O Indivíduo.
Eu diria que é impossível falar de indivíduo sem falar I.
de sociedade. Pois vem da sociedade mesma a concepção de indivíduo, e essa dialética indivíduo-sociedade sempre decai na mesma pergunta: “É o Indivíduo que cria a sociedade, ou é a Sociedade que cria o indivíduo?”
Pode-se conceber “sociedade” em dois aspectos distin-tos, a princípio temos a concepção “espacial” de sociedade, isso é: sociedade tratando-se de um agrupamento de indivíduos que atuam em harmonia e em colaboração mútua. Enquanto ser-vivo e animal, o ser-humano tem também a pulsão univer-sal da autoconservação, isso é, a pulsão de querer conservar a própria vida, e para isso, tende a se unir com outros de sua espécie em função da sobrevivência, criando assim colônias que se agrupam e vêm a ser o que chamamos de “sociedade”.
Sociedades de indivíduos tendem a se localizar espacialmen-te, determinado grupo se encontra em determinado território, lá habita e constrói-se a sociedade deste grupo. No entanto, o ser-humano tem um diferencial em relação aos demais se-res-vivos, dizem que o que diferencia o homem do animal é a alma, o amor, o sentimento ou a razão. E tudo isso é um equívoco dantesco. Como podemos notar em Roque Laraia, e também em Yuval Noah Harari, é o advento da cultura que diferencia os seres-humanos dos demais animais! Sem cultura não haveria sequer a própria concepção dos conceitos ditos anteriormente, alma, amor ou razão, e nesse último não dife-rimos tanto de outros animais, a verdade é que a acumulação de experiências e o ato de herdar conhecimento desenvolveu a razão do homem. E enfim, é a cultura o outro aspecto da
socie-dade. Num agrupamento social os indivíduos tendem a criar suas próprias crenças, sua própria lógica, sua própria lingua-gem e seus próprios costumes, e o agregado desses construtos sociais é o que chamamos de “Cultura”, que se encontra ar-mazenada na Consciência Coletiva(Ou Inconsciência Coletiva, não me importo muito com o termo).
Isso não responde necessariamente a pergunta “é o divíduo que cria a sociedade, ou é a Sociedade que cria o in-divíduo?”, mas dá gancho à resposta. A sociedade, enquanto agrupamento de indivíduos é formada, obviamente, pela união de indivíduos, que, por fatores biológicos tendem a esse agru-pamento como tal. Esses indivíduos, agora unidos, tendem a criar uma cosmovisão que lhes é própria e tende a ser coletiva, têm sua própria lógica, linguagem e posteriormente sua pró-pria cultura. Os indivíduos posteriores à essa sociedade pri-mordial, e que pertencem a mesma, tendem a ser construídos socialmente para serem adaptados à cultura de sua sociedade, herdam a cultura por assim dizer, e herdam a realidade que lhes é extrística. O indivíduo, a priori constrói a sociedade, e o indivíduo, a posteriori, é construído pela mesma. O indivíduo, é, portanto, um construtor e um construto social.
O indivíduo é portanto, necessariamente, um Ser-em--sociedade. Isso porque, por excelência não se pode pensar em um indivíduo para além de sua natureza social. Pensar em um indivíduo totalmente singular e totalmente distinto dos demais seria um equívoco isso pois, tanto por fatores tan-to biológicos quantan-to sociológicos, a própria possibilidade de vir-a-ser do indivíduo é determinada pela facticidade de seu
“mundo” ou de sua “sociedade”, como podemos ver em Hei-degger. Conclui-se aqui que Ser(o ser-humano) é Ser-em-So-ciedade pois é indissociável da soSer-em-So-ciedade e nisso encontra-se uma impossibilidade de pensar a existência para além de um aspecto social. O self humano vai estar sempre de encontro aO Outro, ao mundo, à sociedade.
Sabe-se que o indivíduo tem também, além da pulsão II.
da autoconservação, uma pulsão ao ego, uma pulsão à auto--expansão como, grosso modo, podemos ver em Nietzsche.
À medida em que o indivíduo é um ser que atua socialmen-te ele também é um ser que atua somensocialmen-te para si. E quando falo de “atuar” falo da ação propriamente dita, do actio hu-mano. Como se pensa e como se age tende a ser pensado e agido em função, muitas vezes de si mesmo e muitas vezes, dO Outro. Portanto, tal qual a sociedade, a consciência do in-divíduo pode atuar de maneiras distintas. Em sociedade há a necessidade de estar e conviver em harmonia com O Outro, nesse quesito há quase sempre um conflito entre os quereres do indivíduo e a Consicência Coletiva, um embate de interes-ses que muitas vezes decai em dilemas morais, a verdade é que, para conviver em harmonia com a sociedade o indivíduo deve privar-se de certos desejos e ter como prioridade atuar da forma que sua sociedade considera a forma positiva de agir e pensar. Hegel chama essa consciência da percepção de que vivemos em sociedade, e essa necessidade de harmonia com a mesma de “Espírito Absoluto”. No entanto aqui chamarei de
“Ser-Social” isso pois, essa tomada de consciência que tende a atender os caprichos do Coletivo é algo evidentemente social, e isso é a base da moral e da ética, a alteridade de ter que calar um pouco do self para atender aO Outro. O ser-humano, é, como já dito, por excelência, um Ser-Social, e essa é a maneira como sua consciência tende a agir em sociedade para a manutenção de si e da mesma: em função do Outro.
Claro, não é tão somente em função do Outro que age o indivíduo, e se assim fosse, onde estaria a sua individualidade?
O que diferiria o Eu dO Outro? Acontece que todo indivíduo é dotado de individualidade, algo na sua consciência que tende a ir em desencontro com a Consciência Coletiva. O actio humano pode tender também para o ego, e essa tomada de consciência voltada para os próprios desejos, para as “paixões” e não para os
“deveres” é aqui chamado de “Ser-Individual”.