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2.3 O MEIO AMBIENTE E O DIREITO

2.3.4 O direito ambiental e os direitos fundamentais

Com o processo de constitucionalização dos ordenamentos jurídicos dos Estados-nação, a partir de meados do século XX, e a intensificação da problemática ambiental, especialmente, após a Conferência de Estocolmo, seguida dos tratados e acordos internacionais relacionados ao clima, à biodiversidade e à sustentabilidade, o direito a um ambiente equilibrado passa a ser reconhecido como um direito humano fundamental. Fensterseifer e Sarlet (2010), destacam, nesse período, a presença, em várias Constituições, da consagração de um direito equilibrado e saudável, como reconhecimento do caráter vital que a qualidade ambiental exerce no desenvolvimento humano.

Já no Estado do bem-estar social, de acordo com Leite (2007, p. 192), superou-se a compreensão restritiva de que os direitos fundamentais estariam voltados a uma única finalidade: garantir uma defesa individual contra o Estado. Adota-se, a partir de então, explica o autor, a compreensão de que “os direitos fundamentais, além disso, servem à proteção e à materialização de bens considerados importantes para a comunidade”. Nesse sentido, Ferrajoli (2003) trata do neoconstitucionalismo como uma refundação do Estado social.

A proposta de proteger, simultaneamente, direitos sociais, econômicos, culturais e ecológico, presente no Estado pós-social, implica intervir nas desigualdades sociais e, ao mesmo tempo, promover uma intensa proteção contra a degradação ambiental, tendo em vista a segurança ambiental (FENSTERSEIFER; SARLET, 2010). Trata-se de acobertar o direito em um ambiente de qualidade sob o manto dos direitos humanos fundamentais. De acordo com Häberle (apud FEINSTERSEIFER; SARLET, 2010, p. 18), esse novo modelo estatal tem por objetivo “uma salvaguarda cada vez maior da dignidade humana e de todos os direitos fundamentais (de todas as dimensões), em vista de uma (re)construção histórica permanente dos seus conteúdos normativos”.

Há uma aproximação inevitável entre a proteção do direito à vida e o contexto dos riscos ambientais, o que pode ser compreendido como o embrião de um “direito-garantia do mínimo existencial socioambiental”, de que falam Fensterseifer e Sarlet (2010, p. 27). Pois, dizem os autores, embora seja a vida a condição para falar-se em dignidade humana, ela envolve, necessariamente, além dos aspectos físicos e biológicos, outros, como o psíquico, o social, o cultural e o ecológico.

Na ausência de uma proteção constitucional específica, os tribunais costumavam buscar justamente no direito à vida e à saúde, argumentos para amparar o direito a um meio ambiente equilibrado. A esse respeito comenta Leite (2007, p. 88): os magistrados “exercitavam sua criatividade e identificavam, na penumbra de outros direitos, garantias ambientais”. Esse modelo evidenciava uma carência de um viés não antropocêntrico, pois somente os interesses dos seres humanos, em geral de ordem econômico-utilitarista, estariam amparados, mostrando-se ética e dogmaticamente insatisfatórios (LEITE, 2007).

A presença de uma garantia ao meio ambiente como um valor intrínseco, afirma Leite (2007), é um dos aspectos mais relevantes da constitucionalização do direito ao meio ambiente, numa instância de direito fundamental. Inobstante, conclui o autor, é benéfica a conexão desse direito específico com os direitos de proteção à saúde e à segurança, por exemplo.

A perspectiva de uma abertura às questões que aproximam a dignidade humana e o meio ambiente ecologicamente equilibrado é promissora, apesar de contemplar algumas discordâncias internas, no que diz respeito ao teor da expressão desenvolvimento sustentável, conforme anteriormente abordado. Nesse sentido, Bessa Antunes (2005, apud FEINSTERSEIFER; SARLET, 2010, p. 21) alerta que não se pode cair no erro de privilegiar as atividades produtivas, em prejuízo de um mínimo de qualidade de vida, mas deve-se ter em conta, ainda que essa qualidade deva ser permanentemente aperfeiçoada, “a preservação e a utilização sustentável e racional dos recursos ambientais devem [...] assegurar um padrão constante de elevação da qualidade de vida”, de modo que o fator econômico seja encarado não como crescimento econômico e, sim, como verdadeiro desenvolvimento.

Haveria, na compreensão de Fensterseifer e Sarlet (2010), a possibilidade de entender o Estado Socioambiental de Direito como um limitador, um regulador da economia, no sentido de orientá-la para que adquira contornos sustentáveis, promovendo o desenvolvimento humano e social. Essa concepção estaria centrada na solidariedade entre a presente e as futuras gerações.

Outro caráter peculiar da proteção ambiental entre os direitos fundamentais é a pretensão de conteúdo negativo que o direito do ambiente consubstancia, conforme Rangel (1994, apud LEITE, 2007). Essa característica exige do Estado e dos cidadãos que se abstenham de atitudes lesivas ao meio ambiente e prejudiciais ao equilíbrio ecossistêmico.

Leite (2007) aponta os benefícios substantivos e formais da constitucionalização do direito ao meio ambiente de qualidade, os quais seriam quanto à substância: o dever genérico de não degradar; dar um teor ecológico à propriedade e à sua função social; nivelar-se como direito fundamental no ápice do ordenamento a outros direitos fundamentais como a propriedade; legitimar a função reguladora estatal nas questões ambientais; limitar a discricionariedade administrativa; e ampliar a participação pública. Os benefícios formais seriam: superioridade no ordenamento jurídico; segurança normativa; a substituição do paradigma da legalidade pelo paradigma da constitucionalidade ambiental, no sentido de resguardar valores primordiais; controle da constitucionalidade da lei; e como ferramenta exegética, para a interpretação das normas.

Contudo, a postulação de uma solidariedade intergeracional, como um direito fundamental constitucionalmente amparado, não garante efetividade por si só. Essa crítica acompanha o contundente questionamento feito por Flores (2009), no que se refere aos Direitos Humanos em geral. A eloquência de instrumentos como a Declaração Universal dos Direitos Humanos, e mesmo das Convenções e Tratados que declinam os direitos a uma qualidade de vida e à sustentabilidade ecológica garantida para presentes e futuras gerações, não correspondem, de um modo geral, às políticas implementadas na prática. O teor crítico da proposta de Flores (2009) volta-se a uma perspectiva nova, integradora, crítica, contextualizada em práticas sociais emancipadoras, no sentido de contribuir para a construção de uma outra via para os direitos humanos, formulada a partir de um pensamento complexo, uma filosofia impura dos direitos, que possa recuperar a ação política e redefinir os direitos humanos, conforme uma concepção material e concreta de dignidade humana. Propõe a (re)invenção dos direitos humanos.

Flores chama atenção para a centralidade da dignidade no contexto dos direitos humanos, na sua perspectiva integradora. “A luta pela dignidade é o componente ‘universal’ que nos propomos [...] A dignidade é, por conseguinte, o objetivo global pelo qual se luta, utilizando, entre outros meios, o direito” (2009, p. 75). O autor salienta que é preciso considerar e exigir todos os direitos humanos, de modo interdependente e indivisível, porque as condições de exercer os direitos é tão relevante quanto a garantia dos próprios direitos. Os direitos humanos, segundo Flores (2009, p. 44), não são dados, é preciso obtê- los: “O direito nunca afirma o que é. Sua lógica é de natureza deôntica, quer dizer, de ‘dever ser’. De fato, quando nos diz que ‘somos’ iguais

perante a lei, o que em realidade está dizendo é que ‘devemos’ ser iguais perante a lei”.

Não haverá direitos humanos se não se potencializam políticas de desenvolvimento integral, comunitário, local e, logicamente, controlável pelos próprios afetados, inseridos no mesmo processo de respeito e consolidação dos direitos. (FLORES, 2009, p. 77).

Pondera ainda esse autor sobre a origem ocidental dos Direitos Humanos que constam da Declaração de 1948: haveria uma carga ideológica e filosófica impregnada nesse instrumento, embora não se possa negar sua relevância no processo de humanização da humanidade. A dificuldade na realização concreta de tão sublimes objetivos como a garantia à liberdade, à igualdade, à vida, decorrem muitas vezes de um desajuste cultural e linguístico do proposto, afetando sua plena compreensão e consubstanciação (FLORES, 2009).

As postulações relacionadas ao meio ambiente, tal como os direitos sociais, vão de encontro ao laissez-faire econômico, de modo que se aplica aos direitos ambientais a mesma preocupação de que fala Flores (2009, p.59), no tocante ao mercado, citando Polanyi “em termos de desejos e necessidades, somente eram consideradas as escalas de valores utilitárias de indivíduos isolados que atuavam nos mercados”. Satisfazer desejos materiais pela apropriação de recursos de toda ordem, especialmente os da natureza e aplicando-os com a máxima racionalidade, torna-se o único objetivo da sociedade de consumo, relegando outras carências de ordem ambiental e social a planos inferiores.