2.3 O MEIO AMBIENTE E O DIREITO
2.3.2 A racionalidade jurídica e o meio ambiente
As dificuldades encontradas no Direito para atender às questões ambientais dizem respeito à ruptura com o próprio paradigma do Direito tradicional, que tem fundamento em uma racionalidade antropocentrista, individualista e normativista, afirma Carvalho (2008). No sentido oposto, temos a ecologia que requer uma compreensão holística, uma epistemologia da complexidade e um antropocentrismo alargado. Segue o autor:
Constata-se, assim, um abismo epistemológico e teórico nas relações desenvolvidas entre o ‘mundo jurídico’ e o ‘mundo da vida’ na sociedade contemporânea e suas conseqüências ecológicas. Este é o choque paradigmático (conflitos intra- sistêmicos) que vive o direito: sua estruturação fundada em uma dogmática tradicional em face dos novos problemas sociais. (CARVALHO, 2008, p. 30).
O modelo cientificista, analítico, segmentado e pretensamente isento, do Direito, gera problemas de diversas ordens: de ordem política - quanto à concepção das normas e da representatividade; de ordem processual - quanto à burocracia e à manipulação dos instrumentos jurídicos; e de ordem prática - quanto à realização da justiça e ao convívio harmônico dos homens em seu meio.
Entre as muitas limitações do Direito, quando tratamos de seu caráter científico e analisado conforme os propósitos e compromissos exigidos pela problemática ambiental, merece destaque a sua abstração da realidade e dos valores éticos, e sua intenção de realizar a Justiça, segundo critérios formais de verdade, igualdade e imparcialidade. A Justiça resultante do sistema racional positivista do Direito, porque desvinculada da realidade social e da sensibilidade humana, é
frequentemente falaciosa, inconsistente, permitindo conclusões distorcidas, frias, parciais, e, portanto, prejudiciais ou, na melhor das hipóteses, inócuas na defesa da grave e complexa questão ambiental.
Diante desse quadro, o Direito Ambiental torna-se, por conseguinte, um dos âmbitos de discussão e revisão do modelo da epistemologia científica do Direito, visto que as questões que lhe são atinentes requerem uma percepção de contexto e de valores não compreendidos no racionalismo-cientificista da modernidade.
A diversidade e complexidade da própria natureza humana, precisa ser contemplada no Direito, para que permita ao homem compreender as normas e acatar a Justiça dela resultante, por pertencerem ao seu mundo. Os seres humanos, embora tenham desenvolvido uma racionalidade abstrata e um tecnicismo exacerbado, não são máquinas as que se comportam conforme programação prévia e não têm finalidades por si mesmas. O caráter de sujeito de direito do ser humano, e talvez da própria natureza, não se ajustam ao perfil mecanicista aplicado ao Direito, porque o homem, em sua natureza, é um ser complexo e existe em relação de interdependência e constante elaboração com o meio em que habita.
Fica claro que o Direito depende de valores que preencham suas normas. Quando se diz que o Direito racional positivista está esvaziado de valores, na verdade, está-se indicando que os valores que o preenchem não são ecologicamente éticos ou humanitários, as normas são preenchidas pelos valores que o poder político e econômico orientam, os quais não satisfazem às necessidades da sociedade e do meio ambiente. Os valores resguardados com prioridade na legislação são notadamente de natureza individualista, enaltecem e protegem o capital e o patrimônio.
O Direito Ambiental requer uma percepção de mundo, uma sensibilidade e condutas que sejam capazes de respeitar o Outro, seja este um homem, um animal ou a natureza em geral, capaz de compreender a complexidade das questões e sua constante mutação; logo, o parâmetro de igualdade da concepção tradicional do Direito mostra-se duplamente inadequado. Primeiro, porque se restringe aos interesses humanos, dentro de uma lógica antropocêntrica; segundo, porque ignora as diferenças reais, conformando-se com presunções de Verdade e Justiça.
Ainda sobre a igualdade, contribui o pensamento de Boaventura de Souza Santos, no sentido de que o Direito colaborou para estabelecer a dicotomia entre Estado e sociedade civil, ocultando a natureza das relações de poder na sociedade. O Direito foi instrumento do Estado,
utilizado para ocultar as desigualdades sociais e ignorar as dissidências (SANTOS, 2007).
A igualdade que a pós-modernidade requer deve ser calcada sobre novas bases, como afirma Wolkmer (2008). É preciso reformular os paradigmas, rever as condições epistemológicas e político- ideológicas para uma justiça material efetiva, que contemple “uma nova hegemonia, síntese da ‘vontade geral’ coexistindo com a pluralidade dos interesses particulares, numa igualdade fundada nas diversidades e nas diferenças”. (WOLKMER, 2008, p. 120).
As questões ambientais que afligem e afetam a todos os seres humanos neste início de século, diante de suas características transdisciplinares, transfronteiriças, transindividuais e intergeracionais, reclamam soluções e compromissos efetivos. À semelhança dos Direitos Fundamentais à vida e à liberdade, os direitos ao meio ambiente que com aqueles muitas vezes se confundem, reclamam garantias em nível mundial.
O fenômeno da globalização econômica, que desenha seus contornos a partir das décadas de 1970 e 1980, e se consolida na década de 1990, teve como fatores diretos de deflagração, a flutuação do câmbio norte-americano com a perda da paridade ouro-dólar, e os dois choques do petróleo na década de 1970, cujo efeito de sobrevaloração desencadeou uma crise de lucratividade e alterou os fluxos do sistema financeiro (FARIA, 2002).
As necessidades impostas pelo novo quadro econômico, aliadas às novas tecnologias da informação provocaram, segundo Faria, uma profunda reorganização da divisão internacional do trabalho. Tal conjuntura implicou a abertura dos mercados e a aquisição, pelas potências econômicas, de produtos industrializados pelos países em desenvolvimento, e o surgimento das corporações transnacionais. Um
novo sistema financeiro internacional, caracterizado pela
desmaterialização da moeda, substituída por mera informação eletrônica e pelas estratégias de capitalização que têm na flexibilidade e liquidez sua melhor expressão, passa e influenciar direta e indiretamente na desregulamentação da economia (FARIA, 2002).
Com a volatilidade do capital desterritorializado, instala-se a sistemática de uma concorrência desenfreada pelos investimentos transnacionais. A economia globalizada é regida pelas Bolsas de Valores, cujas oscilações repercutem, como batimentos cardíacos descompassados, nas sociedades contemporâneas. A economia interna dos países torna-se instável, os investidores impõem requisitos e são volúveis, ditam o destino comum, apostando neste ou naquele país,
tendo como parâmetro de escolha a maior lucratividade. Assim, o mercado passa a orientar também os rumos das políticas internas, estabelecendo padrões, impondo requisitos materiais e formais, redefinindo valores (VIEIRA, 1998).
A concorrência sem precedentes que se estabelece no mercado globalizado não se furta de recorrer a medidas desleais, como o chamado dumping social. Em prejuízo da dignidade e dos direitos trabalhistas, as empresas migram suas linhas de produção, buscando produzir em países com o menor custo trabalhista (FARIA, 2002). No quadro de conflitos internacionais, questões étnicas e culturais são fomentadas como elementos de desagregação, implicando uma balcanização, usando o termo de Morin (2005), constituindo uma miríade de novos pequenos Estados-nação, de cuja fragilidade política e econômica se beneficiam os interesses capitalistas (BAUMAN, 2000).
A globalização econômica também produz refugiados, frutos da desestruturação da ordem econômica interna, que reforçou as contrastantes diferenças entre países pobres e países ricos, e da repercussão dessas diferenças no meio ambiente. Esses refugiados são a expressão autêntica dos não cidadãos, os sem direito, colocando em xeque o sistema internacional de proteção dos direitos humanos. Vivencia-se o nefasto fenômeno que Faria (2002) denomina darwinismo social, bem como o da aplicação da dura e fria lei do mais forte, que remete à idéia de estado de natureza de Hobbes (BAUMAN, 2000).
A submissão às diretrizes das entidades financiadoras, fundos internacionais de fomento e bancos privados, produziu nas últimas décadas do século XX, o exaurir das chances de autoestruturação e
sustentação das economias dos países então denominados
subdesenvolvidos e em desenvolvimento. A partir daí, quem determina a prioridade de investimento interna passa a ser a força diretiva externa do mercado. Ao Estado cumpre apenas regulamentar internamente conforme tais diretrizes.
Para o meio ambiente, que já não obedece a fronteiras, pelas características que lhe são próprias, a globalização da economia acelerou e tornou mais agudos os problemas. Assim como ocorre o dumping social, também acontece um fenômeno semelhante no aspecto ambiental, com a transferência para países pobres de atividades poluentes e agressivas ao meio ambiente. A exploração de recursos naturais em larga escala e a aplicação de tecnologias de segurança duvidosa como a dos organismos geneticamente modificados (OGM), tornam-se agravantes à fragilidade dos ecossistemas.
“A nova ordem financeira internacional parece nutrir-se de exclusão social e degradação ambiental”. (VIEIRA, 1998, p. 87). Superar as graves ameaças que recaem sobre a humanidade, sob os auspícios do governo da economia, requer que se estabeleçam novos espaços políticos e formas de articulação na defesa dos direitos fundamentais, extrapolando os limites dos Estados-nação. No cerne dessa discussão, encontra-se a questão da soberania estatal.
O âmago da questão relativa à soberania estatal e ao direito internacional diz respeito ao fato de que, muito embora o texto da Declaração Universal dos Direitos Humanos formalmente torne tanto indivíduos quanto povos sujeitos de direitos, subsiste a carência de instrumentos para dar eficácia a esses direitos.
A característica comum de eventos como conflitos étnicos e catástrofes ambientais é que, diante do fenômeno da globalização, soluções parciais não logram obter resultados eficazes e definitivos. A repercussão dos acontecimentos locais no equilíbrio tênue estabelecido a partir do novo contexto de relações internacionais, e a ingerência de poderes para além do Estado, como o das corporações transnacionais, requerem respostas para as quais se revelam insuficientes os Estados.
A compreensão de que as fronteiras e regulações da modernidade já não resguardam a vida e inspiram um constante estado de alerta, torna-se irrefutável no campo da ecologia. Não é possível isolar os efeitos da poluição das águas, tampouco as consequências do desmatamento e do desequilíbrio nos ecossistemas com práticas predatórias. As frequentes catástrofes naturais em relação à discussão sobre as mudanças climáticas dão conta das incertezas e dos riscos. A humanidade desperta para sua condição de sujeição às contingências e à complexidade das múltiplas relações e interesses que afetam as condições elementares de vida, em face da manipulação dos recursos naturais e da agressão ao meio ambiente comum.
O século XXI traz consigo características de todo novas, conjuga riscos e possibilidades concretas de uma ordem mundial renovada. No cenário de contornos incertos que se oferece, novos atores sociais, sobretudo ambientalistas, em meio aos complexos desafios de uma era revolucionária, promovem uma saudável tensão entre o novo e o antigo, realismos e idealismos.
Inaugura-se um novo tempo para a humanidade, em que o singular e o plural constroem possibilidades de convivência, em que a justiça e o direito são ansiosamente postulados, em que emerge uma proposta de Cidadania Planetária ecologicamente fundamentada.