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A abordagem construída nesta tese tem seu fundamento na ideia de que o

enfrentamento da mudança climática projeta em última instância uma crítica aos

padrões insustentáveis do modelo de desenvolvimento da sociedade capitalista e

seus modos de vida, que utilizam cada vez mais intensamente recursos naturais

limitados, gerando degradação socioambiental, como as emissões de GEE, as

iniquidades sociais e as vulnerabilidades sociais e ambientais (MILANEZ;

FONSECA, 2011; GIDDENS, 2010; VIANNA; VEIGA; ABRANCHES, 2009).

Considera-se aqui que o debate em torno das soluções para o aquecimento

global é político e ético, por mais que seja muito difundida a visão de que ele seja

eminentemente técnico. Este debate remete a questões sobre a sociabilidade

planetária (VIANNA, 2011), a coexistência entre pessoas e entre as sociedades e a

natureza em última instância (SACHS, 2008). Ganha um papel de destaque,

portanto, a abordagem da sustentabilidade enquanto perspectiva critica do

desenvolvimento atual, ancorado nas idéias de produtivismo e de privatização de

bens comuns universais (MALUF; ROSA, 2011).

Neste debate não está em jogo a preservação da natureza do planeta, já

que esta, ainda que possa ser afetada pelas atividades humanas, na escala de vida

ou mesmo do tempo de evolução do Homo sapiens (200 mil anos), dificilmente seria

afetada a ponto de estar em risco, mesmo que haja muitos autores que considerem

que o Planeta, ou pelo menos a vida nele, estejam em risco. A maioria concorda que

a crise ambiental evidencia em geral, e a mudança climática, em particular, os

impactos que os padrões de produção e consumo atuais representam para a própria

reprodução da civilização humana, especialmente as populações mais vulneráveis

que se situam abaixo da linha da pobreza (VIANNA; VEIGA; ABRANCHES, 2009).

Nestes termos, o enfrentamento da mudança climática requer tanto medidas de

mitigação, que busquem diminuir as emissões de GEE, como também medidas de

adaptação para enfrentar as vulnerabilidades socioambientais. As primeiras devem

ser pensadas em termos de melhorias na infra-estrutura, com fontes energéticas e

tecnologias menos emissoras de GEE, além da consideração da dimensão territorial

das atividades econômicas, principalmente no caso brasileiro, visto que o

desmatamento é o principal vetor de emissões de GEE, juntamente com a

agropecuária. Mais uma vez esta problemática questiona a sustentabilidade dos

padrões de produção no campo, em larga medida baseados em monoculturas e na

pecuária extensiva destinadas à exportação.

As medidas de adaptação, fundamentais e complementares às de mitigação,

pois muitos impactos já são inevitáveis, dizem respeito à própria adaptação técnica,

como do sistema de geração de energia (SCHAEFFER et al., 2008), dos cultivos

agrícolas (ASSAD; PINTO, 2008), dos equipamentos urbanos, etc., mas,

fundamentalmente, do empoderamento (empowerment) das populações,

principalmente aquelas mais vulnerabilizadas, já que estas não são atingidas

igualmente pelos eventos extremos, tampouco tem capacidades e habilidades iguais

de se adaptar a seus impactos (MALUF; ROSA, 2011). Isto remete a ideia de “dupla

exposição” e de justiça climática. A primeira diz respeito à sobreposição espacial de

grupos populacionais extremamente pobres e em regimes de privação, que

caracterizam a vulnerabilidade social, e áreas de risco ou de degradação ambiental

(vulnerabilidade ambiental) (ALVES, 2006). Já a noção de justiça climática, que

deriva do conceito de justiça ambiental37, diz respeito à não coincidência dos

impactos sofridos e das responsabilidades quanto aos efeitos e as causas das

mudanças climáticas. Isto quer dizer que os grupos populacionais mais vulneráveis

são aqueles que menos contribuem com o agravamento do fenômeno (MILANEZ;

FONSECA, 2011). Este conceito recebe amparo no Protocolo de Quioto quando é

enunciado o conceito de “responsabilidades comuns, porém diferenciadas”,

repercutindo em metas de redução de emissões de GEE distintas para países com

condições socioeconômicas distintas. Todavia, ainda que não internalizado nas

políticas nacionais, este é um importante conceito a ser considerado no nível dos

países, pois as disparidades sociais internas demandam ações distintas para grupos

distintos.

A mitigação é definida comumente como as modificações e substituições

tecnológicas, tanto em termos de informação quanto de equipamentos, que visam

reduzir as emissões e aumentar a capacidade de sequestro de GEE (IPCC, 2007).

Assim, de forma geral, a mitigação recebe um tratamento técnico, requerendo

medidas de aumento de produtividade por unidade de recurso natural explorado,

redução do consumo de energia e recursos naturais, e aumento dos sumidouros de

carbono. Sendo assim, em termos apenas técnicos, seria possível reduzir as

emissões de GEE de origem antrópica sem que sejam feitas transformações mais

profundas nos modos de produção e consumo da sociedade (MALUF; ROSA, 2011).

Acrescenta-se a isto o fato de que o sistema capitalista tem a necessidade constante

de renovação de sua base técnica, sendo que a superação das energias que emitem

GEE tem o potencial de se tornar a próxima onda de inovação, podendo favorecer

uma saída para a questão da mitigação das emissões de GEE (VIANNA; VEIGA;

ABRANCHES, 2009). Ainda assim, levanta-se a questão se os interesses

econômicos, as relações de poder e a dinâmica política da sociedade viabilizariam

isso ou não.

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A noção de justiça ambiental questiona a relação entre as práticas intensivas de exploração dos

recursos naturais, que buscam maior rentabilidade dos empreendimentos econômicos, e a

degradação socioambiental resultante desse processo, que deixa para as populações mais

vulneráveis todas as consequências da degradação ambiental praticada. Essa noção propõe uma

perspectiva de integração entre as lutas ambientais e sociais (ACSELRAD; MELLO; BEZERRA,

2009).

Por outro lado, o conceito de adaptação, conforme acepção de Maluf e Rosa

(2011), passa necessariamente pela avaliação das vulnerabilidades

socioambientais, enfatizando as características do tipo de economia e sociedade, os

modelos de desenvolvimento e da relação com a natureza que geraram essas

situações de vulnerabilidade. Disto resulta que a adaptação supõe a reversão de

situações de injustiça ambiental que a sociedade capitalista produz

espontaneamente, o que requer processos sociais e políticos de médio e longo

prazo (ACSELRAD; MELLO; BEZERRA, 2009).

Até aqui, nesta primeira parte da tese, foi feita a contextualização da

problemática da mudança do clima desde o nível internacional até seu rebatimento

no quadro institucional do Brasil, além da delimitação do referencial teórico. Os

próximos capítulos buscam agregar informações a este quadro, focando no

tratamento dado pelo Brasil ao tema da mudança do clima. Sendo assim, é feita a

descrição e análise das principais políticas públicas nacionais que incidem sobre o

tema.