3 O CAMPO GLOTOPOLÍTICO DO ESPANHOL
3.4 A RAE: INSTÂNCIA DE AUTORIDADE NORMATIVA?
Uma das coincidências entre agentes glotopolíticos localizados em setores diversos e, inclusive, opostos do campo glotopolítico do espanhol é a que consiste em admitir explícita ou praticamente a presença proativa da RAE nas diversas fases da cadeia produtiva de bens normativos. Embora avaliações e julgamentos sobre a qualidade e a legitimidade da produção acadêmica variem dependendo do espectro do espaço considerado, a posição predominante da corporação é difícil de negar:
que la autoridad de la Real Academia Española no tiene parangón con la de ninguna otra academia de la lengua, ni española ni extranjera, es algo que casi no es preciso demostrar (SENZ; ALBERTE, 2011, p. 17);
en el mundo hispánico la última palabra en materia normativa la tiene la real Academia Española (BARRIOS, 2011, p. 595);
la norma lingüística viene impuesta por una institución reconocida, que para el español es la RAE (NOMDEDEU RULL, 2007, p. 454);
se puede afirmar que la RAE es hoy la academia que desempeña de manera más activa y concreta el papel regulador de la lengua […]. [Es] la única que, con los años, ha ido intensificando su trabajo normativo (ESPÓSITO, 2011, p. 363-366);
sin duda la Real Academia Española es el agente normativo más poderoso en el mundo hispanohablante (LARA, 2011, p. 334).
Algumas pesquisas sociolinguísticas sobre atitudes e crenças demonstram quantitativamente essa valoração em amplos setores do campo. O cotejo dos dados estatísticos coletados em duas pesquisas, realizadas na Argentina e no Chile respectivamente, apresenta tendências muito similares no que tange ao reconhecimento da RAE como principal organismo normativo entre os informantes consultados.
Os resultados da enquete realizada pelo pesquisador do Conselho Nacional de Investigação Científica e Tecnológica (CONICET) e membro da Academia Argentina de Letras (AAL), José Luís Moure, e pela investigadora do Instituto Nacional de Antropologia e professora da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires (UBA), Leonor Acuña, expressam essa predominância. Um dos autores comenta a esse respeito:
la identificación de las instituciones fijadoras o difusoras de norma se procuró mediante la pregunta ¿Conoce usted algún lugar o institución donde se establece cuál es la forma correcta de hablar?; la respuesta fue negativa en el 37% de los casos, pero un 24%, que incluye hablantes de tres de los cuatro niveles socioculturales en que se dividió el universo encuestado,
mencionó espontáneamente la Real Academia Española y un 9%, la escuela (MOURE, 2004).
Senz e Alberte (2011, p.17), interpretando uma das perguntas complementares dessa enquete que interrogava sobre a influência que deveriam ter certos organismos prescritivos e instituições educacionais, acrescentam que, sem aplicar a variável sociocultural, 40% dos entrevistados consideravam que a RAE deveria ter muita influência, enquanto 35% opinaram de maneira semelhante em relação à academia nacional.
Nas conclusões da pesquisa a respeito de crenças sobre a correção idiomática100 realizada com base nas declarações de 400 habitantes de núcleos urbanos da capital chilena, o acadêmico e linguista da Universidade do Chile, Darío Rojas, afirma:
[…] la corrección se encuentra vinculada a la autoridad de la Real Academia Española. Esto se manifiesta tanto en alusiones generales a la deseabilidad de ajustar la conducta idiomática a las normas académicas como en menciones a un cuerpo doctrinal más específico, como es el Diccionario de la lengua española que publica la RAE con la estrecha colaboración de las Academias americanas (ROJAS, 2012, p. 87);
La forma concreta que toma el español correcto en las creencias de los encuestados se explica perfectamente en el marco de una cultura lingüística que ha sido históricamente moldeada sobre la base de la preeminencia del español de España y de la autoridad de instituciones como la Real Academia española. Para muchos de los encuestados, el español correcto es, derechamente, el español de España (ROJAS, 2012, p. 90).
Embora pareça claro que a RAE é percebida como instância de autoridade normativa por uma ampla gama de agentes glotopolíticos, tanto por pesquisadores como por falantes de diversas faixas socioeconômicas, não resulta tão fácil, como
100
A pesquisa faz parte do projeto NFR-193742, Linguistic Identity and Attitudes in Spanish-speaking Latin America – LIAS (Identidade e Atitudes Linguísticas em Hispano-América-LIAS), ligado ao Research Council of Norway (Conselho Norueguês de Pesquisa).
adverte Senz (2011, p. 18) “identificar qué elementos la han colocado y la mantienen, a día de hoy, en esa posición” e como exercem uma influência social constante sobre os falantes de espanhol em ambos os lados do Atlântico.
É inegável que qualquer análise que pretenda analisar e interpretar as condições glotopolíticas que favoreceram e favorecem a adesão (direta ou indireta) dos agentes a uma forma particular de produção de bens normativos não pode deixar de considerar os efeitos difusos e prolongados dos circuitos de legitimação (sobretudo daqueles que contam com a adesão de grande parte dos sistemas escolares e midiáticos) que contribuem para sustentar o reconhecimento da autoridade acadêmica.
Sem considerar os ciclos de produção normativa responsáveis pela produção de bens demandados e, ao mesmo tempo, da produção da demanda desses bens, as análises sobre a autoridade normativa no campo glotopolítico do espanhol tendem a reduzir-se a explicações lineares nas quais o poder normativo é fruto do prestígio, do respaldo e da aceitação de falantes que, podendo reconhecer livremente outras instâncias de autoridade, preferem escolher a RAE:
las Academias tienen autoridad en la medida de que su criterio es respetado y aceptado por la comunidad lingüística o, al menos, por la mayoría de esa comunidad. Sin ese aval, su función reguladora de la lengua estándar no sería efectivo (FERNÁNDEZ- ORDÓÑEZ, 2011, p. 100);
[…] como agentes de esa legislación, las academias pueden cumplir un papel importante, como de hecho lo hacen en el mundo hispánico. Pero no son los únicos agentes posibles: puede haber otros, siempre que a esos otros los hablantes de la lengua en cuestión les otorguen el prestigio necesario para ejercer la autoridad de que hablamos (ELIZAINCÍN, 2011, p. 101)101.
Em artigo comparativo sobre as academias italiana e espanhola, Nomdedeu Rull identifica quatro fatores-chave pelos quais “la RAE tiene la potestad que tiene sobre el idioma español a la hora de establecer la norma linguística” (2005, p. 456-457):
101 Ambas as citações fora extraídas da entrevista a “miembros de Academias de la lengua: Adolfo Elizaincín, Ángela Di Tullio, José Luis Moure e Inés Fernández-Ordóñez” (LAGARES; CELADA, 2011).
ha realizado un notable trabajo en el terreno del cuidado de la lengua;
suele responder a la demanda por parte de usuarios e investigadores de que actualice periódicamente sus trabajos;
asume el papel de unificadora del idioma, convirtiéndose en garante de cohesión en colaboración con las academias hispanoamericanas;
ha buscado el apoyo institucional y siempre ha contado con él.
Se entendemos por “fator” aquilo que contribui para um resultado, os fatores apresentados pelo autor apresentam inconsistências.
A primeira afirmação fica comprometida a partir do momento em que a possibilidade de avaliar (positiva ou negativamente) o trabalho realizado pela RAE – trabalho este que o autor qualifica como “notável” – subentende a existência de um terreno chamado “cuidado das línguas”, cuja definição não consta no artigo.
O segundo fator elencado alude a uma demanda social que, preexistindo aos investimentos glotopolíticos da Academia, justificaria sua posição predominante nos mercados de grande difusão, assim como nos mercados restritos. A intensa e seletiva (re)edição de produtos normativos que busca responder, mormente, a exigências de cunho econômico-financeiro (caso se considerem os interesses das empresas que participam e financiam parte dos projetos acadêmicos), não é necessariamente resultado de atualizações efetivamente substanciais (na forma e no conteúdo) derivadas da modernização de técnicas de pesquisa ou da adequação a novos paradigmas teóricos.
O terceiro fator não é estritamente um fator, no sentido de um causador do reconhecimento normativo da RAE. Aceitá-lo como tal exigiria admitir que o papel da Academia como unificadora do idioma teria sido um elemento desencadeante – portanto, precedente – da força que o autor lhe imputa.
O último fator, em parte, é verdadeiro. O capital de relações tem sido fundamental para ampliar e fortalecer as intervenções da RAE nos diferentes mercados linguísticos, contribuindo para naturalizar seu papel como última instância mediadora e reguladora de conflitos linguístico-normativos. As estratégias corporativas orientadas para institucionalizar a autoridade da Academia não são comparáveis, na atualidade, com nenhum outro agente envolvido no campo. No entanto, não é possível afirmar que a RAE sempre tenha tido apoio institucional. Como veremos mais adiante, as relações glotopolíticas extra e interacadêmicas nem sempre foram convergentes.