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PARTE I – REVISÃO DA LITERATURA E ESTADO DA ARTE 33

2.   CONTEXTUALIZAÇÃO 33

2.11  A realidade do trabalho do mecânico de aeronaves 116 

Existem muitas escolas de formação de mecânicos de manutenção aeronáutica no Brasil, principalmente no eixo entre Rio Grande do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Apesar disso, com o aumento da demanda por serviços de manutenção e da exigência de qualificação específica por parte das

autoridades aeronáuticas, o número de profissionais formados anualmente ainda está muito aquém do esperado.

São relativamente poucas escolas em relação ao tamanho da nossa aviação, mas por outro lado também há a falta de estímulo para que os jovens procurem esta profissão. A Manutenção de aeronaves passou nos últimos anos por uma situação pouco comum. Grandes empresas aéreas faliram e deixaram muitos profissionais no mercado com ótima qualificação e experiência o que facilitou a vida das demais empresas, pois contrataram pessoas prontas para a atividade que requer no mínimo 05 anos para formação total. Isto fez com que a abertura de vagas nas empresas, para jovens recém-formados, não acompanhasse a oferta de mão-de-obra que estava sendo lançada no mercado pelas escolas em meados da década de 90. Tal situação causou um desestímulo aos jovens e as escolas a continuarem a formação de mecânicos.

As escolas não tem alunos suficientes matriculados e os jovens não veem mais a profissão como uma grande oportunidade, já que as poucas vagas surgiram no mercado com muita concorrência e os salários não eram atraentes. Com o passar de mais uma década, os profissionais da ativa nas empresas

‘ aéreas começaram a se aposentar e começaram a surgir lacunas que foram preenchidas por mão-de-obra não qualificada, mas que aprendiam os serviços supervisionados por profissional devidamente licenciado pelo DAC (atual ANAC). Hoje, acontece que o número de profissionais devidamente licenciados e com experiência, vem diminuindo a cada ano devido à aposentadoria desses

especialistas e há necessidade de se repor mão-de-obra. O que está ocorrendo hoje é uma procura grande de pessoas que já trabalham nas empresas e não possuem ainda o CHT (Certificado de Habilitação Técnica) que procuram curso de formação para poderem prestar a banca da ANAC e conseguirem certificação.

A realidade brasileira mostra que a ausência de profissionais certificados pode gerar problemas não só de natureza técnica, mas principalmente referente à segurança de vôo. Por mais que estes profissionais sejam preparados por técnicos licenciados, os mesmos não têm uma formação completa, acarretando problemas dos mais diversos.

2.11.1 Ocorrências de incidentes e acidentes

Durante a operação de suporte a uma aeronave, seja ela em trânsito ou mesmo em manutenção programada, podem ocorrer diversas situações que podem gerar problemas com incidentes ou mesmo acidentes. Abaixo segue a relação dos maiores fatores de ocorrências de erros de manutenção causando problemas nas aeronaves:

a) Sistema operado de forma insegura durante a manutenção:

Ativando um sistema de aeronave tais como abas ou reversores quando não era seguro fazê-lo, seja porque o pessoal ou

equipamento estava nas proximidades, ou o sistema não estava devidamente preparado para a ativação.

b) Caso de reboque:

A ocorrência de segurança que ocorreu enquanto uma aeronave estava sendo rebocado.

c) A instalação incompleta, todas as partes presentes:

Apesar de todas as partes necessárias estivessem presentes, o procedimento de instalação não foi concluída. Por exemplo, uma conexão pode ter sido deixado "bem apertado" em vez de torque.

‘ d) Pessoal em contato com o perigo:

Um trabalhador entrou em contato com um perigo que causou ou teve o potencial de causar ferimentos. Incluem choques elétricos, quedas e exposição a fluidos de aeronaves ou outros produtos químicos.

e) Veículo ou equipamento colidindo com aeronaves:

Um avião parado sofreu uma colisão por um veículo ou equipamento de manutenção, tais como escadas ou stands móveis.

f) A montagem incorreta ou orientação:

Um componente foi instalado ou montado incorretamente. g) Material deixado em aeronaves:

Item relacionado à manutenção, tais como uma ferramenta foi inadvertidamente deixada para trás por um funcionário da manutenção.

Um estudo destinado a identificar problemas de segurança na manutenção, com especial ênfase sobre os fatores humanos, foi distribuído aos Engenheiros Licenciados de Manutenção de Aeronaves (LAMES - Licensed Aircraft

Maintenance Engineers - 2001 ) na Austrália. Como resultado, o australiano Transport Safety Bureau apresentou a seguinte análise através das tabelas 4, 5 e 6 a seguir.

Abaixo o resultado da pesquisa da TSBA (Transport Safety Bureau da

Austrália) sobre as maiores fatores causais de acidentes e incidentes causados por manutenção:

‘ Podemos notar que na tabela 4 a maior incidência concreta esta nos sistemas da aeronave operados com insegurança, sendo que o fator de reboque também apresenta um número considerável. Notamos que embora seja um procedimento que seria considerado normal, o fechamento de tampa e painéis tem um índice menor, mas nem assim irrelevante.

Descrição Avião Outros equipamentos

Sistema operado com insegurança durante a

manutenção 18% 7%

Ocorrência com reboque 9% 3%

A instalação incompleta, embora todas as partes

estivessem presentes 8% 9%

Pessoal em contato com o perigo 7% 9%

Veículo ou equipamento colidindo com aeronaves 7% 1%

A montagem ou orientação incorreta 6% 11%

Material deixado em aeronaves 4% 5%

Parte danificada durante o reparo 4% 2%

Painel ou tampa não está fechada 3% 3%

Equipamento / peça instalada incorretamente 3% 4%

Parte não instalada 3% 6%

Serviços necessários não realizados 3% 4%

Degradação não encontrada durante vistoria 3% 5%

Outras 24% 31%

Tabela 4 – Resultado de ocorrências de segurança – Fonte: LAMES (2001)

Um dos aspectos que observamos na tabela 5 é que a incapacidade de ver o local aonde o mecânico esta atuando aparece com um dos menores fatores. Mas se tratando de uma aeronave, cujos componentes tem que ser devidamente conferidos, significa que, quando da concepção do projeto, os responsáveis não se preocuparam em criar condições do mecânico visualizar o que estava fazendo.

Outro fator que nos chama a atenção é o fato do lapso de memória ser o principal fator relatado nesta pesquisa. Neste fator podemos considerar o esquecimento de montagem de partes da aeronave, deixar travas acionadas e liberar a aeronave, no caso o pino de travamento do trem de pouso entre outro exemplos.

Atos inseguros em Ocorrências Avião Outros equipamentos

Lapso de memória 21% 20%

Processo de atalho 16% 21%

Erro do conhecimento 11% 18%

Distração ou deixar material cair 9% 11%

Falha na verificação 6% 2%

Ação indesejada 3% 6%

Incapacidade de ver 5% 6%

Tabela 5 – Fatores de ocorrências – Fonte: LAMES (2001)

A tabela 6 mostra como alguns fatores organizacionais estão presentes nestes resultados, onde a pressão do tempo e da exigência da tarefa ser perfeita

aparece em primeiro plano, sendo que os fatores dos procedimentos e manuais estarem inadequados também aparecem de forma relevante.

Fatores de Ocorrência Avião Outros equipamentos

Pressão 21% 23% Fadiga 13% 14% Coordenação 10% 11% Formação 10% 16% Supervisão 9% 10% Falta de equipamentos 8% 3% Meio Ambiente 5% 1%

Documentação inadequada ou incompleta 5% 4%

Procedimento inadequado ou incompleto 4% 4%