresa.

Como foi dito no trecho, os livros são escritos para se

ganhar dinheiro, e isso é inegável! Os autores contemporâne-

os não escrevem pela literatura em si, e tampouco pela arte

de escrever, escrevem para vender! E daí utilizam os mais va-

1. Em “A Arte de Escrever

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riados recursos para angariar a maior quantidade de imbecis possível: A temática comum; que é explorada até a última gota de criatividade, e daí vêm os livros de bruxos, vampiros, lo- bisomens, jovens problemáticos, deuses e semi-deuses e seus afins; personagens rasos, e sempre jovens para atingir o públi- co alvo e vender mais, não existe mais uma psicologia ou uma complexidade por detrás dos conflitos dos protagonistas, na verdade, parando para pensar, os protagonistas são os mes- mos em todos os livros! O típico padrão de jovem que precisa resolver um conflito - e resolve - onde está a criatividade nis- so? E claro, sem falar da linguagem que chega a ser vergonho- sa perto do que já foi um dia. O que os autores norte-america- nos e ingleses fizeram com o legado deixado por Hemingway, Thoreau, Byron e Shakespeare? Nada!

E é nessa miscelânea néscia que nasce a literatura po- pular, a literatura destinada às vendas, ao grande público, à massa! Pode perceber que os livros nas vitrines das livrarias seguem um mesmo padrão e sempre são de um teor imbe- cil(para aqueles que têm o mínimo de criticidade literária), livros de auto-ajuda que tentam misturar psicologia com reli- gião e acabam mesmo é fazendo uma releitura(ou cópia, pro- priamente dita) das teorias psicológicas de Gardner, livros de filosofia de gurus que nunca contribuíram verdadeiramente para a filosofia como tal e os romances infanto-juvenis dos quais a pouco falei. Uma literatura idiota para um público contundentemente idiota(percebam que essa palavra vai se repetir muito no decorrer desse ensaio).

O principal público alvo dos escritorezinhos são os jo-

vens, ou os leitorezinhos estes últimos, tão burros quanto os

primeiros. Claro, pois, escrever uma imbecilidade tem em si

algo de útil(o dinheiro), mas comprar uma imbecilidade é ato

que somente os verdadeiros imbecis fazem, e pior, ainda gos-

tam da imbecilidade!

(15)

Tudo o que conhecem se resume em seus romancezinhos de vitrine de livraria, perceba, muitos conhecem o vampiro de Crepúsculo, os idiotas gostam do personagem, poucos conhe- cem O Vampiro de John Polidori, e pouquíssimos são os que sabem apreciar tal personagem. A literatura popular toma conta dos jovens, e é em parte por isso que a grande maioria destes tem a mente tão rasa. Ponha um jovem para ler 1000 livros de literatura popular(isso inclui toda a produção desin- telectualizada moderna: os romances, poemas, livros de filo- sofia, finanças e auto-ajuda) talvez ele se divirta e sinta prazer em tal, mas 1000 livros depois vai continuar com a mente rasa e infecunda — típica do jovem moderno — . Agora ponha um jovem para ler 1000 livros de literatura clássica(dos grandes autores e filósofos como tal) e ele se tornará um erudito(claro, se tiver suficiente ócio para entender o que leu).

E há uma deficiência ainda maior na poesia! Se são

poucos os bons romancistas da atualidade, são raros - rarís-

simos - os bons poetas que atingem algum sucesso. Os poe-

tinhas contemporâneos não escrevem nada mais que uma

desconstrução tediosa(ai de Mallarmé se visse uma produção

dessas), e quando não, escrevem os poemas curtos sobre amor

que apesar de ser um tema atemporal é transmitido através

de uma estética e linguagem tão saturada que somente os in-

gênuos conseguem apreciar. Há ainda aqueles que declamam

sua poesia, e encantam os ouvidos de muitos leitorezinhos,

esses últimos que nunca tiveram o prazer de ter o contato

com uma poesia de verdade e, conhecendo somente a poesia

popular, se encantam com quaisquer arranjozinhos e versozi-

nhos que falam alguma coisa que lembre a eles uma decepção

amorosa ou um traço de suas personalidades. A temática da

poesia moderna é sempre a mesma, as linhas e entrelinhas do

que se lê pouco ou nada têm a dizer de modo que o que im-

porta na poesia é como soa o “verso-chave”. Se no poema, ou

texto, houver uma frase bonita que soe bem, o leitorzinho vai

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se encantar, logo depois vai tirar uma foto, postar nas redes sociais com uma legenda quase sempre próxima de algo como

“tão eu!”. A poesia contemporânea não passa de masturbação verbal: belas palavras(para os ouvidos dos ingênuos) ditas de uma maneira que soe bem, e está feita a poesia! Sem nenhum teor verdadeiramente literário, sem nenhuma ambição estéti- ca ou domínio da língua. De modo que, quem prefere um dos livros de poesia da vitrine de uma livraria à um clássico lite- rário-poético como um “Eu”, “Lira dos Vinte Anos”, “Hours of Idleness”, “Faust” ou “Les Fleurs du Mal” é alguém no mínimo desintelectualizado e desinformado(para não dizer estúpido).

A verdade é que não se escreve mais para a literatura e não se lê mais para a literatura, felizmente ainda existem alguns Bukowskis, Chico Buarques e Adonis que conseguem transmitir um pouco da boa literatura ao grande público. Mas a tendência é que os bons escritores aos poucos percam visi- bilidade, e isso já acontece, um bom escritor — de verdade — dificilmente é aquele que vai ser aceito por uma editora, pois a editora visa tão somente o lucro, enquanto o bom escritor visa a arte de escrever, e há aí um conflito de interesses, de modo que os bons escritores(ao menos boa parte deles) são margi- nalizados, no sentido de estarem à margem do mercado edi- torial, e muitos dos bons livros que são escritos nunca serão publicados, o que é uma verdadeira tragédia para a literatura.

Os escritores contemporâneos não têm nenhuma am-

bição literária em suas obras, não visam nenhuma inovação e

escrevem sempre mais do mesmo(pois isso vende) e a litera-

tura se encontra estagnada e lenta em seu processo de cresci-

mento, de modo que o mercado editorial só toma novas rédeas

quando um bom escritor(outrora desconhecido) publica um

bom livro e faz os autorezinhos terem um vislumbre do que é

a verdadeira literatura, dando a eles algo sólido para se inspi-

rarem.

(17)

Quer ler um bom livro? Digo, um livro de verdade com

uma literatura de verdade? Compre o livro de alguém que já

morreu, compre o livro de um escritor que poucos conseguem

entender ou senão, procure nos confins das obras rejeitadas

pelo mercado editorial. Aí se encontram os bons livros!

(18)

A Amputação da

Patologia Social

(19)

A Amputação da Patologia Social.

A produção intelectiva é patológica. Não deveria ser, mas está sendo. Se eu fosse apontar um sintoma da imbeci- lização da cultura e da sociedade, atentaria à produção inte- lectiva nas prateleiras das livrarias. Estas, coitadas, deixaram de ser estantes de conhecimento e passaram a ser estantes de farmácia, as livrarias, hoje, são farmácias, e os livros são pa- liativos. E essa metáfora aparentemente louca e equivocada faz todo o sentido quando percebemos a patologia social e o escoamento do conhecimento, a sociedade está doente, inter- mitentemente doente e ela busca seus remédios.

Como dito, o que vemos nas vitrines são paliativos e não remédios. Isso por uns tantos motivos, a começar pelo fato de que aqueles amontoados de folhas de papel — que me recuso a chamar de “livros” — não passam em seu âmago de um conhecimento regurgitado, algum guru querendo dinhei- ro vomitou um pouco de enganação e falsas esperanças em duas centenas de páginas e decidiu vender isso em uma livra- ria, a maioria desses livros que vemos não passa disso: vômito de quem acha que sabe alguma coisa.

O propósito desses livros, perceba, não é ajudar o lei-

tor, é gerar capital para quem o escreveu! Você não acha con-

veniente demais existir um livro com a proposta de resolver

o que é exatamente o seu problema, ou o que é exatamente o

problema de toda uma camada social? É conveniente demais

sim, e por isso foi escrito, percebendo a demanda e necessi-

dade de todo um público social sôfrego alguns autores decidi-

ram vender a “resolução” para esses problemas sob a máscara

de oferecer ajuda, no entanto, ajuda não se vende. Aquilo não

é ajuda, não é resposta, aquelas produções, em sua grande

maioria, são tentativas de ganhar dinheiro.

(20)

E o público sedento, doente, cansado e desesperado corre para as livrarias comprar ajuda, comprar a resposta de seus problemas, e compram! O público cria o monstro que chamamos de best-sellers.

E podemos notar que não estou equivocado quando notamos o produto do conhecimento desses livros: nada. Nunca vi em minha vida uma única pessoa que teve sucesso nas finanças através da leitura dos livros de finanças que prometiam co- nhecimento sobre o assunto. Nunca vi, em minha vida, um leitor de auto-ajuda que não precisasse desesperadamente fa- zer terapia. As pessoas lêem esses livros incansávelmente, por anos e anos, páginas e páginas e nada em suas vidas muda de fato, eles sentem a ilusão de uma mudança, a ilusão de um conhecimento, mas é tudo miragem, é tudo um paliativo para suas dores, embora os livros que compram consigam conven- cê-los de que estão bem, eles não estão. Continuam doentes, e os livros em suas cabeceiras não são seus remédios, são o sintoma de suas doenças intelectivas.

“5 passos para a felicidade, 6 passos para o enrique-

cimento, 7 passos para a espiritualidade, 8 passos para o co-

nhecimento”. São tantos “passos” vendidos por aí — dando a

entender que qualquer tipo de conhecimento possa ser adqui-

rido de maneira simples, o que não se pode — que ao menos

um deveria ajudar de fato. Ah! Queria eu amputar as pernas

desses autores para mostrar o que são de verdade! Assim

quando um pobre coitado fosse em busca de conhecimento

nas prateleiras de sua farmácia bastaria olhar para os pés do

autor e notar: “Ele não tem pés! E... não tendo pés, como pode

me vender seus passos?”.

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Tudo o que é Belo

é Abominável

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Tudo o que é Belo é Abominável

ou “do Niilismo Estético”.

Eu condeno a beleza, isso é evidente, não é a primeira I.

vez que escrevo sobre. Eu abomino tudo o que é belo! “Por que?” — Muitas vezes me perguntam — “A que se deve tão radical pensamento?”. A beleza é um raveña, um abantesma!

Uma histeria social, um Deus perverso eu vos digo! E por quê?

Porque ela é tudo o que importa! E isso é a mais pura verdade!

A beleza está entre os deuses do mundo moderno, juntamente

com a Mídia, o Lazer e o Dinheiro, eis o panteão do metamo-

dernismo, eis tudo o que importa! Se mata por isso, suicida-se

por isso, a beleza é tudo, quando não deveria ser nada! Eu es-

tou louco? Absolutamente não! Você é quem não escuta a mú-

sica que tanto dança! Não vê? Todos por aí esforçando-se para

serem belos uns pros outros, comprando roupas que não pre-

cisam, se submetendo a cirurgias e tratamentos, chorando por

não serem belos o suficiente, querem ser desejados não pelo

que são mas sim pelo que parecem ser! E se apaixonam não

pelo o que a pessoa é, mas pelo o que ela parece ser! A beleza

é uma doença, e dos piores tipos! Nunca se é belo o suficiente,

nunca! Nunca se é aceito o suficiente, nunca se deseja nem se

é desejado o suficiente e aí as pessoas adoecem, adoecem pela

beleza! E se entristecem “eu não sou belo o suficiente, não sou

desejado o suficiente, não sou atrativo o suficiente” que pato-

logia social! Pouco importa a alma, o espírito, o intelecto, o

caráter, tudo o que se deseja é ser belo e consumir da beleza

alheia, são uns loucos, completamente loucos! E loucura tão

maior está nos que falam de aceitação. Ah! Esses não perce-

bem! Não basta aceitar aquilo o que está fora dos padrões, o

que não agrada à consciência coletiva, é preciso abolir os pa-

drões, e não simplesmente “aceitá-los”, é preciso abolir a bele-

(23)

za! O niilismo estético é a verdadeira cura para essa sociedade repleta de espelhos que refletem imagens tristes de pessoas que não se acham o suficientes!

II.

A beleza é um Deus, como eu disse, e dos mais perver- sos! E como em toda religião, há entre os adoradores da beleza os fundamentalistas que não aceitam nada do que não é belo!

Pelo contrário abominam o que não agrada a seus padrões!

Eles vêem as coisas que são diferentes daquilo o que gostam e cospem, ou desejam a morte! E é daí que surgem os higie- nistas sociais, esses tritões psicopatas que vêem tudo o que não lhes é belo como uma poluição visual, e desejam a todo custo se livrar daquilo! Vêem um mendigo na rua, e desviam o olhar, ignoram, vêem com mau olhar, muitas vezes, matam ou queimam! Eles pensam “Que horror! Que inutilidade! Que in- conveniente! Essa criatura, que não agrada aos meus padrões é das mais horríveis, do tipo que não merece meu amor ou minha caridade, eu as desprezo e gostaria que morressem!” É assim que pensam em seu inconsciente, e é assim que traba- lham, subjugando pobres e deficientes, rindo de quem não é igual!

III.

É na ausência da Beleza em que tudo se torna belo!

(24)

Aos Compradores de

Imagem

(25)

Aos Compradores de Imagem.

Existem imagens. Sim. Estão lá e cá para que todos ve- I.

jam. Cada um tem a sua imagem, cada um passa e vende sua imagem, imagens únicas, diferentes e próprias. Todos somos

— uns pros outros — reflexos de nós mesmos e apenas, uma fenomenologia de um Eu que nunca será a completude do eu mesmo. A imagem que nós mostramos uns pros outros não é e não pode ser nada mais do que uma simples imagem, uma visão estática e grosseira da infinita complexidade que é um ser humano, que é uma pessoa. Uma imagem mostra muitas coisas, e isso é fato. A imagem que eu tenho de você me mos- tra seu cabelo, seus olhos, suas roupas, suas mãos, sua voz, seu jeito de andar... Mas, sinceramente, de quê isso importa?

Como eu disse, a imagem é um reflexo, uma sombra grosseira,

um vulto avulso, que me importa o seu cabelo, a sua boca ou

os seus olhos? Nada! Isso em nada muda minha vida! Sabe o

que realmente me importa, e o que realmente deveria impor-

tar? Tudo o que não é imagem. Tudo o que a imagem não pode

mostrar é o que realmente é importante. — Sim, você tem be-

los olhos, mas por favor, me fale o que você achar ser a coisa

mais bonita no mundo, ou talvez você se vista estranho, mas

por favor, me conte qual o seu maior medo, ou ainda, você

pode ter o cabelo pintado de muitas cores, mas me diga, qual

é a sua filosofia de vida? — . A imagem mostra muito como eu

disse, mostra muita coisa, mas ainda assim, mostra tão pouco,

tão pouco! Uma pessoa não se resume em sua imagem, uma

pessoa é mil outras coisas, mil outras formas! Uma pessoa tem

por trás de sua imagem um milhão de sentimentos, sonhos,

desafios e tristezas! Sim, imagens podem ser belas e tentado-

ras, podem ainda ser intimidadoras e controversivas, mas do

(26)

que diabos me importa esse maldito estereótipo? O que me importa é o espírito, a alma! A imagem não é nada perto des- sas coisas e a imagem nada deveria importar perto dessas coi- sas!

Mas, por um infinito infortúnio, por mal costume ou II.

simplesmente por fraqueza de espírito existem ainda os com- pradores de imagem, ah! Esses tipinhos... Para essas pessoas de sentimento grosseiro e ignóbil tudo o que importa é a ima- gem, tudo o que importa é o que se vê e o que se aparenta! “

— De que me importam os seus sonhos? Quero mesmo é saber por que você não está bem vestido. Idaí que você é uma pessoa cândida que faz tudo por quem ama? Eu quero mesmo é que você tire essa tinta do cabelo. Não quero saber se você é feliz ou não, quero mesmo é saber por que você tem uma imagem tão diferente da minha! — “ Ah! Esses tipinhos tão trágicos! É triste ver pessoas um um espírito tão raso, quase inexistente!

É uma fatalidade uma mente assim, que se cultiva na patolo- gia dos nossos fatos sociais, um costume que vem de uns pou- cos anciões retrógrados e que se prolifera com uma doença na consciência coletiva de uns muitos. Ah que tristeza!

Essas pessoas estão rodeadas de sentimentos superfi- ciais, claro! Pois vêem imagens e não pessoas! Se relacionam com imagens, são amigos de imagens, amam imagens e fazem todo um lamento ribombante quando seus amigos ou namo- rados lhes traem ou mostram ser o que não parecia ser, quan- ta futilidade! Como esperar qualquer profundidade de sen- timento numa pessoa cuja qual você só comprou a imagem?

Você só quer a imagem, ser dúbio! Se se decepcionou com a alma deveria então ter procurado alma, oras! Chega a ser re- voltante...

E o que falar daqueles viciados no belo? Ah! A imagem

do belo! Tudo o que importa é a beleza! “Sê belo então sê tudo”,

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os compradores da beleza são uns doentes, loucos ensande- cidos que, mais que comprar a imagem do belo, se vendem por isso! Se humilham por algumas migalhas de beleza, uns olhos bonitos, um queixo quadrado, para essas pessoas isso é tudo! Tudo! Não surpreendente são essas as pessoas que mais se frustram com as almas uns dos outros, ah! Esses malditos compradores de imagens!

III.

Não compre imagens. Não compre nada! Cultive almas, sentimentos, prazeres! Cultive o que há de rico em sí mesmo e em outrem, procure o espírito, o âmago alheio, e se surpreen- da com a profundidade que você pode encontrar nos outros.

Não compre imagens, cultive almas! E seja um pouco mais fe-

liz com o mundo e consigo mesmo.

(28)

Da Consciência Coletiva

(29)

Da Consciência Coletiva.

Você já parou para pensar “por que as coisas são como I.

são?”; Isso é, “por que as coisas funcionam como funcionam?”,

“Por que você é como é?”. Isso parece um tanto quanto pro- lixo, mas eu lhe convido ao pensamento: Qual a espetacular série de fatores levou você a ser como você é neste exato mo- mento? Que tipo de influências decaíram sobre você para você ser como é? E ainda pergunto: por que você faz o que faz? E por que pensa o que pensa? Você faz o que faz porque assim deseja ou porque é coagido? E o que deseja é um desejo real- mente próprio ou lhe é externo?

Sim, são perguntas demasiadas e confusas para serem respondidas fácil e mecanicamente talvez requeiram um certo esforço do meu caro leitor, mas lhe adianto: a verdade é que muitas vezes(se não, todas), não sabemos a que se deve o nos- so pensamento ou o porquê de fazermos certas ações. E, em poucas palavras, é sobre isso que o ensaio pretende transcor- rer: a autonomia do indivíduo perante a sociedade. Afinal, até que ponto a sociedade influencia o indivíduo?

No fluir de suas histórias as sociedades criam e culti- vam uma cultura que tende a mudar e a se adaptar ao tempo.

Essa identidade por sua vez pode ser percebida em diversas

camadas da vida do indivíduo, em seu trabalho, na sua cren-

ça, em sua etiqueta, sua ética, sua moral, em suma a identi-

dade do indivíduo não foi ele mesmo que criou isso porque

sua realidade o antecede, seu ser-aí foi jogado na cultura de

uma sociedade e nessa desenvolveu-se, não pode ser concebi-

do Indivíduo para além de uma Sociedade pois o Indivíduo é

(30)

a invenção da mesma. E os indivíduos, por biologia, tendem a se agrupar em sociedades. Isso deixa evidente uma simples questão que muitas deixam passar despercebido: A personali- dade não é em si, não é autônoma e livre, ela depende de seu meio, de sua cultura e de sua sociedade. Uns dizem “eu sou o que sou porque assim quero ser” e “eu faço o que faço porque assim quero fazer” mas não percebem as cordas da socieda- de em suas ações, fazem o que fazem porque bem querem ou passaram décadas de suas vidas sendo instruídos a quererem isso? Querem o que querem através de uma consciência to- talmente plena e autônoma, ou nesse querer sempre houve a mão fantasma da sociedade sobre o desejo? E essas questões parecem ainda mais evidentes quando paramos para observar o quotidiano do indivíduo, ao meu ver, é aí onde a sociedade e a cultura mais expressa sua influência sobre a pessoa, pois é aí onde podemos ver a cultura enrijecida no inconsciente do indivíduo, através de suas atividades mecânicas, seu acordar, sua higiene, seu ir trabalhar, seu conversar, seu pensar, no quotidiano parece que o indivíduo não apresenta consciência de si mesmo e consciência de seu ser-no-mundo, ele está ali fazendo as atividades que têm que fazer, e não lhe é neces- sariamente um querer próprio, mas aqueles afazeres diários estão tão inerentes em sua mente que ele faz o que a sociedade lhe instrui a fazer de modo quase robótico, sem pensar muito, sem tanta consciência ele apenas vai e faz. Às vezes a socieda- de se faz presente no indivíduo até nessas pequenas ações do dia-a-dia, assustador não?

De mesmo modo acontece com as crenças, e não falo

somente de religião aqui, falo de qualquer coisa na qual se

acredita. A sociedade está nessa estilha de nós. O nosso código

moral não é “nosso” ele nos antecede, nossa visão de mundo

não é “nossa” construíram isso em nós, o nosso “Deus” nem

sempre é necessariamente “nosso”, isso pois muitas vezes fo-

mos incunbidos a acreditar nisso de tal modo que uns tantos

não têm consciência de que podem questionar a isso, nossa

(31)

língua não é nossa, nosso jeito de sentar-se a mesa, quantos li- vros lemos por ano, nada disso é necessariamente nosso, mui- tas vezes essas questões antecedem a nossa existência, então nascemos e constroem em nós a consciência da sociedade. O

“Além-do-Eu” como eu costumava chamar, esse nome que se dá à abstração da consciência da sociedade que exerce uma in- fluência “diretamente indireta” sobre nós e sobre nossa indivi- dualidade. “Além-do-Eu” tudo o que está inconscientemente em mim e cujo qual a escolha está para além da individualida- de do meu querer, isso pois, é indubitável o fato de que nem toda o pensamento, a escolha ou o desejo é uma construção do indivíduo, e sim, muitas vezes, uma sugestão da realidade que o antecede.

Não estou dizendo que o homem é uma criatura cuja qual toda e qualquer escolha não lhe é própria. Não. O que estou dizendo é que o actio humano, o agir humano, é profun- dissimamente influenciado pela sociedade em que se insere.

E note: estar sob influência não é estar sendo coagido, é estar sob sugestão. A sociedade não necessariamente coage as es- colhas do Indivíduo(embora uns tantos sintam-se assim), ela age como um sussurro distante, aquela voz que está lá mesmo quando não escutada. Só para super-homens existe a livre-es- colha independente do que lhe é Além, do que lhe é externo, todo Indivíduo se constrói numa sociedade, seja de homens ou de lobos, antropologicamente falando, Ser é “Ser-em-So- ciedade” pois é aí que se significa o que é o indivíduo, e difi- cilmente uma ação desse Ser-em-Sociedade estará livre das influências da sociedade.

Outro nome que aparece em certos ensaios é “Consciên- II.

cia Coletiva”, e explicar esse nome não poderia ser mais óbvio

do que dizer que é a consciência de um conjunto de pessoas,

mas extrapolando os limites do óbvio eu posso dizer: tem-se

por Consicência Coletiva, as crenças do coletivo que, apesar

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de se manifestar na maioria da população de uma sociedade não se aplica a todos. Consciência Coletiva trata-se também da ja dita abstração das crenças da sociedade que recaem como influência sobre o indivíduo. Consciência Coletiva ou

“ADE”(chame como preferir) pode-se entender também como o “Outro”(comparável ao “Grande Outro” em Lacan). Um ou- tro invisível o qual estamos sempre pedindo a opinião e sem- pre preocupados em agradar, quando quero fazer certa coisa e logo eu me pergunto “O que os outros vão achar disso?”, “Qual vai ser a reação da minha mãe, do meu amigo ou da minha namorada?”, esse “Outro” ou esse “outros” é a Consciência Coletiva no consciente de nossa mente, e, perceba, só fazemos a nós mesmos essa pergunta supracitada quando queremos, pensamos ou fazemos algo que extrapola a Consciência Coleti- va, isso é, que extrapola o que a sociedade, em geral, aceita por certo e errado, aceita por belo ou feio, enfim, extrapola o que a sociedade aceita. É pela reles existência desse pensamento que se percebe que não existe escolha plena e totalmente livre e que a escolha parece estar sempre sujeita ao Outro, mes- mo contra-cultural, qualquer ação é pensada no Outro. Isso é algo que muitas vezes não se percebe, mas sempre está lá, esse

“Outro”, essa Consciência Coletiva que tanto exige e tanto faz punirmos a nós mesmos, esse Além-do-Eu, abstrato, invisível, impalpável e incontrolável.

Talvez não perceba ou se dê conta, mas você está sem-

pre atendendo aos caprichos dO Outro, e boa parte das esco-

lhas de sua vida não são plenamente suas, visto que você foi

instruído e criado para tal, o Homem é um construto social,

e da sociedade nunca se livra, tanto que, dificilmente ele está

consciente de si enquanto indivíduo, enquanto Ser-aí ou Ser-

-em-mim ou Ser-em-sí, em boa parte da sua vida será um Ser-

-em-Sociedade, um homem-formigueiro, que não vive para si,

e sim para O Outro!

(33)

O Indivíduo

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O Indivíduo.

Eu diria que é impossível falar de indivíduo sem falar I.

de sociedade. Pois vem da sociedade mesma a concepção de indivíduo, e essa dialética indivíduo-sociedade sempre decai na mesma pergunta: “É o Indivíduo que cria a sociedade, ou é a Sociedade que cria o indivíduo?”

Pode-se conceber “sociedade” em dois aspectos distin- tos, a princípio temos a concepção “espacial” de sociedade, isso é: sociedade tratando-se de um agrupamento de indivíduos que atuam em harmonia e em colaboração mútua. Enquanto ser-vivo e animal, o ser-humano tem também a pulsão univer- sal da autoconservação, isso é, a pulsão de querer conservar a própria vida, e para isso, tende a se unir com outros de sua espécie em função da sobrevivência, criando assim colônias que se agrupam e vêm a ser o que chamamos de “sociedade”.

Sociedades de indivíduos tendem a se localizar espacialmen-

te, determinado grupo se encontra em determinado território,

lá habita e constrói-se a sociedade deste grupo. No entanto,

o ser-humano tem um diferencial em relação aos demais se-

res-vivos, dizem que o que diferencia o homem do animal é

a alma, o amor, o sentimento ou a razão. E tudo isso é um

equívoco dantesco. Como podemos notar em Roque Laraia,

e também em Yuval Noah Harari, é o advento da cultura que

diferencia os seres-humanos dos demais animais! Sem cultura

não haveria sequer a própria concepção dos conceitos ditos

anteriormente, alma, amor ou razão, e nesse último não dife-

rimos tanto de outros animais, a verdade é que a acumulação

de experiências e o ato de herdar conhecimento desenvolveu a

razão do homem. E enfim, é a cultura o outro aspecto da socie-

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dade. Num agrupamento social os indivíduos tendem a criar suas próprias crenças, sua própria lógica, sua própria lingua- gem e seus próprios costumes, e o agregado desses construtos sociais é o que chamamos de “Cultura”, que se encontra ar- mazenada na Consciência Coletiva(Ou Inconsciência Coletiva, não me importo muito com o termo).

Isso não responde necessariamente a pergunta “é o in- divíduo que cria a sociedade, ou é a Sociedade que cria o in- divíduo?”, mas dá gancho à resposta. A sociedade, enquanto agrupamento de indivíduos é formada, obviamente, pela união de indivíduos, que, por fatores biológicos tendem a esse agru- pamento como tal. Esses indivíduos, agora unidos, tendem a criar uma cosmovisão que lhes é própria e tende a ser coletiva, têm sua própria lógica, linguagem e posteriormente sua pró- pria cultura. Os indivíduos posteriores à essa sociedade pri- mordial, e que pertencem a mesma, tendem a ser construídos socialmente para serem adaptados à cultura de sua sociedade, herdam a cultura por assim dizer, e herdam a realidade que lhes é extrística. O indivíduo, a priori constrói a sociedade, e o indivíduo, a posteriori, é construído pela mesma. O indivíduo, é, portanto, um construtor e um construto social.

O indivíduo é portanto, necessariamente, um Ser-em- -sociedade. Isso porque, por excelência não se pode pensar em um indivíduo para além de sua natureza social. Pensar em um indivíduo totalmente singular e totalmente distinto dos demais seria um equívoco isso pois, tanto por fatores tan- to biológicos quanto sociológicos, a própria possibilidade de vir-a-ser do indivíduo é determinada pela facticidade de seu

“mundo” ou de sua “sociedade”, como podemos ver em Hei-

degger. Conclui-se aqui que Ser(o ser-humano) é Ser-em-So-

ciedade pois é indissociável da sociedade e nisso encontra-se

uma impossibilidade de pensar a existência para além de um

aspecto social. O self humano vai estar sempre de encontro aO

Outro, ao mundo, à sociedade.

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Sabe-se que o indivíduo tem também, além da pulsão II.

da autoconservação, uma pulsão ao ego, uma pulsão à auto- -expansão como, grosso modo, podemos ver em Nietzsche.

À medida em que o indivíduo é um ser que atua socialmen- te ele também é um ser que atua somente para si. E quando falo de “atuar” falo da ação propriamente dita, do actio hu- mano. Como se pensa e como se age tende a ser pensado e agido em função, muitas vezes de si mesmo e muitas vezes, dO Outro. Portanto, tal qual a sociedade, a consciência do in- divíduo pode atuar de maneiras distintas. Em sociedade há a necessidade de estar e conviver em harmonia com O Outro, nesse quesito há quase sempre um conflito entre os quereres do indivíduo e a Consicência Coletiva, um embate de interes- ses que muitas vezes decai em dilemas morais, a verdade é que, para conviver em harmonia com a sociedade o indivíduo deve privar-se de certos desejos e ter como prioridade atuar da forma que sua sociedade considera a forma positiva de agir e pensar. Hegel chama essa consciência da percepção de que vivemos em sociedade, e essa necessidade de harmonia com a mesma de “Espírito Absoluto”. No entanto aqui chamarei de

“Ser-Social” isso pois, essa tomada de consciência que tende a atender os caprichos do Coletivo é algo evidentemente social, e isso é a base da moral e da ética, a alteridade de ter que calar um pouco do self para atender aO Outro. O ser-humano, é, como já dito, por excelência, um Ser-Social, e essa é a maneira como sua consciência tende a agir em sociedade para a manutenção de si e da mesma: em função do Outro.

Claro, não é tão somente em função do Outro que age o indivíduo, e se assim fosse, onde estaria a sua individualidade?

O que diferiria o Eu dO Outro? Acontece que todo indivíduo é dotado de individualidade, algo na sua consciência que tende a ir em desencontro com a Consciência Coletiva. O actio humano pode tender também para o ego, e essa tomada de consciência voltada para os próprios desejos, para as “paixões” e não para os

“deveres” é aqui chamado de “Ser-Individual”.

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O Indivíduo,

a Sociedade e o Devir

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O Indivíduo, a Sociedade e o Devir.

Sabe-se que: Tudo ocorre mediante uma ação, tudo é I.

actio, tudo é um fluxo perpétuo de acontecimentos e mudan- ças, panta rhei disse Heráclito, e ele estava certo, a Forma do todo permanece inalterada em seu existir, mas sua Matéria está em constante mudança, e cada uma das contingências do todo, do Cosmos muda conforme correm os fluxos e reflu- xos do rio. As coisas mudam e acontecem. Claro, pois se não mudassem e não acontecessem não “aconteceria” o existir do todo, a existência ocorreu mediante uma ação a priori, uma Vontade intrínseca ao tudo, a essência da essência. Uma ação primeira.

Chamem os religiosos e também os ateus de o que qui-

serem, sabe-se que a ação é a essência e o acontecer de todas

as coisas e todo o Ser somente é mediante uma ação, seja dele

como causa ou nele como efeito, e no homem(esse é foco do

meu pensamento aqui) não é diferente, ele atua, tem ações, e

executa suas ações mediante uma Vontade, um desejo, uma

pulsão. E essa pulsão é a pulsão do prazer, o homem é hedo-

nista por excelência, faz e deseja aquilo o que lhe regozija, cla-

ro, pois ninguém quer aquilo o que lhe faz mal. Como mostra

Mário Ferreira dos Santos e também Ouspensky: em seu es-

tado natural, o homem deseja aquilo o que lhe faz bem(lhe dá

prazer) e rejeita aquilo o que lhe faz mal(não lhe dá prazer ou

lhe dá desprazer). Porém o homem não atua individualmente,

não atua em função somente da sua própria existência e de

seu próprio prazer, por natureza, o homem se vê em socieda-

de, pois o homem tende à sociedade. E em sociedade ele está

dividido entre as paixões e os deveres, como aponta Kant. Ele

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está dividido entre o seu prazer individual e a ordem dos pra- zeres do todo de sua sociedade. O homem é o Ser do Prazer, mas o homem também é, e atua na sociedade, ele influencia a sociedade e também é influenciado por ela. Ele constrói a sociedade e também é construído por ela, como nos mostra Hegel. O homem é um construto social e também um cons- trutor social, fruto e semente da sociedade, e essa dinâmica do Ser-em-sociedade só pode ser considerada em sociedade.

O homem só pode ser dito como homem se estiver em socie- dade, pois é a sociedade que constrói o conceito de homem, de Ser e de qualquer outra coisa; as coisas São, porque são em sociedade, e toda ideia veio de um Ser-Social.

O homem só É em sociedade. Portanto: Ser é Ser-em- -sociedade.

II.

Foi através da leitura de Schopenhauer e posterior- mente através das leituras de outros filósofos como Nietszche e Spinoza que eu pude perceber que a plena liberdade, o livre- -arbítrio a priori não existe; nossas escolhas, ações, vontades e Vontades são limitadas à algo que nos é extrínseco; em Cioran temos que as ideias e portanto, as ações são indiferentes em sí, no livre e aleatório agir das ações não há intencionalidade e portanto as ações por sí mesmas não carregam significados intrínsecos, mas significados extrínsecos, relativos à subjeti- vidade do sujeito da ação. Mais tarde a leitura ou o conhecer de outros filósofos reforçou minhas ideias, Heiddeger, Lacan, Freud... desde que comecei essa viagem à filosofia já criei e destruí muitas ideias, mas esta que agora escrevo permanece inalterada em sua essência, apenas desenvolvendo-se confor- me eu desenvolvo a minha cultura filosófica.

Desde cedo eu soube que o homem não atua sob plena

liberdade, mas decerto é que: atua. E se não atua mediante a

sí mesmo, isso é, se não atua mediante a própria liberdade, a

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própria Vontade e às próprias pulsões então atua mediante a algo que lhe é externo. E esse externo não pode ser metafí- sico transcendente pois implicaria na existência de um Ente extremamente pessoal, que brinca de ventriloquismo com suas criaturas. portanto esse “Externo” deveria ser metafísi- co e imanente ou metafísico aparente; e ao pensar sobre o que pode ser esse Externo mediador de ações descobre que ele atua bivariantemente como metafísico imanente e também/

ás vezes como um metafísico aparente.

Na tensão entre paixão e dever, entre o próprio prazer e o prazer do todo há no homem a síntese entre o seu que- rer pessoal e o seu dever social, um querer social. Um prazer guiado pelo ser-em-sociedade(isso é, estar em sociedade), um agir que não vem propriamente do indivíduo mas da socieda- de onde ele se encontra. Um querer que lhe parece próprio a sí mesmo, mas lhe é Externo. E como as ações atuam mediante uma Vontade, uma pulsão do prazer, e o homem deve equili- brar-se entre o seu individualismo e a sua atuação em socieda- de, temos que a maioria, senão, todas as ações do homem são guiadas pelo seu Eu-social, pela sua ação de ser em sociedade.

O homem não é livre em sí e por sí, pois é um Ser-em-socie- dade, um indivíduo em Todo com os demais indivíduo desses Todo.

Suas ações não lhe são próprias, ocorrem mediante algo que lhe é externo, e esse Externo é a sociedade.

O agir de suas ações não se encontra no homem, mas

além dele. Há no homem um ADE, um Além-do-Eu. uma in-

fluência, ou muitas influências que estão no homem não por sí

mesmo, mas influências que estão no homem porque estão na

sociedade, e a sociedade é o grande influenciador do homem,

o Grande Outro, o pai que diz o que é positivo ou negativo, o

que deve ou não ser feito.

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O ADE, ou os ADEs não são somente nossas muletas sociais, mas tudo aquilo o que fazemos, pensamos e somos que não vem propriamente de nós. O ADE é a grande mão do que nos é Externo sobre nós.

III.

Ao fazer uma Genealogia de nossas ações, das mais simples às mais complexas das nossas ações podemos perce- ber o Além-do-eu, claro, pois o ADE, este Grande-Outro-So- cial é influenciador e muitas vezes criador, das tendências de nossas ações; por trás de toda ação há um querer, um desejo, uma vontade e uma Vontade, e muitas vezes o grande deter- minador de nossas vontades é o ADE.

Temos também o ADE como um tendenciador de nos- sas ações, aquilo por qual tendemos a realizar determinada ação e não qualquer outra senão aquela.

Perceba; ao ler um livro, leio por uma liberdade de ação pela qual posso ler? Se tenho essa liberdade de ação por que então eu escolhi a ação de ler ao invés da realização de qual- quer outra ação? Se eu tenho, supostamente, um livre agir por trás de todas as minhas ações o que me faz Escolher; o que me faz preferir certas ações e preterir à outras?

Schopenhauer vai dizer; “Sou livre para fazer o que quero, mas não sou livre para querer o que quero”, isso é, não tenho controle sobre o querer por trás de minhas ações, no momento em que vou ler o livro estou a querer ler o livro, e na- quele momento não conseguiria me forçar a querer fazer uma outra coisa na mesma intensidade em que quero ler o livro.

Não temos controle sobre o nosso querer. Eu não pos-

so, por exemplo, me forçar a gostar de um gênero musical que

eu não gosto, como o Pop no meu exemplo. Se isso fosse pos-

sível a vida seria mais simples, se o homem tivesse um con-

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trole sobre o seu querer poderia ficar em paz na mais cruel das adversidades era somente querer ficar feliz. Mas o homem não controla o querer, o gostar, ou o desejar e no entanto ele quer, gosta e deseja e se a Escolha não vem propriamente dele, isso é, se ele é Sujeito Passivo da pulsão de sua ação, se ele é o tendenciado a fazer a ação, quem seria o tendenciador? Quem seria o Sujeito Ativo da pulsão da ação? Algo que lhe é externo, que está além de de sí porque está além de suas ações, o Além- -do-eu.

No ato de ler o livro, de onde vem o querer específico de ler o livro? Posso ter lido porque a sociedade vê o ato da leitura com bons olhos, e eu como ser em sociedade quero os bons olhos que tem a sociedade para com quem lê, logo estou invisivelmente e imperceptivelmente condicionado à socieda- de, de tal forma que no ato de ler, leio por que Sou em socie- dade. Posso também, ter lido porque gosto de ler, mas de onde vem o tal gostar? Por que prefiro ler no momento do que fazer qualquer outra ação? o gostar é uma construção do indivíduo, que no decorrer de sua vida atuou de tal forma que tende á gostar de ler, o gostar é uma construção da sociedade no in- divíduo, o gostar é um construto social, portanto, um ADE. E estou condicionado ao gostar que a sociedade construiu em mim(ou ao gostar que contruí em mim com a sociedade) e se estou condicionado, estou sendo influênciado e tendenciado à uma condição, uma muleta limitadora de querer e limitadora da ação, eis o ADE!

Portanto nas ações, quaisquer que sejam, não há um

livre agir, um livre querer, mas sim um querer que é condicio-

nado à algo que é externo ao indivíduo, um querer construído

e manipulado, um querer com uma raíz para além do indiví-

duo, um Além-do-eu.

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IV.

Nós somos condicionados ao ADE, jogados no fluxo do Devir, onde nenhum dos nossos quereres são um querer em sí, mas um querer que nos é externo, portanto, nossas ações não estão a nosso critério, nossas ações não estão relaciona- das e subordinadas a nós, mas ao nosso Externo e nós somos somente a ferramenta de objetificação das ações daquilo o que nos é Externo.

Com isso, soa-se um eco de determinismo no concei- to de ADE, onde se nossas ações não estão a rigor em nossas mãos, mas naquilo o que nos é Externo então, veja só, tudo já foi pré-determinado! Digo, se o homem não tem controle sobre o que pode ou não fazer algo o tem! E esse algo é Deus!

Claro que não, peguemos a Navalha de Occam e corte- mos fora esse conceito, essa postulação infame. O homem na necessidade de controlar suas ações e tudo o que está ao seu redor, na plenitude de seu ego resume o fluxo do agir; o Devir resume-se ou ao homem ou a seu Deus, ou quem sabe, armi- nianamente falando, ao homem e a seu Deus.

Não existe determinismo absoluto assim como não existe um livre-arbítrio absoluto. Pensemos no Devir como uma folha em branco, a nossa folha em branco. A vida e a con- tingência de suas ações, isso é, a totalidade de suas ações esta- riam, em nossa folha em branco, pré-pensadas? Isso é, todo o roteiro da vida do indivíduo foi pré-concebido? O autor da fo- lha em branco tem toda a história em sua cabeça? Ou então...

o Autor simplesmente está lançando palavras à sua livre von- tade e assim escrevendo a história em sua folha em branco?

Não, a vida não acontece mediante Vontades pré-con-

cebidas e tão pouco mediante Vontades em sí mesmas, isso

é, o Devir não ocorre mediante ações pré-determinadas e tão

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pouco mediante ações indeterminadas, o Devir da vida está em determinação.

O Devir está a todo o momento se determinando, isso é, ações acontecem mediante uma série de fatores determinantes, pré- vios à ela, sendo assim a ação um fator também determinan- te de uma ação posterior. Não é como se o futuro já existisse e esperasse ansiosamente para acontecer, como se na linha imaginário do Devir cronotópico estivesse esboçada, esperan- do somente que a concreção dos fatos chegasse a um determi- nado e específico momento. Não, os momentos não existem até que aconteçam. Portanto, o futuro não existe, ao menos, o futuro não existe até que cheguemos nele. Tudo o que há é um presente concreto, um passado virtual e um futuro ima- ginário. As ações no presente concrecionam-se mediante os ADEs do indivíduo, e os construtos da sociedade nele e dele na sociedade, sendo que a sociedade é prévia ao indivíduo e não momentânea com ele, assim, toda ação ocorre mediante algo que lhe antecede, sendo uma ação no agora a procedência de uma ação anterior e prévia. Temos que o presente é o futuro virtual de um passado virtual.

Portanto o acontecer de todas as coisas no Devir cro- notópico está subordinado às suas anteceções, visto que nada acontece sem que haja a antecedência da ação, e essa ante- cedência é determinada pelos construtos sociais(a sociedade e sua cultura, ética-moral, os ADEs intrínsecos todo o fator influenciador e transformador do indivíduo).

Digo enfim que essa parte do texto resume-se na máxi-

ma “O Devir está em determinação”, pois, o livre-arbítrio e o

determinismo são duas cosmovisões as quais rejeito filosofi-

camente.

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Na vida do indivíduo à agentes externos a ele que o influenciam e o transformam, os construtos sociais, isso é, a dialética ou o dualismo, ou como eu gosto de chamar a Dinâ- mica Indivíduo-Sociedade pois, a sociedade é por sí um agen- te transformador do indivíduo, que direta ou indiretamente o transforma, mas o indivíduo por ser em sociedade transforma também a sociedade da qual faz parte. Ou seja, a sociedade constrói o indivíduo e o indivíduo constrói a sociedade.

Pode-se observar que na rejeição do livre-arbítrio há o

determinismo, e na rejeição do determinismo há o livre arbí-

trio. E na rejeição de ambos,como foi o caso defendido aqui há

a indeterminação ou o in-determinismo(do Latim “in deter-

minandum” ou “em determinação”).

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Dos Tipos de Satisfação

(47)

Dos Tipos de Satisfação.

O homem procura sempre um maior grau de prazer na I.

menor quantidade de tempo e isso é de conhecimento geral.

Vemos em Nietzsche que o homem procura a auto-expansão, isso é: o desejo de engrandecer-se, de ter poder sobre os ou- tros. E em Spinoza vemos que ele procura a auto-conservação, pois seja na Natureza ou na Sociedade, o indivíduo procura por manter-se vivo e preservar-se na existência.

Essas pulsões, essas inclinações à determinadas von- tades, essas Vontades são inertes a todos os homens, algumas das Pulsões têm raízes na natureza animalesca dos homens, algumas outras tem raízes em sua natureza social. Tendo em vista que o homem é sempre um Ser-em-sociedade, um Ser- -social, um ens socialis ou zoo politics temos que ele não pode ser considerado fora de um contexto social. Sendo assim, po- demos dizer que as Pulsões do homem que têm suas raízes no convívio em sociedade são inertes a ele, e ubíquas a todos os homens.

Uma das volições ou Pulsões intrínsecas da natureza

humana é também a Satisfação, a inclinação ao desejo de sa-

tisfazer-se. O homem procura a satisfação em praticamente

toda a sua ação, e qualquer ação ou fim só tem sentido se pro-

porcionar algum tipo de prazer. Afinal, se não houvesse um

mínimo de satisfação em fazer qualquer coisa, ninguém nada

faria.

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É possível realizar um compilado de como se dá a satis- II.

fação do homem. Através de uma breve análise pode-se perce- ber que os tipos de satisfação se totalizam em seis. Isso, claro, não quer dizer que existem somente seis maneiras de satisfa- zer-se ou seis ações que levam à satisfação, na verdade o que segue são breves e generalizados resumos de como e através de quê o homem tem e busca a sua satisfação. Esses ditos seis grupos ou seis tipos eu denominei com os seguintes nomes:

Satisfação Ético-Social, Satisfação Contrária, Satisfação Ma- terial, Satisfação Espiritual, Satisfação Artificial e Satisfação Sexual. Que serão muito brevemente dissecados a seguir.

Satisfação Ético-Social: Um dos componentes fun- damentais da sociedade e de seu convívio são as leis, as nor- mas éticas e morais estabelecidas para o bem-estar social e o convívio entre os indivíduos. Não é muito difícil perceber que atender à todas as exigências sociais, isso é; tanto suas leis quanto seus costumes culturais, é de tamanha dificuldade. Di- ficilmente o indivíduo consegue atender plenamente a tudo o que lhe é exigido.

Quando o indivíduo percebe que cumprir com todos os deveres e obrigações em seu ambiente social, qualquer que seja, cria-se em seu redor um ninho de bons olhares. Quando ele tem sucesso em cumprir com eficácia aquilo o que os ou- tros não conseguem cumprir totalmente ele se encontra em satisfação consigo mesmo. A satisfação em ser um indivíduo puramente ético e social é uma satisfação do ego, uma satisfa- ção que aponta para um “vejam, eu sou melhor que vocês”.

O indivíduo almeja essa satisfação e inclina-se a ela

quando percebe que satisfazer-se com as normas sociais como

tal lhe gera uma recompensa ao ego maior do que satisfazer-se

com qualquer outra coisa, que por sua vez pode ou não fugir

das normas sociais. Quando o adolescente percebe que obede-

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cer aos seus pais gera um melhor convívio em sua residência que por sua vez gera um sentimento e recompensa, ele estará agindo à luz da satisfação ético-social. Quando o empregado percebe que ao atender às expectativas da empresa e agir com eficácia em seu ambiente de trabalho gera bons olhares por meio dos companheiros e do patrão ele tenderá à continuar agindo assim, pois agirá sob a luz da satisfação ético-social.

Quando o aluno percebe que esforçar-se e estudar, tirar e manter boas notas gera em seu ninho social a aprovação por meio dos seus professores e colegas ele tenderá a continuar agindo assim, pois agirá, novamente à satisfação ético-social.

Em todos os exemplos citados acima há a presença da inclinação à satisfação ético-social, ela ocorre e perdura tão somente por causa dos “bons olhares” que estimulam o ego do indivíduo, estimulam a Natureza Orgulhosa do Ser-Humano e a sua carência intrínseca de reconhecimento.

Satisfação Contrária: Também chamada de Satisfa- ção Revolucionária, Satisfação Anti-Ético-Social ou In-Sa- tisfação é um prazer que se dá na via oposta à satisfação éti- co-social, isso é, quando o indivíduo vê prazer em não seguir o convencional, ou ainda não vê prazer suficiente no que é convencional. As normas e regras sufocam e prendem, e há prazer em libertar-se das amarras sociais, mesmo que num breve momento, mesmo que através de uma simples frase. á prazer em dizer SIM! onde todos os outros dizem NÃO! Há aí uma identidade própria em relação a outrem, uma insatisfa- ção com o que os outros querem de você, uma resistência para com os outros; e isso dá prazer.

Esse prazer, assim como nos outros, ocorre em certos

casos específicos. É por sua vez uma satisfação inclinada à

rebeldia, uma antinomia do prazer de agir ético-socialmen-

te. Pode-se observar a manifestação desse prazer em adoles-

centes por exemplo. Eles não vêem prazer na normalidade,

(50)

no convencionismo da sociedade, o regrismo exacerbado su- foca e eles tendem a querer escapar disso, e quando escapam, mesmo que por um limiar de instante do que julgam ser um sufocamento por meio do âmbito social, eles sentem-se au- tônomos, sentem-se livres e há aí, para os adolescentes, um prazer. Claro que nesse caso existem outros fatores atuantes, o psiquismo do adolescente é marcado por suas mudanças hor- monais e com seu contato com as frustrações sociais, e esses fatores quase sempre tendem a criança(adolescente) ao Pra- zer Contrário.

Há satisfação contrária também no Indivíduo Revolu- cionário isso é, um indivíduo enquanto atuante em um movi- mento “revolucionário” qualquer que seja. “Revolucionário”

aqui é um termo generalizante, por revolucionário quero dizer todo movimento que age sob a insatisfação com algo. Quando há um protesto, por exemplo contra um governo há também a satisfação de se estar protestando. O indivíduo revolucionário se vê num meio onde sua presença é importante, vê-se como engrenagem do maquinário de uma mudança, numa mudança para o melhor, numa mudança para o seu melhor. Se o indi- víduo vê importância em si através de um ato que ele também considera importante(a “revolução”) há aí prazer, o prazer de ser importante e o prazer de ser atuante em algo que é impor- tante. E também, o prazer da rebeldia, de ir contra algo. Em suma; um prazer.

Satisfação Material: Talvez o mais simples e menos duradouro tipo de satisfação. É quando o prazer não se en- contra no Ser ou no Fazer, mas sim no Ter. Quando o objeto do prazer não está numa ação que não na ação da acumula- ção, e uma acumulação guiada pela convenção social. É o pra- zer no satisfazer o desejo da compra, e nesse ato a satisfação não está no objeto da compra em sí, mas no ato de comprar.

Não me satisfaço primeiro por ter o objeto, a satisfação pri-

mária é a de comprar o objeto. Destarte; primeiro, o prazer da

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compra do objeto e posteriormente o prazer do ter do objeto, esses são os componentes da satisfação material. As pessoas vêem-se por vezes numa necessidade de comprar algo, de es- tar sempre atualizando os seus bens, e isso é um ADE, uma imposição social que não percebemos diretamente, atuamos em uma sociedade que nos inclina a um consumismo. Quando um novo modelo de celular lança nos sentimos materialmente ultrapassados e desatualizados; “se há o novo, por que então eu devo ficar com o que é ultrapassado?” é esse o pensamento que, por muitas vezes marca a mente do indivíduo. Então esse mesmo indivíduo vê-se na necessidade do novo, materialmen- te falando, e enfim compra o novo modelo de celular. E nesse ato há o prazer da compra, o prazer de ter o novo, e posterior a esse prazer, a essa satisfação material, há o prazer na utiliza- ção do objeto da compra, e esse prazer é por sua vez, também material.

Satisfação Espiritual: Ocorre sob duas diretrizes, sendo elas uma Metafísica e uma Social. Na Satisfação Espiritual Me- tafísica há o prazer na proximidade com o seu Deus, ou com as deidades a religião do indivíduo, é uma satisfação religiosa por assim dizer, ou espiritual por excelência. Ela engloba a paz de espírito que trazem as religiões em suas completudes, e pode ser melhor percebida através da ética das religiões orientais, como no budismo ou no taoísmo, há nessas práticas e nessas éticas um caminho que leva a paz do indivíduo, e por sua vez a paz em seu espírito, e há, na paz, um prazer. A paz é uma satisfação. Num monge budista você verá uma tranquilidade e uma certeza que aquele indivíduo não teria senão no advento de sua religião, uma satisfação própria da ligação entre o indivíduo e a divindade de sua religião, uma satisfação espiritual. Num crente, quando os mais temerosos dos problemas acontecerem-lhe e você pergun- tar “você não está desesperado? Veja pelo o que está passando!”

ele lhe mostrará que nem todo sofrimento do mundo não é nada

para alguém a qual um Deus infinitamente maior ama e protege,

e que por esse Deus ele tudo pode e tudo supera. Um bom exem-

plo disso pôde-se ver na mãe de Agostinho, Santa Mônica:

Referências

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