• Nenhum resultado encontrado

O PRESCRITIVISMO ARTIFICIAL E A NATURALIDADE DO

2 EFEITOS DE AUTORIDADE E OBJETIVAÇÃO NORMATIVA

2.6 O PRESCRITIVISMO ARTIFICIAL E A NATURALIDADE DO

de fazer; embora a distinção em si, em termos abstratos, possa parecer clara e bem delineada” (RAJAGOPALAN, 2011, p. 124-125).

Dada a oposição entre dois modos (predominantes) de conhecer e dizer a verdade do conhecimento linguístico, o (sub)campo glotopolítico das disciplinas linguísticas é um lugar privilegiado para observar os “sistemas de defesa coletivos” (BOURDIEU, 2011 [1984], p. 42; 2010 [1989], p. 53) do capital de autoridade. Uma das estratégias discursivas de reconhecimento científico que mais contribuem para a desvalorização de pesquisas “periféricas” – e dos agentes predispostos a investir tempo e esforço nelas – que ameaçam o “núcleo duro” da linguística é a naturalização da noção sociologicamente vaga de “artificialidade”.

A artificialidade linguística, que não pode ser entendida fora dos embates travados pelo monopólio da autoridade glotopolítica, é percebida como o resultado (irrealista e ilógico) decorrente de práticas “invasivas” que interrompem ou alteram a irrefreável “deriva linguística”, produzindo uma rarefação no curso histórico das mudanças internas das línguas naturais. Segundo essa representação glotopolítica da natureza linguística, os prescritores e puristas, ao contrário de linguistas descritores e dos falantes comuns, constroem códigos normativos inspirados em normas objetivas e subjetivas antecedentes para logo impô-los arbitrária e antinaturalmente como língua única.

O título do breve artigo de Marina Yaguello, Não Mexam com a Minha Língua! (1988), pode ser interpretado como uma dessas tentativas de desvalorização das práticas de tipo artificial – motivadas pelo ímpeto intervencionista do purismo linguístico – que vai na contramão da “natureza e [d]a realidade da linguagem” (YAGUELLO, 2011, p. 273).

A autora descreve essa condição particular nos seguintes termos:

na língua se inscreve a passagem do tempo. Lentamente, inexoravelmente, a língua evolui. Mas, a cada instante de sua evolução, a língua, enquanto permanece viva, isto é, falada, realiza um sutil equilíbrio entre ganhos e perdas (YAGUELLO, 2011, p. 271).

Nesse discurso homeostático da linguagem – que inclui a representação de uma história natural, lenta e inexorável –, a pretensa naturalidade linguística é a contraparte da artificialidade, abrupta e ideológica. Em função disso, existem mudanças e variações (legítimas) inerentes à natureza das línguas que constituem a sua realidade. Mudanças e variações advindas de práticas prescritivas não fazem – ou não deveriam fazer – parte dessa realidade, pois são incompatíveis com o “equilíbrio natural” do devir linguístico.

A atitude purista é, portanto, irracional, entre outras coisas, porque “nega o que está na natureza mesma da língua: a evolução, de um lado, e, do outro, a variação” (YAGUELLO, 2011, p. 273).

A mudança linguística (ou melhor, a mudança reconhecida como natural pela teoria científica que Yaguello defende) “é movida por duas forças distintas: uma procede da língua mesma, é inerente à sua lógica interna; a outra procede da comunidade linguística e das condições sócio-históricas de seu devir” (YAGUELLO, 2011, p. 273).

Voltamos aqui a um modelo científico de objetivação linguística que distingue e reconhece uma dupla normatividade legítima (objetiva e subjetiva) inerente à história evolutiva e variável das línguas, ao passo que identifica as práticas prescritivas como estranhas ao sistema natural, excluindo-as das análises apropriadamente científicas.

O privilégio outorgado à análise de um tipo específico de práticas linguísticas (normalmente inconsciente, consensual e, preferivelmente, advinda de “baixo” para “cima”), baseia-se em pré-noções doutas como a que pretende recuperar um passado sem conflitos (evolução, consenso, comunicação) anterior às intervenções ideológicas. Se é verdade que “a linguística nos tem ensinado que as línguas não podem ser decretadas, mas que são produtos da história e da prática dos falantes” (CALVET, 2007, p. 85), é preciso reconhecer também que a representação da mudança linguística como um “devir”, vagaroso e espontâneo, mas eficiente do ponto de vista comunicativo e referencial, trata-se de um tipo particular de produto histórico (pre)dominante num setor do campo. Ele é sustentado por uma representação binária das práticas glotopolíticas (consenso/imposição, espontaneidade/intervencionismo, soluções intuitivas/objetivos ideológicos) e por uma teoria reducionista do poder:

as línguas sempre mudaram, porém mudaram de outra maneira: sem intervenção do poder, sem planejamento. Quando se estuda a história da escrita, por exemplo, verifica-se que na lenta evolução que vai dos primeiros cuneiformes mesopotâmicos aos silabários e depois aos alfabetos, é a prática social, em resposta às necessidades sociais, que desempenhou o papel motor. Da mesma maneira, o léxico das línguas sempre esteve em mutação, através da neologia espontânea ou do empréstimo. Sempre que novas realidades precisaram ser nomeadas, elas o foram sem dificuldades [...]. [A]pesar da multiplicação das línguas ser considerada por alguns como a maldição de Babel, a comunicação funciona em todos os lugares (CALVET, 2007, p. 68-69).

A visão diacrítica entre duas formas de gestão linguística proposta pela sociolinguística calvetiana sintetiza claramente essa lógica binômica e polar que consagra a oposição e faz aparente a distinção entre a história das interrupções sociais sobre essas mudanças naturais (gestão in vitro) e a história do fluxo natural das mudanças linguísticas (gestão in vivo):

ao contrário da gestão in vivo, na qual a mudança se propaga na prática dos falantes por uma forma de consenso que é necessário estudar com precisão, a gestão in vitro deve, por sua vez, se impor aos falantes e, para isso, o Estado dispõe essencialmente da lei. [...] [A]s políticas linguísticas são geralmente repressoras e precisam, por essa razão, da lei para se impor (CALVET, 2007, p. 74-75).

A lógica naturalista considera o interesse pela normatividade como “o desejo de intervir nesses processos, de querer modificar o curso das coisas, de acompanhar a mudança e atuar sobre ela” (CALVET, 2007, p. 86) e, portanto, está fadada a vislumbrar nas práticas normativas uma pretensão interventiva de segundo grau

(posterior) em relação aos processos “naturais” (anteriores) que a (sócio)linguística desinteressadamente tenta distinguir para melhor descrever os processos.

Disso decorre que, frequentemente, o planejamento (gestão in vitro), dentre outras práticas glotopolíticas, tenda a ser entendido como imitação ou réplica dos processos de mudança natural, isto é, da gestão in vivo.

Os instrumentos de planejamento linguístico aparecem portanto como a tentativa de adaptação e de utilização in vitro de fenômenos que sempre se manifestaram in vivo.

[...]

a ação in vitro utiliza os meios da ação in vivo, inspira-se nela, mesmo que dela se diferencie ligeiramente.

[...]

o planejamento linguístico constitui in vitro uma espécie de réplica dos fenômenos produzidos continuamente in vivo.

[...]

as políticas linguísticas funcionam no modo da imitação, que elas tentam reproduzir in vitro o que acontece milhares de vezes in vivo na história das línguas (CALVET, 2007, p. 71-160, grifos do autor).

O erro metodológico que supõe consagrar a separação teórica entre práticas naturais e artificiais fecha, a priori, a possibilidade de analisar a história política da produção de formas de conhecimento linguístico a partir da análise das relações entre poder e saber extraordinariamente numerosas, sutis e múltiplas (FOUCAULT, 2013 [1973], p. 147).

Chama bastante a atenção que muitas das propostas teóricas de objetivação dos processos (sócio)linguísticos invoquem as condições sócio-históricas para explicar a “realidade linguística” e, paralelamente, excluam do modelo explicativo as ações denominadas prescritivas que, como outras práticas glotopolíticas, são elementos constitutivos da natureza social dessa realidade.

Uma das consequências teóricas das análises (sócio)linguísticas incomodadas com a suposta artificialidade de certas práticas glotopolíticas, consiste em considerá- las intervenções ineficazes perante a força dos processos internos da língua ou frente às atitudes espontâneas e inconscientes dos falantes. As ações voluntaristas sobre as línguas seriam, nessa esteira, imposições irrealistas e pouco efetivas, “porque, qualquer que seja a força dos esforços conjugados das diferentes instâncias de repressão linguística [...], nunca ninguém deteve a evolução de uma língua, a não ser deixando de falá-la” (YAGUELLO, 2011, p. 273).

Inclusive, para alguns linguistas, as ações impositivas podem se converter num obstáculo para a descoberta das normas linguísticas “naturais”:

quase tudo o que se tem escrito sobre língua padrão (ou norma linguística) no Brasil está prejudicado por uma atitude normativa e muito subjetiva, que procura impor à sociedade um padrão, em lugar de procurar descobrir o padrão, ou os padrões naturalmente constituídos na sociedade (RODRIGUES, 2004, p. 15, grifos nossos).

Se as disciplinas linguísticas entendidas como o conjunto de práticas reflexivas devem tender a desmitologizar suas próprias formas de fazer ciência (HARRIS, 1981; CAMERON, 2005; BAGNO, 2013 [1999]; MORENO CABRERA, 2011), quer dizer, procurar questionar a experiência dóxica produto das posições relacionais ocupadas, é preciso começar por desconstruir o mito erudito da ciência pura, ou seja, desinteressada, fundamento da descrição objetiva dos fatos “naturais” que vê numa classe de práticas normativas (puristas, autoritárias, planejadas) uma impertinência que obstaculiza o progresso científico.

Nesse sentido, pensar as intervenções linguísticas, seja qual for a forma que assumam, como práticas glotopolíticas permite compreender como os agentes – quer se trate de simples “usuários” da língua quer se trate de “profissionais” autorizados –, nas suas relações, conformam e transformam um espaço de lutas científicas (e sociais) a propósito da construção de objetos legítimos como as línguas.

Neste nível de análise, é possível afirmar que descrição e prescrição revelam ser aspectos de uma única (e normativa) atividade: “uma luta por controlar a língua ao definir sua natureza” (CAMERON, 1995, p. 8, grifos da autora).