2.3 O MEIO AMBIENTE E O DIREITO
2.3.5 As eras do Direito e o Estado de Direito Ambiental
O Direito vem sendo questionado em suas formulações intrínsecas e extrínsecas, a presença de uma realidade multifacetada, acelerada e aparentemente repleta de antagonismos, desperta a discussão sobre como devem ser encarados os novos sujeitos e suas demandas jurídicas, que fogem aos padrões conhecidos, especialmente, na área ambiental (NOLETO, 1998).
As complexidades dos novos tempos requerem a superação do modelo homocêntrico de direito, para poder alcançar a harmonia entre o homem e a natureza. É nesse sentido que surge a postulação de um
Estado de Direito Ambiental, amparado em princípios valorativos constitucionalmente estabelecidos, que conferem uma compreensão de antropocentrismo alargado ao considerar o homem como parte integrante da comunidade biota (LEITE, 2003).
Canotilho (2007) ressalta a necessidade de uma sensitividade ecológica e um pluralismo legal global referente ao meio ambiente, para tratar com os problemas ambientais de segunda dimensão de natureza reflexiva, os quais resultam de uma combinação de fatores que fogem ao domínio humano.
O Estado de democracia ambiental, afirma Leite (2003, p. 32-33) precisa incorporar novos direitos e valores ambientais “como um interesse social tão relevante quanto quaisquer outros interesses coletivos já consagrados”. O desejado Estado de Direito Ambiental, segue o autor (2003), depende da tomada de consciência da crise global, e do exercício efetivo da cidadania, mediante envolvimento do Estado e cidadãos, em atitude solidária, em torno dos ideais da preservação ecológica.
A ecologização do Direito passa, portanto, por uma série de alterações profundas em suas estruturas internas com o intento de suprir as demandas da sociedade de risco. É um processo que requer, conforme Carvalho (2008), a assimilação de um direito ambiental, com as seguintes características: comprometimento com o futuro; de direito fundamental de terceira geração, usando a categoria de Bobbio; a transdisciplinaridade e o alargamento do antropocentrismo.
O Estado Moderno independente da Igreja e estruturado sob um conceito de soberania do povo, nos termos do Contrato Social de Rousseau, se estabelece de acordo com as balizas da liberdade e da igualdade, estatuídos na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789. A liberdade e a igualdade que então se almejava, guarda distinção dos valores da antiguidade clássica, como abarca uma compreensão diferente nos dias de hoje. Em momento distinto, por uma necessidade política específica, foi aprovada na Assembleia Geral das Nações Unidas – ONU, em dezembro de 1948 uma nova Declaração.
“A Declaração Universal representa a consciência histórica que a humanidade tem dos próprios valores fundamentais na segunda metade do século XX. É uma síntese do passado e uma inspiração para o futuro”. (BOBBIO, 2004, p. 33).
A consolidação de alguns direitos logo após a Segunda Guerra Mundial implica no reconhecimento de certa orientação ética naquele período determinado. Deve-se sempre ter em mente que a realidade constrói situações novas, imprevistas ou imprevisíveis e que outros
direitos devem surgir, exigindo outros poderes e liberdades. Bobbio cita, nesse sentido, o Pacto sobre os direitos civis e políticos de 1966, que previa no seu art. 47 “um direito inerente a todos os povos de desfrutar e de dispor plenamente de suas riquezas e recursos naturais”. (BOBBIO, 2004, p. 36), o qual confronta diretamente a ambição deste século quanto à sustentabilidade ecológica.
Segundo Bobbio (2004, p. 26-27), os valores estabelecidos nesses instrumentos decorrem de um processo de fundamentação, ou seja, uma ética do consenso. “Trata-se, certamente, de um fundamento histórico e, como tal, não absoluto: mas esse fundamento histórico do consenso é o único que pode ser factualmente comprovado”, observa o autor.
Norberto Bobbio, na obra A Era dos Direitos (2004), analisa o processo de positivação dos direitos fundamentais nas cartas constitucionais, com base na evolução social, entabulando a teoria que chama de gerações de direito. Conforme essa categorização dos direitos a cada período histórico, impõe-se a discussão de conquistas de novos direitos civis, foi assim que marcaram o período logo após as revoluções burguesas, no século XVIII, os direitos civis relacionados à liberdade, garantindo o direito privado e a não intervenção do Estado, considerados direitos da primeira geração. A partir do momento em que as liberdades não davam conta da harmonia social, com a crescente desigualdade material entre os cidadãos, surge a necessidade de uma maior intervenção do Estado, que viesse a oferecer a todos, condições de acesso aos direitos básicos, como saúde, educação, trabalho, moradia. É o período do Estado de bem-estar social. A igualdade é o valor em destaque da segunda geração de direitos (CARVALHO, 2008).
Estaríamos, segundo Bobbio, na terceira geração de direitos, em que os titulares dos direitos são sujeitos coletivos, resultados da democratização da sociedade contemporânea, em que novos atores reivindicam direitos antes inexistentes. Assim surgem os direitos transindividuais, que atingem o gênero humano como um todo, compreendendo inclusive as futuras gerações. São exemplos dos direitos de terceira geração: a paz, o meio ambiente, o patrimônio comum da humanidade. O que caracteriza esse período é o valor da solidariedade (CARVALHO, 2008).
Nesse sentido, afirma Portanova (2004, p. 639), que o processo de conquista dos direitos humanos é resultante de redefinições promovidas por exigências sociais em dados momentos históricos, de modo que “o Direito Ambiental é o novo marco jurídico de emancipação que permitirá a ampliação da cidadania no século XXI”.
O direito ambiental destaca-se entre os direitos da era da solidariedade, por sua imprescindibilidade e alcance, a conduta que requer perante o futuro da humanidade. O direito ambiental é concebido como um direito intergeracional, relacionado às gerações passadas, presentes e futuras, e, ao mesmo tempo intrageracional, entre os membros da geração presente. A responsabilidade pelo futuro seria, de certa forma, uma retribuição às gerações passadas pela manutenção das condições de vida do planeta, que recebe a designação de equidade intergeracional.
A nova compreensão do Direito, ancorado na solidariedade, extensivo às futuras gerações e à vida sensível, requer um processo de conscientização. Conforme Leite (2003, p.152-154): “É impossível o exercício da responsabilidade compartilhada e da participação popular como forma de gestão de riscos sem que haja profunda consciência ambiental”, conscientização que conduz à responsabilidade do homem na condição de guardião da biosfera.
O propósito de se promover uma conscientização a partir do Estado de Direito Ambiental é amparado em princípios jurídicos de cunho ambiental, que passam a nortear a compreensão de justiça voltada à sustentabilidade ecológica. O novo direito demanda da Ciência do Direito uma flexibilização inédita, que repercute em toda a estrutura social, exigindo participação política, reformulações na economia e uma nova relação com o conhecimento científico.