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3.3 SUBJETIVIDADE E ALTERIDADE NO PARADIGMA

3.3.4 A relação do Eu com o Outro no paradigma da

Uma das graves constatações dos estudos sociológicos sobre a sociedade contemporânea80 diz respeito ao individualismo. A ausência de um arcabouço ético-filosófico, o chamado vazio ético, que justificaria um comportamento adequado aos interesses comuns conduz à supervalorização do indivíduo. O individualismo pode ser conceituado, como sugere Russ (2003, p. 14) como “uma atitude que privilegia o

79 Vide: 2.1 e 2.2.

indivíduo em relação à coletividade”, comporta diversas conotações (RUSS, 2003, p. 15). Para Russ (2003, p. 15), o individualismo contemporâneo se traduz em hedonismo e narcisismo, extrapolando a compreensão de liberdade: “promoção dos valores hedonistas, permissivos, psicologistas, culto da ‘descontração’, vinculação às particularidades idiossincráticas, eis o que se esboça na idade pós- moderna”.

A crise da pós-modernidade tem suas raízes na modernidade. Com a modernidade o homem julga alcançar sua independência racional de todo e qualquer poder senão aquele que ele próprio estabeleça conforme a sua vontade. Observa Renaut (2004, p. 10), que o conceito de sujeito é um dos fundamentos da modernidade: “o que define intrinsecamente a modernidade é, sem dúvida, a maneira como o ser humano nela é concebido e afirmado como fonte de suas representações e de seus atos, seu fundamento (subjectum, sujeito) ou, ainda, seu autor”. Na condição de sujeito, é do próprio homem que emerge todo o sentido da existência, o homem conforma o mundo à sua vontade.

A noção de liberdade que emana da modernidade, e que difere da liberdade concebida pelos pensadores clássicos, estabelece um infinito de possibilidades para o ser humano. O homem moderno não sofre as constrições ético-religiosas, e aos poucos se vai desvencilhando, igualmente, dos ditames morais da tradição. A confiança na razão kantiana81 e seus imperativos faz com que se ignorem as práticas egocêntricas que os contradizem.

Para Renaut (2004), na modernidade, confundem-se os conceitos de autonomia com o de independência82. Tal autonomia do sujeito, o que fica mais nítido a partir do questionamento da razão moderna por Heidegger e Nietzsche que descortinam uma razão instrumental para a qual os fins são ditados pela vontade, permite que o poder se transforme, acentua Renaut (2004), num fim em si mesmo.

A autonomia do sujeito humano moderno, considerada como equivalente à independência de outros elementos, confere-lhe uma condição de supremacia. É o auge do antropocentrismo, de onde

81 Segundo o pensamento kantiano, explica Renaut (2004, p. 15): “Definida como autônoma, a vontade moral, que é ao mesmo tempo agente e princípio (o valor supremo) da moralidade, nada quer além de si mesma enquanto liberdade que dita a lei à qual se submete”.

82 “[...] a valorização da autonomia, nela integrando a idéia de lei ou de regra, pode perfeitamente admitir o princípio de uma limitação do Eu, por submissão a uma lei comum. Por conseqüência, não há nada menos intrinsecamente ‘individualista’ do que a perspectiva inerente ao princípio da autonomia [...]”. (RENAUT, 2004, p. 63).

provêm as mazelas que reverberam na crise ecológica contemporânea. Esse desvencilhar-se de tudo o que diz respeito à physis tem origem no pensamento cartesiano.

Cabe retomar o que explica Morin (2005b): o cogito não é prova da natureza do mim, de que ela seja material ou imaterial, de que sua realidade seja fenomênica ou transcendental, para essas respostas o cogitante precisa comunicar-se com o universo exterior e com os outros cogitantes. O cogito gera a consciência do “sou”, é o computo que produz o sou. Para o cogito não há o “si”, ele só conhece o eu e o mim, portanto nele não está compreendida a corporalidade do sujeito. Daí a diferença da categoria do cômputo trazida por Morin. O cômputo inclui o eu, o mim e o si, reunindo em sua operacionalidade o físico, o biológico e o cognitivo, ou o ser, a máquina e o sujeito. A noção de cômputo demonstra “não só que a idéia de sujeito não é isolável do indivíduo vivo, mas também que o indivíduo não é isolável da idéia de sujeito”. (MORIN, 2005b, p. 204). A compreensão de sujeito cartesiano dispensa a physis, ignora o corpo do sujeito. Para Descartes, corpo e alma seguem caminhos autônomos, razão e consciência prescindem do corpo, logo o próprio sujeito ao formular-se não considera sua corporeidade e a metafísica impera. A Universalidade da Razão não deixa lugar para o Outro.

Para Heidegger, segundo Renaut (2004, p. 14)83, é possível desconstruir a moderna metafísica da subjetividade, acompanhando o desenrolar das teorias filosóficas do período: 1. Descartes promove a dessacralização da natureza, de modo que a razão é capaz de apreender o sentido de tudo o que é natural e a vontade pode dar-lhe a destinação que lhe aprouver. 2. Com Newton, a ciência mantém-se como um conhecimento neutro, a serviço da utilidade humana, embora este cientista e filósofo contribua com a compreensão dos limites do pensamento científico. 3. Kant estabelece a autonomia da moral, que como agente e princípio, corresponde à liberdade humana. 4. Por fim, o pensamento de Nietzsche ao levar ao trabalhar com a possibilidade de uma vontade da vontade, conduziria à compreensão da vontade como um fim em si mesma. Assim, o sujeito moderno tornado seu próprio fundamento resultaria no “triunfal desenvolvimento de uma tecnociência

83 Observe-se que Renaut não compactua com a posição heideggeriana, ao contrário, entende que a essência da modernidade é a autonomia do sujeito e que tal conceito não deve ser sacrificado. Vide Renaut (2004, p. 17).

preocupada exclusivamente com o aumento contínuo de seu poder, independente do preço a ser pago”. (RENAUT, 2004, p. 16)84

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A modernidade acumula argumentos teórico-racionais no sentido de tornar o homem enquanto indivíduo, filosoficamente independente, de modo que a sua conduta e os fins a que se orienta se descomprometem dos vínculos ético-religiosos e morais de teor comunitário e solidário. Com o acentuar dos problemas sociais e as disparidades de condições para atingir a liberdade moderna, os pensamentos político-ideológicos, comunista e capitalista, ocupam o espaço deixado pela teologia, marcando a modernidade com uma história de revoluções sangrentas e desilusões. As grandes ideologias igualmente postulavam verdades e propunham uma visão maniqueísta do mundo, de modo que, partindo de uma posição antropocêntrica e negando as perspectivas uma da outra, do ponto de vista prático e ético acabaram por contribuir com a insustentabilidade ecológica.

A crítica à razão instrumental como um desvirtuamento da razão emancipadora iluminista, segundo a qual a razão torna-se um meio de dominação do homem e da natureza, assumida pelos pensadores da Escola de Frankfurt, de Horkheimer a Habermas, soma-se às controvérsias sobre a modernidade.

A discussão sobre a razão instrumental é uma dos fundamentos da ruptura pós-moderna. Os filósofos da pós-modernidade como Lyotard e Bauman, incorporam a crítica à razão instrumental. No entanto, nesses pensadores a crítica vai além. Lyotard aponta para o fim das grandes narrativas, sejam as relativas à emancipação do cidadão, ao iluminismo e sua concepção de História e ao que diz Hegel sobre a “formação do Espírito no mundo”, bem como à ideologia marxista e a utopia da sociedade sem classes (RUSS, 2003, p. 12). Os pós- estruturalistas, como Lyotard, são céticos quanto à proposta iluminista de razão e uma forma de reação ao “modelo hegeliano de consciência”, um Eu que é a negação do Outro (PETERS, 2000, p. 55).

Deleuze, especialmente, talvez seja o crítico mais ferrenho de Hegel entre os pós-estruturalistas, refuta a teoria hegeliana em dois pontos: a negação e a representação. Conforme Gondar (2009, p. 132), Hegel equipara toda diferença a oposição, “um nega o outro ao mesmo tempo em que é constituído por ele”, enquanto Deleuze entende que um termo não precisa negar o outro, ambos podem se afirmar, mantendo-se

84 “Segundo a lógica dessa homogeneização da modernidade, [...] Heidegger em 1935, enfatiza a ‘decadência espiritual da Terra’, tal qual se manifesta por meio do império planetário da técnica” (RENAUT, 2004, p. 17).

num paradoxo, de modo que Deleuze não pretende a síntese, mas que o problema seja reconhecido como tal. Platão e Descartes igualmente sofreram duras críticas por parte de Deleuze, de modo que a cada um dos três Deleuze imputava a criação de “monstros ilusórios”, indica Gondar (2009, p. 133): “a ilusão da transcendência platônica, a ilusão do eu substancial cartesiano, a ilusão do negativo hegeliano”.85

As contrariedades com relação a Hegel têm ainda outras origens. Hegel acolhe a ideia de uma razão progressiva, que evolui e se desenvolve constantemente, por meio da cultura, promovendo uma ampliação da racionalidade e da liberdade. Conforme Sciacca (apud OLIVEIRA, O., 2006, p. 150), “para Hegel, a História se identifica com o desenvolvimento dialético da idéia e dele é o resultado obrigatório, pelo qual todo fato ocorrido é sagrado e é justificado [...]”. Além disso, a recusa pós-moderna ao sistema filosófico hegeliano se relaciona com a aproximação que Hegel promove entre o Estado e a Razão.86

A filosofia hegeliana sofre abalos em todos os sentidos: na defesa da razão do Estado, nos fundamentos metafísicos e no tocante à própria construção teórica sobre o sujeito87. As referências hegelianas são duramente contestadas no limiar do novo milênio. Seja o aspecto evolutivo da História, seja seu fundamento divino, seja a premissa de

85 A crítica deleuziana, segundo Gondar (2009, p. 131), à psicanálise freudiana, encontra suas bases na crítica do filósofo ao pensamento de Hegel, seus principais aspectos dizem respeito justamente “ao imperialismo do significante, que submete o inconsciente a uma lógica da representação, e não da produção. [...] a sustentação do desejo na noção de falta. [...] Deleuze pensa, ao contrário, que o desejo não é mediado por objetos desde sempre perdidos, mas investe diretamente o campo social. Inspirado por Spinoza, faz do desejo uma potência de afirmação, ao invés de uma falta a ser”; o negativo como fundamento da subjetividade. Deleuze afirma que a psicanálise estaria pensando a constituição do sujeito a partir de três condições negativas: o não imposto pela Lei simbólica, o gozo impossível e a exterioridade do prazer.” A morte, na interpretação de Lacan contraditada por Deleuze, seria “a morte um operador simbólico privilegiado, um signo do impossível, enquanto Deleuze, apoiado em Spinoza, pensa a morte como exterioridade, e não como nossa condição ou referência. A morte ocorre por circunstâncias exteriores a nós, não podendo nortear nossa existência nem o nosso desejo”.

86 Brandão (2004, p. 112), chama atenção para o fato de que Hegel não apenas pretende legitimar o Estado mas dar-lhe “características da própria razão”.

87 Entre os aspectos problematizados pela crítica, quanto ao pensamento de Hegel estão a formação do sujeito hegeliano: 1. no Eu que se encontra no mesmo (o universal); e 2. na conquista da liberdade que requer a oposição do Eu contra o Outro (negação). Além disso, no sujeito que se inscreve numa História que é ditada pela Razão, a qual está em contínua evolução e que tende à perfeição. Essa Razão ou Ideia Absoluta que guia esse Espírito (História) é Deus.

que a liberdade em sociedade é conquistada com a escravidão do Outro. Da mesma forma, as filosofias que a antecederam já acumulavam críticas e criavam dissensos. Nesse sentido, o pós-estruturalismo assume os problemas dos fundamentos filosóficos da modernidade, cujos principais mentores foram Descartes, Kant e Hegel88. É por este viés da crítica da crítica, traçado por autores como Lyotard e Deleuze, amparados no pensamento de Nietzsche, Heidegger e Foucault, que a pós-modernidade busca novos caminhos possíveis para o homem e a filosofia.

Entre os pensadores que propugnam por pensar o homem e o mundo sob o paradigma ecológico, e os adeptos de uma filosofia vitalista, é explícita a refutação dos fundamentos metafísicos da modernidade e todo pensamento universalizante que ignore as diferenças e penda para a padronização.

No século XX, as ciências naturais e humanas enfrentaram verdadeiros impasses que abalaram os fundamentos do paradigma moderno de conhecimento. Ao mesmo tempo, as ideologias que se propuseram a responder pelos fins do homem, soçobraram. A pós- modernidade reclama por novos fundamentos, condizentes com a realidade da natureza humana e do universo que habita. Sobretudo, a sociedade contemporânea requer a assimilação do diferente, o diverso, o Outro, a superação da compreensão padronizada de homem, cultuada pelo pensamento ocidental, cujo apogeu foi a modernidade.