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A realidade da implementação: materiais, professores, formação

4 O PNAIC NA CIDADE DO RECIFE – CONTEXTO DE ADESÃO

4.5 A realidade da implementação: materiais, professores, formação

As ações do Pnaic, além de envolverem os membros da cadeia de formação, seriam “uma articulação com todos os envolvidos da escola” (Representante do MEC 1). Muito embora os professores alfabetizadores tivessem suas inscrições no Pnaic compulsoriamente, a Representante do MEC indicou precisamente os destinos das ações do Pnaic:

E desde primeiro momento a ideia é que deveria ter formação do PNAIC para os gestores e coordenadores pedagógicos nas escolas. Mas é o aprendizado é lá na ponta. Quando chegou lá na ponta ninguém entendeu que o direito de aprender

até os oito anos não é responsabilidade do professor que está lá, mas da escola como um todo (Representante do MEC 1).

A fala da Representante do MEC se alinha ao que consta na portaria nº 867/2012, no Art.10, inciso I, que a coordenação municipal do Programa, que é formada pela Secretaria Municipal de Educação de Recife, responsável pela gestão, supervisão, monitoramento das ações do Pacto no âmbito da rede municipal e pela interlocução com a coordenação estadual, deve promover a “mobilização da comunidade escolar, dos conselhos de educação e da sociedade local em torno das ações do Pacto” (BRASIL, 2012a, grifos nossos).

Então a escola seria um espaço importante para implementação das ações do Pnaic. E uma das ações que estavam previstas nas escolas foram as distribuições de materiais didáticos pelo MEC; pela resolução nº 4 de 27/02/2013 (BRASIL, 2013b), Art. 7, inciso i, cabe fornecer às redes de ensino que aderirem às ações do Pacto os materiais didáticos, literários, jogos e tecnologias previstos nos artigos 6º, 7º e 8º da Portaria MEC nº 867/2012:

Para mim a história mais comum era a falta de apoio dos municípios, para que os orientadores dessem continuidade à formação, isso é recorrente na maior parte dos cursos de professores em exercício. Escola de Gestor e tudo... atraso na

distribuição dos materiais pelo MEC, então ocorreram alguns atrasos assim. Porque no primeiro ano foi porque a gente encerrou muito tarde até fazer a licitação, chegar e distribuir. Depois no segundo ano também atrasou, então como demorou muito a chegar nos municípios, as universidades ficou difícil,

ficou difícil, esse é ... (Representante do MEC 1).

Primeiro ano só chegou depois, a gente começou sem material didático né, acho que pelo menos a primeira aula, primeiro mês, mas depois chegou né, tudo certinho, ai o último ano ao invés de 10 livros, como só houve cinco encontros chegaram os dez livros (Professora alfabetizadora 2).

Além dos atrasos do MEC no envio dos materiais utilizados pelos professores alfabetizadores de Recife, quando eles chegavam às escolas, eram organizados de tal maneira que impediam os professores de utilizá-los. Essa organização ocorria de tal maneira que de acordo com trechos das entrevistas:

Eu lembro que esses cadernos eles, os professores alfabetizadores, não tinha

acesso ao Kit completo. Eles tinham acesso a depender da situação deles, eles estavam no ano recebiam do ano, entendeu? E vinham um numero a mais para ficar na escola, acho biblioteca alguma coisa assim. Mas era o MEC que mandava

direto para os municípios. O ano passado que teve uma reprodução de cadernos didáticos pela editora daqui, e aqui a gente mandou fazer e entregou. Mas geralmente é o MEC que manda para as cidades. Foi uma excepcionalmente em 2015 a reprodução dos cadernos pela UFPE, porque antes viam direto do MEC (Representante da UFPE 3);

Aí eu senti assim, muitos relatos nacionalmente, que diretora de escola, muitos materiais que eram previstos para serem usados na formação do Pacto, os

professores não tinham nem informação que tinham chegado na escola [ material necessário aos professores alfabetizadores cursistas]. [...] eles chegaram

à formação e disseram: “olha aquele jogo de alfabetização que chegou na escola, foi distribuído em 2011, o curso começou em 2013, então dois anos depois...” [ a

entrevistada dá risadas]. “A minha escola não tem não”. Aí a pessoa disse: Tem... (Representante do MEC 1).

Então, temos a explicação de membros de cada esfera da cadeia de formação sobre a organização do material destinado à implementação do Pnaic em Recife. Inclusive uma Representante do MEC confirma essa ocorrência:

Eles chegaram no almoxarifado da escola, a caixa lacrada do jogo de alfabetização. Ou então os pacotes do PNLD, de livros lindos, maravilhosos numa caixa fechada

na sala da diretora porque ela disse que não podia estragar. Então, de repente,

teve diretor que se incomodou: como é que é isso vem a universidade agora para dizer que o material tem que ficar onde ???... quando foi dito que o material de formação. [...]. Não foi muito poucas diretoras não. Então, a gente sabe que ainda tem uma relação patrimonialista da diretora com os materiais, com a escola, né? (Representante do MEC 1).

Pelo que podemos entender de acordo com o que foi colocado nas entrevistas, nas escolas os materiais eram administrados pela gestão escolar, que até 2015 não participava das formações do Pnaic. Essa ausência de “parceria” entre os professores alfabetizadores de Recife e a gestão escolar na administração dos materiais didáticos é reflexo do foco das ações do Pnaic. Um orientador de Recife afirma que

A gente [orientador] trabalhava focando no professor, a gente não estava tão focado na escola. [...]. O PNAIC não projetou a escola, projetou aquelas turmas, é muito difícil trabalhar assim. [...]. Não era a escola toda, não eram todos os 3º anos que estavam lá. Nos não visualizamos por escola, e sim por turma (Orientador de estudos).

O foco das ações sendo nos professores alfabetizadores provocou desarticulação entre os demais segmentos da comunidade escolar nas decisões sobre as ações do Pnaic. No caso de Recife, isso ficou evidente, pois além dos materiais didáticos serem restritos à administração escolar, havia também um vácuo nas relações entre gestão escolar, coordenação pedagógica e professores alfabetizadores para a troca de experiências sobre o Pnaic nas escolas, considerando-se que “se não for à colega de escola para conversar, ninguém vem olhar o nosso trabalho. Se o professor não se colocar, como o pessoal da escola fica sabendo desse Pnaic? no caso, conteúdo mesmo” (Professora alfabetizadora 1).

Um elemento importante que o MEC sugeriu27 para auxiliar no desenvolvimento das ações do Pnaic nas escolas foi o Núcleo de Alfabetização, mas esse Núcleo não chegou a se estruturar nas escolas de acordo com todos os entrevistados. Outra professora relata que

27

“encontros mesmo não” do Pnaic na escola em que trabalhava (Professora alfabetizadora 2), bem diferente do planejamento do MEC:

Então assim, se eu tenho uma secretária que me apoia, se eu tenho um

coordenador pedagógico na minha escola, que esta atento, que esta o tempo todo trocando, que tá me ajudando no processo, se eu tenho políticas... não políticas de formação esperando do governo federal que... mas políticas que internas dentro do município, né?. Dentro das escolas, de funcionamento de tudo

isso... eu tenho um outro grupo de professor, eu tenho professores mais estimulados, eu tenho professoras mais motivadas, eu tenho todo um investimento, mas eu não

posso esperar que o professor sozinho dê conta de tudo... (Representante do

MEC 2).

Claro que quando você chega para o professor e diz eu vou dar para sua sala de aula, um kit de jogos, vou dar para você um material de formação, obvio que isso é positivo para eles. [...]. O coordenador local e os professores, ninguém vem falar com o coordenador da escola, nem com o diretor da escola, faltou muito na formação do coordenador local. Não gosto muito da palavra, mas vou usar: empoderado pela secretaria de educação, para estabelecer uma relação seria,

profícua com a gestão da escola e a coordenação pedagógica, então ele tinha que ter pelo menos uma vez por mês uma reunião, ele é responsável por quantas escolas aquele professor orientador ? por 10 ? por 20? Ele tem que ter

uma reunião uma vez por mês reunião com os coordenadores ou com os diretores da escola ou a cada dois meses. Para acompanhar o que esta acontecendo a cada dois meses, para informar para esse diretor, o coordenador pedagógico quais são os passos do Pacto, o que vai acontecer com o professor, à constituição dos cantinhos de leituras, como é que isso esta funcionando? (Representante do MEC 1).

Assim, no âmbito das parcerias para implementar as ações do Pnaic, que é no chão da escola, evidentemente que o Representante do MEC se pronuncia em favor de maiores aproximações entre o coordenador local, professores alfabetizadores e o coordenador da escola, dada compreensão, talvez, a proximidade com o Ministério da Educação, última instância que valida o Sispacto para o repasse das bolsas de estudos.

A portaria nº 867/2012 ainda previa no Art. 14, Inc. IV, que o município fosse “gerenciar e monitorar a implementação das ações do Pacto em sua rede” (BRASIL, 2012a). Para uma Professora alfabetizadora quando questionada sobre o acompanhamento da coordenação nas escolas: “Não [sobre visitas as escolas], a gente tem uma inspeção, uma técnica pedagógica, mas que trata dos assuntos pedagógicos da rede mesmo, nada tem a ver com o Pnaic” (Professora alfabetizadora 2). Dessa forma, verificamos que a desarticulação não se limitou à administração escolar sobre os materiais didáticos e a interação entre os membros da comunidade escolar; a própria coordenação local do Pnaic em Recife esteve ausente das escolas. Para Santos (2006, p. 44),

O processo de descentralização da educação impostos pela política brasileira é classificado, [...], como sendo ‘economicista-instrumental’, devido as suas ações se

constituírem muito mais em transferência de responsabilidades para com a educação para níveis cada vez mais micros, inclusive a escola, do que de partilha de poder. Esse concepção economicista-instrumental partilha da concepção de diminuição da ação do Estado, em que a escola que é o local de implementação da política pública “é considerado como uma unidade administrativa a quem cabe colocar em ação políticas no nível do poder central” (AZEVEDO, 2002, p. 56), sendo a escola um espaço segregado ao Programa, objeto dessa dissertação.

Essa desarticulação entre a política educacional e a escola se configura como exemplo de descontinuidade dos investimentos do Estado na educação, como já tivemos na história da educação no Brasil. Na colonização, a coroa portuguesa, para manter o ensino, enviava verbas para a manutenção e a vestimenta dos jesuítas; não para construções das escolas (SAVIANI, 2008). No Primeiro Império (1827), as províncias ficavam encarregadas pelo ensino primário, todavia não dispunham de estrutura suficiente, um dos fatores que contribuíram para a não educação pública nessa época.

Dessa forma, ao que nos pareceu mesmo havendo documentos normativos do Pnaic que preveem articulação entre os membros da comunidade escolar e acompanhamento da equipe local, os professores alfabetizadores em Recife estiveram às margens nas escolas durante a implementação até 2015.

Isso quer dizer que o texto da política difere da política implementada, porque “a interpretação da estrutura normativa de uma política pública é influenciada pelas concepções de mundo dos atores que irão executá-la e de suas condições materiais. Desse amálgama nasce à ação, a política pública de fato” (LIMA; D'ASCENZI, 2013, p. 105).