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2. Genética da reclamação constitucional

2.4. A reclamação constitucional no direito comparado

Neste item, aproveita-se a rica pesquisa de Direito Comparado já realizada por Marcelo Navarro Ribeiro Dantas, no principal trabalho até hoje empreendido sobre

267 Como exposto nos itens 2.2.2.4. e 2.2.2.5., durante a fase constitucional da reclamação, o STF ensaiou, em

algumas decisões, utilizar a reclamação como forma de controlar a aplicação de seus precedentes, no caso, de impor respeito às rationes decidendi de acórdãos de controle concentrado e difuso de constitucionalidade, o que, contudo, não vingou, apesar dos debates capitaneados principalmente por Gilmar Ferreira Mendes. Era, naquela fase constitucional, latente o vácuo jurídico consistente na ausência de um meio adequado para impor a interpretação dos tribunais aos demais juízes, para adensar a segurança jurídica e a igualdade da prestação jurisdicional, o que veio a ser suprido na fase codificada, pelo

268 MIRANDA ROSA, Felippe Augusto. Sociologia do Direito, cit., p. 158.

269 “A segurança social, ou seja, a segurança da sociedade como um todo, também está presente nas normas processuais (...) Os valores éticos que informa a vida social encontram-se presentes em todo o sistema de normas processuais (...) Prevalecendo esses valores éticos, é acentuada a realização dos demais valores básicos que o complexo sócio-cultural procura assegurar do Direito Processual” (MIRANDA ROSA, Felippe Augusto. Sociologia do Direito, cit., p. 160-161).

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reclamação constitucional.270 O autor elegeu – partindo de métodos de pesquisa do Direito Comparado, previamente expostos – sete países e o ordenamento comunitário europeu para comparar com o ordenamento jurídico brasileiro, no intuito de identificar algum instituto similar à reclamação constitucional.

Por ser um instituto genuinamente brasileiro, não buscou uma medida exatamente idêntica à reclamação. Buscou-se, nos sistemas estrangeiros eleitos, analisar como funcionam e operam os meios jurídicos existentes, para identificar instrumentos que desempenhem as finalidades exercidas pela reclamação no Brasil. Assim, em sua pesquisa, não utilizou o nomen iuris como parâmetro de pesquisa, mas sim as características, funções e finalidades dos institutos comparados.271

Convém registrar que, no momento da pesquisa realizada por Marcelo Navarro Ribeiro Dantas, as funções da reclamação eram a de preservar a competência e a de garantir a autoridade das decisões dos tribunais. Não havia, ainda, a previsão textual das hipóteses de cabimento para controlar e impor a observância de precedentes. Então, os parâmetros de pesquisa, para fins de Direito Comparado, no rastro de um instituto homólogo, limitaram-se a preservação de competência e garantia de autoridade dos julgados. Não foram buscados institutos com as características da reclamação, cujo objetivo também fosse controlar aplicação de precedentes.

O autor elegeu sete países e o sistema jurídico da comunidade europeia. O Estados Unidos, pois é país do judicial review e a origem da teoria dos poderes implícitos (implied powers theory), tão importante para a gênese da reclamação, como explicado no item 2.2.1.1. A Alemanha e a Itália, em virtude da influência doutrinária na formação e desenvolvimento da doutrina processual no Brasil. A França, pelo peso exercido nos países de civil law. A Áustria, já que foi o berço do controle concentrado de constitucionalidade. Portugal e Espanha, já que o sistema jurídico brasileiro remonta às instituições ibéricas. Por fim, foi eleito o ordenamento comunitário europeu, pois é um modelo no qual o Mercosul pode vir a se espelhar.272

270 DANTAS, Marcelo Navarro Ribeiro. Reclamação constitucional no direito brasileiro, cit., p. 385-429;

DANTAS, Marcelo Ribeiro Navarro. A Reclamação Constitucional no direito comparado. COSTA, Eduardo José da Fonseca; NOGUEIRA, Pedro Henrique Pedrosa (orgs). Reclamação Constitucional. Salvador: Juspodivm, 2013. p. 335-369.

271 DANTAS, Marcelo Ribeiro Navarro. A Reclamação Constitucional no direito comparado, cit., p. 335-336. 272 DANTAS, Marcelo Ribeiro Navarro. A Reclamação Constitucional no direito comparado, cit., p. 336.

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No curso de sua investigação, comparando os instrumentos dos ordenamentos apontados, não se divisou um instituto realmente assemelhado à reclamação, com características e funções claramente análogas.273 Porém, no Direito Comunitário Europeu, se encontrou algo que um pouco se aproxima da reclamação constitucional; apenas em relação à específica hipótese de cabimento de garantir autoridade das decisões, no caso, as proferidas pelo Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias, atualmente o Tribunal da União Europeia.274 Cuida-se da ação de incumprimento, prevista nos arts. 258º a 260º do Tratado de

Lisboa275, antigamente prevista nos arts. 169 a 171 do Tratado de Roma, que instituiu a

Comunidade Europeia276

O Tribunal de Justiça da União Europeia surgiu em 1952277, denominado de Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias; apenas em 2007, com o Tratado de Lisboa, passou a ser chamado de Tribunal de Justiça da União Europeia, alargando suas competências e estrutura.278 É um tribunal supranacional, com múltiplas funções. Exerce jurisdição administrativa, fiscal, comercial, social e consultiva. Seu principal objetivo é garantir que a legislação da União Europeia seja aplicada e interpretada igualmente por todos os países membros.

A ação de incumprimento é cabível quando um país membro não cumpre a legislação europeia, cuja legitimidade para propositura é de qualquer outro país membro e da Comissão Europeia. A ação de incumprimento poderá ser proposta se um país da União Europeia não cumpre a legislação europeia, de forma comissiva ou omissiva. No acórdão, sendo declarado o descumprimento, o país é condenado a pôr-lhe fim, adotando as medidas adequadas e necessárias.279

Se o primeiro acórdão não é cumprido pelo país membro condenado, ou seja, não são tomadas as medidas adequadas para pôr termo ao descumprimento da legislação europeia,

273 DANTAS, Marcelo Ribeiro Navarro. A Reclamação Constitucional no direito comparado, cit., p. 36. 274 DANTAS, Marcelo Ribeiro Navarro. A Reclamação Constitucional no direito comparado, cit., p. 364-369. 275 Versão consolidada de 2008, disponível em: http://eur-lex.europa.eu/legal-

content/PT/TXT/PDF/?uri=OJ:C:2008:115:FULL&from=PT. Acesso em: 18 de julho de 2016.

276 Disponível em http://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/TXT/?uri=CELEX:11957E/TXT. Acesso em: 18 de

julho de 2016.

277 Entrou em funcionamento em 1952, porém foi instituído pelo Tratado de Paris, de 1951, que formou a

Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA). Disponível em: http://curia.europa.eu/jcms/jcms/T5_5119/pt/. Acesso em: 18 de julho de 2016.

278 Disponível em: http://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/TXT/HTML/?uri=OJ:C:2007:306:FULL&from=PT.

Acesso em: 18 de julho de 2016.

279 MESQUITA, Maria José Rangel de. Efeitos dos acórdãos do Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias proferidos no âmbito de uma acção de incumprimento. Coimbra: Almedina, 1997. p. 28-30.

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poderá ser ajuizada uma segunda ação de incumprimento. Dessa vez, a ação é ajuizada para forçar o cumprimento daquilo que foi decido na primeira ação de incumprimento.

Na segunda ação de incumprimento, sendo constatado o não cumprimento do acórdão da ação anterior, é prolatado um segundo acórdão, com imposição de multa pecuniária, de modo a submeter o país membro ao julgado anterior;280 é nessa perspectiva que a ação de incumprimento assemelha-se à reclamação constitucional.281 É uma ação cujo objetivo também é garantir a autoridade de uma decisão anterior, tal qual a reclamação constitucional. Inclusive, admite-se decisões provisórias para obstar, de imediato, o descumprimento alegado, com base em fumus boni iuris.282

A segunda ação de incumprimento desempenha a função de garantir o estrito cumprimento do acórdão prolatado em uma primeira ação de incumprimento, mediante aplicação de multa. Aproxima-se nesse ponto, portanto, da reclamação constitucional. Contudo, cada um dos institutos guarda características próprias que não os torna idênticos, mas apenas assemelhados quanto ao objetivo de garantir o cumprimento de uma decisão anterior.

Assim, na pesquisa de Direito Comparado empreendida por Marcelo Navarro Ribeiro Dantas, fora do ordenamento comunitário europeu, em que há a ação de incumprimento, não foi identificado, nos sete países pesquisados (Estados Unidos, Alemanha, Itália, Áustria, França, Portugal e Espanha), outro instrumento próximo da reclamação constitucional.

Outra pesquisa que encontrou instituto com característica assemelhada à da reclamação, foi a realizada por Edilson Pereira Nobre Jr. sobre medidas cautelares em sede de fiscalização abstrata de constitucionalidade. Identificou o autor medida análoga na Bélgica.283

280 Disponível em: http://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/TXT/?uri=uriserv%3Al14550. Acesso em> 18 de

julho de 2016.

281 DANTAS, Marcelo Ribeiro Navarro. A Reclamação Constitucional no direito comparado, cit., p. 366. 282 MESQUITA, Maria José Rangel de. Efeitos dos acórdãos do Tribunal de Justiça das Comunidades Europeias proferidos no âmbito de uma acção de incumprimento, cit., p. 57, 96-96.

283 “Ainda no âmbito dos tribunais constitucionais europeus, desperta atenção o exemplo da Corte de Arbitragem belga. A Lei Especial de 06 de janeiro de 1989, ao disciplinar, com detalhamentos, o recurso de anulação de lei, decreto, ou norma elaborada nos termos do art. 134 da Constituição (leis regionais), aborda, no seu Título I, Capítulo I, Seção III, o instituto da suspensão do ato inquinado de violar a Lei Maior, sendo de destacar que o seu art. 19 permite que a Corte profira decisão motivada, a instância do requerente. Limitando a competência da Corte, a fim de evitar o desprestígio da função legislativa, o art. 20 prescreve que a suspensão somente poderá ser deliberada em duas situações. A primeira delas corporifica os pressupostos do poder geral de cautela, estando representadas pela seriedade das razões invocadas e pelo fundado receio de que a execução da lei ou ato normativo provoque o risco de causar prejuízo grave e de difícil reparação. A outra hipótese sucede quando o recurso de anulação é manifestado contra uma norma idêntica ou semelhante a que restou

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É que no Tribunal Constitucional belga é permitido suspender, cautelarmente, os efeitos da lei impugnada, caso se cuida lei de idêntico ou semelhante teor a outra que já fora julgada inconstitucional pelo tribunal, advinda da mesma casa legislativa. No caso, a medida identifica na Bélgica aproxima-se da reclamação brasileira, pois destina-se a garantir a força vinculante de uma decisão em controle concentrado de constitucionalidade, que – na Bélgica – vai além, pois obriga até mesmo o Poder Legislativo, de modo a impedi-lo que delibere outra lei idêntica.

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