neste conceito e a falta de instrumentos efetivos para operacionalizá-lo escondem o
fato de que a crise ambiental é criada pelo próprio desenvolvimento capitalista
acirrado no século XX. Todavia, enquanto projeto de sociedade, a proposta de
desenvolvimento sustentável e suas dimensões podem fornecer um arcabouço
teórico importante para se avaliar projetos, políticas ambientais e modelos de
desenvolvimento concretos dentro da sociedade capitalista.
3.3 A QUESTÃO AMBIENTAL ATUAL SOB A PERSPECTIVA DA ECONOMIA
AMBIENTAL
Com a emergência da problemática da mudança climática, as discussões,
tanto em nível internacional quanto nacional, têm sido focadas nas políticas e
instrumentos que possibilitem a mitigação de suas causas e a adaptação, no sentido
de prevenir, evitar ou mitigar os seus efeitos. Estão em discussão os mecanismos
que seriam mais viáveis para fomentar, por exemplo, a mudança da matriz
energética para uma base menos emissora de gases de efeito estufa, o fomento ao
desenvolvimento tecnológico, a preservação de áreas de florestas, alterações em
práticas agrícolas e na indústria, transporte com menores emissões, entre outros.
Esta discussão permeia diversas atividades socioeconômicas já que a mudança
climática tem demandado alterações em setores como o energético, agropecuário,
florestal e industrial, sendo estes os principais alvos de políticas públicas de
incentivo econômico via mercado e/ou Estado no que se refere à mitigação das
emissões de gases de efeito estufa (VIOLA, 2008; GIDDENS, 2010). Nesta seção,
serão examinados os princípios e pressupostos da economia ambiental enquanto
vertente da escola econômica neoclássica que tem grande influencia no
estabelecimento de políticas públicas.
A economia ambiental é a interpretação da questão ambiental atual
elaborada pela teoria neoclássica da economia. Assim sendo, concentra suas
análises sobre a escassez, considerando bens econômicos aqueles que são
escassos, além de se ocupar da valoração monetária do meio ambiente. Para esta
escola, a degradação dos recursos naturais ocorre quando o meio ambiente fica fora
do mercado (externalidades) ou a sua regulação não está devidamente informada
por meio de preços adequados a sua escassez ou importância. Portanto, caso se
consiga atribuir valor monetário (preço) aos recursos naturais, estes poderiam ser
geridos pelo mercado como qualquer recurso econômico escasso (CHANG, 2001;
COSTA, 2005).
Os princípios fundamentais da economia neoclássica residem na análise do
mercado ao invés do processo produtivo. Para esta escola, em condições de
concorrência perfeita, o mercado funcionaria em estado de equilíbrio, não sendo
possível um indivíduo melhorar sua posição sem que outro piore a sua. Neste
estado, a economia estaria trabalhando no máximo de eficiência na alocação de
recursos. Todavia, para tanto, é preciso que os agentes econômicos (produtores e
consumidores) sejam guiados por uma racionalidade que maximize sempre a
satisfação individual, levando em conta suas preferências e restrições, como por
exemplo, o nível de renda (SEKIGUCHI; PIRES, 1995; CHANG, 2001). Neste caso,
a intervenção estatal deve ser nula, sob pena de alterar um dos pressupostos da
concorrência perfeita. Porém, visões mais pragmáticas admitem uma intervenção
mínima e corretiva, somente quando o mercado não está maximizando o bem-estar
coletivo, ou seja, em situações de falhas de mercado.
Conforme mencionado, uma das principais propostas desta escola é inserir
no mercado os custos ambientais das atividades produtivas, o que permitiria a
resolução dos problemas ambientais por meio da internalização das externalidades.
O conceito de externalidade, elaborado por Arthur C. Pigou34 em 1920 foi resgatado
pela economia ambiental para explicar a crise ambiental e propor soluções (CHANG,
2001; COSTA, 2005).
Para Pigou, o mercado apresenta muitas falhas, diferentemente do ideal da
concorrência perfeita preconizada pela economia neoclássica, decorrendo daí a
34
Na obra The Economics of Welfare, de 1920. Arthur C. Pigou, professor de Keynes, foi o precursor
da necessidade da presença do Estado na economia para disciplinar as externalidades (CHANG,
2001).
necessidade de intervenção do Estado para disciplinar e regulamentar os efeitos
externos não incorporados ao mercado, ou externalidades. Devido a estas falhas,
segundo Pigou, a maximização do bem-estar privado não coincide com a
maximização do bem-estar-social. Neste caso, as externalidades35 são custos
individuais transferidos involuntariamente a toda a sociedade que precisam ser
valorados e incorporados aos custos privados para serem efetivamente resolvidos
(CHANG, 2001; COSTA, 2005).
O mecanismo pelo qual a economia ambiental propôs para que estes custos
ambientais fossem internalizados é o Princípio do Poluidor Pagador. Neste caso, o
Estado define uma taxa que corresponde ao valor do custo ambiental transferido à
sociedade pelo poluidor. Com isto, o custo de produção do agente poluidor se torna
maior, diminuindo sua margem de lucro, o que o obriga a internalizar os custos
ambientais. Em casos em que o nível de concorrência é baixo, pode ocorrer do valor
da taxação ser transferido ao consumidor, mesmo assim, os custos ambientais são
internalizados, e o meio ambiente passa a fazer parte do mercado (CHANG, 2001;
FERNANDEZ, 2011).
O outro autor que embasa a economia ambiental é Ronald Coase36. Coase
criticou Pigou por ele não ter considerado os custos de transação, e também por ter
considerado que um efeito externo é a contraposição de um interesse privado frente
um interesse público. Para Coase, as externalidades decorrem da contraposição de
dois interesses privados. Neste caso, a questão principal se resume à definição de
quem tem o direito de propriedade sobre o recurso. Não importa, para ele, quem é o
poluidor ou quem sofre a poluição. Quem for o proprietário do recurso (poluidor ou
quem sofre a poluição) sempre receberá da outra parte ou pela poluição sofrida ou
pela redução de sua produção e consequente redução de seus lucros para
minimizar os efeitos externos (COSTA, 2005; FERNADEZ, 2011).
Nesta concepção, as externalidades são um problema entre particulares que
eles devem resolver mediante negociação particular, deixando de fora o Estado.
35
As externalidades podem ser positivas ou negativas. Um exemplo de externalidade positiva seria o
benefício causado a um fruticultor da atividade de apicultura de um vizinho, já que as abelhas
favorecem a polinização. Um exemplo de externalidade negativa é o mau cheiro causado por uma
criação de suínos nas vizinhanças de um bairro residencial (CHANG, 2001).
36